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A aura do problema ou Prefácio para alertar gente grande

Prefácio para alertar gente grande

 

Esta pequena antologia do pensamento de Plínio Salgado, que Augusta Garcia R. Dorea organizou com o objetivo con­fesso de fazer proselitismo, reúne alguns lampejos de uma chama que não se apagou com a morte daquele que a acendeu, mas que ainda arde em muitos corações e continua a abrasar os que dela se aproximam.
 
Estas páginas colhidas aqui e ali, ao longo de uma vida inteira de pregação apostolar, testemunham a força de uma per­sonalidade cuja energia moral conseguiu contagiar multidões e suscitar no seio da sociedade brasileira uma escola de líderes e militantes que se fez e ainda se faz presente nos mais diversos campos da vida social.
 
Se um frio espírito crítico quiser ver nestas páginas ape­nas o aspecto superficial da expressão literária, poderá apontar facilmente lacunas na formulação sistemática das idéias e até mesmo deficiências técnicas de uma terminologia por vezes im­precisa e contraditória. Mas é preciso lembrar que Plínio Sal­gado jamais pretendeu ser um filósofo puro e que a obra que realizou — o movimento integralista — não foi uma academia de retórica, uma organização cultural e política formada ao sabor das circunstâncias e navegando a favor da corrente. Pelo contrário, foi um fenômeno que desafiou a lógica dos fatos ma­teriais e realizou o que parecia impossível: criou uma nova consciência cívica em nosso Pais e ergueu um dique contra a avalanche de desagregação dos valores da nacionalidade, opon­do-se ao mesmo tempo ao comunismo e ao capitalismo.
 
Quem não conhece Plínio Salgado ou dele só reteve uma imagem deformada, não dará conta de que a força de sua men­sagem provém justamente do fato de que ele foi um revolucio­nário puro, um revolucionário radical, um homem que recusou os falsos dilemas e teve a coragem de desmascarar as falsas antinomias, reagindo tanto contra a "direita" como contra a "esquerda" e denunciando tanto o liberalismo como o socia­lismo, inclusive o fascista.
 
Quem conheceu Plínio Salgado, quem leu os seus livros e ouviu sua palavra, quem acompanhou os seus passos na vida pública, sabe que ele conseguiu despertar consciências e quei­mar almas porque formou seu pensamento no calor das gran­des batalhas e viveu em plenitude as idéias que pregou. Por ser um pensamento acrisolado pelo sofrimento e pela partici­pação, vinha carregado de sinceridade, de experiência da vida, de bom senso, mas sobretudo de uma coerência feita de con­tradições audaciosas, atingindo o âmago dos problemas sociais e nacionais na essência de sua origem espiritual.
 
Por isso, não é de surpreender que ele, adversário e alvo do ódio dos comunistas, tenha liderado no Parlamento uma campanha para amparar material e moralmente a família de um deputado comunista cassado pela Revolução de 64. Nem é de surpreender que ele discursasse nestes termos:
 
— Os comunistas têm dignidade quando matam, quando oprimem, quando encarceram, quando perseguem e instauram a mais feroz das ditaduras, porque agem em nome de um princípio e são coerentes com ele. Enquanto nós, no Ocidente, nos proclamamos cristãos, mas agimos como materialistas e ateus.
 
Sim, quem conhece Plínio Salgado sabe que, do princípio ao fim de sua vida, ele se fez paladino da mais radical das revoluções —- aquela que ele chamava "a revolução interior" — e todas as soluções práticas que em número, gênero e grau atestam a fecundidade do programa integralista de edificação nacional, se projetam do foco de uma afirmação de fé: só o Espírito é livre, ou por outra, "Deus dirige os destinos dos povos".
 
No cerne do pensamento de Plínio Salgado, desse pensa­mento que se fez sentimento e ação, palpita a mesma opção fundamental do "Augustin", de Joseph Malègue: "Deus ou terra".
 
Não admira, pois, que ele tenha sido uma figura descon­certante, um desses exemplares raros da humanidade que ex­primiu, na linhagem de um Dostoiewsky, o que um critico lú­cido batizou de "conservadorismo revolucionário", ou seja, uma contestação radical da força bruta e do jogo cego de instintos desordenados. A revolução, para Plínio Salgado, como obser­vou João Ameal, é "regresso constante à origem, volta ao ponto de partida". Sua revolução se opõe tanto ao espírito da bur­guesia como ao revolucionarismo mecanicista, e ele denuncia nessas expressões antagônicas a unidade originária da mesma concepção de vida materialista.
 
Não conhece Plínio Salgado nem o integralismo quem se prende a um ou outro aspecto fragmentário de sua obra. Ele foi o orquestrador genial de um conjunto de forças, mobiliza­das desde a base popular até o nível das elites, às quais impri­miu um sentido construtivo e ecumênico em torno do ideal que se resumia em "Deus, Pátria e Família".
 
Ele viveu e transmitiu uma paixão. Sua paixão foi o Brasil. E foi uma paixão que conciliou racionalmente o nacio­nalismo e a universalidade.
 
O integralismo estudou e projetou, à luz de uma pura espi­ritualidade, os mais diversos problemas nacionais — a autono­mia dos municípios e o equilíbrio ecológico, as prioridades do sistema de transportes e a nacionalização dos produtos energéticos, a reforma agrária e a autenticidade da representação polí­tica, o planejamento econômico e a estrutura jurídica de um Estado ético — e tudo isso se subordinava a uma concepção de vida voltada para a busca de valores transcendentes, ou seja, numa palavra, uma concepção cristã, aberta a todos os que crêem no primado do Espírito e rejeitam, portanto, o ex­clusivismo ideológico, o reducionismo interpretativo, o unilateralismo sectário.
 
A rigor, Plínio Salgado fascinou, irritou e atraiu sobre si muito amor e muito ódio porque se conservou fiel a uma Ver­dade maior, negando o endeusamento do Homem que conduz ao totalitarismo democrático e à idolatria do Estado. O que ele propõe aos homens é "algo mais", é a procura de um Abso­luto que transcende deste mundo e permanece irredutível a um conhecimento meramente pragmático, utilitário, tecnocrático.
 
Justamente por ser um desses grandes espíritos revolucio­nários, Plínio Salgado não se ateve a particularismos e receitas mágicas. Seu papel foi o de lançar os grandes rumos de uma Pátria, as grandes linhas de um pensamento capaz de somar, unir, integrar toda a vasta e diferenciada gama de valores hu­manos interdependentes.
 
Eu me lembro de uma longa conversa que tive com Paulo Emílio Sales Gomes, o grande crítico de cinema, ateu e socia­lista, ferrenho adversário do integralismo e de seu chefe, quan­do há muitos anos atrás o convidei para pronunciar uma pa­lestra no Grêmio Cultural Jackson de Figueiredo, órgão que aglutinava a juventude integralista na década de 50. Depois de trocarmos muitos argumentos sobre o nosso movimento, eu lhe observei que ele não fazia justiça nem às idéias nem ao ideal de Plínio Salgado. Ele redarguiu, naquele momento, quase num repelão, como quem receava parecer intelectualmente desonesto:
 
— Não me entenda mal. Eu não ignoro que Plínio Sal­gado está longe de ser um homem medíocre. Ele é um homem complexo...
 
Essa recordação se associa agora em meu espírito a uma outra conversa que tive com Almeida Salles, outro grande crítico de arte, que abandonou as fileiras integralistas para aderir a um vago e circunstancial "socialismo democrático". Eu o encontrei, certa vez, no Clubinho dos Artistas de São Paulo, e entre um uísque e outro ele argumentou:
 
— O integralismo não me satisfaz mais porque Plínio Sal­gado não passa de um grande sedutor. Ele fica na periferia do problema social, não entra no problema e não o resolve. É um grande escritor, mas seu pensamento permanece na aura do problema.
 
Eu respondi, então, que para mim a "aura do problema" era mais importante do que o próprio problema. E ainda hoje penso assim.
 
Plínio Salgado foi um político, um poeta, um profeta.
 
Nele, o gênio literário que criou as páginas imortais de "O Estrangeiro", "Trepandé" e a "Vida de Jesus", é insepa­rável do pensador másculo de "Psicologia da Revolução", do pensador maduro de "Conceito cristão da democracia" e do vi­sionário que antecipou em tantas páginas, como as do presente volume, a catástrofe e a esperança dos dias de hoje.
 
Fundamentalmente, é certo, ele foi um político, pois toda a sua vida foi dominada pela preocupação com o bem comum e com a participação nas lutas pela organização da sociedade e do Estado, preconizando uma democracia orgânica, baseada na representação de categorias econômico-culturais que hoje encontra correspondência no sindicalismo de Lech Walesa e no pensamento político de Alexandre Solzhenitsyn. Dir-se-ia, po­rém, que a política, que ele praticou desde a mais tenra juventude, em São Bento do Sapucaí, até a idade mais avançada, na Câmara Federal, essa política que ele viveu em tantos lances decisivos da História do Brasil, era também uma obra de arte, uma obra de criação poética, no sentido mais nobre em que não se circunscreve à arte de tomar e exercer o poder, mas exprime a arte de buscar a legitimidade e ordenamento das re­lações de poder em todos os níveis da vida social.
 
Entretanto, esse político e esse artista que viveu o que pre­gou e deu testemunho da Verdade, acabou por se afirmar, em última análise, como o profeta de uma nova civilização.
 
O fermento revolucionário de sua mensagem está presente agora no que a imprensa convencionou chamar de "a Nova Igreja", na qual se misturam o joio e o trigo. Fez bem a res­ponsável por essa antologia em fazer preceder os artigos de Plínio Salgado por trechos dos mais recentes pronunciamentos do Papa João Paulo II. A despeito da ambigüidade que ca­racteriza o chamado "progressismo católico", não há dúvida que existe uma legítima revolução cristã em marcha e que esse cris­tianismo militante, ainda que truncado ou desvirtuado por espí­ritos despreparados ou malintencionados, não pode parar e há de concorrer com as correntes revolucionárias materialistas para a transformação do mundo em que vivemos.
 
Porque nenhum homem digno desse nome pode se confor­mar com este século, com este mundo. Que os burgueses se escandalizem com o processo de sua transformação, é compreen­sível. Mas não os que aprenderam com Plínio Salgado que a única alternativa para a barbárie é a revolução do Espírito.
 
Mais uma vez, quem tiver ouvidos, ouça.
 
Às vezes me lembro do grande dramaturgo Nelson Rodri­gues quando dizia que "só os profetas enxergam o óbvio". Um de seus personagens é um velho profeta que perambula no meio das multidões, bradando:
 
— Ai de ti, se esqueceres o Espírito.
 
Plínio Salgado não fez outra coisa em sua vida.
 
 
Alfredo Leite
 
Nota:
[1] Extraído de: O pensamento revolucionário de Plínio Salgado, 2ª Ed., pág. IX, Voz do Oeste, São Paulo, 1988.


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01/12/2017, 17:14:47

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