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O mundo que prepara a catástrofe

(1931)

A que misterioso ritmo obedece esse estranho rumor, a princípio vago e indistinto, já agora nítido e altissonante, que perpassa pela superfície da terra, dando a volta ao seu meri­diano?
 
Que sentido profundo traz essa agitação geral dos povos, a tragédia surda dos espíritos, a angústia dos oprimidos e o sobressalto dos opressores?
 
As cidades cresceram para os céus. Os mares coalharam-se de naves de aço. O homem percorre a amplidão com asas de águia. A terra multiplicou as suas messes, as indústrias multi­plicaram os seus benefícios. Todos os confortos imagináveis se tornaram realidades banais. Todos os sonhos de beleza e de magnificência foram ultrapassados. E nunca o homem domi­nou mais os elementos, nunca imperou melhor sobre a natureza.
 
Rufam os motores dos aviões; gritam locomotivas; fonfonam os automóveis; uivam as sereias das fábricas; estrondam as usinas; mugem os navios; sibilam polés; estridulam guindastes; cantam os rádios... É a sinfonia planetária...
 
* * *
 
Todas as ambicionadas farturas a que a Antigüidade po­deria ter aspirado centuplicaram-se de uma maneira assombrosa.

 

Os celeiros do velho Faraó, refertos para socorrer as popu­lações do Egito, durante os sete anos de penúria, são ridículos em face dos "stocks" internacionais de trigo, de vinho, de café, de todas as mercadorias, capazes de abastecer duas vezes a Terra [1].
 
O oiro de todos os impérios antigos não se compara ao oiro que a Civilização carregou para as arcas dos Bancos, dos recessos da América Meridional, das entranhas do Alasca e dos Estados Unidos, do subsolo da Ásia e da África.
 
A força dos animais e dos escravos, que arrastava colunas monolíticas e impelia no mar os quinhentos remos das galeras romanas, é hoje uma minúscula energia de formigas, comparada à potência das locomotivas e dos transatlânticos ou dos dína­mos propulsores das usinas.
 
A rapidez de raio das quadrigas do corso não passa de um lerdo movimento de caranguejos, em proporção à velocidade da canção da Broadway, que se escuta no mesmo instante, no orbe inteiro, ou da luz com que Marconi ilumina do seu iate, em Gênova, a cidade antípoda de Sidnei, na Austrália.
 
As máquinas produzem por milhares de homens. A Civi­lização esplende nas suas grandes Metrópoles. Nunca a huma­nidade foi tão rica, nunca o gênero humano conheceu maior fartura.
 
A própria terra, rejuvenescida pelos adubos químicos, re­volvida pelos tratores, plantada com a nova e milagrosa técnica, decuplica o volume das suas safras, mãe carinhosa dos homens transformada em escrava da sua indústria.
 
* * *
E, entretanto, nunca houve desespero maior, nunca o ser humano mergulhou em confusão tão grande, tão desnorteadora.

Nas modernas babilônias cresce a legião dos desocupados; os vagabundos disputam um pedaço de pão; há criaturas sem teto, que dormem ao relento, ou na promiscuidade dos albergues; e o próprio trabalho já não é um prazer, mas um triste manobrar de manivelas e de alavancas, onde toda a iniciativa do Espírito desapareceu.

Outrora, o trabalho tinha qualquer coisa de fino, de sutil, feito de amor e de entusiasmo, de esperança e de alegria íntima, criadora; e, agora, o homem sente-se, cada vez mais, submetido a um ritmo mecânico, que o vai transformando, dia a dia, numa peça do maquinismo da Produção.

Não amando mais o trabalho (e só se ama aquilo onde se realiza a fusão do Espírito com as necessidades da matéria); vendo a "arte" ser substituída pela "técnica"; a feição indivi­dual do artefato anulada pela feição uniforme da produção em série; a tendência das vocações contrariada pelas possibilidades das colocações, — o homem moderno vai-se tornando um au­tômato, um boneco de carne e osso, que será possivelmente substituído por um outro boneco de aço e ferro, quando o  barateamento do custo da produção e a racionalização do trabalho, levada aos extremos que a técnica sugere, determinar que assim seja.

* * *

A máquina moderna, criação do homem, para produzir confrontos ao homem, torna-se uma concorrente deste.

Vede um tear, uma linotipo, uma rotativa, um motor, um calculador mecânico. Que estranhos seres! Parece que pensam, que raciocinam, que respondem numa linguagem que não é de palavras, mas de ação.                            

A máquina é um ente que tem, sobre o homem, a vantagem de não fazer greves, de não ter coração para amar nem boca para falar. E em se tratando de mercadorias similares (e tão similares que a Economia Clássica os submete às mes­mas leis da oferta e da procura), é sempre preferível a que importunar menos e produzir mais, melhor e mais barato.

Nestas condições, o monstro de aço conquistou, mais do que a igualdade, — a superioridade social sobre o homem.
 
A máquina não tem pais nem gera filhos; não vibra de afetos; não alimenta aspirações; não cultiva moralidades.É, portanto, muito mais conveniente ao capitalismo universal.
 
E é por isso que esse capitalismo quer arrancar do homem os últimos resíduos espirituais, para que a massa proletária se transforme também num sistema de maquinismo.
 
O monstro de aço! Quando ele trabalha, as suas rodas dentadas, as suas engrenagens, as suas serras parecem rir da criatura de Deus. E os apitos das fábricas parecem um grito dominador dizendo ao homem, quando rompe a aurora:"Levanta-te, peça de máquina!"
 
Esse grito domina o panorama das cidades tentaculares, onde o homem sofre, esmagado pela própria civilização que ele criou.
 
* * *
 
O instinto da máquina vai avassalando tudo.
 
A mecanização do homem começa nos arranha-céus de apartamentos.
 
É olhar uma casa e ver todas. Submetidas à mesma planta, à mesma fisionomia, elas impõem a cada ser humano um ritmo idêntico de movimentos, anulando a personalidade, para que triunfe a coletividade. Pois é sobre a coletividade que a má­quina domina mais soberanamente. E ela exige que se mode­lem coletividades de formas geométricas precisas e cadências uniformes.
 
Essas coletividades devem cristalizar-se nos fornos de to­das as compressões, de todas as angústias, que irão obrigando
cada tipo isolado a acomodar-se ao grande ritmo dos tipos comuns, cuja finalidade é o próprio ritmo, cujo sentido é a mecanização total da existência.
 
A redução ao inanimado. A racionalização desracionalizante. O homem-tipo, como a máquina-tipo. O trabalho mercadoria, como o kilowatt-hora. O índice de calorias dos combustíveis. O trabalho como finalidade do trabalho. A morte total do Espírito.
 
* * *
 
Todo esse inferno contemporâneo é presidido pela soma do trabalho acumulado pelos latrocínios, na tradução metálica das barras de oiro e na versão social do papel moeda, concentrados nas mãos de poucos. É o Capital.
 
Tudo gira em tomo desse ídolo muito mais terrível do que o Moloc de Cartago, que exigia menor número de vítimas para as suas entranhas de fogo.
 
* * *
 
Por que sofre tanto a humanidade?
 
É o Capital, que marcha para a sua feição mais simples; que ensaia a sua tirania na forma dos grandes trusts, dos mo­nopólios, dos grupos financeiros, das organizações bancárias, e se dirige para o capitalismo do Estado, numa velocidade cada vez maior e mais enervadora.
 
É a besta apocalítica.
 
Ela, que se assenhoreou do poder dos reis e dos impérios; que proclamou a sua tirania sobre todas as nações, sobre todos os grupos sociais e sobre todos os homens.
 
É o espirito da mentira e da crueldade. O dragão que devora os povos.
 
Ergueu-se, na face da terra, para enfrentar e negar Deus, como negou pela vez primeira quando rolou para as trevas eternas; que se levantou para esmagar o Homem, arrastando-o a todas as abjeções, para finalmente lhe arrancar o coração e deixar-lhe, apenas, os movimentos mecânicos da máquina.
 
* * *
 
Cresce, por todo o Universo, o estranho rumor.
 
É o clamor do Homem que sofre, nas colônias remotas da Ásia e da África; na estepe da Sibéria, nos Urais e no Cáucaso; nas entranhas do Ruhr ou de Cardiff; nas profundezas das mi­nas de diamantes do Transval, das cavernas de oiro do Morro Velho; nos sertões do Brasil, nas salitreiras do Chile, nas galés das Guianas, nos bairros proletários das grandes metrópoles resplandecentes como Babilônias multiplicadas, por toda a su­perfície do planeta, e nos porões dos transatlânticos e das naves de guerra, armadas para os morticínios...
 
É o gemido do Homem, que já não tem trabalho porque a máquina o expulsou das fábricas; que não tem pão, porque na fartura imensa já não há necessidade do esforço do pária, e as leis vigorantes determinam que se tome a mercadoria-trabalho quando se precise, e se deixe morrer o trabalhador, quan­do não se necessitar dele.
 
* * *
 
O Homem, vencido pela máquina, pensa então em criar o regime político que agrade à máquina.
 
De há muito que a Democracia renegou os governos éticos, concebendo o Poder como uma expressão do "Homem Cívico", portanto, do Homem mutilado, do Homem sem alma.
 
De há muito que se desprezou a Metafísica...
 
Mas o Homem hoje volta-se para uma forma imprevista de teocracia. Quer ser governado pelos Sumos Sacerdotes do Ateísmo. Aceita a grande razão da técnica e do capital. Aceita desaparecer como gota de água no oceano do coletivismo, onde toda a personalidade se destrói.
 
É a mais moderna expressão mística.
 
O misticismo que nega uma face da metafísica, para pro­clamar o valor da outra face.
 
E que subordina o Homem a uma divindade infernal, que não se funda no amor, mas na ausência do amor. E nega ao Homem o direito de se interessar pelas outras criaturas, pois só deve cogitar de si.
 
De si, não como personalidade, e sim como fração de um grande Todo.
 
O Homem renega o amor, para aceitar o egoísmo.
 
O amor impunha-lhe deveres; o egoísmo subordina-o à escravidão dos instintos.
 
A vida do instinto é o primeiro passo para a transforma­ção do ser humano em máquina.
 
Essa transformação é dolorosa, porque o espírito reage.
 
O Homem inventou a máquina. A máquina, agora, quer fabricar homens. E se um dia saírem homens do ventre das usinas, também os úteros das mulheres gerarão homens-máquinas, sem coração, sem afeto, meros aparelhos de produção...
 
* * *
 
Infinita é a angústia do Espírito. Por todo o planeta per­passa um misterioso rumor...
 
Que estranhas vozes falam no rumor da procela?
 
E no rumor da procela há vozes, há algumas vozes que falam...
 
Só as escutam os que conservam a consciência da grandeza humana.
 
Só as entendem os que trazem consigo a fortaleza do Espírito perene e a permanência das secretas energias indestrutíveis...
 
 
Plínio Salgado
 
Notas:
[1] Escrevia-se no tempo da grande superprodução em 1931.
[2] Retirado de: Madrugada do Espírito, Obras Completas, VoL 7, pág. 341.


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