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Psicologia da sociedade burguesa

(1951)

Já temos dito muitas vezes e não nos cansaremos de repetir: a burguesia não é uma classe; é um estado de espírito. É o próprio espírito da avareza e da sensualidade, que se manifesta de formas tão variadas e por vezes tão sutis, que muitos casos há em que alguém, julgando estar combatendo o espírito burguês, não faz mais do que avolumá-lo na sua própria alma.
 
Numerosos são os que estudaram a burguesia sob o aspecto das condições econômicas e suas conseqüências politicas e so­ciais. Poucos os que penetraram nesse espírito que não é ine­rente, de modo exclusivo, à classe dominante em nossos dias, porém que se infiltra em todas as classes, sob os aspectos mais contraditórios, refletindo uma concepção de vida em completo desacordo com os fins sobrenaturais do homem.
 
O espírito da burguesia vive em todas as classes. Está na classe média, tão forte, como nos círculos sociais dos ricos; está na própria alma do proletariado, quando se deixa penetrar pelos argumentos materialistas, que embasam a vida humana em nossos dias.
 
A esse espírito chamamos hoje "burguesismo", pelo fato de ser a burguesia quem comanda os rumos disso a que temos convencionado chamar "civilização". Mas ele já dominou em outras épocas através de outras formas, agrupamentos ou expressões sociais dirigentes. Viveu na Antigüidade Oriental,como viveu na Roma dos Césares ou nos dias brilhantes da Renascença. Aos que o encarnaram referiu-se o Evangelho apelidando-os servidores de Mamon e o paganismo conheceu-os pelo nome de epicuristas.
 
É a preocupação exclusiva pelos bens materiais, que de­vendo constituir um "meio", pelo qual a criatura humana deve atingir os seus fins verdadeiros, tornam-se um "fim" em si mesmos, com exclusão de toda finalidade superior. É a trans­mutação dos cinco sentidos, que são também "meios" de do­mínio e compreensão do mundo exterior, facultados ao ser hu­mano, e instrumentos de comunicação e de experiência de que dispõe o homem para formar juízos exatos e determinar os limites e as formas de suas ações na vida social, em "fins" exclusivos de todas as manifestações e realizações do ser.
 
O espírito, pois, que domina o nosso tempo, e que temos nos habituado a designar pelo nome de "espírito burguês", pode ser definido como um processo psicológico mediante o qual os "meios" se transformam em "fins" e os "fins" se transformam em "meios".
 
Dele se origina todo o desentendimento entre os homens, todos os dramas de lágrimas, de sangue, de desesperos que assi­nalam as épocas tormentosas em que imperam o egoísmo feroz e a sede de prazeres.
 
* * *
 
Sentindo abalados os alicerces que servem de base à cons­trução social em que vive, a burguesia se agita temerosa de perder os seus bens e declara guerra ao comunismo, que se levanta em todos os países, desfraldando a bandeira da luta de classes.
 
Para tomarmos posição em face dessa luta, hoje tão evi­dente no âmbito nacional e internacional dos povos, cumpre-nos apreciar, com serenidade e justiça, a índole dos dois con­tendores e tirar desse exame as conclusões sobre o verdadeiro
mal que é hoje causa das desgraças humanas e dos conflitos cada vez mais agudos que arrastam as nações para o abismo de tenebrosa catástrofe.
 
É o comunismo o mal do nosso século?
 
Como adversário leal e franco da doutrina marxista, ouso dizer que o comunismo não é o mal do século, porque antes dele existe um outro mal de que ele se origina. Esse mal é o espírito burguês.
 
Se desejamos combater o comunismo, que se ergue contra a sociedade burguesa, a nossa primeira atitude será a de com­bate contra a concepção de vida da burguesia, a qual, por ser injusta e cruel, gera revoltas por ela mesma semeadas com os princípios materialistas, ostensivos ou latentes, dos usufrutuá­rios dos bens terrenos em nosso tempo.
 
Essa vida de gozo, de ostentação, de comodismo, que é o espetáculo oferecido pelos ricos, pelos poderosos granfinos de uma sociedade corrupta, representa uma proclamação diária, em face dos pobres e dos humildes, afirmando que o único fim deste mundo reside na satisfação plena dos desejos da carne.
 
Tão eloqüente manifesto repercute pelos quadrantes do mundo e desperta nas massas o mesmo sentimento que se tra­duz nos mesmos conceitos de finalidade. Então, mais nobres e generosos do que aqueles que se servem da doutrina espiri­tualista como alicerce de uma construção materialista, surgem os líderes do comunismo dizendo: — Substituamos esse alicerce religioso por uma base anti-religiosa, porque assim haverá coe­rência e sinceridade, equilíbrio e justiça.
 
É a lógica da antiverdade, à qual não se pode negar o valor de um raciocínio perfeito. Não poderemos dizer o mes­mo do sofisma que se lhe antepõe, porquanto mais digno é deduzir o erro do erro do que deduzir da verdade o erro que, justamente pelo fato de surpreender as consciências iluminadas pelo sentido da justiça, provoca irritações e cóleras de quantos se sentem enganados.
 
O materialismo do nosso tempo não proveio das classes trabalhadoras, a sua origem é burguesa. Sustentado pelos filó­sofos e pelas mentalidades unilateralizadas sob o império do experimentalismo científico, o materialismo é doutrina que apareceu como justificativa da livre expansão do homem nos atos de conquista e de gozo dos bens terrenos. Pois esse gozo não poderia ultrapassar os limites impostos pela moral, se prelimi­narmente não tivesse sido banida das cogitações humanas a crença num Deus, assim como na liberdade, na responsabili­dade e no fim último e supremo do homem.
 
Só há, por conseguinte, um meio de combater o comunis­mo: é combater o espírito burguês.
 
* * *
 
Adotemos essa denominação, já que a classe dominante de hoje é constituída pela burguesia. Mas não sejamos injus­tos até ao ponto de condenarmos os burgueses só pelo fato de possuírem bens, de serem ricos, de influírem na vida social e política do nosso tempo. Se assim fizéssemos, cairíamos no erro dos comunistas, os quais, adotando ostensivamente os prin­cípios inconfessáveis da mentalidade burguesa, pretendem su­primir todos os valores espirituais de que ainda se valem os burgueses para manter suas posições. O que nós desejamos da burguesia é que tire conclusões lógicas dos princípios que diz defender.
 
Bem sabemos que nem todos os dirigentes da sociedade de hoje adotam a mesma doutrina no combate ao comunismo. Uns falam em liberdade do homem, em defesa da democracia, sob um ponto de vista agnóstico e prático, istoé, considerando o sistema democrático e o liberalismo econômico instrumentos mais propícios à expansão dos desejos individuais; e esses se confraternizam com aqueles que falam em nome do Espírito Imortal, em nome das religiões às quais repugna a mecanização da sociedade tal como a preconizam os marxistas. Tanto os primeiros como os segundos reciprocamente se sustentam; os
primeiros, vendo, na doutrina dos segundos, elementos precio­sos de ordem e conservação das estruturas por eles defendidas; os segundos, vendo, nas teorias dos primeiros, excelentes fato­res aproveitáveis numa política de transigência e oportunismo. E ambos, os agnósticos e os religiosos, formam, paradoxalmen­te, os muros de sustentação de uma abóbada que constitui a con­clusão político-social de um pragmatismo materialista. Os ado­radores de Mamon incensam a Deus; os adoradores de Deus incensam a Mamon...
 
São as contradições do regime capitalista, dirá Marx. É a ausência de Cristo nas almas, diremos nós.
 
Falemos claramente. O espetáculo que nos oferecem os atuais inimigos do comunismo só produz um efeito em nossa consciência quando ela se levanta em clamor de justiça; esse efeito é o de simpatia pelos comunistas.
 
Falo com a insuspeição de um homem odiado pelos mar­xistas, muitas vezes por eles ofendido, injuriado, agredido e considerado como adversário que se deve combater por todos os modos. Falo ardendo nesta fé e amor à doutrina do Divino Mestre, em conseqüência da qual, com fidelidade e constância, venho servindo humildemente à minha Pátria e ao meu Povo. Falo como um observador do que vejo e do que ouço dizer a respeito da degradação que atinge todo o organismo social da nossa terra, desde as repartições públicas, a indústria, o co­mércio, o ensino, os divertimentos, até ao recesso dos lares, onde se apagam, uma por uma, as chamas da fé cristã.
 
Que representa o comunismo? A destruição de tudo o que é espiritual, a imposição definitiva de um conceito de vida materialista, a expulsão de Deus das almas, a revogação de todas as regras morais eternas, que pelo seu valor essencial in­dependem das transmutações dos processos de vida determina­dos pelo progresso técnico.
 
E, no entanto, que representam os comunistas, levados a tão negra e tão desesperançada convicção dos destinos huma-
nos? Eles representam, inicialmente, uma atitude de revolta contra os que pregam o espiritualismo e vivem o materialismo; e, portanto, abstraindo o seu erro enorme e catastrófico, não podemos deixar de olhá-los como agentes misteriosos da lógica divina, apresentando-nos, por antecipações, o panorama das conseqüências fatais a que deverá chegar o epicurismo burguês.
 
Os comunistas agem sem cessar. A sua bandeira é negra, porque conduz o pensamento nirvânico que circunscreve a exis­tência do homem aos limites curtíssimos do ciclo biológico. É negra, porque nos diz que tudo termina na terra, que urge aproveitarmos e gozarmos tudo o que a terra e a carne nos facultam, e que todo o nosso anseio de infinito é pura ilusão. É negra, porque se contrapõe como antítese à bandeira branca da Paz, proclamando a luta entre os homens, fazendo do ódio a sua arma implacável, da violência a sua técnica predileta, da mentira a sua estratégia eficiente.
 
Atrás dessa bandeira negra, marcham as multidões, em cujos olhares trágicos dir-se-iam refletidos os sinais patológicos denunciadores das agonias do espírito; mas nessas multidões há qualquer coisa de grave e de justo: talvez o impulso inicial que as arrancou da inércia em que jaziam, como um protesto cuja origem mais profunda encontra as suas raízes numa vaga noção das verdadeiras formas do equilíbrio social.
 
E, enquanto marcham esses seres humanos, que, à maneira dos descendentes dos imigrantes esquecidos do idioma dos seus antepassados, também esqueceram e perderam, nos escuros ca­minhos da alma, as divinas palavras da Graça, enquanto esses nossos irmãos caminham atrás da bandeira negra, que fazem os burgueses?
 
Os burgueses dançam nos salões brilhantes. Os burgueses exibem toaletes e jóias nos teatros e nas recepções. Os bur­gueses assistem a corridas de cavalos. Os burgueses jogam, divertem-se, bebem bebidas caras, sentam-se à mesa, deliciando-se com os refinamentos que Brillart-Savarin pôs nos cardá­-
pios segundo as normas estéticas deduzidas da fisiologia do paladar. Os burgueses entregam-se à luxúria: possuem várias concubinas além da esposa legítima; não se respeitam recipro­camente, quando tratam de conquistar recíprocas mulheres; e justificam toda a imoralidade dos costumes com os argumentos do progresso e as exigências da vida moderna. Os burgueses deixam-se absorver pelas duas paixões; a do lucro e a do gozo. Obedecendo cegamente aos ditames desses dois senhores que se reduzem a um só (a concupiscência) movem-se como bone­cos humanos, nédios títeres de carne, de onde desertou a flama dos ideais que engrandecem e purificam o homem.
 
* * *
 
Alguns se fazem filantropos. E desses poderemos dizer o que Jesus teria dito, segundo as revelações de Catarina de Emerich, aos ricaços de Malep, na ilha de Chipre, censurando-lhes os hábitos de usura e de avareza, bem como "a falsidade de muitos que, praticando obras boas para serem vistos, continuam presos aos bens da terra e aos vícios da carne".
 
Porque na verdade não faltam, em nossos dias, aqueles que julgam resolver o problema social com obras de filantro­pia, mas ao mesmo tempo locupletam-se com lucros ilícitos, multiplicam os haveres mediante negociatas e explorações de toda espécie e irritam as multidões pela vida que levam, de requintado orgulho, impudente lascívia, aparatosa ostentação, indiferença pelas dores ou dificuldades do próximo, humilhação dos que deles dependem, ceticismo em face dos ideais superio­res, desprezo total pela disciplina da própria alma e pelo culto das virtudes cristãs.
 
São estes e outros aspectos da vida social contemporânea que iremos desenvolver nos próximos capítulos. Tentaremos, através da exposição dos costumes e apreciação dos princípios dominantes na mentalidade do nosso tempo. E procuraremos, raciocinando com o próprio leitor, a solução dos problemas político-sociais que nos afligem, solução que se encontra (estou disso convencidíssimo) muito menos nas providências de ordem objetiva do que nas atitudes subjetivas de que aque­las imperiosamente dependem.
 
Se devemos assumir "uma atitude em face dos problemas" como queria Alberto Torres, e se nada poderemos tomar senão "a verdade como regra das ações", como demonstrou Farias Brito, procuremos as linhas dessa atitude e a luz dessa verdade na apreciação do meio social em que vivemos para que possamos, dele e de nós próprios, extirpar o agente mórbido que corrói toda a força do homem como toda a força nacional.
 
 
Plínio Salgado
 
Nota:
[1] Extraído de: Espírito da Burguesia, 1951, in Obras Completas, São Paulo, 1954, Vol. 15, pág. 11).


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01/12/2017, 17:14:47

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