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Duplicidade e transação

O "espírito burguês", que não é o de uma classe e sim o de uma época, deve ser procurado pelos que pretendem exa­miná-lo, não em categorias econômicas ou sociais, porém nas categorias das almas.
 
Distingue-se esse espirito, como ficou assinalado no capi­tulo anterior, por uma preocupação constante dos bens mate­riais e da satisfação dos sentidos além dos limites traçados pelo equilíbrio moral.
 
Essa psicologia específica da enfermidade social contem­porânea devemos filiá-la, não propriamente à concepção mate­rialista da existência, uma vez que, em muitos casos, o indi­víduo atacado pelo mal do século conserva a crença religiosa, mas à interpretação materialista da mesma existência no que se relaciona com o gozo das coisas efêmeras.
 
O "espírito burguês" caracteriza-se, portanto, por um pro­cesso mental mediante cujos efeitos a criatura humana pretende viver, concomitantemente, duas vidas distintas e sem nenhuma relação de uma com a outra. Assim, enquanto o "burguês" (e por este nome não designamos apenas os possuidores de bens ou riquezas) confessa a fé num Deus e na imortalidade da alma humana e chega mesmo a aderir, até certo ponto, a alguma disciplina religiosa, estabelece, ao mesmo tempo, uma linha paralela de ação, a qual se funda, exclusivamente, na posse e gozo dos prazeres terrenos.
 
Uma sociedade puramente materialista não produziria as contradições do mundo burguês. Negando, de modo absoluto, a sobrevivência do homem depois da morte, e restringindo o destino humano aos estritos limites do processo biológico, a sociedade materialista encontraria a forma de equilíbrio num sistema de distribuição dos bens e de satisfação dos desejos, segundo normas decorrentes de postulados científicos assentes nas convicções gerais. Tal distribuição, que feriria de morte a liberdade das pessoas, se a considerássemos do ponto de vista de uma interpretação espiritualista, seria perfeitamente compreendida e aceita por todos os membros da sociedade mate­rialista, como uma intervenção legítima da inteligência humana preocupada em racionar as utilidades e também os prazeres no duplo sentido de dar o máximo aos indivíduos dentro das pos­sibilidades gerais e da manutenção saudável da coletividade em que eles se integram.
 
E mesmo que a sociedade materialista fuja ao tipo da que acabamos de apresentar, abstendo-se da preocupação ética de distribuir com justiça as delícias da terra, ainda assim ela en­contraria outra forma de equilíbrio, justificando o domínio dos mais fortes ou mais aptos, consoante as leis seletivas inerentes à evolução das espécies, pois outro não foi o critério dominante na composição das estruturas sociais e econômicas assinaladoras do período do desenvolvimento industrial no século XIX.
 
Esses tipos de sociedades materialistas (o da expansão da coletividade com forçosas restrições ao indivíduo, e o da ex­pansão do indivíduo em detrimento de outros indivíduos e da coletividade) são mais lógicos e menos inquietadores do que o
tipo da sociedade burguesa, indefinido e instável.
 
* * *
 
A instabilidade, a angústia, as aflições do nosso tempo originam-se do "espírito de transação" que é uma das caracte­rísticas mais notáveis do "espírito burguês".
 
A burguesia, que começou a florescer no século XVI, mas que adquiriu prestígio politico e social depois da Revolução Francesa, trouxe consigo, para o século XIX, dois mundos separados e nos quais ela, incoerentemente, quis viver ao mes­mo tempo: o mundo da fé religiosa e o mundo das realizações práticas.
 
Todo o esforço burguês foi o de isolar, de extremar esses dois mundos para em ambos comparecer com carta de cida­dania.
 
Uma das provas mais eloqüentes do que acabamos de di­zer está nesta coisa que só achamos extraordinária e bizarra por estarmos também influenciados pelo "espírito burguês": — a classificação de duas categorias de católicos: os simplesmente católicos e os "católicos práticos".
 
Quero crer, também, que à proporção que o progresso téc­nico, o teor de vida industrial e comercial, social e política, e os costumes pertinentes a isso que chamaremos civilização oci­dental, foram se estendendo a todas as regiões do globo, come­çaram do mesmo modo a coexistir "maometanos práticos", "budistas práticos", "xintoístas práticos" e os simplesmente maometanos, budistas ou xintoístas...
 
Entenderemos por "práticos" os que crêem numa religião e cumprem seus mandamentos, e por "não-práticos", ou "sim­ples", os que apenas crêem mas não cumprem o que lhes orde­na o seu credo. Esses "não-práticos" ou "simples" compare­cem eventualmente a atos religiosos (principalmente os de caráter social, como bodas e batizados, exéquias ou cerimônias comemorativas) e às vezes transformam-se em "praticantes", em caso de doença grave ou perigo de morte. Quanto ao mais, vivem segundo o materialismo do século, gastando todo o seu tempo nos negócios e na fruição dos prazeres.
 
Mas o espírito de transação da burguesia vai mais longe, porque entre os que, na religião, se dizem "práticos", encon­tramos ainda duas categorias: a dos que vivem em contradição com a sua própria prática religiosa, acomodando cá fora, na rua, na sociedade, na política, no comércio, no próprio convívio
doméstico, a sua maleável consciência, de acordo com os seus interesses materiais, ou as suas disfarçadas ou até despercebidas paixões.
Marchou assim a burguesia durante o século XIX e esta primeira metade do século XX. E a mesma contradição dos dois mundos que trouxe consigo (o mundo da fé religiosa e o mundo dos interesses e da sensualidade) veio determinar novas contradições.
 
* * *
 
A primeira foi entre o espírito conservador e o espirito liberal. Tendo a burguesia conquistado, desde a Revolução Francesa, certos direitos e prerrogativas até então inerentes aos aristocratas, entendeu dever conservá-los. Mas, ao mesmo tem­po, toda a prosperidade material da classe burguesa era propulsionada pela progressão do liberalismo, tanto político como econômico, e principalmente econômico. Ora, deixar agir livremente os fatores econômicos era criar condições à revolução social, pois a concentração de capitais e instrumentos da pro­dução nas mãos de poucos, o que se dava em conseqüência da própria liberdade, faria crescer o número dos pobres, e estes, sendo mais numerosos, poderiam golpear a burguesia como esta golpeara a aristocracia. Nestas condições, entrou o espírito de transação, que é eminentemente burguês, e a burguesia dividiu-se em "conservadores" e "liberais", partidos que, sob outras denominações, mas com o mesmo fundo, foram se revezando no poder de modo que, quando se tornava necessário um avanço em favor da classe dominante, subiam os liberais, e quando se impunha impedir um avanço das classes dominantes, subiam os conservadores.
 
Nesse jogo, acabaram os dois partidos confundindo-se pela adoção de princípios e programações quase idênticos, até ao dia em que o equilíbrio econômico-social se rompeu.
 
Desde o manifesto de Marx, em 1848, os trabalhadores de todo o mundo começaram a adquirir consciência de classe a unir-se. Diante do crescimento das organizações sindicais e da larga propaganda anticapitalista, a burguesia, sempre aco­modatícia, tratou de aderir ao movimento e de dirigi-lo. Era mais uma transação, a qual deu resultados, pois o socialismo materialista, ou melhor, o socialismo de Marx, passou a ser dirigido e chefiado pelos políticos burgueses.
 
Uma parte da burguesia (a que não afastara ainda de si a fé religiosa) não acompanhou a onda, mantendo as suas posições nos partidos agnósticos, sustentando os princípios do liberalismo e da democracia política. Ao separar-se o revolucionarismo socialista (III Internacional) do evolucionismo so­cialista (II Internacional), a opinião pública do mundo ficou assim dividida:
 
1)   — Corrente materialista dogmática:
            a) comunismo;
            b) socialismo.
 
2)    — Corrente agnóstica:
            democracia política liberal.
 
3)   — Corrente espiritualista:
            democracia cristã.
 
Sob variadas formas de governo, as correntes do pensa­mento político no mundo ocidental e nas regiões por ele in­fluenciadas eram essas.
 
Mas o caráter acomodatício da burguesia, a sua falta de convicções, a sua incapacidade de lutar oferecem-lhe como téc­nica, em todos os tempos, a transação. Vemos hoje a transi­gência burguesa operar os seguintes movimentos: uma parte dos burgueses agnósticos (liberais e pragmáticos) tendo descoberto que o marxismo pretende, durante algum tempo, fazer desen­volver o capitalismo nos países de indústria incipiente, a fim de aumentar a proletarização da classe média e atingir a des­truição do pequeno capital, resolveu gozar os que poderemos chamar "os últimos dias de Pompéia" e, nessa resolução, ven­do-se batizada pelos comunistas com o pomposo nome de "burguesia progressista", ajuda os seus futuros destruidores, sem nenhuma consideração pelos seus filhos ou netos; outra parte (cristãos-liberais ou — o que Pio IX condenava com tanta veemência — católicos-liberais) agindo muito mais por espírito de transação burguesa do que por espírito cristão, procura exercer uma política de acomodação com os comunistas, o que representa pretender misturar azeite com água.
 
***
 
É esse espírito de transação que observamos nos costumes da sociedade de hoje. A burguesia tudo quer combinar para atingir fórmulas capazes de coonestar a sua dupla cidadania nos dois mundos opostos. E, como não consegue realizar uma combinação, o que faz é a mistura de tudo. Vem daí a con­fusão dos nossos dias.
 
É muito bom falar em moral cristã, mas essa mesma moral sujeita-se hoje a interpretações ditadas pelo liberalismo e pelo "progressismo". O pai de família, o marido, assim como a mãe de família, a esposa, querem andar em dia com a moda e com a ciência, essa ciência que, de experimentação em expe­rimentação, a si própria se corrige de ano em ano até de mês em mês. Os professores, os médicos, os publicistas proclamam que a moral não pode impor regras fixas para todas as épocas e dizem que muitas coisas foram ontem consideradas imorali­dade e hoje moralidade, e vice-versa; confundem, dessa forma, o acidental com o substancial, aspectos efêmeros com valores permanentes. Esquecem-se de que os Mandamentos de Deus, que consubstanciam todas as leis morais, são eternos e valem para todos os países do mundo em qualquer tempo e em qual­quer grau de civilização. O homicídio, o roubo, a inveja, a mentira, a cólera, a gula, a luxúria, serão sempre condenáveis, sob qualquer tempo ou país.

Escrevia há dias um professor dizendo que é menos imoral um homem contemplar uma mulher nua na praia do que outro, dos tempos antigos, que se inebriava vislumbrando um palmo de tornozelo feminino numa indiscreta subida do bonde. É um sofisma grosseiro, pois tanto uma coisa como outra, conforme as intenções dos pensamentos, podem ser imorais, com a agra­vante, no primeiro caso, de ser imoral tanto o olho malévolo do que contempla, como a atitude daquela que exibe o quadro. Outro mestre afirma que a idéia do furto deve sofrer modifi­cações com o novo conceito de propriedade decorrente do so­cialismo, o que representa erro evidente, porque de um falso conceito não se pode tirar conclusão que também não seja falsa.
 
Estes e outros modos de interpretar a vida moderna são demonstrações eloqüentes da confusão do mundo burguês. Mul­tiplicam-se os pontos de vista e a moral, que varia de mestre em mestre e de interessado em interessado, acaba diluindo-se e perdendo-se nas incoerências da vida contemporânea. Aos que reagem contra tão incongruentes assertivas, chamam retrógrados e saudosistas, como se eles, os tais do progresso não tivessem retrogradado — eles, sim! — às épocas revelhas anteriores ao Cristianismo, quando a mentalidade pagã, exatamente como agora, porém com menos hipocrisia, não tinha conhecimento dos limites exatos do Bem e do Mal.
 
* * *
 
Assim vivem os burgueses. E assim querem continuar a viver. Indiferentes a todos os nobres ideais que, entretanto, não condenam, e até admiram, eles não cultivam as virtudes cívicas, nem as familiares, mas, pelo contrário, muito as reco­mendam. Os seus filhos, no entanto, são educados para serem o mesmo que os pais: gozadores da vida. As suas mulheres foram preparadas em outro lar burguês para serem o que são e o que querem que sejam as suas filhas: figurantes de festas, de corridas, de boates, com fotografias artísticas nas revistas elegantes. Nada de tradição nacional. Nada de vida cristã. Nada de espiritualidade ou dessa arte sublime de formar o caráter dos futuros chefes e mães de família capazes de trans­mitir, de geração em geração, o fogo sagrado da sobrevivência de uma pátria digna.
 
O "espírito burguês" está no cinema, no teatro, no rádio, nas revistas, na literatura, nas artes, nos costumes. É luxo e ostentação: é ociosidade e comodismo; é avareza e cupidez; é ceticismo e moleza; é orgulho e despeito; é sensualidade e lu­xúria; interesse mesquinho e oportunismo; é bajulação dos for­tes e idolatria pelos ricos e poderosos do momento; é medo das atitudes e terror das responsabilidades.
 
Tudo o que pode oferecer perigo, tudo o que pode acarre­tar uma incomodidade, tudo o que pode tirar tempo aos negócios vantajosos, ao conforto egoístico, representa o que há de pior para quem se deixou penetrar pelo "espírito burguês".
Essa a razão pela qual o burguês acompanha sempre quem está de cima, quem lhe pode poupar aborrecimentos, quem pode facilitar um bom negócio ou a carreira rápida ou alguma honraria.
 
O que o burguês deseja é não ser incomodado. E, do mesmo modo como, muitas vezes, concorre com o dinheiro para os asilos ou casas de caridade, tendo em vista, unicamente, tirar dos seus olhos a miséria que lhe desagrada, a exibir-se na via pública (o que lhe põe remordimentos na consciência), também é capaz de dar dinheiro ao comunismo, na esperança de que, obtendo o rótulo de "burguês progressista", possa ir passando incólume no meio das batalhas sociais.
 
* * *
 
No entanto, sob as aparências dessa beatitude pagã, o mun­do burguês é teatro de obscuros dramas e surdas tragédias. São dramas da vida econômica, em que se debatem e se esgotam, premidos por emoções violentas e angústias esmagadoras; esses heróis das batalhas da praça comercial e do foro, das repartições públicas e das carteiras bancárias, com os nervos esfrangalhadose hipertensões arteriais que os estrangulam em paroxismos de distúrbios emotivos e enfartes cardíacos. Ou são tragédias domésticas, disfarçadas sob as aparências de uma ostentação brilhante, como a desmoralização de pais perante filhos, ou os escândalos de filhos a arrastar os pais pela rua da amargura das maledicências dos salões.
 
Esses enredos balzaquianos ou shakespearianos, originados de uma causa única — o materialismo grosseiro da vida bur­guesa — são levados pelos clínicos da moda à conta de dese­quilíbrios glandulares ou de explosões de complexos à força compreensiva de recalques, justificando-se plenamente os descalabros abstrusos de uma sociedade nevrosada à custa de costu­mes excitantes e licenciosidades esclerosadoras de condutos volitivos...
 
Sob um pano de boca onde se pintam delícias pan-sexualistas dos jardins transcendentes do Alcorão, agita-se um in­ferno dantesco. E esse é o mundo burguês, que se pretende defender rotulando-o com o nome pomposo de Civilização Cris­tã, contra o comunismo que proclama, afinal, aberta e leal­mente, aquilo que se esconde por detrás das máquinas do Mar­quês de Maricá, abrindo-as, como Epimeteu abriu a caixinha de Pandora, da qual saíram todos os males que se espalharam sobre a terra.
 
Na caixinha de Pandora ficou, apenas, no fundo, a espe­rança...
 
* * *
 
E é essa Esperança todo o nosso bem nos dias presentes.
 
A nossa Esperança é ainda, e será sempre, a possibilidade de contrapormos, ao "espírito burguês", o "Espírito de Cristo".
 
Este espírito vive ainda em todo homem que acendeu em si mesmo a lâmpada sagrada de uma fé dominadora e de uma caridade ativa, utilizando-se, para acendê-la, daquela centelha que foi retirada da infinita e eterna chama do Verbo Altíssimo.
 
 
Plínio Salgado
 
Nota:
[1] Extraído de: Espírito da Burguesia, Obras, Completas, Vol. 15, pág. 23.


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