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As duas faces de Satanás

(1935)

O comunismo não é uma causa: é um sintoma. O mal não é o comunismo em si, porém as causas que geram o co­munismo.
 
O comunismo, por conseguinte, não se esmaga com vio­lências, com opressões, com fuzilamentos; acaba-se com a ex­tinção das fontes de onde provém.
 
É preciso encararmos o comunismo sob os dois aspectos pelos quais ele se apresenta: o intelectual e o moral.
 
Sob o aspecto intelectual, só pode ser combatido eficien­temente pela crítica, pelas idéias, no livro, na tribuna, na im­prensa. Sob o aspecto moral, só pode ser combatido pelas medidas que melhorem as condições de existência do povo e pelos exemplos de virtude dos dirigentes da sociedade.
 
* * *
 
Onde estão as fontes do comunismo?
 
No materialismo burguês.
 
Com que autoridade moral um materialista pode declarar-se inimigo do comunismo? A sua atitude reacionária só con­segue irritar os humildes, os pobres. O seu ódio anima o ódio dos contaminados pelo bolchevismo. Os seus impulsos violen­tos não fazem mais do que acender as cóleras da multidão.
 
É muito comum hoje em dia ouvir-se o burguês dizer: "Qual nada! O que o Governo devia fazer era acabar a ferro e fogo esses comunistas!"
 
Olha-se para o burguês. Está bem vestido, com o charuto na boca. Acaba de sair do Clube onde levou duas horas a almoçar numa roda de elegantes. Daqui a pouco vai ter um encontro com uma mulher que não é a sua. Esta manhã esteve na praia, seminu, dando pasto aos olhos nas arredondadas for­mas das frinéias familiares que, por sua vez, não perdem a missa, mas acham natural o nudismo. O burguês tem uma renda farta. Vive à tripa forra. Sabe casos de adultérios e distrai-se também no esporte dos galanteios reles. E tem muita raiva aos comunistas. "Oh! — exclama horrorizado — "o go­verno devia fuzilar essa caterva!"
 
O nosso homem vota profundo desprezo pelos humildes. Essa gente, para ele, não passa de animais que cheiram a ce­bola e a suor. Grita com os inferiores, maltrata os que estão por baixo da sua imensa categoria. Detesta o convívio dos homenzinhos, da gentinha, dos estudantes pobres, dos caixeiros, dos suados operários e camponeses, do soldado que, afinal, mantém a ordem em que o burguês floresce. E se alguém diz à sua adiposa personalidade que há rumores de descontenta­mento na massa, retruca logo o esplêndido gozador: "É meter cavalaria e bastonadas!"
 
* * *
 
Não. O comunismo não se combate assim. O burguês está enganado. O comunismo é apenas um sintoma das con­seqüências desse materialismo grosseiro de que o burguês é a fonte principal.
 
O operário não quer mais acreditar em Deus? Mas quem foi que ensinou o operário a negar a Deus? Foi o burguês, que acha a religião muito boa apenas para os velhos, os pro­letários, as mulheres e as crianças.
 
O nédio usufrutuário da ordem é ateu, não respeita a sa­cralidade da família nem liga importância à idéia da Pátria. Leva uma vida de macaco, só pensando em prazeres. As suas preocupações dominantes são o alfaiate, a garçonnière, o clube, o pano verde, a esperteza nos negócios, as paixões criminosas.
 
Convém, para ele, que o operário seja religioso, porque assim não o incomoda com rebeliões e desesperos. Convém que a esposa também o seja, porque assim se conforma com as suas atitudes de galo velho ou leão da avenida. Convém que as crianças também o sejam, para não darem trabalho com desobediências.
 
É assim o burguês. Para ele, a Pátria não são os milhões de compatriotas solidários na comunidade das tradições e aspi­rações nacionais, porém os soldados que lhe vigiam a casa, os agentes de segurança e investigadores que lhe fazem o sono tranqüilo na doçura dos lençóis de cambraia. Ele não serve a Pátria, é a Pátria quem o serve. A Nação é um guarda-noturno que lhe lambe as gorjetas pela via dos impostos para as festas embandeiradas, com hinos e salvas de peça. Não a defende, pois. Deixa essa incumbência ao Exército, à Polícia, ao Governo. "Para isso pago os impostos", diz — e não dá um passo.
 
No íntimo, o burguês materialista está convencido de que o Governo e as Forças Armadas existem para que ele, em plena segurança, possa conquistar e desonrar a filha do operário; possa mudar de mulher como quem muda de camisa; possa refestelar-se no seu pijama de seda; possa atropelar com o seu automóvel o mísero velhinho ou a inocente criança que tiveram a petulância de atravessar em frente da sua máquina possante e reluzente. Mas, se abre a boca para expender idéias, esse miserável tipo do século XX propõe o combate ao comunismo.
 
Como se engana! Para combater o comunismo impõe-se combater, em primeiro lugar, o materialismo, o ateísmo, o sen­sualismo, a grosseria dos sentimentos, a expansão desenfreada dos instintos.
 
* * *
 
Pois se o operário olha para o burguês e vê que ele, em todas as suas atitudes, proclama que a vida do homem acaba neste mundo; e se o burguês — para o operário — é o homem que sabe, que leu, que estudou; e se é com ele que o operário aprende, — é lógico que o operário fique sendo materialista, e deseje também ser um bruto, um gozador, e como não tem recursos adere a uma doutrina que lhe diz: "O céu e o inferno são aqui mesmo, tratemos pois de gozar a vida!"
 
A filha do operário, que se prostitui levada no carro ele­gante do burguezote, foi seduzida primeiro pelo luxo da burguezinha e pela opulência da burguezona. Os homens brutais, que premeditam o assalto às famílias para saciar a sua lascívia, não fazem mais do que imitar de modo violento o rico homem que assaltou habilidosamente a casa do pobre, roubando-lhe a mulher ou desencaminhando-lhe a filha.
 
É que o proletário é uma obra do burguês. O pobre faz-se à imagem e semelhança do rico. Depois, a criatura revolta-se contra o seu próprio criador; nada mais lógico, porque o bur­guês também se revoltou contra Deus.
 
O burguês é violento? O operário também o será. O bur­guês é lascivo? O operário copiar-lhe-á a vida. O burguês é comodista, indiferente à Pátria? O operário também afirmará que a Pátria é o estômago.
 
O burguês é cosmopolita? O operário é internacionalista. No fundo são a mesma coisa.
 
Se o comunista prega o amor livre, o burguês, de há muito, vive em poligamia. Se o comunismo prega a destruição das religiões, o burguês, de há muito, caçoa de tudo o que é religião.
 
O comunismo quer matar, trucidar? Mas o burguês também exige fuzilamentos e ceva-se no ódio político.
 
As massas desordenadas não têm pena das famílias dos burgueses? E os burgueses terão pena das famílias dos ope­rários?
 
É preciso dizer, tanto ao rico como ao pobre, esta palavra dura, que irrita e queima, que desvenda porém os segredos das desgraças atuais em todo o Orbe terrestre:
 
— Homens, abrandai vosso coração de pedra, aplacai os vossos instintos, erguei vosso pensamento para Deus, porque estais loucos!
 
* * *
 
Satanás afivela sempre duas máscaras: a máscara da dor e a máscara do prazer.
 
Quando o homem sofre, Satanás é a revolta, o desespero; quando o homem goza, Satanás é a voluptuosidade, a luxúria.
 
Satanás veste os andrajos da miséria para sacudir os pu­nhos fechados na saudação bolchevista.
 
Porém Satanás veste seda e enfeita-se de jóias para sorrir com indiferença e desprezo sobre o sofrimento dos humildes.
 
Satanásé o comunista que assassina e massacra. E Satanás é também o homem rico e feliz que nada faz para evitar a morte de multidões de pobres, mal alimentados e desamparados de qualquer conforto físico ou espiritual.
 
Satanás é a revolta das hetairas nos prostíbulos. E é tam­bém a alegria triunfante dos flirts adulterinos nas rodas da elegância.
 
E se lestes ou ouvistes estas minhas palavras, o vosso crime é dobrado, pois não podereis alegar ao supremo Julgador das vossas ações que não apareceu alguém que vos lançasse, por vos amar, e muito, estas verdades ao vosso rosto.
Satanás apoderou-se de vós, burgueses, como se apoderou de muitos proletários. Entrou nas oficinas, nas fábricas, nos campos, nas casas humildes dos bairros tristes, levantando o pendão do ódio; mas antes disso já havia entrado e brilhado nos vossos salões, semeando frases elegantes e costumes fáceis.
 
Urge que vos transformeis, homens do meu tempo, ricos e pobres.
 
 
Plínio Salgado
 
Nota:
[1] Extraído de: Madrugada do Espírito, Obras Completas Vol. 7, pág. 421).


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