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Liberdade, caminho da escravidão

Todos os sofrimentos do mundo moderno se originam de um só defeito da grande máquina: a falta de disciplina.
 
O conceito da liberdade excessiva, o predomínio do indi­vidualismo mais desenfreado determinou o desequilíbrio social que perturba o ritmo da vida do nosso século.
 
Desde a Revolução Francesa, outro não tem sido o grito da humanidade senão aquele que atroou todos os recantos do mundo e do século:
 
— Liberdade! Liberdade!
 
E foi a liberdade que espalhou pelas nações as doutrinas mais contraditórias, as afirmativas mais absurdas, os brados mais lancinantes de angústia do pensamento e do coração.
 
* * *
 
Liberdade! clamava o homem e, clamando, tratava de conquistar os meios com que pudesse exercer, com forte base econômica, a sua faculdade de ser livre.
 
Foi assim que se formaram os primeiros capitais da ava­reza.
 
Liberdade! clamavam os banqueiros, e foi assim claman­do que dominaram as Nações, escravizaram as indústrias e o comércio, humilharam os produtores.
 
Liberdade! clamavam os industriais e comerciantes e, entregues às leis da concorrência, livraram-se da disciplina do Estado mas caíram no cativeiro dos agiotas.
 
Liberdade! clamavam os patrões e, em nome da liberda­de de contrato, passaram a explorar os pobres, e o trabalho humano transformou-se em mercadoria sujeita às leis da oferta e da procura.
 
Liberdade! clamavam, por sua vez, os proletários, os quais, assistindo ao espetáculo de luxo e paganismo de seus chefes, endureceram o coração e lançaram-se nas tremendas lutas de classe, feitas de ódio e de revolta.
 
Liberdade! clamavam os pais, os esposos, os filhos, e ruiu a estrutura dos velhos lares felizes e tranqüilos.
 
Liberdade! clamava a imprensa, e na livre concorrência comercializou-se, ao gosto depravado das turbas, que precisou agradar, e dos argentários, aos quais precisou vender-se.
 
E, em nome da liberdade, o gênero humano caminha para a ruína total, destruindo o ritmo de sua existência com a morte da disciplina.
 
* * *
 
A indisciplina destrona a modéstia e erige em ídolo a vai­dade e o orgulho; transforma o amor em puro instinto sexual; reduz a amizade a uma questão de oportunidade; considera a honra como um ponto de vista; examina os costumes como relatividade de convenientes; semeia o ódio sobre a terra; cria uma civilização de rebelados.
 
Já o homem não sabe defender-se dos vícios. Libertando-se da disciplina do espírito, cai na escravidão dos instintos.
 
O homem, agora, é livre. Livre de todos os preconceitos. Não tem sentimento nem religioso nem cívico. A Pátria, que é a Pátria, depois que lhe deram a significação meramente política de vontade geral? A Pátria é uma convenção.
 
Assim a julga a mentalidade capitalista. Assim também a imagina a classe operária.

É que a Pátria, ela mesma, é uma expressão de discipli­na. E, tendo desaparecido a disciplina, desaparece a Pátria.
 
* * *
 
Dessa forma a humanidade marcha até a Grande Guerra. Culmina no seu delírio e desce, agora, a encosta dolorosa da desilusão, da tristeza surda, da insatisfação.
 
Essa insatisfação não se aplacará em qualquer regímen, seja ele qual for.
 
O próprio comunismo é uma ilusão. Pois, devendo impor uma atroz disciplina, virá contrariar o individualismo, que atualmente busca nele o derivativo máximo.
 
Liberdade! Liberdade! Nunca o gênero humano foi mais
infeliz! Nunca foi tão prisioneiro... Nem mais escravo.
 
* * *
 
E a Liberdade é o supremo dom do Homem. É a digni­dade da nossa Espécie. É a alegria dos nossos movimentos. É nossa honra e nossa glória, nossa aspiração superior.
 
Quem a degradou assim? Quem a tornou uma enfermi­dade e um opróbio?
 
O Liberalismo.
 
Como salvaremos a Liberdade? Pela disciplina.
 
 
Plínio Salgado
 
Notas:
[1] O Sofrimento Universal, ed. cit., pág. 217 e 220).



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