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Autoridade e liberdade

A Autoridade é uma criação da Liberdade, que a engen­drou como instrumento sem o qual ela, a Liberdade, não se poderia manter.
 
Nem de outra forma nos é lícito conceber o Estado, os Governos, as presidências e direções das sociedades civis, das companhias comerciais, das repartições públicas e, principal­mente, das organizações militares; nem a reitoria dos estabele­cimentos de ensino, nem o magistério e a magistratura dos pais de família no âmbito doméstico.
 
Sendo o Homem um ser racional, conforme aceitam os agnósticos e proclamam os espiritualistas com maior motivo, logicamente se deduz que ele goza de liberdade de escolha sobre tudo aquilo que constitui objeto de sua capacidade de discer­nir. Por conseguinte, o Homem é uma expressão de Liberdade, não errando quem diga ser o Homem a própria Liberdade.
 
Ora, a Liberdade viu desde logo que viveria coacta e cons­tantemente peiada de inibições, se cada membro da sociedade familiar, ou nacional, entendesse de fixar os próprios limites de sua expansão; pois aquele que se excedesse no uso do seu arbítrio não só trabalharia contra os direitos alheios, mas contra si mesmo porfiaria destruindo a liberdade de todos da qual participa como legítimo condômino.

E vendo a Liberdade que poderia morrer hipertrofiada em uns e atrofiada em outros, pela simples razão de que ninguém pode ser juiz em causa própria, entendeu de criar o árbi­tro dos arbítrios, ao qual deu o nome de Autoridade. E para que a própria Autoridade não exorbitasse no definir os arbí­trios singulares, ou porque os restringisse em prejuízo da sin­gularidade humana, ou porque os ampliasse em detrimento da pluralidade social, a Liberdade traçou leis com que se balizas­sem aqueles a quem incumbe a distribuição da justiça e a ma­nutenção do equilíbrio entre o querer e o dever.

Homens livres legislam inspirando-se no bom senso o qual, em última análise, procede da perfeita compreensão dos direi­tos e deveres humanos, segundo os destinos temporal e eterno assinalados por Deus a quem foi feito segundo a sua imagem e semelhança. E homens livres, possuindo leis conforme os imutáveis princípios da moral, que são universais, e de acordo com as tradições de uma Pátria, o temperamento e vocação de um povo e as peculiaridades sociais de um país, elegem, para que ponham em execução os estatutos nacionais, a cidadãos de sua confiança.
 
Exercem estes a Autoridade, cada qual na órbita dos po­deres que lhes competem, e nenhum desdouro ou diminuição acarreta aos governados a obediência aos seus pares elevados aos postos de comando pelo mandato outorgado pela própria liberdade de escolha, ou nomeados, pelos assim eleitos, para os cargos em que atuam como prepostos do Poder.
 
A Autoridade, por sua vez, viu desde logo ser-lhe impossí­vel o exercício, não possuindo olhos de Argus com que visse pormenorizadamente todos os negócios da sua gerência; e, isto posto, engendrou de seu turno a Hierarquia, sem o que não poderia bem servir à Liberdade.
 
Entende-se por Hierarquia uma delegação gradativa de poderes, desde o Chefe do Governo de uma Nação até a mais pequenina autoridade; desde o Ministro ao contínuo; desde o general ao cabo e ao anspeçada.

O oxigênio vital da Hierarquia é a Disciplina. Onde não houver Disciplina, não existe a Hierarquia; e como sem a Hie­rarquia não há Autoridade apta e capaz, e não havendo Auto­ridade capaz não há garantias para a Liberdade de todos e de cada um, irrefutavelmente se conclui que a indisciplina repre­senta a morte da Liberdade.

 
Se assim é no que concerne às organizações civis, o que não diremos no que toca às organizações militares? O Exército de uma Nação deve ser o paradigma da Hierarquia e da Disci­plina. E quando num país o Exército desfralda a bandeira de uma falsa liberdade, permitindo que cada qual dos seus mem­bros pense como lhe der na cabeça acerca de problemas diretamente ligados à política militar desse mesmo país, isso signi­fica achar-se em perigo a segurança da Nação e a própria liberdade dos cidadãos. Significa que já não há autoridade nem civil nem militar, que tudo anda à matroca e ninguém mais se entende.
 
Segundo os comezinhos conhecimentos que qualquer re­cruta possa ter do que se chama "política militar" de um país, esta está substancialmente ligada às normas do Ministério do Exterior, o qual por sua vez se orienta pelos tratados e pactos internacionais firmados por legações com poderes expressos do Governo que representam, tratados ou pactos, alianças ou convênios ratificados pelos Poderes Constitucionais.
 
O pensamento político internacional nos países que não se encontram em desordem é transmitido pelo Chefe da Na­ção através do Ministério do Exterior, ao Ministério ou De­partamento da Guerra, que o encaminha aos Estados-Maiores. Estes, tomando o pensamento político resultante das obrigações ou interesses nacionais, estudam os meios mais aptos para lhe dar vida e efetividade prática na hora oportuna. São gi­zados os pianos e, sempre pelos Estados-Maiores, solicitadas as providências de ordem econômico-financeira ou simples­mente administrativas, ao Chefe da Nação, que toma as medidas necessárias nos setores civis do governo. E tudoé guar­dado em segredo, tudo deve estar — nas Nações sensatas — arquivado nos cofres secretos dos Estados-Maiores.
 
A discussão do pensamento político adotado ou a ado­tar-se não cabe aos círculos militares, mas aos órgãos do Le­gislativo; pois as Forças Armadas, quando verdadeiramente in­tegradas na alma de uma Pátria, são meramente executoras dos desejos e aspirações de um povo, em tudo o que se refere à sua defesa e segurança territorial e moral.
 
Nos países onde não se pensa assim, invertem-se os papéis; desierarquiza-se toda a sociedade, dilui-se o governo, morre a Autoridade e, morrendo a Autoridade, morre também a Liberdade, inaugurando-se os tristes ciclos históricos que amargamente conheceram as repúblicas sul-americanas, cujas instituições e governos primaram sempre pela instabilidade e efemeridade.
 
O Brasil, felizmente, não conheceu os dramas das suas irmãs do Continente. A isso devemos a nossa Unidade, o Ordem que nos recomenda entre os povos e nos credencia na confiança das Nações Civilizadas. E estamos certos de que tanto os civis como os militares, entre os quais se contam fi­guras de alto valor cultural e patriótico, saberão compreen­der, na hora grave do mundo, quanto a Autoridade nos é necessária como defesa da Liberdade.
 
 
Plínio Salgado
 
Notas:
[1] Atualidades Brasileiras, Obras Completas, Ed.dasAméricas, São Paulo, 1954, Vol. 16, pág. 391.


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01/12/2017, 17:14:47

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