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Palavras... Palavras... Palavras...

Neste imenso castelo de Elzenor, em que se transformou o mundo materialista do século XX, e onde o vício vestiu as roupas da virtude e o crime envergou a negra toga da magis­tratura, aqueles que não se deixaram iludir pelos embustes fraudulentos, escutam como gemidos, à margem do noticiário quotidiano, a antiga voz de Hamlet a exclamar: palavras... palavras... palavras...

Soerguendo no regaço o ingênuo ramo de flores, passa Ofélia, que é o idealismo dos puros, dos sinceros, fitando os olhos encantados na verdade ideal por todos proclamada: a meta do direito e da justiça. Mas, em contraste flagrante com essa verdade ideal, domina os povos da terra uma verdade pragmática imposta por injunções e interesses cuja origem nin­guém pode perceber.
 
O que prevalece no mundo é o sofisma impudente, ao mesmo tempo sustentando os princípios de moralidade, de di­reito, de respeito ao Homem e às Nações e permitindo a imo­ralidade, a violência e a degradação das pessoas e dos povos.
 
E é ainda parodiando Shakespeare, na tragédia do prínci­pe da Dinamarca, onde vibram as supremas revoltas humanas em face do crime engalanado pelas insígnias reais, que o obser­vador sereno dos fatos históricos dos nossos dias rouba a frase de Marcelo segredando a Horácio: há qualquer coisa de podre na Assembléia das Nações...

Estas considerações vêm a propósito da recente iniciati­va da Unesco no sentido de outorgar à imprensa universal uma espécie de Carta de Direitos, ou Código das liberdades e dos deveres jornalísticos a fim de que os povos não se ve­jam privados do alimento diário das informações verdadeiras sobre os acontecimentos nacionais e internacionais.

Diante de tudo quanto estamos assistindo, desde o fim da guerra que teve por objeto libertar o gênero humano da tirania execrável do nazismo racista e totalitário, e principalmente considerando o que aconteceu e continua a acontecer em nosso incongruente planeta depois de proclamada a Carta dos Direi­tos Humanos pela ONU, podemos — sem precisar possuir o dom da profecia — adivinhar a inutilidade, o fracasso abso­luto de quantos Códigos e Declarações hajam de vir em bene­fício da liberdade de expressão e de informação no livro e no jornal.
 
Existe um Estado participante da ONU, que colaborou na redação da famosa Carta de Direitos e que vai colaborar, certamente, no anunciado documento garantidor da liberdade de imprensa. Esse Estado adota um regime totalitário, onde todas as liberdades humanas consagradas pelas Nações Unidas, naquele documento, são negadas de modo absoluto. Senão vejamos:
 
O artigo 4.° da Declaração de Direitos Humanos das Nações Unidas proíbe a escravidão ou a servidão; e aquele Estado mantém milhões de homens em campo de concentração ou em trabalho forçado. O artigo 5.° sustenta que "ninguém será submetido a torturas ou a tratamentos e castigos desu­manos ou degradantes"; e o mundo inteiro conhece os pro­cessos execráveis da polícia política para forjar confissões de crimes jamais praticados pelas vítimas do terror vermelho. O artigo 6.° exige que "todo ser humano tenha o direito de ser reconhecido como pessoa"; e o regime totalitário-socialista im­perante naquele país, tomando a coletividade como princípio e fim de seus objetivos, transforma as pessoas em simples in­divíduos, sem as prerrogativas de liberdade inerentes à pessoa. O artigo 7.° diz: "Todos são iguais perante a Lei, e têm, indis­tintamente, direito a igual proteção da Lei"; mas naquele país, que tem assento na ONU, as pessoas que não fizerem parte ou tiverem sido expulsas do "partido único, nem mesmo con­seguem os meios de subsistência". O artigo 9.° diz que "nin­guém poderá ser arbitrariamente detido, preso ou desterrado''; no entanto, as prisões políticas se multiplicam naquela Nação e os desterros para a Sibéria são acontecimentos comuns de todos os dias.
 
Chamamos a atenção dos sensatos, dos equilibrados, para o artigo 12 da Carta de Direitos da ONU, que reza: "Nin­guém será objeto de intervenções arbitrárias em sua vida pri­vada, sua família, seu lar, sua correspondência''. Todo o mun­do sabe que esse artigo da ONU é transgredido sistematica­mente pelo nazismo russo; que falem a respeito os diplomatas que estiveram acreditados em Moscou e que ali assistiram ao controle a que estão submetidos homens e mulheres, cujas residências são vasculhadas, cujas palavras são anotadas por mil espiões da polícia e muitas vezes gravadas por invisíveis microfones. Os próprios diplomatas não são respeitados, como se tem visto nos casos mundialmente conhecidos do tratamen­to dado a representantes uruguaios, chilenos, brasileiros, fran­ceses e americanos, tanto na Rússia como nos desgraçados países que gemem sob o seu despotismo.
 
Convém transcrever aqui o artigo 13, que diz: "Todos têm o direito de mover-se livremente e de eleger sua residên­cia dentro dos limites de cada Estado. Toda pessoa tem o direito de sair de qualquer país, inclusive o seu próprio, e de regressar ao seu país". Ora, é sabido por todo o mundo civi­lizado, que os súditos russos não gozam do direito de morar na cidade que desejem, nem de sair da Rússia quando lhes apeteça.
 
Diz o artigo 16: "a Família é o elemento natural e fun­damental da sociedade"; entretanto, sob o regime socialista-bolchevista, o Indivíduo escravo e a massa inconsciente são os dois termos político-sociais, não se considerando, de forma alguma, os grupos naturais em cuja hierarquia a Família deve ocupar o primeiro lugar.
 
O artigo 17 consagra o princípio da propriedade, dizendo textualmente: "Toda pessoa tem direito à propriedade" e "Nenhuma pessoa será privada arbitrariamente de sua proprie­dade". Ora, o que se faz na Rússia é exatamente o contrário: o regime se baseia na abolição da propriedade (pois é socia­lista) e o governo, em sucessivos planos que foram fielmente executados, privou os camponeses de suas terras, de seu gado, exercendo para isso uma pressão sangüinária.
 
O artigo 18 da Carta de Direitos da ONU diz: "Todos têm direito à liberdade de pensamento, de consciência e de religião. Este direito inclui a liberdade de trocar de religião ou de crença, bem como a liberdade de manifestar sua religião, individualmente ou na comunidade, tanto em público como particularmente, pelo ensino, pela prática e pela observância do culto". Não obstante, na Rússia e nos países onde ela exerce a sua soberania sob a capa de governos títeres, não há liberdade religiosa. Haja vista as perseguições a católicos e protestantes na Rumânia, na Bulgária, na Tchecoslováquia (onde os sermões são censurados pela polícia), na Hungria, onde foi suprimida totalmente a religião católica, na Polônia e nos países bálticos e, de modo igual em toda a Rússia So­viética. Não precisamos citar os casos numerosíssimos de per­seguições atrozes, porque são mundialmente conhecidos.
 
Reza o artigo 19 da Carta de Direitos Humanos das Na­ções Unidas: "Toda pessoa tem liberdade de opinião e de ex­pressão", e o artigo 20: "Todos têm direito à liberdade de reu­nião e de associação. Ninguém pode ser obrigado a pertencer a uma determinada associação". E o artigo 21 completa o pensamento dos artigos anteriores, dizendo: "Toda pessoa tem o direito de participar do Governo do seu país, diretamente ou por intermédio de representantes livremente escolhidos". E mais: "A vontade do povo será a base da autoridade do poder público; tal vontade é expressa por intermédio de eleições au­tênticas que deverão ser realizadas periodicamente, por sufrágio universal e igual e por voto secreto ou outro processo equiva­lente de votação livre".
 
Ora, é sabido, universalmente, que na Rússia não há par­tidos políticos. Só esse fato demonstra, de modo categórico, que não há ali liberdade de opinião e de expressão, pois, se houvesse, a conseqüência lógica seria a existência de vários par­tidos, uma vez que jamais se viu em parte alguma do mundo os homens pensarem pela mesma cabeça. A diversidade de opi­nião é a única prova da liberdade de opinião. Onde não houver mais de uma opinião é porque não há liberdade. Esse simples fato prova que os artigos 19, 20 e 21 da Carta de Direitos Hu­manos das Nações Unidas não são respeitados na União So­viética nem nos países seus satélites.
 
Mas... apesar de tudo isso, a Rússia, que faz parte da Organização das Nações Unidas, não se limita a menosprezar a famosa Carta de Direitos Humanos; mas desenvolve uma ação militar, política e propagandística, no sentido de alargar o seu domínio, fazendo implantar nos países que vai dominando os princípios opostos àqueles de que ela própria foi signatária! E há ainda a registrar o fato de cada um dos países submetidos ao seu jugo de ferro serem considerados soberanos pela ONU, essa mesma ONU constituída por nacionalidades que condena­ram os governos "quislings" instituídos violentamente pela Ale­manha Nazista, que se serviu, exatamente como está fazendo a Rússia, do impatriotismo, da baixeza moral de homens que se colocaram ao serviço do invasor estrangeiro.
 
"Há qualquer coisa de podre no reino da Dinamarca", diz o personagem shakespeariano. Sim, "há qualquer coisa de podre no mundo atual", dizemos nós. E o que está podreé a própria alma dos estadistas. Essa decomposição decorre da ausência de Deus, que é a Verdade Eterna. Decorre do desprezo a Cristo, que é a luz de todo o entendimento. O materialismo, que engendrou o utilitarismo e o pragmatismo, perdeu o senso da moralidade, não sabe discernir entre o Bem e o Mal, pois acima de tudo coloca o interesse. E como o interesse acredita sempre naquilo que lhe convém acreditar, as Nações fazem ouvidos moucos ao clamor dos espíritos sedentos de justiça e de verdade.
 
Assim, como no caso atual da China, como em tudo o mais, inverte-se a hierarquia dos valores; o que é espiritual, o que exprime o verdadeiro direito e a verdadeira justiça, passa para segundo plano; e o que é material, o que representa a força bruta ocupa hoje a posição primaz. A causa do bem, a causa da Humanidade passa a ser objeto de negócio. Exercita-se o comércio nefando da escravatura branca, mercadejam-se as soberanias das nações, a liberdade e a dignidade de milhões de seres humanos. E, enquanto se discutem as condições do ne­gócio, as estipulações políticas de uma paz podre, que exala pelos quadrantes do mundo os seus miasmas deletérios, os filósofos, os pensadores, os juristas, os estadistas não cessam de clamar pelos nobres postulados e de sustentar lindos temas de liberdade e de justiça.
 
E Hamlet, redivivo na angústia dos bons, dos puros, dos honestos, dos que não se deixaram envenenar pelo ópio dos discursos nas assembléias nacionais e internacionais, exclama dolorosamente: Palavras... palavras... palavras...
 
 
Plínio Salgado
 
Nota:
[1] Extraído de: O Ritmo da História, Obras Completas, Vol. 16, pág. 59.


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