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Panorama do mundo ocidental

(1957)
 
Ouvimos freqüentemente repetir, em face do que nos re­vela todos os dias o noticiário dos jornais, a frase tornada estri­bilho em todas as bocas: "está em perigo a civilização oci­dental".
 
Dizer "civilização ocidental" é empregar a expressão exa­ta, uma vez que impróprio seria usarmos a fórmula, por tantos ainda preferida, mas já de todo inadequada, que nos fala de uma "civilização cristã".
 
É verdade que perduram, mais por hábito do que por con­vicção, no conjunto da vida social do ocidente, certos princípios morais cujas raízes se embebem no solo fértil do Cristianismo; mas esses princípios, não raro sujeitos às mais variadas inter­pretações quando se trata de os traduzir em normas práticas de costumes ou nos lineamentos do direito positivo, não passam daquilo que em arquitetura se convencionou chamar os "sim­ples", ou seja,a armação de madeira a sustentar abóbadas em construção.Essa louvada e cantada "civilização ocidental" nem se acha ainda construída ao gosto dos seus arquitetos, e já ofe­rece mostras de insubsistência, prenunciando fatal desabamento.
 
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Recorrem os construtores a toda a sorte de expedientes, contrapondo ao arcabouço do edifício os arcobotantes que o flanqueiam no esforço de o sustentar de pé; mas tais anteparos, que firmam seus alicerces na Economia, ou na Diploma­cia, ou no Armamentismo, esses mesmos não encontram terre­no consolidado e capaz de os manter.

São planos econômico-financeiros de restauração da vita­lidade, de estímulo à produtividade, de reerguimento do padrão de existência nos países em crise, onde o desespero das turbas serve de instrumento aos agentes corrosivos das estruturas so­ciais; e são, também, medidas preventivas, de ordem política, tentando opor, na ordem interna das nacionalidades, um dique à preamar das agitações extremistas; e são, ainda, no convívio internacional, os pactos, ou convênios, as alianças, todo o an­gustioso esforço dos governos e dos seus porta-vozes, no afã de conjurar iminentes conflitos, na tristíssima esperança de, pelo menos, adiar, enquanto for possível, a derrocada de um sistema constantemente ameaçado.
 
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Periclita a civilização ocidental. E periclita justamente porque sobre areia tem sido edificada. É uma civilização pura­mente técnica e baseada no individualismo, que exclui toda a consideração do homem integral, ou simplesmente do Homem (pois esta palavra tem perdido de tal forma o seu sentido que necessita ser adjetivada...)
 
Sendo uma civilização essencialmente técnica, adstringe-se, no que toca ao Homem, ao critério das especializações profis­sionais, que consulta apenas uma das faces da personalidade, excluindo todos os elementos culturais não concernentes ao objeto da preparação especializada; dessa forma, fabrica, em série, médicos, engenheiros, advogados, farmacêuticos, agrô­nomos, mecânicos e eletrotécnicos, economistas, arquitetos, músicos, pintores e escultores, mas não constrói homens.
 
A sociedade está enferma, desorganiza-se e agoniza, porque os homens, que são os seus elementos constitutivos básicos, desaparecem da superfície da terra... No lugar dos homens, aparecem os profissionais. E o profissional desconhece tudo o que diz respeito ao Homem. Nada sabe do Homem, da tua origem, da sua natureza, do seu destino, das suas justas aspi­rações materiais, intelectuais e morais, dos seus deveres e dos seus direitos.
 
Sendo uma civilização individualista, prepara o mundo para o coletivismo, isto é, para a anulação total da personalidade hu­mana. O coletivismo só é possível quando tem, para utilizar, a sua matéria-prima. E a matéria-prima do coletivismo é a massa, e não o povo. Pois a massa é um conjunto informe de indivíduos, enquanto o povo é um conjunto de pessoas, inde­pendentes e harmoniosamente dispostas, executando suas ativi­dades próprias, todas tendentes àquele objetivo do Bem Comum que a cada componente da associação humana particularmente favorece, no sentido de alcançar o seu próprio objetivo.
 
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Já comparei (e não encontro outra imagem mais expressi­va) a sociedade humana às espigas de um trigal.Cada grão se integra na espiga a que pertence, como cada homem nos seus grupos naturais. O conjunto das espigas forma a touceira, como o conjunto dos grupos naturais forma a sociedade local. Multiplicam-se as touceiras e formam o trigal, do mesmo modo como a multiplicidade dos grupos naturais forma a Nação, ou a comunidade humana diferenciada de outras comunidades hu­manas. E o conjunto de todas essas comunidades humanas nacionais constitui a sociedade internacional, ou a Humanidade. Cada grão de trigo traz consigo a fonte vital de um outro pé de trigo; germinando produzirá uma touceira, que poderá ser origem indefinida de imensos trigais; assim, cada homem, con­quanto unido a outros, se conserva a sua personalidade, a sua integralidade,é maravilhoso instrumento de criação divina e, ele próprio, nos limites que lhe são assinalados, é sujeito do verbo criar, esse verbo que ele conjuga segundo os tempos e modos que podemos denominar: inteligência, sensibilidade, temperamento, vocação.
 
Íntegro, isto é, "pessoa" e não "indivíduo", Homem (e não parte de Homem) ao mesmo tempo que continua autô­nomo, independente, capaz de viver por si mesmo, e, como o grão de trigo, capaz de germinar e renascer, também percebe, de modo claro, o sentido de vida social, baseado no conheci­mento dos outros homens; em cada qual ele vê aquilo mesmo que sente em si próprio. "O homem se sente pessoa" — escre­ve Gonella — "quando, transcendendo o eu empírico, isto é, a individualidade, tem consciência do seu ser substancial e sente em si o outro. A vida dos outros é vida sua, porque é vida do Homem. As coisas, ao contrário, têm uma vida petrificada: vivem na solitude".
 
O individualismo, portanto, da chamada "civilização oci­dental", deixando de tomar o Homem na sua integridade, pre­para a matéria-prima com que o coletivismo constrói o seu ídolo: a massa. Pois, do mesmo modo como não se pode fa­bricar bolo sem a massa do cereal, nem se pode produzir a massa sem a destruição dos grãos que, pulverizados, já não podem germinar, nem compor a espiga que forma a touceira, (a qual, por sua vez, junto a outras, constitui o trigal), tam­bém o coletivismo não consegue erigir o seu Estado despótico, sem substituir o povo pela massa popular, pulverizando as per­sonalidades humanas na mó do individualismo.
 
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Ora, toda a obra de formação cultural da juventude, desde as reformas universitárias do século XVIII, das quais sentimos os efeitos na História Brasileira após a transformação da Uni­versidade de Coimbra pela ditadura de Pombal, vem gradati- vamente cingindo-se ao critério unilateral do preparo de homens incompletos, talvez profissionalmente capazes, mas humana­mente atrofiados.
 
Se, sob o aspecto particular, o ensino tem sido puramente técnico, no sentido da especialização profissional, sob o aspecto geral, vem sendo essencialmente individualista e escandalosa­mente utilitário, tomando-se esta palavra na acepção dos inte­resses materiais e egoísticos mais grosseiros. O homem que conquista um título de habilitação chamado superior, fá-lo como quem compra um instrumento de ganhar dinheiro, sem pretender nem julgar preciso dar às suas atividades profissio­nais um caráter social. A compreensão da necessidade da troca de benefícios entre o Homem e os seus semelhantes, entre o Homem e a Comunidade de que faz parte, entre o Homem e a Nação a que pertence, não é absolutamente possí­vel nas mentalidades individualistas, que não sabem conceber o que seja "pessoa", sujeito de direitos e deveres, cujo con­ceito transcende da concepção meramente profissional da exis­tência.
 
O utilitarismo, que constituiu a nota predominante da vida econômica, política e social do século XIX e que conti­nua a inspirar o mundo em nosso século, tendo inicialmente uma base empírica e, posteriormente, uma base dita científica mas profundamente materialista, degenerou, afinal, em egoísmo feroz de caráter anti-social, que destrói todas as resistências de uma civilização edificada sobre a areia.
 
Assistimos ao espetáculo doloroso de uma multidão de personagens delirantes: advogados trapaceiros, médicos infan­ticidas, químicos falsificadores, funcionários desonestos, políti­cos sem escrúpulos, toda a casta de profissionais visando lu­cros imediatos, e todos alheios aos supremos interesses do Bem Comum, da Pátria e da Humanidade.
 
A preocupação pelo dinheiro que deve ser ganho o mais depressa possível, a ânsia pelas posições financeiras ou gover­namentais, o êxito rápido na carreira abraçada, correndo para­lelamente à sofreguidão pelos prazeres, pelos confortos, pelo luxo ostentoso, pela sensualidade carnal, pelas sensações do jogo, e tudo com o mais desdenhoso desprezo às normas éticas e aos mínimos escrúpulos de consciência — esse é o panorama da vida moderna, dessa civilização que, tendo perdido a força moral para enfrentar os novos Hunos, que apontam no oriente da Europa (dispostos a substituir, por outra mentira, a impu­dente falsidade de uma estrutura social iníqua), apela, hoje, para o pretexto com que se apresenta, dizendo defender a civilização cristã.
 
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O comunismo totalitário, esmagador da liberdade, avança dominadoramente trazendo já atrelados ao seu carro países outrora independentes e ciosos da sua dignidade, como a Po­lônia, a Alemanha Oriental, a Boêmia, a Slováquia, a Letônia, a Estônia, a Lituânia, a Bulgária, a Rumânia, a Hungria, a Iugoslávia, o norte da Coréia e a China. Em igual perigo se encontram os pedaços do que resta da Alemanha, a França desorientada pelos excessos de intelectualismo, a Itália con­fusa e o Japão ocidentalizado pelo agnosticismo científico do século XIX e agora pelo agnosticismo político superveniente da catástrofe. As Américas, sentindo já na sua carne viva ar­der o vírus da desordem, pretendem erguer-se para se salva­rem, salvando, se possível, as demais Nações. Mas verifica­mos que os remédios prescritos pelo Novo Mundo não são, nem podem ser eficazes, uma vez que não passam de medicação me­ramente sintomática.
 
Como combater o comunismo, ou outros erros do nosso tempo, se não lhes vamos às causas? De que valem planos eco­- nômicos, ou pactos internacionais, medidas legais internas ou vigilância contra a ação imediata da desordem, se o mal do mundo não está no comunismo, nem na anarquia social, mas na mais terrível das ausências, que é a ausência do Homem sobre a terra?
 
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O Homem desapareceu. As multidões que vemos são de indivíduos, ou apenas partes do Homem, sombras, espectros do Homem. Acima desses fantasmas delirantes, domina a Econo­mia sem finalidade ética, a Ciência sem alma, a Arte sem bele­za, a Política sem deveres, a Liberdade sem limites, o Prazer sem freios, o Dinheiro sem contraste, a Sociedade sem ordem.
 
O rei da Criação foi destronado, perdeu cetro e coroa jo­gados na aventura materialista pelo seu próprio orgulho. E a solução única para o problema humano, que se apresenta hoje com uma gravidade sem precedentes na História, cifra-se nesta operação da qual depende a sorte das Nações: reconstruir o Homem.
 
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Reconstruir o Homem é levar o próprio Homem a recon­quistar-se. É instruí-lo a fim de que se restaure, se refaça, e venha a ocupar o seu trono perdido. Essa é a grande Cruzada dos tempos modernos. O grande movimento que terá de partir da verdadeira Universidade. E quando digo verdadeira quero dizer a Universidade que veja no Homem aquela unidade subs­tancial de uma dualidade consubstancial, aquela síntese de ne­cessidades e aspirações consoantes à natureza física, à sensibi­lidade estética, ao poder da razão, à força imaginativa, à capa­cidade volitiva, à índole social, à vocação divina.
 
O ensino, então, objetivará produzir, não apenas profissio­nais, mas Homens. Será instrução e educação. Da sua forja não sairão os bonecos de carne dos períodos históricos do de­sespero, a edificar automaticamente uma civilização a-finalista, uma civilização que, fazendo de si mesma o seu fim, não passa, bem considerada, de um totalitarismo mais feroz do que o próprio totalitarismo político que se exprime no Estado absor­vente. Pois tudo aquilo que se ergue na terra sem que tenha por fim servir ao Homem e ao seu destino último que é Deus, será violência contra o Homem, opressão e degradação do Homem.
 
A civilização dos nossos dias, agnóstica, utilitária e tec­nicista; essa civilização idólatra, cada dia mais embevecida na adoração do seus deuses de aço e das potências despertadas nos meandros da matéria; essa civilização, que transforma a "pessoa" em "indivíduo", tomando do Homem apenas os seus fragmentos; essa civilização guarda, inconfessado e tenebroso, o princípio catastrófico de um totalitarismo, o qual, à maneira dos icebergs, emergem aqui ou ali as suas pontas reveladoras, sob as formas do nazismo, ou do comunismo, do capitalismo ou do liberalismo.
 
E será inútil todo o esforço humano tendente a conjurar tais perigos, se não formos ao âmago da questão, dando um sentido espiritual, uma direção para Deus, a todo o trabalho dos cientistas, dos estadistas, nas suas atividades criadoras.
 
Lançar no mundo o Homem Novo dos Tempos Novos. Retornar ao equilíbrio, depois da fantasia delirante do Super- Homem nietzscheano e das visões degradantes dos Sub-Homens marxistas; depois do ser amorfo, de alma congelada, do agnosticismo liberal, e do monstruoso Frankenstein centaurizado à justaposição das máquinas a que adere como peça adequada ao ritmo das propulsões elétricas ou mecânicas.
 
Reconduzir o Homem àquele esplendor das Harmonias Divinas, em que ele exerce a sua integral soberania, impondo a força dos valores morais onde pretendam imperar as forças
bárbaras e desconexas dos valores materiais em conflituosa desordem.
 
Ou fazemos isso, ou o mundo não terá salvação. Porque isso fazer é traduzir em normas sociais, nacionais, familiares e pessoais, tudo quanto nos ensinou Aquele por cuja Graça logramos alcançar os verdadeiros padrões de vida digna, de paz fecunda entre os povos, de verdade, de justiça e de beleza.
 
 
Plínio Salgado
 
Nota:
[1] Extraído de: Reconstrução do Homem, Livraria Clássica Brasileira, Rio de Janeiro, 1957, pág. 7.


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01/12/2017, 17:14:47

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