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As causas da irresponsabilidade

(1957)
 
O problema fundamental do Brasil ainda é e continuará a ser o da educação nacional. Todas as questões que se apre­sentam desafiando a solução por parte dos homens públicos tornam-se absolutamente irresolúveis pela ausência de um espírito nacional formado sob a inspiração de idéias claras e níti­das, capazes de orientar os intérpretes e os executores das leis e das normas administrativas pré-estabelecidas nos setores do governo ou das mesmas empresas de iniciativa privada. Essas idéias inspiradoras não precisam ser muitas, nem neces­sitam envolver complexidades de alta indagação filosófica. Uma Nação se conduz com três ou quatro conceitos de existência, de direito e de deveres.E é justamente o que falta ao povo brasileiro.
 
Ou seja pela influência das variadíssimas correntes imi­gratórias, trazendo cada qual o tom da nacionalidade própria e a soma dos prejuízos inerentes a velhas civilizações, e tra­zendo, principalmente, o objetivo imediato de "fazer a Améri­ca", sem nenhum liame histórico a prendê-las ao vigamento principal da tradicionalidade do nosso país; ou seja pela rápida transição de uma economia primitiva para o ritmo acelerado de novas condições técnicas; ou seja por força da crise econômico-financeira que aperta as suas tenazes comprimindo os or­çamentos domésticos agravados, dia a dia, pela transformação do supérfluo em elemento de primeira necessidade, — o fato é que o brasileiro de hoje transformou-se num utilitário grosseiro, interpretando tudo e tudo resolvendo de acordo com seus interesses particulares e suas mesquinhas ambições.

No fundo, o nosso patrício é um homem sem fé, que so­mente se agita no sentido de ganhar dinheiro, ou conseguir empregos rendosos, ou prestígio político e social. Em tudo o mais é um abúlico, um fatalista, que se deixa levar pela cor­rente dos acontecimentos, procurando sempre colocar-se do lado daqueles que lhe podem oferecer maiores vantagens ou, pelo menos, a vantagem de se sustentarem o maior tempo possível nas posições de mando.
 
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Principiamos esfriando a nossa crença em Deus, porque não tínhamos tempo de pensar n'Ele, ou de dedicar-Lhe alguns minutos de meditação, no meio do tumulto da vida praticável; e, assim, acabamos frigorificados espiritualmente, com a cons­ciência endurecida como o gelo, o que, de certa forma repre­senta uma vantagem no mundo dos negócios, onde sempre é bom adotar-se o conceito, nietzscheano ou wildeano, de uma atitude acima do Bem e do Mal...
 
Depois, o enrijecimento glacial atingiu as zonas do senti­mento patriótico, e ninguém mais pensou na Pátria senão como uma figura de retórica para os comícios eleitorais ou para os arrazoados das iniciativas industriais ou financeiras onde se prova sempre por a mais b que o negócio proposto é de pri­meiríssima ordem para os interesses nacionais...
 
Finalmente, petrificaram-se os corações pela pressão congelante do egoísmo, abrangendo essa hibernal atmosfera a cons­ciência dos deveres para com a Família; e, então, os lares se tornaram instáveis, o destino dos filhos um assunto subalterno, o decoro conjugal um reles preconceito do passado, a própria honra individual uma ficção sem a menor importância...
 
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A essa altura, já lavrava, em todos os setores das ativi­dades humanas em nosso país, a mais desbragada irresponsa­bilidade, desde a dos homens da alta finança, mancomunados em grupos e a exercitar manobras sutilíssimas de ganhos astro­nômicos, até ao negociante que mistura ao leite e ao vinho a água das torneiras, por sua vez infecta como tudo o que se oferece ao consumo público. A indexação dominou os funcio­nários das repartições governamentais, sedentos de gorjetas e de propinas, cujas personalidades se modelaram ao espelho de seus chefes, de quem a prestidigitação aplicada à arte de des­viar dinheiros do erário para o próprio bolso já se havia tor­nado popularmente conhecida. Por outro lado, a indecorosa manobra dos partidos políticos, transformados em máquinas de fabricar posições, empregos e negociatas, correu parelha com o despudor da compra e venda eleitoral, nessa bolsa dos des­valeres das urnas democráticas, onde palhaços e chantagistas logram fazer impudente cartaz e colher resultados espetacu­lares.
 
Nesse panorama de irresponsabilidade geral, não poderia ficar isento da infecção contagiante o próprio trabalho dos que ainda se tinham em conta de honestos; e, dessa forma, a olhar para o exemplo dos grandes, os pequenos perderam todo o estímulo da dignidade, clamando por maiores estipêndios, mas esquivando-se ao esforço produtivo. Conseqüentemente, com o encarecimento da vida, tivemos a onda de mal-estar em todas as classes dos degraus médio, submédio e proletário, com a agravação do estado de espírito do mais feroz utilita­rismo.
 
De alto a baixo, o Brasil está infeccionado de materialismo e de imediatismo e, ainda mesmo quando nos boquiabrimos diante dos arranha-céus e do estridor das fábricas, das reali­zações materiais e dos prospectos de radioso futuro, não po­demos deixar de inquietar-nos percebendo que, de ano para ano, somos mais inconscientes, mais fatalistas, mais autômatos, menos capazes de fé em quaisquer princípios desses que servi­ram de base, por exemplo, ao surto econômico e industrial dos Estados Unidos nos meados do século XIX.
 
O estágio econômico-financeiro do Brasil nesta metade do século XX é — guardadas as proporções do moderno apare­lhamento industrial e da técnica dos nossos dias — o mesmo da grande Nação setentrional da América naquele tempo; mas no século XIX, os Estados Unidos, malgrado a formação dos grupos financeiros que então lá se esboçavam e do pragma­tismo das avançadas no rumo do Far West, conservavam e alimentavam aquelas idéias que haviam servido à formação da sua consciência nacional. Principalmente as idéias da moral puritana, que fortaleciam a noção dos deveres perante Deus e perante a Pátria, eram bem vivas e ativas no pensamento e na palavra, na atitude e no exemplo dos estadistas, assim como no íntimo da alma do povo.
 
O problema, pois, do Brasil de hoje, é inegavelmente edu­cacional. Sem se lançar uma larga campanha nesse sentido, para reativarmos as poucas energias ainda presentes em hora tão desfavorável, iremos ao léu dos acontecimentos internos e externos e não podemos prever se terminaremos uma colônia russa ou americana, ou qualquer coisa informe e indefinida como as Índias ou o mundo árabe.
 
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Essa campanha educacional deve penetrar o seio das fa­mílias, deve agir nas escolas, deve alargar-se às massas popu­lares, deve — acima de tudo — injetar nas elites intelectuais a noção dos deveres para que não se estiolem os escritores, os pensadores, os filósofos, os juristas e os economistas, nessa vil submissão de vassalagem aos poderosos, vicejando como cogumelos à sombra de aventureiros políticos ou de indivíduos ocos guindados a altas posições pelo dinheiro ou pelas circuns­tâncias fortuitas do jogo de azar dos partidos; mas para que assumam pela palavra e pelo exemplo a liderança de um povo em franca disponibilidade, tanto para o Bem como para o Mal.
 
Como sustentarmos o regímen democrático, se a perma­nência deste exige íntimas convicções doutrinárias e o conhe­cimento da técnica mediante a qual ele funciona?
 
Nada se ensina ao povo; só se desensina. Os jornais cretinizam as massas com grossas manchetes sobre crimes e futili­dades. Os comentários políticos são superficiais e trazem a eiva dos corrilhos partidários. Nas escolas, nada se diz sobre os deveres dos cidadãos. E o exemplo geral dos responsáveis é o paradigma trágico determinando o mimetismo de uma mul­tidão sem ideal, sem espírito, sem alma.
 
 
Plínio Salgado
 
Nota:
[1] Extraído de: Reconstrução do Homem, ed. cit., pág. 134).


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