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A Luz Ausente

Alguma coisa está ausente do mundo. Sim: o mundo esta separado de al­guma coisa. Há na sua tormenta, na agitação dos dias presentes, essa vaga inquietação indefinível, esse mal-estar que não se compreende bem. Referve no complexo universal o limbo de todos os desejos e as tendências de todas as exaltações. Uma super-excitação nervosa passa como calafrio sobre a superfície da Terra.
E não se sabe ao certo se a Humanidade vive num crepúsculo, na indecisão das formas e das cores, na confusão de todos os aspectos, da hora melancólica do anoitecer; ou se já nestes anseios frementes vibra o anuncio de novas au­roras.

No fundo de todas as angustias das Nacionalidades e das massas populares, o que é fora de dúvida é que se percebe um desequilíbrio, em tentativas supremas para uma recomposição de ritmos e de harmonias.

De que mal sofre o Mundo?

* * *

Para se compreender as surdas re­voltas das multidões: para se penetrar na psicologia agitada dos governos; pa­ra se surpreender o lineamento preponderante de uma literatura de confusão, de uma filosofia de perplexidade, de uma política de desconfiança, de uma atitu­de de recíprocos rancores; para se pro­curar a incógnita do mundo contemporâ­neo, – não temos mais do que examinar o caso particular de cada um de nós, ou dos que nos rodeiam.

Então, logramos descobrir algo que nos esclarece o entendimento, como que uma suave mão guia o nosso raciocínio através das sombras. E o mistério da hora presente revela-se no mistério de cada drama pessoal.

O mundo esta morrendo pela ausên­cia do “espírito”.

Ausência do “espírito”...

Como é fácil e, ao mesmo tempo, difícil compreender o que seja o “espírito”. É preciso ter uma noção integral da pró­pria criatura humana. E a Humanidade de hoje perdeu completamente o senso da personalidade, o sentido das proporções e dos limites, a percepção da harmonia das formas, a intuição dos equilíbrios exa­ctos, o sentimento das euforias perfeitas.

Como definir a alma, se todos se esqueceram dela, completamente, numa civilização em que só se cultivou a matéria? Como entendê-la, se ela fala uma lingua­gem tão diversa do idioma falado por criaturas que fizeram da vaidade, da exibição, dos egoísmos mais torpes e dos orgulhos mais imbecis, toda a razão da sua vida?

Por que sofrem os povos todos os terrores recíprocos, nos dias que correm? Por que se agitam as classes, na luta tremenda? Por que se miram desconfia­das, as autoridades nacionais? Por que se aumentam os efetivos das polícias secretas? Por que se multiplicam tantos crimes? Por que estampam os jornais tantos escândalos? Por que se odeia tanto, se agride tanto, se luta diariamente uma batalha soturna, trágica, sob as aparên­cias das maneiras corteses?

O mal cresceu e assombrou as Nações. Multiplicam-se as perversidades. Os fracos são esmagados pelos fortes. A vio­lência é a lei geral, como é a lei par­ticular.

* * *

Basta olhar para a sociedade atual, exibicionista, fútil e preocupada exclu­sivamente com as coisas materiais. Essa sociedade sem delicadeza moral, sem capacidade de renúncia, sem finura, sem altitude; essa sociedade estandardizada, jo­guete nas mãos dos exploradores e escravizadores internacionais; ela revela-nos todo um sentido deprimente de civilização desmoralizadora, em que decai, dia a dia, a dignidade da criatura humana.

Escrava de todos os instintos; fa­minta de todos os prazeres; submetida a todos os caprichos e exigências da moda, – a sociedadecontemporânea vive a vida exclusiva dos impulsos, que são tão impetuosos ao ponto de desconhecerem todas as leis dos deveres, que são as eternas leis do Espírito.

Tal o que sucedeu nos fins do Impé­rio Romano, as preocupações do corpo do­minam, hoje, completamente, as preocupa­ções da Alma. E, como era lógico, em vez de lucrar com isso o corpo, ele deprime-se, deforma-se, perde a eurritmia sagrada que procede das geometrias mara­vilhosas do Espírito.

O corpo perdeu o prestigio; tornou-se a coisa vulgar, miserável, sem digni­dade e sem beleza, artificioso nas suas expressões, incapaz de despertar o encanto das épocas de pudor e de recato. Li­vre do império da consciência, cata-ven­to de todas as irreflexões, entregou-se a todos os vícios, sob a capa de todas as liberdades.

E, quando se julgou livre, estava escravo. Essa escravização despertou em coro as vaidades sem freio. As vaidades açularam os egoísmos. Os egoísmos destruíram todas as estruturas dos deveres morais. E, destruídas as estruturas des­ses deveres, tivemos uma Humanidade re­baixada, cujos aspectos, na sociedade moderna, atingem os níveis inferiores das mais torpes animalidades.

* * *

Uma luta sem tréguas desencadeou-se sobre a Terra. Luta da criança contra os pais e mestres. Luta da mulher a procura de uma ridícula emancipação que a torna mais escrava, mais miserável, mais deslocada do centro de interesses da Espécie e da própria Sociedade. Luta dos empregados e patrões. Luta na concorrência comercial desenfreada. Luta dos partidos políticos. Luta de interesses inconfessáveis, em todos os setores da atividade social. Luta dos orgulhos e susceptibilidades. Luta dos ódios implacáveis. Luta das desconfianças recípro­cas. Luta das insubordinações e das rebeliões. Luta das insatisfações da matéria.

Essa tremenda batalha, que se sur­preende no recesso dos lares, no reces­so dos estabelecimentos comerciais, no interior dos quartéis, das repartições públicas, das escolas, e que se generaliza desde o armazém da esquina ao grande “trust”, e desde o drama passional dos arrebaldes, com suicídios e homicídios, até a tragédia dos conflitos monstros das mazorcas e levantes, – essa tremen­da batalha vai refletir-se na vida in­ternacional, e já não há possibilidade de se evitarem as guerras, as situações tensas entre os governos, a confusão universal e os terrores recíprocos das
Nacionalidades.

* * *

Alguma coisa está ausente do mundo.

Uma treva desceu sobre o gênero humano...

Que remédio poderemos dar para que estas trevas se transformem na rutila aurora dos tempos novos?

Como poderemos invocar a Luz-Ausente?

* * *

É preciso clamar pelo retorno do Espírito.

Que ele ilumine todas as coisas materiais. Que desça no desamparo da hora que passa. É a luz que desertou do mun­do. Ou ela volta, ou nos lançamos na ruína e no apodrecimento.

Que Deus faça baixar sobre nós a Luz-Ausente...


Plínio Salgado

Nota:
[1] Extraído de: Madrugada do Espírito, Obras Completas, Vol. 7, pág. 451.
 



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01/12/2017, 17:14:47

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