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Civilização e barbaria

Existe hoje alguma coisa a que se possa dar o nome de "civilização"?

A palavra, como o seu étimo evidencia, quer significar "vi­da nas cidades", isto é: convívio de seres humanos em harmo­nia, sujeitos deliberadamente a certas leis, que se identificam com os costumes, leis e costumes que não são, certamente, os dos tigres, dos macacos e dos porcos.

Da vida em comum nas cidades, estendeu-se o conceito de civilização à vida em comum de muitas cidades formando um país e, posteriormente, à vida em comum de muitos países, for­mando o tão decantado concerto das nações.

O "concerto das nações" não pode, logicamente, ser uma assembléia de chacais rilhando os dentes, ou uma tropa de feras contidas pelo urro do mais forte. Esse tipo de convivência, ba­seada na inibição imposta pelas coações brutais, nunca poderá ter o nome de civilização.

Por conseguinte, civilização não é termo equivalente a progresso material, aperfeiçoamento técnico, a conhecimentos científicos. A própria ciência não é a civilização.

A palavra tem conteúdo espiritual. Para se saber se, numa família, numa cidade, num país, ou no mundo, existe civilização, temos de levar em conta a soma dos valores morais predominan­tes no tipo do convívio. Tais valores decorrem do espírito.

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Não me refiro ao espírito no sentido agnóstico empregado pelos materialistas de persos matizes. Não é ao espírito na significação de índice temperamental de inteligências inpiduais ou coletivas, significação que nos leva a chamar "espírito fran­cês", "espírito inglês", "espírito latino" às modalidades de ex­pressão dos pensamentos, sentimentos e atividades de grupos éti­cos ou nacionais diferenciais. Falo do "Espírito", tomando-o na sua realidade tão real como a do mundo da matéria. Falo do que há no homem de superior e eterno, dessa realidade que não pere­ce, que não se encerra no ciclo biológico mas que se prossegue no seu destino mortal.

Sem o Espírito não há civilização. E o que presenciamos hoje no mundo, nos atos, palavras, costumes e tendências até mesmo dos que se dizem espiritualistas, é a negação total do Espírito. Logo, o mundo, no século XX, não é civilização, ou — para ser­mos menos rigorosos — diremos que tudo quanto existe hoje, com o nome de civilização, não passa de restos de uma civilização agonizante.

Temos o progresso material de que tanto nos orgulhamos. Iluminamo-nos com a eletricidade, enquanto nossos avós usavam candeias de azeite; viajamos de avião, ao passo que os nossos maiores atravessaram o oceano em navios à vela e penetravam as florestas a cavalo.

Orgulhosos, esquecemo-nos de que o primeiro instante da vida civilizada, após a queda e degradação do pecado original, não foi aquele em que o homem da caverna inventou o fogo e assou pela primeira vez um pedaço de rena, mas foi aquele outro em que dois seres humanos repartiram, sem brigar, o quinhão do alimento, ou deixaram de rugir e erguer o punho, a disputar a primazia da expansão sexual.

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Se chamarmos civilização à posse dos segredos da bomba atômica ou do projétil dirigido, seremos forçados a considerar

como primeiro passo da civilização, não o altar onde Abel erguia as suas oferendas ao Altíssimo, porém a caveira de burro utili­zada por seu irmão Caim na prática do primeiro homicídio.

E se dermos o nome de civilização apenas à ciência e à técnica, teremos dado mais calor àAcrópole de Atenas do que ao pensamento de Sócrates, Platão e Aristóteles, e interpretare­mos a história do povo hebreu e a sua influência na humanidade mais pelo templo de Salomão do que pela maravilha imperecível do Decálogo e pela glória da concepção monoteísta.

A acrópole, com o Templo, são expressões magníficas do progresso intelectual, da sensibilidade estética e dos recursos técnicos, porém não passam (por mais que se escandalize a cultu­ra agnóstica dos nossos dias) de elementos secundários da civili­zação. Os elementos primordiais da obra civilizadora encontram-se, por exemplo, muito mais no Livro dos Mortos dos egípcios do que nas suas pirâmides, que são enciclopédias de pedra resu­mindo os conhecimentos matemáticos, geodésicos e astronômicos do tempo; e encontram-se mais nas legislações da Grécia do que nos seus artistas, conquanto estes fossem geniais e refletissem nas suas obras a própria aspiração das harmonias supremas em que se compraz o Espírito Imortal.

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Temos chegado hoje a tal grau de materialismo, que é co­mum ouvirmos falar em "política do espírito", em "prazeres do espírito", em "aspirações do espírito", quando se quer referir ao cultivo da música, da pintura, da escultura, da arquitetura, das artes aplicadas, do romance, do teatro, da poesia. Essas rimas de expressão, porém, são meros instrumentos da sensibilidade no esforço interpretativo do Universo. Delas o Espírito muitas vezes se serve, mas nem sempre, porquanto esses instrumentos podem ser utilizados em detrimento do próprio fim último do Homem.

O que vale, como base de civilização, isto é, de convívio harmonioso dos seres racionais, são os valores éticos e estes de­- correm, forçosamente, de um conceito da Alma Humana, não tomada como simples coordenação de forças vitais, ou complexo de faculdades e forças postos em evidência pelo organismo, po­rém com substância e realidade.

Tanto mais existe civilização quanto mais predominam os valores espirituais. São esses valores que despertam a consciência jurídica dos povos, o mútuo assentimento de inpíduos entre si e nações entre si, no sentido de respeitar legítimos direitos ine­rentes a cada qual, mediante a aceitação de recíprocos deveres. A fonte do Direito é, pois, o próprio amor, a unir os membros da mesma família; a conciliar persas famílias e inpíduos de fa­mílias diferentes; a vincular inpíduos e famílias aos interesses e aspirações da coletividade pátria; e, finalmente, a congregar as pátrias sob o pensamento dominante da concórdia e da paz.

Essa tendência à perfeita harmonia tem origem exclusiva­mente espiritual. Se nos deixarmos levar pelas normas mudáveis de uma moralidade baseada no que a ciência julga útil, oscilare­mos constantemente ao sabor das hipóteses decorrentes de reno­vadas experiências, a cancelar verdades provisórias e substituí­veis por outras verdades igualmente efêmeras consoante revisões e novas pesquisas.

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Uma humanidade que, na vida privada, na vida familiar, na vida social de cada um de seus membros, pôs de lado o respeito a Deus e àdestinação suprema de cada ser humano, cai forçosamente na barbaria.

Não erraremos dizendo que o mundo de hoje está imerso em plena barbaria. Nunca a História assinalou maior Idade de Trevas. Todas as delicadezas e cavalheirismos da Idade Média (incontestavelmente mais luminosa do que a época presente) de­sapareceram nos dias atuais. Basta dizer que hoje as populações civis, inclusive mulheres, crianças, velhos e enfermos, estão mais sujeitos ao furor do extermínio do que os próprios soldados nos campos de batalha. Isto é suficiente para patentearmos aos se­nhores materialistas cienciocratas, fanáticos da superstição cien­tífica, a barbaria a que nos trouxeram suas doutrinas sociais e políticas, a selvageria ignóbil em que afundaram as nações.

Os homens perderam inteiramente a noção do que seja ci­vilização e regressaram com seus laboratórios, usinas e maquinismos, ao período pré-histórico do troglodita. Proclamam que defendem a civilização; mas, que civilização, senhores?

O próprio paganismo não chegara a tamanha miséria. Os politeístas do mundo antigo tinham atingido, pela intuição do Bem, a tipos de convívio social e internacional, sob certos as­pectos superiores aos dos dias em que vivemos. Sem possuir uma idéia perfeita de Deus e do destino supremo do Homem, aqueles povos tinham presente, nos seus atos, o conceito de uma sobrenaturalidade que os elevava acima dos irracionais. Mas hoje caímos na irracionalidade, postergando todos os valores morais e subordinando-nos ao critério do predomínio dos economica­mente mais fortes e dos mais aparelhados em máquinas e armas. As fontes fundamentais do Direito tendem a reduzir-se ao pos­tulado execrável dos juristas do nazismo, quando afirmaram que a lei é a vontade do "Führer". Esse postulado, que se inspira em Nietzsche, domina a vida internacional e também a vida nacional de cada povo, influindo na moral privada, na moral comercial, na moral política. Associam-se o pragmatismo de Ja­mes, a loucura de Zaratustra, a filosofia do êxito à moral do interesse dos utilitários, e os homens caminham alucinados para a própria destruição do gênero humano.

Cada um dos homens destes tempos selvagens procura uni­camente realizar-se, satisfazer o seu egoísmo, e por isso não co­nhece mais as leis da honra, mas apenas as do triunfo, seja por que caminho for. As mulheres e as famílias da classe média são arrastadas por uma nova espécie do bovarismo, na sede crescente de uma ostentação cujos exemplos vêm das classes plutocráticas, essa nobreza de enxúndias e sensualidades que se ergue como índice de uma época de dissolvências e degra­dações.

O homem selvagem dos nossos tempos selvagens é geralmente um mau pai, um mau esposo, um mau patriota, um mauprofissional de qualquer profissão. Vivemos a época dos tuba­rões e dos macacos, das serpentes traiçoeiras e dos tigres ranco­rosos. O gênero humano animalizou-se na mais baixa irraciona­lidade. Énatural, portanto, que dessa horrorosa selva saiam homens públicos hipócritas, políticos perversos, intelectuais pros­tituídos, homens e mulheres sem o mínimo senso de responsa­bilidade.

Desse mundo não pode sair a Paz. Esse mundo é de guerra. Nessa pavorosa Babel, os homens não se entendem. E se civili­zação é convívio, respeito a direitos e deveres, compreensão re­cíproca entre inpíduos e nacionalidades, quem poderáa menos que seja um louco afirmar que o século XX é civi­lizado?

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Das duas uma: ou o homem readquire a consciência do seu verdadeiro destino sobrenatural e age em conformidade com essa consciência, ou então nenhuma esperança restará aos ator­mentados dias em que vivemos; antes ficar-nos-á a horrível cer­teza da destruição de tudo o que nos resta das construções do Espírito, já que o Homem, renunciando à glória de ser filho de Deus, prefere ser o gorila evoluído e, por sua espontânea vontade, a repelente Besta Humana.


Plínio Salgado

Nota:
[1] Extraído de:
O Ritmo da História, Obras Completas, vol. 16, pág. 41.



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