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Fisionomia

(1931)

Se volvermos a nossa objetiva para focalizar o plano da mentalidade brasileira, vamos encontrar os aspectos mais varia­dos a curiosos, que demonstram a ausência completa de dire­trizes uniformes. Evidentemente, não nos referimos aos tipos mais representativos da nossa vida mental, pois em todos os países e em todos os tempos os valores intelectuais se distin­guem pela sua fisionomia própria, bem destacada. Cada escri­tor, cada filósofo, ou artista, revela, exprime uma modalidade do pensamento e uma tendência de sensibilidade. Não é pos­sível pretender que todos sejam iguais, que todos se afinem pelo mesmo temperamento.

Não nos referimos, portanto, aos homens índices, às organi­zações destacadas de animadores das massas. Ao pretendermos focalizar a mentalidade brasileira, abrangemos, de um modo geral, as grandes linhas médias nas quais podemos incluir desde o expoente mental ao cidadão menos culto, desde o erudito ao simples leitor dos jornais.

A mentalidade de um povo é a média das tendências gerais das classes versadas na leitura da imprensa e dos livros. E é esse conjunto, justamente, que serve de objeto a estes ligeiros comentários. Nele vamos encontrar, antes de tudo, um caracte­rístico fundamental: a tendência irresistível para a discordância.

* * *

Nunca um brasileiro leitor de jornais ou de livros deixa de objetar. Os pontos de vista pessoais multiplicam-se. Cada um tem o seu modo de ver, a sua filosofia, a sua opinião, os seus remédios. Eainda quando dois patrícios estejam de acordo numa determinada atitude, esse acordo exprime uma interini­dade frágil, porque não passa de um "modus vivendi" eventualíssimo, dentro do qual cada um aguarda a ocasião para se libertar das idéias do outro.

No fundo de todas as alianças, há uma intenção de apos­tasia aguardando a oportunidade. Todas as atitudes "em con­junto" trazem o rótulo de um "por enquanto" em que se traduz a incidência de circunstâncias passageiras.

Dificilmente se podem estabelecer correntes de opinião, a não ser diante de fatores concretos e imediatos, que obriguem a decisão rápida e a escolha instantânea,que operam a pisão em dois termos, sem tempo para que a imaginação trabalhe criando objeções.

Pois é a imaginação, possivelmente, o grande fator de dissociação das massas brasileiras e do permanente fenômeno de desagregação da opinião pública, a que assistimos, dia a dia. Essa imaginação trabalha com tal intensidade que o pactoespiritual mais firme se abala e se transforma em poucas horas.

* * *

Sem ser um povo de contemplativos, somos uma nação de imaginativos. E essa mesma imaginação que sabe criar tão pode­rosamente, sabe aniquilar e pulverizar com a presteza dos relâm­pagos. De sorte que o brasileiro oscila continuamente entre arre­batamentos e depressões, períodos de exaltação heróica, seguidos de marmóreas apatias e céticos desânimos.

Os grandes estados de espírito nacionais, as paixões par­tidárias, os sentimentos de ódio e vingança, de amor e de entu­siasmo, passam sobre nós como as ondas de frio ou calor, pro­duzindo seus efeitos com rapidez assombrosa, mas desapare­cendo tão rapidamente que não deixam vestígios.

É que esses estados de espírito coletivos são largos rebojos onde o inpíduo repousa e onde toda atividade da imagi­nação se anula. É preciso que se operem deslocamentos e se efetivem movimentos, porque o nosso espírito é irrequieto. Co­meçando a apreciar os fatos sob uma multiplicidade estonteante de prismas, o brasileiro termina por se desinteressar deles com uma gelidez e indiferença apenas comparáveis ao calor da paixão inicial. É que o fato socializado na consciência coletiva defor­ma-se à consideração isolada de cada inpíduo e passa a cons­tituir, não mais um único fato, mas tantos quantas imaginações o focalizam.

* * *

Essa feição generalizada da mentalidade brasileira é a vaga por onde perpassam as correntes de idéias, sem que nenhuma exerça uma predominância absoluta. Em nenhum país do mundo é mais fácil a introdução de qualquer ordem de idéias. A novi­dade empolga nos primeiros instantes e parece que a vitória foi a mais completa possível. Basta, entretanto, esperar um pou­co, para que a desilusão seja total.

As nossas próprias leis são recebidas sempre sem revoltas porque cada cidadão está convencido de que poderá burlá-la, segundo o seu modo de ver e de interpretar. A doutrina pode subsistir enquanto não se põe em contato direto com o fato. Então, começamos a presenciar até na jurisprudência dos nos­sos tribunais a fragilidade da idéia em face do objeto. Não se firmam no Brasil, ainda quando decorram de idéias substanciais pacíficas. Tudo, no Brasil, sofre a pressão de um ritmo intelec­tual sem constância, cedendo à mutação permanente do pro­cesso mental.

A tendência da mentalidade brasileira, pois, é para não assumir compromissos definitivos. Ora, os compromissos tran­sitórios só se possibilizam nos domínios dos interesses mais materiais ou das razões sentimentais, motivo por que o brasileiro, no plano mental, apresenta-nos a paisagem curiosa de uma heterogeneidade inconciliável.

Constituirá isto um defeito ou uma qualidade? Seja lá como for, ao estudioso das questões brasileiras não pode passar sem registro muito especial a circunstância de fracassarem aqui todos os programas, todas as ideologias, tudo o que provenha dos pla­nos da inteligência, do raciocínio, da razão. Queixam-se os comunistas e queixam-se os católicos, queixam-se os socialistas e queixam-se os liberais-democráticos, queixam-se todos os que desejariam sistematizar os movimentos sociais e políticos do Brasil.

Temos vivido num empirismo, numa improvização diária, sem objetivo nem finalidade.

O Brasil é a instabilidade, a dúvida, a confusão, se o apre­ciamos sob o aspecto mental; como é a complexidade, a simul­taneidade de movimentos, se o consideramos do ponto de vista econômico, étnico, e principalmente partidário.

É,sobretudo, o país das interinidades sucessivas.

E, entretanto, há, inegavelmente, uma unidade brasileira. Que cumpre pesquisar, cujos fatores cumpre revelar, cuja força é necessário captar, e dirigir. Não a procuremos nos domínios da inteligência, que não pôde, até hoje, ser disciplinada. Ela está antes no sentimento nacional.

Os homens de pensamento e de ação que desejarem reali­zar aqui qualquer sistema, não basta que conheçam as teorias, as leis desse sistema, ou que se conservem nas grandes idéias gerais; eles necessitam penetrar a fundo este povo para procurar, no terreno movediço da opinião e do próprio caráter brasileiros, os pontos de apoio sem os quais se torna impossível qualquer obra duradoura.

Falharão todos os que pretenderem formar a consciência nacional sobre uma base exclusiva de cultura, porque a "massa" lhes fugirá das mãos, fracassarão quantos pensem coordenar exclusivamente o sentimento, porque perderão o controle da "massa" na hora de realizar. Errarão os que surgirem apenas em nome de uma teoria, de um sistema, como serão inúteis os que encararem tão-só as realidades práticas e imediatas.

O problema brasileiroé muito mais difícil do que os da Rússia, da Itália e da Alemanha. Os modelos de Lenine, de Mussolini e de Hitler, suas estratégias, seus processos não valem nada no caso do Brasil.

* * *

A geração nova precisa estar convencida de que o "homem" que ela deverá engendrar não poderá ser uma só coisa: um caudilho, um cabo eleitoral, um santo, um cientista, um filó­sofo, um agitador, mas um pouco de tudo isso.

Em 1923, escrevi: "Nós somos o Curupira das mil feições. Somos crentes e incrédulos, valentes e medrosos, inteligentes e bobos, perversos e bondosos — tal e qual o demônio das flo­restas... O Curupira ou Caaporaé a própria alma nacional, na sua inquietude permanente, renovando-se cada noite".

Se assim é a alma nacional, cumpre aos que pretenderem domá-la e conduzi-la para um grande destino possuir as intui­ções profundas capazes de inspirar a articulação segura dos múltiplos fatores que atuam no formidável complexo desses qua­renta milhões de habitantes.

Nem tudo é "luta de classe", como pensam unilateralmente os marxistas esquecidos de que nas próprias estratificações étni­cas palpitam ignorados remanescentes de antagonismos raciais. Nem tudo é um problema de cultura e nem tudo é uma ques­tão de sentimento.

Quando as forças numerosas dos íntimos recessos da nacionalidade brasileira se polarizarem numa consciência, então esta comandará a Pátria para um luminoso destino histórico.

Neste ponto o problema será de cultura, se tomarmos a cultura como síntese de conhecimentos, de finalidade espiritual, de compreensão de necessidades e de modalidade sentimental.

Criar essa cultura será formar uma "elite" de onde sairão os médiuns da Nação.

O movimento da nova geração terá de conter vários movi­mentos simultâneos: de coordenação dos sentimentos da "mas­sa"; de relacionalização de necessidades materiais comuns a todos os pontos do país; de unificação do pensamento nacional segundo um sentido de finalidade; de disciplinação dos movi­mentos sociais; de libertação das forças tradicionais agora sub­jugadas a um cosmopolitismo opressivo.

Não será com um pragmatismo ridículo e com medidazinhas administrativas do empirismo governamental, nem com a mera consideração parcial dos fenômenos que poderemos plas­mar na argila amorfa de quarenta milhões de habitantes o corpo harmonioso e forte de uma gloriosa Nação.


Plínio Salgado

Nota:
[1] Extraído de:
Despertemos a Nação, Obras Completas, vol. 10, pág. 87.



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