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O destino das Américas

No meu livro "O Estrangeiro", publicado pela primeira vez em 1926, escrevi as seguintes palavras:

"As instituições americanas repousam na rocha viva dos direitos do Homem. Quando desabar o dilúvio russo, as suas últi­mas ondas virão morrer aqui, de encontro a esta parede da Imigração, onde há um dístico, à maneira de sentença, a enci­mar um arco de triunfo. E a América, então, reconstruirá o que estiver destruído no mundo".

No albor da minha juventude, senti o destino dos povos americanos, quando mal se esboçava, no Brasil e no Hemisfério Ocidental, a propaganda das doutrinas políticas consubstancia­das mais tarde em instrumentos de dominação manobrados por povos estrangeiros.

O tema central daquele romance, tão discutido na época do seu aparecimento, era o choque entre a concepção do "jus sanguinis" das correntes imigratórias e a do "jus soli" em que se exprimiam as forças da terra e da tradição histórica da nossa Pátria, absorvendo os elementos alienígenas e integrando os seus filhos na comunhão nacional brasileira.

O herói do livro é o professor primário Juvêncio, atirado no sertão, a ensinar o alfabeto e o Hino Nacional aos filhos de italianos, espanhóis, portugueses, alemães, sírios, japoneses, po­lacos e balcânicos, incutindo-lhes o sentimento da Terra Jovem e, ao mesmo tempo, empenhando-se em luta contra instituições culturais advenas, escolas e outros variados meios de influência exercida, pelas respectivas nacionalidades de origem, sobre a formação dos pequeninos novos brasileiros.

Doloroso é o drama de Juvêncio, pois contra ele, contra a sua atividade, reagem mais fortemente do que a ação dos pró­prios estrangeiros o "charlatanismo da política imperante" con­figurado na personalidade do major Feliciano, que é um opor­tunista, hoje perfeitamente adaptável a qualquer dos partidos em que apodrece o povo brasileiro; e o "alheamento dos inte­lectuais", fazendo arte pela arte, em suas torres de marfim, como o personagem Eugênio; e a desorientação ideológica, desse confusionismo nitidamente estrangeiro e, por isso, fixado, no livro, na figura de um russo, Ivan, o tipo acabado e fotografi­camente idêntico dos portadores de teorias que infestam as co­lunas dos jornais, das revistas e as tribunas das conferências em que se expendem as idéias da moda.

Juvêncio reage, ao mesmo tempo, contra outros males, outras doenças: a decadência das famílias antigas, cujos descen­dentes cedem o passo ao arrivismo de todos os aventureiros; a imoralidade imperante no meio social brasileiro; o abandono das populações nacionais no vastíssimo território; a futilidade dos espíritos, dissolvidos no comopolitismo; e a geral incapaci­dade, dos próprios patriotas, quando, pretendendo ser brasilei­ros, não sabem dar vida às tradições, atualizando-as, estabele­cendo a consonância do Passado e do Presente, segundo as cir­cunstâncias novas da História.

Mas, apesar de tudo, Juvêncio crê na sua Pátria. A figura de Zé Candinho, o caboclo derrubador de floresta, é ainda uma esperança. E, portanto, após todas as amarguras em que trans­corre a teia do romance doloroso, o mestre-escola escreve, na última página, a síntese do seu pensamento:

"Não o sonho-inpíduo, o sonho-parcela das experiências de Ivan, oriundas de um estado pessoal; mas o sonho-país, filho espontâneo da terra e da raça. Porque eleé o milagroso equilí­brio, que mantém de pé os homens e os países, evitando a ex-

plosão de latentes forças em luta, nos irremediáveis desmoronamentosda personalidade!"

* * *

A idéia central de "O Estrangeiro", a idéia decorrente das críticas ali expendidas e dos episódios dramáticos ali narrados, é a da necessidade de se criar uma consciência nacional, fundindo todos os valores humanos encaminhados para o Brasil, no cadinho geográfico, sob a pressão do nosso passado histórico e das realidades do Novo Mundo.

É idéia de Tradição e ao mesmo tempo de Atualidade; de consulta ao temperamento de um povo e das aspirações por ele reveladas desde o Descobrimento e a Colonização, desde o Bandeirismo e o alvorecer da alma nacional no século XVII, até o movimento de Independência e os anseios de construção nacional a partir dos fins do século XVIII aos primeiros decênios do século XX, construção essa que se esboça e lentamente se opera no campo das realizações materiais e das estruturas jurídicas.

Todos esses passos da vida nacional conjugam-se por impositivos do próprio nacionalismo — com as realidades continentais, com o espírito do Novo Mundo.

Não estamos isolados no Continente. Somos um povo so­berano, mas as nossas atitudes internacionais conformam-se ao ritmo de um pensamento comum dominante das consciências das nacionalidades da América.

Constituindo personalidades nacionais invioláveis, de intangível soberania, unimo-nos, os povos do Hemisfério Ocidental, na defesa dos mesmos princípios, sustentando idênticos direitos. Assim unidos e reciprocamente defendendo-nos das ideologias contrárias à nossa formação moral, corre-nos o dever histórico de formarmos uma intransponível barreira ao imperialismo doutrinário cujo triunfo redundaria na transformação de nossas Pá­trias em meros países, na substituição do conceito de Nacionali- dade pelo de povo dominado, povo sem caráter próprio, mísero rebanho tangido pelo arbítrio de invasores.

Considero, por conseguinte, o meu livro "O Estrangeiro", o primeiro grito que se ergueu, nas duas Américas, contra o "jus sanguinis" das políticas imigratórias, o primeiro brado de alerta, contra as futuras minorias raciais, e também o primeiro aviso sobre o perigo (hoje aos olhos de todos) do "dilúvio russo" cujas "últimas ondas virão morrer aqui", neste Hemisfério Oci­dental.

* * *

Eis porque, retomando a palavra com que encerrei as pá­ginas de "O Estrangeiro" em 1926, venho chamar a atenção dos meus patrícios: 1.°) para que verifiquem se tudo quanto foi previsto naquele livro deixou de acontecer vinte anos depois, com mais carregadas cores do que a minha própria previsão; 2.°) para que assumam, ao menos agora, apesar de tão tarde, uma atitude de brasilidade pura e do mais vivo espírito de americanidade.

"A América reconstruirá o que estiver destruído no mun­do", lá está escrito; mas para que essa reconstrução se opere, urge redobrarmos o esforço no sentido de tornar uma realidade política viva os objetivos da política pan-americana.

Não basta que a diplomacia realize convenções e tratados, firme regras de conduta nas Conferências em que tomam as­sento os representantes dos povos do Novo Mundo. Cumpre que esses mesmos povos formem segura opinião sobre a política da solidariedade continental e de tal forma seja nítida e segura essa opinião, que adquira a eletrizante força dos sentimentos capazes de levantar as multidões.

Está em perigo no mundo, sob a ameaça de uma falsa de­mocracia e de uma falsa liberdade, o verdadeiro fundamento da democracia e da liberdade. Encontramo-nos já em plena
guerra, uma guerra "au bon marché", sem dispêndios de mu­nições e de abastecimentos de tropas. A guerra nazista, que nos ameaçava com suas doutrinas de minorias raciais, iniciou-se com maiores despesas para os seus promotores: a anexação da Áustria e da Checoslováquia, a conquista da Albânia, a partilha da Po­lônia com os russos, foram autênticas operações militares, com mobilização de tropas e estratégias espetaculares. Mas a guerra atual, em que já estamos sob todas as aparências de um caráter meramente político, atinge os mesmos objetivos nazistas, pelo processo das falsas eleições a erigirem governos tipicamente tri­butários do imperialismo soviético, ou dos ostensivos golpes de Estado de feição fenomenal dissimuladamente interna, mas pro­duzindo os mesmos efeitos de subjugação de soberanias peculia­res específicas aos impositivos do arbítrio externo.

Quando metade da Europa se encontra inteiramente escra­vizada, é tempo de despertarem os povos da livre América, para afirmar seus princípios políticos sustentados por homens como Washington, Franklin, Lincoln, Bolívar, Sucre, Hidalgo, San Martin, José Bonifácio, Pedro I, esses gigantes do nosso pas­sado comum, que estão exigindo de nós a continuidade da sua obra imortal.

* * *

Mas a solidariedade americana não deve ser apenas um sentimento poético, mas também um pensamento baseado em realidades objetivas.

Só com os olhos na realidade conseguiremos a mútua com­preensão, a ajuda recíproca, a fraternidade indispensável como base da defesa comum. Os compromissos de comparticipação nas agruras das guerras não poderão ter nenhuma solidez se não forem precedidos pelos compromissos para os tempos de paz. Esse entendimento mútuo cinge-se a interesses econômicos das partes, as quais devem coadjuvar-se no sentido da prospe­ridade de cada membro dos acordos coletivos. 

O Criador dispôs de tal sorte a natureza do Novo Mundo, que o nosso continente se estende longitudinalmente, o que re­presenta, do ponto de vista geográfico-econômico, uma condição favorável à Paz. E não somente dispôs Deus essa admirável es­cala de latitudes, que partindo das regiões árticas, vai às tem­peradas do Norte, e às tropicais a cingir, por ambos os lados, a linha do Equador, e prolongar-se às regiões temperadas do Sul, até encontrar, de novo, as geleiras austrais —, mas ainda conformou os sistemas orográfico e hidrográfico de tal sorte que os povos da América Latina encontraram nas montanhas e nos rios as fronteiras naturais de suas soberanias.

Nessa amplitude continental, as produções básicas como a indicar a ajuda recíproca, variam consoante os próprios limites políticos, circunstância extraordinária, que elimina os atritos da concorrência e indica soluções pacíficas ao intercâmbio dos povos.

Geologicamente, a variedade dos produtos do subsolo pres­ta-se a um regime de trocas, o qual se não sofrer a interferência de idéias catastróficas de predominância de umas nações sobre as outras, pode servir para novos motivos de entendimentos amigáveis.

Mas se algum povo da América, abstraindo da natureza e do potencial de seus recursos econômicos próprios, entender querelar com algum vizinho por ter olho sobre alguma de suas riquezas, então os povos do Novo Mundo, contraindo a cons­ciência jurídica legada aos pósteros pelos nossos ascendentes signatários dos Tratados do século XVIII, que consagram o ut possidetisinterpretativo das realidades da Geografia e da His­tória —, entrarão pelo caminho das agressões conjuntivas, que enfraquecerão todo o Continente em face dos conquistadores que o ambicionam.

* * *

Vivemos uma hora grave, em que nenhum de nós, povos da América, sob o pretexto de que à planificação de nossa obra administrativa e progressista falta algum elemento existen­te no solo ou no subsolo de algum vizinho, poderá valer-se dos pretextos do lobo, para obter pela guerra aquilo que poderia ser obtido em contratos pacíficos de interesses conjugáveis.

A persidade das nossas produções básicas, eliminando a concorrência que é motivo de guerra, não deve ser causa de despeitos, mas razão de entendimentos pacíficos, na conformi­dade não apenas das partes contratantes, mas de acordo com os interesses coletivos de todas as nações do Novo Mundo.

Quanto ao progresso de cada nação, não devemos ser daqueles que têm mau olho porque o boi do vizinho está gordo, enquanto o nosso está magro e cheio de carrapatos. O que nos cumpre é engordar o nosso boi e felicitar o vizinho peto fato de o seu andar nédio e limpo.

Se somos descurados, regozijemo-nos de ter à mào paradigma por onde nos corrijamos e andemos antes na emulação pacífica do progresso do que nos percamos em lamúrias recriminativas. Se perdermos tempo em vã politicagem, não nos fa­çamos de modelo a forçar os outros, nem culpemos os mais ex­peditos por se utilizarem de idéias muitas vezes nascidas em nosso meio e desprezadas pelos a quem importava aproveitá-las.

A União das Américas deve estimular-se pelo regozijo de todos os países pelo progresso de cada um. Deve inspirar-se no ideal de liberdade que a quantos nasceram sob o sol do Novo Mundo cumpre cultivar. Deve animar-se da certeza de que da paz em que vivermos e da solidariedade em que nos conju­garmos depende a própria salvação da Humanidade.


Plínio Salgado

Nota:
[1] Extraído de: O Ritmo da História, Obras Completas, vol. 16, pág. 191.



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