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O último ocidente

Que temos feito de nossa América, desta América Latina, que se estende desde o México até aos extremos confins da Terra do Fogo, e que é como um permanente mistério, desafiando o seu decifrador?

A quem competirá encarar esta Esfinge, face a face, des­vendando seus segredos? Que força poderá, surdindo das pró­prias energias cósmicas do vasto Continente, dominar a selva, os largos panoramas eriçados de cordilheiras e cortados pelo dé­dalo das imensas bacias hidrográficas, assenhoreando-se dos complexos raciais e penetrando o enigma de um destino histórico?

Mais do que nunca, o sonho de Bolívar resplandece na hora presente, com sua poderosa intuição, que ainda não era a revelação total, mas que indicava, certamente, ao futuro, o ca­minho a seguir.

Hoje, meditando sobre o sentido histórico de tudo o que tenho feito, sinto, no trabalho que iniciei e em que prossigo, o reatamento de uma tendência abandonada, neste paralelismo sin­gular em que, cada vez mais, me identifico, da maneira mais absoluta, ao sonho de um homem que, sem o perceber, apinhou esta nossa marcha, este anseio de construção e de libertação dos primeiros homens do século XX, que afloraram no Brasil.

* * *

A História tem seus caprichos. Quando Simão Bolívar ten­tou a realização do Congresso do Panamá, que traçaria os gran­des lineamentos da unidade americana, o Brasil, pelo seu caráter, pela sua índole, pelo processo de sua independência, que se operava sem solução de continuidade no encadeamento dinástico, era um expectador, quase, do grande movimento que também se operava ao Norte, em Nova Granada e Colômbia, irradiando-se por toda a América Latina.

O esforço de Bolívar foi inútil. O sonho do Libertador esbo­roou-se nas ruínas das pequenas repúblicas onde o caudilhismo reagia contra todo o princípio de unidade. Um século decorre. A América do Sul e toda a América Central estão escravizadas, convulsionadas pelas revoluções de quadros, pelos golpes de Estado, pelas ditaduras periódicas, pelas dissensões partidárias.

Nesse ambiente de desagregação geral, intervém livremente o imperialismo econômico-financeiro. Lutam, no teatro da nossa América, as companhias exploradoras do petróleo; lutam os inte­resses mais contraditórios de latifundiários, de industriais, de banqueiros; e, dominando tudo, o supercapitalismo de Londres e Nova York, governando as moedas de cada um dos nossos países, decidindo sobre os próprios destinos políticos das nacionalidades, pesa sobre nós como um permanente pesadelo.

Ao mesmo tempo, a mentalidade da América Latina sente-se assoberbada, esmagada por uma cultura que envelhece no Mundo Antigo e, sem nenhum motivo, nós, americanos, carregamos, como Zaratustra, sobre nossos ombros, o cadáver da Europa.

E, como a civilização litorânea, ou dos grandes centros populosos, deixou-se infiltrar demasiadamente pelo espírito do Ocidente Europeu, sofremos o sopro de desagregação que trás o cheiro pútrido das batalhas mortas ao céu de um outro hemis­fério.

Dessa forma, todo o sentido mesquinho da dialética em que se consumiu a sociedade, a economia, a política, no último palco da civilização ocidental, penetra o corpo moço e virgem da América e toleramos a propaganda desenfreada do mais grosseiro materialísmo e do espírito da decadência, que nos chegam atra­vés da literatura, da pintura, da arquitetura, como através da política, da economia e da finança.

Que temos feito de Nossa América? Eis uma pergunta que dirijo a todos os povos deste Continente, porque sinto, no meu esforço e na própria fatalidade da minha vida, a continuação daquele estado de espírito que arrebatava Bolívar na aurora da independência política dos povos americanos.

* * *

Que pretendia Simão Bolivar? Ele mesmo saberia a que forças desconhecidas era forçado a obedecer? A observação de Merejkovsky sobre Napoleão, isto é, que há uma parte da alma humana inacessível e misteriosa, que governa os homens sem que eles mesmos percebam a razão mais profunda de suas atitu­des, é realmente digna de exame. O autor da vida de Napoleão atribui ao Imperador uma alma desconhecida, que procura expli­car dizendo que possivelmente fosse a "alma da Atlântida", ou, servindo-se da expressão delirante de Nietzsche, a "encarnação do deus-sol". Tudo isso serve para compreendermos a "outra alma" de Bolívar, aquela que o arrasta pelo caminho da fatalidade.

Bolívar tem duas almas, fundidas numa só. A alma humana, a sofredora alma dilacerada, e a alma-cósmica, a alma-continetal, a alma-da-América. Basta ver Bolívar nas duas linhas paralelas de sua vida, até os últimos dias: a primeira, uma contínua sucessão de aventuras vulgares em que desabafa, materialisticamente, o sentimento espiritual recalcado; a segunda, quando sobe ao Chimborazo e desce de lá com a página arrebatadora de uma luminosidade sideral ofuscante: é o Semi-deus, o intérprete de um Mundo Novo, o Arcano, fulgurando nos séculos.

Ninguém foi mais infeliz do que Bolívar, com o tempera­mento que possuía e seu coração generoso influenciado, princi­palmente, pela atmosfera romântica do seu tempo. As felicidades mais comuns lhe foram negadas e não lhe faltou nem mesmo a traição dos que estiveram mais próximos dele. A massa popular, porém, compreendeu-o nas grandes apoteoses, nas aclamações como a de Caracas, na fascinação com que o acompanhava. Sen- do um homem que tinha a visão dos grandes panoramas, à seme­lhança dos condores americanos, o vôo rasteiro do caudilhismo e da politicagem não pôde compreende-lo. Morre, vendo a América esfacelada, seu grande sonhoesboroado. Todo o seu sacrifício inútil.

* * *

Inútil? Perguntamos hoje, nós, os integralistas brasileiros. E respondemos: "Não, Bolívar, teu sonho não foi inútil. Ficou na América, para sempre, como uma indicação de rumos. Hoje, nós o deciframos e começamos aqui, exatamente no Brasil, que foi alheio ao teu movimento, por um capricho singular da His­tória, uma obra que, bem examinada, é uma continuação da tua".

Exprimir a alma da América. Tornar essa América livre, realmente livre, como a desejou o Libertador, eis o grande ideal que nos arrebata nos dias presentes.

A nossa campanha, hoje, se realiza no sentido inverso da luta bolivariana. Naquele tempo, urgia quebrar os elos das me­trópoles. Todos os países tinham de se levantar, preliminarmen­te, em armas, para cortar violentamente as amarras. Em seguida, seria o esforço político de construção. Esse esforço político es­barrou com muitas realidades criadas pelas distâncias que en­gendram os caudilhismospartidários. Tinha de encontrar óbices no próprio sentido de desagregação que vinha no bojo das dou­trinas políticas de Rousseau. Devia chocar-se com a própria mentalidade das reduzidas "elites" formadas ao sabor europeu. E a própria organização anterior das colônias agia como um im­perativo contra qualquer idéia de unificação, de unidade. Hoje, em nosso tempo, não devemos principiar pelas armas, porque somos nações econômica e tecnicamente inferiores às grandes potências. Temos de reatar o fio da política bolivariana, ini­ciando, porém, a campanha por um esforço no sentido de uma unidade sentimental, cultural e econômica. Essa unidade deve fundir todos os instintos bárbaros da América, deve sintonizar as vozes ignoradas, aquelas mesmas que falaram aos ouvidos do Libertador. A criação dessa unidade cultural, moral, econômica, exige uma racionalização da democracia, uma disciplinação de liberdade, a fim de que se possa criar na América, antes de tudo, os governos-índices, os governos fortes, os governos auto­ritários, mantenedores das liberdades públicas e disciplinadores das liberdades privadas que atentam contra as públicas e hipertrofiam o poder de opressão em inpíduos e grupos de indi­víduos em detrimento de outros inpíduos e grupos. A criação das autoridades nacionais é o primeiro passo para a indepen­dência definitiva da América. Essa obra política deve operar-se paralelamente à criação de uma cultura genuinamente americana. As energias do "homem telúrico" de Keyserling devem ser cap­tadas e dirigidas num sentido de libertação das tiranias intelec­tuais do Velho Continente.

Estamos vivendo o século, por excelência, da América do Sul. O século da "intuição". Depois de um século de experimen­talismo, que se tornou tão dogmático como todos os aprioris­mos por ele combatidos, chegamos ao limiar de uma Era que, sem abandonar os métodos dedutivos, servindo-nos ao mesmo tempo dos métodos indutivos, reclamamos para a "outra alma" humana, para os limbos ignorados onde clamam vozes imposi­tivas, um lugar de predominância. Não se trata de ecletismo, que corresponderia, em química, a uma "mistura", mas trata-se de síntese, que corresponde a uma "combinação".

Neste instante do mundo, nenhum continente está mais em condições de ingressar na Grande Era, de que o século XX é o início, como está a América do Sul. Afirma-o, com a insuspeição de americano do Norte, o escritor Waldo Frank.

É o Continente virgem e inexplorado. São as imensidades de florestas, os panoramas longamente abandonados, desde as épocas mais remotas. É o Continente onde se processam as fu­sões, os caldeamentos de todas as raças humanas, e nós sabemos o que são as sub-raças, como força, em "estado nascente". É o Continente da continuidade geográfica expressiva, de mais espantosa continuidade geológica, florestal e floral. É todo um mundo subconsciente que se conservou adormecido sob as exterioridades políticas e literárias com que nos temos iludido durante mais de um século. É o meioétnico, trazendo do fundo das energias autóctones, o poema misterioso que se revela na unidade da teogonia selvagem e até na identidade das raízes vocabulares dos idiomas também em estado nascente. É o Con­tinente solar, que traz ao seio a linha do Equador, como um estranho colar de luz, e sobre a cabeça o trópico de Câncer como um diadema, e ao ventre o cinto luminoso do trópico de Capricórnio, e por isso, no recesso da alma guarda, ignorado de si próprio, o culto dos velos Incas pelo Sol.

O berço do gênero humano, conforme lembrou Alberto Torres, é a região tropical. As migrações das primeiras raças só se deram em conseqüência de cataclismos. Hoje, a América La­tinaé a grande região do mundo onde, por uma fatalidade que encontra a sua explicação na aurora dos tempos, todas as raças se reúnem, como se este encontro estivesse marcado, desde o desaparecimento da Atlântida, para o alvorecer de uma civili­zação que não terá nada de comum com as outras.

* * *

Nenhum documento político é mais belo, dentre os que saíram da pena de Bolívar, do que aquela página puramente literária que ele escreveu depois de se ter perdido num grande êxtase nas grimpas do Chimborazo. Aquela culminância ame­ricana é a montanha da Transfiguração. É o sentimento pro­fundo de Deus e do Universo, da América e da Humanidade, da Terra e do Homem.

A obra do Integralismo Brasileiro representa hoje uma fa­talidade daquele sentimento, dos instintos da terra, a revelação das vozes abafadas da massa humana do Continente.

Que temos nós, nos dias presentes, com a chamada Civi­lização Ocidental? Nós não somos os veladores de cadáveres.

O penúltimo Ocidente está morto. O Oriente marcha sobre ele como o cavalo de Átila.

Nós, porém, somos o Último Ocidente. E porque somos o Último Ocidente, somos o Primeiro Oriente. Somos um Mundo Novo. Somos a Quarta Humanidade. Somos a Aurora dos Tempos Futuros. Somos a força da Terra. Somos, novamente, o que foram, em Eras remotíssimas, aqueles que escreveram no céu ahistória da sua marcha, iniciada na porta luminosa de Áries pelo roteiro zodiacal.

Sem orgulho, sem vaidades estúpidas, sem afetação, mascom espontaneidade e tão simples, e humildes como as estrelas que brilham naturalmente, e as fontes que correm tranqüilas, ó integralistas do Brasil, que deveis acender a chama verde no Continente Americano, podeis dizer:

"Aristóteles pensou para nós; Cristo deu-nos a alma; César e Napoleão foram nossos precursores; Simão Bolívar, o nosso anunciador; a América é o nosso Império; e nós somos aquele povo longamente esperado e que inicia, quase imperceptivelmente, a sua entrada nas Eras Humanas, porque o astro de nosso destino já resplandece no céu".


Plínio Salgado


Nota:
[1] Extraído de: Palavra Nova dos Tempos Novos, Obras Completas, ed. cit., vol. 7, pág. 279.



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