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Sessão de12.06.1959, Câmara dos Deputados

Problemas econômicos do Brasil, o imperialismo soviético
e o pragmatismo norte-americano

 

O SR. PLÍNIO SALGADO:
Sr. Presidente, Srs. Depu­tados, o brilhante discurso que acabamos de ouvir, sobre os problemas fundamentais da Amazônia, tem perfeita conexão com o tema que pretendo desenvolver.

O discurso que acabamos de ouvir mostra a complexidade dos problemas brasileiros e mostra, ao mesmo tempo, o anseio, as angústias de um povo, no sentido de criar novas condições de vida, no momento em que o progresso técnico avança acele­radamente e em que desejamos pôr-nos em dia com esse pro­gresso, criando novas condições para a vida do povo brasileiro.

O Brasil é, realmente, um imenso complexo. Certa vez, convidado para realizar uma conferência no Instituto de Cultura Hispânica, em Madri, tive ocasião de dizer à assistência que me ouvia que o Brasil é o país onde não apenas coexistem as mais variadas latitudes, mas ainda convivem as mais variadas idades humanas.

Realmente, sendo um país por excelência de grande com­plexidade, desde o homem da idade da pedra lascada e da pedra polida, que são os índios dos remotos sertões brasileiros, até a fase industrial das grandes metrópoles, vemos na persidade dos aspectos da Nação o convívio das mais variadas idades hu­manas. Énatural que a crise econômico-financeira que asfixia os povos da América Latina e, para alongarmo-nos, os povos do Ocidente, atinja em nosso país um grau elevadíssimo, que fere as cordas emotivas do nosso patriotismo.

De fato, no curso desta semana, assistimos nesta Câmara a um episódio relacionado com os assuntos relativos ao Fundo Monetário Internacional, que bem revela o sentimento naciona­lista do povo brasileiro. O discurso aqui pronunciado pelo depu­tado Neiva Moreira teve o condão de despertar em todos nós esse nacionalismo profundo que hoje a todos nósavassala e a todos nós empolga, no sentido da afirmação de um povo no convívio internacional.

Mas, Srs. Deputados, o problema fundamental relacionado com a economia dos povos americanos é aquele que diz respeito à própria política internacional. Abrindo os jornais de hoje, encontro alguns fatos que merecem ser comentados, no curso desta minha oração. O primeiroé a declaração do representante da Rússia em Genebra, Gromiko, que lança um verdadeiro cartel ao Ocidente, assinalando prazo de doze meses para a solução do caso Berlim, e a resposta norte-americana afirmando que os Estados Unidos não se sujeitarão a negociar em base de ulti­mato. Outro fato é o projeto e o próprio discurso de Kruschev, pronunciado ontem em Riga, em cujas entrelinhas nós bem per­cebemos uma política hábil, inteligente e sinuosa, exercida pela União Soviética em detrimento do Mundo Ocidental. Por outro lado, nós encontramos nos jornais de hoje as declarações vela­das do Departamento de Estado, insinuando que os Estados Unidos estariam dispostos a entrar em conversações com o go­verno brasileiro para suprir aquilo que não foi possível encon­trar na organização do Fundo Monetário Internacional. Estes fatos têm extrema conexão, Sr. Presidente e Srs. Deputados, e o meu discurso de hoje é para chamar a atenção não propriamente da Câmara, dos Srs. Deputados, nem propriamente do povo brasileiro, mas do governo dos Estados Unidos e do Departamento de Estado, a respeito da política errônea que tem sido adotada por aquele país, desde 1945, expondo todo os povos do Ocidente aos mais graves perigos, entre os quais a supressão das suas liberdades.

Os Estados Unidos, desde o término da guerra de 1945, não têm feito outra coisa na sua política externa senão criar condições favoráveis à expansão do imperialismo russo.

O imperialismo soviético, isto é, o desejo da Rússia de ampliar suas áreas de influência,é notório através da história daquele país. A geopolítica atual do governo de Moscou não é mais do que a mesma adotada pelos Czares, pretendendo atin­gir os diferentes mares da terra. Estender seus olhos para o Mar Bático, onde finalmente conseguiu pôr os pés com a ane­xação da Lituânia, de Estônia, verdadeiro crime contra a huma­nidade consentido pelas Nações Unidas. Lançou suas vistas para o Mar Negro visando o Mediterrâneo e finalmente para o Mar Adriático. E, se não atingiu política e economicamente o Adriá­tico, atingiu-o pelo menos ideologicamente, com a predominân­cia de um regime que em tudo tem similitude com o regime soviético. Por outro lado, no exercício desta geopolítica, olhos russos se estenderam, desde o Czares, para o Extremo Oriente, razão da guerra de 1904-1905 com o Japão, pretendendo a Rús­sia dominar a Mandchúria, atingindo o Mar da China e levan­do sua influência sobre o Pacífico. Essa política expansionista dos Czares veio confluir com a política expansionista de uma doutrina que, desde 1840, lançada por Karl Marx, é doutrina que pretende impor um mesmo regime a todas as nacionalida­des. O velho misticismo russo, que, então se exprimia no pan-eslavismo, fundiu-se com o misticismo socialista e, nestas con­dições, toda a política soviética é no sentido da maior expansão para o predomínio total sobre todas as nações do mundo.

No Ocidente, nós nos encontramos completamente desarvorados, desorganizados, sem nenhuma conexão dos princípios de uma doutrina política que possam impedir nosso domínio e escravização sob uma estratégia que se levante forte porque se baseia num pensamento definido.

Há tempos, numa reunião no Palácio das Laranjeiras, quan­do o Sr. Presidente da República, reatando as velhas tradições diplomáticas do Barão do Rio Branco, entendeu de exercer uma nova e nobre ação em nosso continente, objetivando a união dos povos da América, não apenas no sentido meramente político-jurídico do velho pan-americanismo, mas dando uma base econômica a essa política pan-americana, tive oportunidade de afirmar que tão grande ideal não atingiria seus objetivos se preliminarmente os nossos povos não se afirmassem em princípios rígidos mediante os quais se executassem as medidas práticas, econômicas e financeiras do Novo Mundo.

Enquanto o governo soviético exerce a sua política econô­mica baseada nos princípios do materialismo dialético, do socialismo dito científico, e com um objetivo prefixado, executa todos os seus movimentos a fim de atingir a meta desejada, que faze­mos nós, no Ocidente? Já o General Mac Arthur perguntava, quando combatia na Coréia, "em nome de quem combatemos?" O Ocidente não combate em nome de nada. Os Estados Uni­dos não lutam em nome de nada. Será, por acaso, para manter o Capitalismo cruel, açambarcador, opressivo?

O Sr. Eloy Dutra:
Talvez combatam a favor dos trusts que representam aquele País, infelizmente e principalmente nesta desgraça da América Latina.

O SR. PLÍNIO SALGADO:
Agradeço o aparte que V. Excia. que vem completar meu pensamento, porque eu pergunto: Nós, do Ocidente, em nome de que combatemos? Para que? Para manter os trusts e os monopólios? Para sustentar os grupos financeiros que dominam as nações? Para enriquecer uma burguezia gozadora, exibicionista de luxo, enquanto há tantas populações em andrajos, sem alimentação? Será, por acaso, em nome disso que combatemos? Que força moral temos nós para nos erguermos contra a Rússia Soviética, que prega seu socialismo materialista, suprime toda liberdade humana, em perfeita ocor­rência com o determinismo decorrente da concepção materialista?

Que força moral temos nós para lutar? Em nome de que? Por que nos unimos? Para defender que princípios? Que esta­mos fazendo no Ocidente? Que fazem os Estados Unidos como capitão e comandante dessa política ocidental? Nada temos rea­lizado no sentido verdadeiramente defensivo de uma civiliza­ção supostamente cristã e supostamente espiritualista.

Nessas condições entendo que, desde 1945, outra coisa não se tem feito senão criar ambiente para maior expansão da Rússia Soviética.

De sorte que, Sr. Presidente, Srs. Deputados, encaro conglobadamente todos esses problemas, não só o do Fundo Mo­netário Internacional, que realmente é uma cooperativa de na­ções no sentido de se ampararem mutuamente, como também a Operação Panamericana, tentada tão patrioticamente e com tão larga visão pelo Presidente Juscelino Kubitschek. Encaro a po­lítica do Departamento de Estado dos Estados Unidos e a atua­ção dos grupos financeiros que ali imperam; encaro tudo isso no seu conjunto como uma incapacidade do exercício de uma política de verdadeira união, de defesa comum dos interesses fundamentais do nosso hemisfério.

Por isso, quando aqui escutei as vibrações de um forte nacionalismo através dos debates que surgiram com o discurso do Dep. Neiva Moreira, a corda de meu nacionalismo também vibrou energicamente e entendi que não podia deixar de falar, porque, em 1932, desfraldei uma bandeira nacionalista que jamais caiu de meus pulsos.

Agora, confraternizando com todos aqueles que afirmam a nacionalidade brasileira e pretendem dar ao Brasil uma base econômica de auto-determinação, não posso deixar de erguer esta bandeira, em nome do meu Partido, da grande corrente que em todo o território nacional adota a doutrina que prego para confluir com todos aqueles que lutam pela independência econômica da minha pátria.

A partir de 1945, dizia eu, realmente, começam os erros norte-americanos com o encontro de Casablanca, depois com o de Teerã, depois o de Yalta.Resolve-se fazer a invasão da Europa, não pelos Bálcãs como desejava Churchill, mas pelo Ocidente, porque a Rússia reclamava seu direito de influência sobre a Europa Central e Oriental.

Em Yalta permitiu-se que a Rússia assumisse o controle da Estrada de Ferro do Nordeste da Mandchuria, mediante o qual ela dominou estrategicamente a China e favoreceu o Par­tido Comunista chinês, organizado a latere do exército nacional daquele país.

Entregam-se à Rússia Soviética as ilhasCurilas eSakalina, no Extremo Oriente, a Lituânia noBáltico, sendo esta anexa­ção o maior crime da História, porquanto esses paísesnão ape­nas foram submetidos ao jugo estrangeiro, mas as suas popula­ções foram escravizadas, levadas para a Sibéria e substituídas por outras populações, para que, jamais, aqueles países pudessem tornar-se novamente independentes. Entrega-se à Rússia Sovié­tica a metade da Polônia, que fora o quinhão dado por Hitler a Stalin. E, ainda mais, assenta-se que a Rússia Soviética teria primazia da invasão e domínio da Alemanha Oriental.

Nestas condições, ao terminar a guerra, as tropas ameri­canas se detêm na cidade de Dresden, para permitir que o Ge­neral Zukhov, atrasado cinco dias, pudesse ocupar a Alemanha Oriental. Criou-se, portanto, gravíssima situação de desequilí­brio estratégico, militar e econômico.

A Rússia, incipientemente industrial, transforma-se em país industrial, com a colaboração dos países do Ocidente. Torna-se uma força preponderante no mundo. E daí para cá, que política tem adotado o Ocidente, capitaneado pelos Estados Unidos em relação à Rússia Soviética? A dos fatos consumados. Fato con­sumado na China, na Indochina, na Hungria. Na China, a pro­paganda comunista se fez explorando os nobres sentimentos na­cionalistas do povo chinês. Quem lê os relatórios dos que esti- veram presentes àquela guerra, observa como os americanos mandam emissários confabularem com Mao-Tse-Tung e Chou- en-Lai e que lançaram o desânimo nas tropas nacionalistas chinesas. Depois, no "Livro Branco", os americanos acusaram Chiang-Kai-Chek e o seu exército de incapacidade moral por venderem armamentos, por estarem trabalhando e lutando como verdadeiros mercenários. Mas, a realidadeé que a desagrega­ção do exército de Chiang-Kai-Chek foi uma conseqüência das conversações dos emissários americanos com Chou-en Lai e Mao-Tse-Tung. Foi isto o que lançou a dúvida e a confusão nos exércitos que defendiam a integridade e a independência da China. Posteriormente, vimos a verdadeira hecatombe da Coréia. Foi concedidoà Rússia, que nunca esteve em guerra com o Japão até os últimos dias de 1945,tomar parte no ato de capi­tulação japonesa, atribuindo-se-lhe predomínio sobre o Norte da Coréia.Esta concessão pelos Estados Unidos teve como con­sequência a morte de dezenas de milhares de jovens americanos, na defesa da independência daCoréia do Sul ameaçada pela invasão daCoréia do Norte.

Toda política tem sido, nas Nações Unidas, dos fatos con­sumados. Enganam-se os brasileiros imaginando que, se aqui no Brasil triunfar o Comunismo, os Estados Unidos virão intervir. Se continuarmos a comerciar com eles, pouco se incomodam os Estados Unidos estejamos no comunismo, porque Tito eo seu regime na Iugoslávia são vistos com bons olhos pelo Departa­mento de Estado.

A política americana, portanto, tem sido no sentido exclu­sivamente do lucro e do interesse. Encontramo-nos numa triste situaçãonas Américas. Os Estados Unidos estão em crise, por­que já têm sete milhões de desempregados, e no dia em que cessar a indústria da guerra esse número subirá a quinze milhões. Precisavam vender, mas não têm a quem...Bem que queríamos comprar, mas não temos dinheiro. Aquele país se acha como o jogador que jogou a noite inteira e ganhou todas as fichas e por isso, de madrugada, não tem parceiros. A situação agora é a seguinte: ou as fichas são redistribuídas para continuar o jogo ou o jogo vai acabar, e acabará tragicamente para o Ocidente.

Apraz-me, entretanto, verificar que nos jornais de hoje vem a notícia de uma como que revisão nos critérios do Depar­tamento de Estado em relação ao Brasil e, por conseguinte — permita Deus — em relação às demais Nações da América do Sul. O Departamento de Estado entende que pode conversar com o Brasil sobre os seus interesses econômicos. Está bem, mas a nossa posição deve ser a de um nacionalismo intransigente no tocante à nossa soberania e ao nosso interesse econômico. Ne­nhuma imposição. Não poderemos aceitar qualquer imposição em troca de quaisquer benefícios.

Nosso direito de primogenitura, que não o poderemos ven­der por um prato de lentilhas. Nossa política de petróleo tem que seguir a linha até agora adotada. Como que numa resposta da generosa terra do Brasil, no instante em que nos encontra­mos em dificuldade financeira no campo internacional, jorra petróleo em Sergipe. É preciso continuarmos esta política... A terra brasileira como que respondeu, em nome dos corações brasileiros, a uma dificuldade que presentemente atravessamos. Creio nas imensas possibilidades do Brasil. Estou convencido de que atravessamos período de crise conseqüente do nosso próprio crescimento.

Nós, que nos achamos em situação de país subdesenvol­vido, estamos executando uma política altamente esclarecida de realizações no campo industrial e no campo das pesquisas, a fim de pôr o Brasil em dia com o mundo moderno, com seu progresso, sua ciência e sua técnica. Estou convencido de que todos nós, brasileiros, independentemente dos partidos a que pertençamos, neste ponto deveremos estar unidos e firmes na defesa da soberania brasileira, do nosso pundonor.

Não me esqueço de certa ocasião, em que conversava com o PresidenteSalazar, e ele me dizia, em relação à sua política internacional, que, muitas vezes, lhe era necessário agir de certa forma altiva e algo agressiva, porque, dizia-me, os países peque­nos, que se curvam demasiadamente, acabam por ser inteira­mente dominados, e é necessário que se erga a cabeça e se fale alto, pois desse modo nos fazemos respeitar.

Exemplo disso temos nos tempos em que havia maior cons­ciência do valor da nacionalidade. Refiro-me ao episódio de Haia, em 1907. Todos os que assistiam àquela grande assembléia, na Capital da Holanda, ficaram pasmos quando um brasileiro de pequena estatura se levantou para combater as idéias das grandes potências expressas na tese do Barão Marschall von Bieberstein.Todos sorriam, ironicamente. Mas Rui Barbosa na­quele instante representava a consciência jurídica das Améri­cas e o pundonor do Brasil. Por detrás dele, o Barão do Rio Branco, trabalhando ativamente, coordenava todas as forças políticas da América e comunicava ao Departamento de Estado que, se os Estados Unidos não apoiassem Rui Barbosa, estaria rompida a política pan-americana, e o resultado é que os Esta­dos Unidos se deixaram liderar pelo Brasil.

Há tempos, em sentido diametralmente oposto, tive ocasião de ler, num jornal, a entrevista de um Ministro do Exterior brasileiro, que regressava de uma reunião da ONU e, quando um jornalista perguntou qual tinha sido o papel do Brasil, res­pondeu-lhe que o Brasil não tinha voz, por ser uma nação pequena.

Entendo que o Brasil não é uma nação pequena. O que temos tido são homens pequenos. Se tivermos grandes homens, como neste momento necessitamos, faremos manter os nossos direitos no mundo internacional e o Brasil ser verdadeiramente grande. Entendo mesmo necessário, neste instante, erguer-se a bandeira da revalorização do espírito, da cultura, da hierarquia, dos valores morais e intelectuais num mundo em que tem pre­dominadoaté agora a força bruta e o fato consumado.

Mas, reatando o fio do meu pensamento, o que quero dizer é que não será possível, nas Américas, efetivar-se uma polí­tica econômico-financeira no interesse dos povos do Novo Mun­do se, antes de mais nada, não firmarmos alguns princípios que sirvam de ordenamento ao pensamento executor de uma política prática.

Estamos vendo adotado, no convívio internacional, em nos­sas relações econômicas, esse mesmo critério do pragmatismo americano, esse pragmatismo sem horizonte, adstrito a estrei­tíssimos limites e que tem por fim, principalmente, exprimir as vozes de interesses de grupos financeiros particulares.

É necessário que, acima de interesses dos grupos econô­micos, coloquemos os interesses nacionais dos povos americanos e, acima dos interesses nacionais, o próprio interesse da liber­dade humana, defendido pela Comunidade das Américas.

Sr. Presidente e Srs. Deputados, as Américas têm uma grande responsabilidade no mundo. Elas têm um destino his­tórico.

Há tempos, lendo a velha mitologia Grega, encontrei o símbolo perfeito da nossa vida atual nas Américas, em relação ao continente europeu. Trata-se do famoso rapto de Europa.

Como se sabe, Europa, nome dado àquele continente, é originário do de uma ninfa da Mitologia Helênica. Narram os textos míticos que Europa estava numa praia, banhando-se com suas companheiras, e que Júpiter, vendo-a do Olimpo, enamorou-se dela e resolveu descer até a praia, sob a forma de um touro branco, pois o touro era o animal dedicado ao rei dos deuses. Chegando ele à praia, Europa e suas companheiras de­cidiram enguirlandá-lo com flores e fitas e levá-lo ao templo de Júpiter Olímpico. Assim o fizeram e, cantando hinos reli­giosos, conduziram o belo animal. Eis que este, repentinamente, erguendo as hastes, toma Europa entre elas e dispara no sen­tido do Ocidente. Gritam as ninfas: "Para onde vai Europa?" Pedem socorro aos pastores. Os pastores descem dos montes e bradam: "Para onde vai Europa?" Gritam os pescadores da praia: "Para onde vai Europa?" Correm apressadamente, mas é impossível alcançá-la. Europa é levada nas hastes do touro para os horizontes onde o sol se põe.

Hoje, em pleno século XX, após a política exercida por Stalin, homem nascido nas montanhas do Touro e, posterior­mente, da política de Malenkof e, a seguir, da de Kruschev, a Europa se encontra nas hastes do grande Touro, do grande ex­pansionismo slavo-socialista, e perguntamos: "Para onde vai a Europa? Para onde vai a Europa, ameçada na sua civilização?"

Para onde vai a Europa, com suas catedrais, suas biblio­tecas, seus museus, sua arte, sua tradição filosófica e jurídica? Para onde vai a Europa?

E nós, na América, poderemos responder que Europa vem para o Ocidente, porque a cultura nossa, da nossa América,écultura européia: foi-nos trazida no bojo das caravelas; veio com a cruz de Cristo, dos evangelizadores das selvas; foi-nos trazida com o direito que vinha de Portugal fluindo das fontes do direito visigótico e do direito romano consorciados nos fins do século XV. Veio para aqui a filosofia grega e o sentido superior das artes que esplenderam aqui já no século XVIII, na época da decadência do renascimento na expressão tropical da arte barroca. Todo esse patrimônio veio para aqui para que nós o mantivéssemos. E a nossa responsabilidade das Américas é manter essa civilização européia, nascida no Mediterrâneo, estendida até o Báltico e o Atlântico, para depois, transitando através do oceano, fulgir no último Ocidente.

É com o dever da manutenção, dos princípios básicos dessa civilização que havemos de nos erguer animados por forte sen­timento nacionalista, haurido em nossa tradição e nos afirmar numa política de perfeita unidade de pensamento filosófico, religioso,econômico, mediante cuja diretriz construiremos a grande civilização.

Estou convencido de que esteé o instante crucial da vida brasileira, mas estou convencido também de que, neste mo­mento, está nascendo o nosso verdadeiro nacionalismo. Eis por­que convido a todos aqueles, de todos os partidos, que amam a nossa Pátria e querem vê-la grande, para que nos unamos acima das competições políticas, como unidos foram os partidos dife­rentes na época da Independência... para nos afirmarmos em brasilidade, para nos afirmarmos em cristandade, para nos afir­marmos em dignidade e fazermos a modificação de uma poli­tica internacional que só tem valido a trusts e monopólios, em detrimento de povos subalimentados.

Ergamo-nos no Brasil, é o apelo que dessa tribuna faço ao povo do meu país, para nos afirmarmos cada vez mais brasi­leiros e nos impormos no campo internacional, quer no setor da economia, quer no setor da política, no sentido da grandeza da nossa Pátria e da sua influência para a modificação de um mundo que tem sido até hoje governado pela violência e que queremos ver iluminado pelas luzes maravilhosas do espírito.


Plínio Salgado


Nota:
[1] Extraído de: Sessão de12.06.1959, in Perfis Parlamentares18, Câmara dos Deputados, pág. 585.



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01/12/2017, 17:14:47

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