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Somos os verdadeiros Revolucionários

Algo devemos afirmar confiantes: somos revolucionários. Poder-se-ia dizer revolucionários em vários sentidos, mas em um com maior força: somos contrários aos valores e o modo de proceder imprimidos pelo espírito burguês; é este espírito inimigo da tradição, inimigo de tudo que é superior em matéria de espírito. Quando um autodeclarado comunista imputa-nos o qualitativo de reacionários devemos gracejar, lançar-lhes a galhofa: “eis vós, amigos da antitradição, beneficiários das filosofias e do modo de proceder pós-revolução francesa; ressentidos, invejosos da burguesia, não são vós os materialistas par excellence? São vós que legitimais o status quo... vossa filosofia só é possível pelo contato com os valores burgueses; nós, ao contrário, nadatemos a ver com isso.”

Devemos assim dizer, pois somos os verdadeiros revolucionários. O fato é que o modo de pensar, as atitudes adotadas pela esquerda – se devemos nos remeter ao conceito original-, são possibilitadas pelo modo de pensar burguês. E o fato é também que a esquerda pouco questiona esse modo de pensar, na verdade, o legitima. Ora, remetendo ao conceito original de esquerda e direita, i.e., a distinção entre jacobinos e girondinos, a própria burguesia, juntamente com a esquerda comunista devem ser consideradas segundo esse princípio, de esquerda; a última, sobremodo, por não fazer um corte radical para com os valores burgueses. Na verdade, sua revoluçãosó se torna possível com estes valores, poiseles são necessários como condição para a “revolução”. Vejamos vários exemplos; não precisamos ir longe. Bastapensar no combate da esquerda a tudo aquilo que significa uma tradição, tal como o estudo do latim clássico, do grego clássico e das filosofias platônica e aristotélica, da patrística e escolástica, não é o mesmo combate travado pela burguesia? Uma vez que o estudo dessas línguas e o período filosófico remetem a uma época onde efetivamente a burguesia, entendida não como classe, mas sim como estado de espírito, ainda não dominava? Vejamos a ênfase que se dá ao inglês, língua tratada como universal, é a língua do mercado e da globalização; o mercado e o modo de pensar norte-americano são imprimidos aos mais distintos povos por meio desta língua. A academia, o comércio, a informática; possuem a maioria de seus termos em inglês.

Com efeito, não somente no que diz respeito à língua podemos ver esta característica. As práticas políticas contemporâneas e o consequente modo de fazê-la são beneficiados pelo Estado Moderno. No Brasil, sobremodo, há o fenômeno da esquerda reacionária. Isto significa que a nível de declaração de ideias, por assim dizer, temos uma “esquerda”, mas a nível de privilégios trata-se de uma classe que defende, para si, todos os tipos de regalias. Assim, do alto de seus postos de juízes, professores universitários, promotores de justiça e jornalistas opinam sobre o bem e o mal da sociedade brasileira; massão eles reativos a qualquer mudança que possa significar um bem à população [ e uma relativa perda de seus próprios privilégios. Quando, nas eleições de 2010, houve a possibilidade do PSDB - que não se diferencia substancialmente do PT - subir ao poder, os reacionários da esquerda, temendo perder regalias, de forma desesperada,assinaram abaixo-assinados: era a reação! “Que continue o PT! O PSDB pode anular nossos privilégios”! E para quê sempre lutaram eles senão por privilégios?

O modus operandi contemporâneo de lutar pelo comunismo só se dá, num estado democrático, tendo em vista determinados direitos. A pressão que a “Sociedade Civil”, por meio dos movimentos sociais, exerce nas esferas estatais reivindicando “direitos” - o aborto é um desses “direitos” reivindicados - apenas é possível por meio da democracia, ela mesma lhespressupondo; esó é possível numa democracia burguesa,utilizando-nos de termo ao gosto dos marxistas. A luta partidária e todo o lodo que enseja nos bastidores da política pluripartidária não seria possível num outro tipo de democracia; seria possível, é verdade, outra forma de corrupção, mas, como já afirmado, o modus operandi de luta eurocomunista que foi adotado no Brasil após o chamado regime militar é possibilitado pelo pluripartidarismo. Nele, a exemplo do que ocorreu na Itália, não é incoerente o alinhamento de pretensosdemocratas cristãos ao partido comunista. A política brasileira, prestemos atenção, está cheia destes exemplos. Pululam incoerências aqui e ali; não é vergonhoso ao PT seu alinhamento a Sarney e a Collor, antigos adversários.

Este é o modo de fazer política daqueles que se consideram revolucionários; isto se dá porque não o são de verdade; nós o somos... somos verdadeiros revolucionários. A nossa maneira de pensar a política diverge em todas as maneiras da atual, que é desprovida de qualquer maneira ética de fazê-la, os fins justificandoos meios. A ética, ademais, como disciplina normativa e esfera “alargada” da moral, é aquilo que possibilita o bem viver dos homens. Mas isto é algo perdido e esquecido pelo modo político moderno e contemporâneo, algo que nós, preocupados com o bem estar do homem, pensamos ser essencial.

Quando as feministas exigem o direito de “decidir sobre o próprio corpo” – o que podemos traduzir sacrifício da criança-, isto significa o retorno a algo que ocorria em um período pré-cristão, já que, em Roma, por exemplo, o feto era considerado parte do corpo da mulher.

 Com efeito, as diversas leis que querem dar a terceiros o direito de decidir sobre a vida e a morte das crianças representam um atraso considerável; é fazer-nos retornar a um período bárbaro, pré-cristão. Ainda há a destruição da cultura por meio da negação daquilo de melhor que há, bem como a justificação de um modo de fazer política viciado, que é a maneira encontrada pela esquerda para reagir e fazer uma contrarrevolução.

 

Rafael Sandoval


05/04/2012, 22:32:07



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