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Venezuela em Crise: os protestos na perspectiva venezuelana

O líder estudantil venezuelano que utiliza o pseudônimo de Andrés della Chiesa é um antigo amigo da Frente Integralista Brasileira, tendo colaborado conosco em uma entrevista em 2013. Por viver em um país dominado por um regime híbrido de comunismo com populismo de esquerda, o jovem militante não pode utilizar o seu verdadeiro nome para não atrair a indesejável atenção dos agentes venezuelanos e cubanos que vasculham a rede para identificar e prender – ou coisa pior – os líderes do movimento dissidente que tomaram as ruas da Venezuela. Esta grande nação irmã do Brasil tem passado por momentos difíceis desde que o polêmico Hugo Chávez elegeu-se Presidente em 1998, situação que apenas se agravou com o seu sucessor, o caricato Nicolás Maduro. Atualmente, a Venezuela vive um momento crucial, com a feroz repressão do regime às manifestações estudantis que exigem mudanças na política governamental e a cassação ou mesmo a prisão de políticos oposicionistas. Estaria a Venezuela à beira da guerra civil? Ou se encaminhando para a radicalização do regime e a instauração de uma ditadura no modelo cubano (com a participação ativa de agentes do regime castrista)? São essas indagações que Andrés della Chiesa procura esclarecer aqui.

 

***

 

FIB / Relações Internacionais (FIB/RI) - Após um mês de duros combates de rua entre opositores do governo “bolivariano” – principalmente estudantes – e forças policiais e milicianos pró-regime, qual a situação hoje? Esse tempo lutando nas ruas e os 37 mortos fortaleceram a determinação de grande parte da população em derrubar o governo? Ou a repressão e o cansaço podem terminar desmobilizando uma fração significativa dos manifestantes?

Andrés della Chiesa (AC) - Essa é uma das grandes incógnitas atuais. Um protesto generalizado, que poderia ter esmaecido há muito tempo, logrou manter-se no tempo graças a uma série seguida de erros políticos cometidos pelo governo. Estou falando, evidentemente, da repressão militar e policial, da utilização de grupos armados pelo governo em seus ataques aos estudantes, dos mais de 70 casos de tortura denunciados pelo Fórum Penal Venezuelano, de dezenas de mortos e de centenas de feridos. Sem saber, ou talvez consciente da romântica decadência que antecede a queda das grandes tiranias, o governo tem nos dado diariamente razões diárias para continuar nas ruas. Esse não tem sido o problema. Quando falo das incógnitas me refiro, certamente, à finalidade das manifestações. Aí está a grande pergunta. Até onde vamos com tudo isso? Qual o objetivo fundamental do protesto? E, sobretudo, atingido ese objetivo, o que vem depois?

Não sei se essa noticia chegou aos brasileiros, mas é necessário que saibam que, em sua maioria, os protestos foram autoconvocados. Os partidos não tiveram relação com os protestos. Nós nos desentendemos com os partidos e os pusemos de lado. Por isso as críticas constantes de movimentos e organizações de esquerda a nível mundial, acusando-nos, em um discurso requentado, de títeres servis da “direita internacional”.
 
O certo é que o desentendimento com as estruturas partidárias, que é um fato verdadeiramente transcendental e positivo, não poderia deixar de ter consequências imediatas. Uma delas, e mais importante, é a falta de conteúdo e a ausência de propósito. Evidentemente, queremos mudar a Venezuela, mas temos usado um discurso altamente interativo. Queremos liberdade, mas o que é liberdade? Liberdade em relação a que? De Maduro e a sua camarilha? Do comunismo em geral? De todos os políticos corruptos e colaboracionistas? Eu tenho um posicionamento claro. Na Venezuela é necessária uma mudança total no paradigma político. O objetivo a ser traçado não pode ser outro que não seja a queda do governo e o julgamento dos seus dirigentes criminosos. Após isso, uma Junta. Os poderes dessa Junta não são de grande importância. O que é necessário é a formulação de uma Constituinte que permita a recuperação da autonomia dos Poderes Públicos. Pensem: de que serve uma nova liderança se as estruturas corruptas do poder forem mantidas?
 
Outro elemento, que a meu ver é fundamental, é o desacordo ABSOLUTO com qualquer pessoa que haja exercido cargos públicos no governo atual. Mas essas exigências devem ser feitas pelo movimento no seu contexto. E esse é o dificílimo trabalho que temos pela frente. Nos colocarmos de acordo, compreender que os líderes autoimpostos ou, em todo caso, aqueles promovidos pelos meios de comunicação, são perigosíssimos hoje e sempre.
 
A determinação é um valor fundamental e isso na Venezuela não tem faltado. Mas de nada nos serve sem um ideal ou fundamento teórico ao qual nos aferrarmos. A menos que, ao longo dos dias, esse aspecto mude para a direção que indiquei, os protestos estarão condenados a uma morte lenta, paulatina, esmaecendo lentamente.

FIB/RI - A coalizão opositora MUD e Henrique Capriles, o eterno candidato à Presidência da Venezuela pela oposição, tiveram uma participação bastante discreta – para não dizer omissa – durante as manifestações, de certa maneira até mesmo endossando o argumento de Maduro de que os protestos não seriam uma alternativa viável para forçar a mudança de regime. Você acredita que isso possa ter enfraquecido o apoio popular a Capriles e à MUD? Um novo movimento político opositor independente dos velhos partidos poderá surgir do clamor das ruas?
 
AC - Esse tema é delicado. Não creio que seja uma questão a ser conjecturada e sim um fato tangível e legítimo. Consideremos, primeiro, que Capriles Radonski se suicidou políticamente após as eleições de 2013. Não por haver sido derrotado, mas por haver denunciado uma fraude eleitoral e logo apaziguado o protesto que ele mesmo incentivou. Ou seja, quem concebe que um dirigente possa fazer dois discursos absolutamente opostos em um período tão curto de tempo? Isso depende de uma dupla moral e de um cinismo extraordinário. Me parece que essa manobra, certamente muito tosca, fez com que ele perdesse legitimidade. Some-se a isso a capitalização do discurso combatente, manobra audaz de Leopoldo López, quem conseguiu firmar-se como um genuíno contendor no futuro político venezuelano após a sua perseguição e posterior encarceramento.
 
Há uma frase de Ramón J. Velásquez, ex presidente venezuelano e historiador, que é bastante correta, segundo a qual na Venezuela os políticos são forjados na prisão. Mais do que uma proposta romântica, é um método de ascensão verificável. “O heróico personagem que sacrifica a sua liberdade em prol da verdade e da justiça”. Em um país personalista como o nosso, estaríamos falando de um negócio. Engenharia social da modernidade: dirigentes políticos na medida das pretensões dos seus eleitores. Se você pensar bem, continuamos sendo o mesmo povo esotérico e supersticioso do princípio do século XX. Ficamos fascinados quando nos iludem.
 
Acredito que essas palavras refletem a minha postura. Há um movimento político opositor independente, mas que ele tenha surgido do clamor popular ou dos movimentos auto-convocados, não creio. Seria necessário que surgisse, certamente. Eu seria o primeiro a colaborar. Mas me preocupa, sinceramente, a maneira como somos capazes de entregar o nosso destino por uma simples “mudança cosmética” do governo.
 
O que eu estou dizendo é que o venezuelano não se preocupa com as condições estruturais do Estado. Se amanhã um político qualquer ascende como novo líder da nação e não realiza uma transformação orgánica do aparelho estatal, as condições tiránicas e despóticas se manteriam.

Guarda Nacional Bolivariana e opositores do governo de Nicolas Maduro se enfrentam durante manifestação no distrito de Chacao, região leste Caracas. Imagem: Donaire/EFE
 
FIB/RI - Segundo alguns analistas, até o momento as manifestações têm permanecido basicamente como uma expressão da insatisfação das classes médias venezuelanas, havendo apenas uma tímida participação de pessoas provenientes das camadas populares. De acordo com esses mesmos analistas, a situação deverá se tornar mais complicada para o governo nos próximos meses ou anos, quando a economia venezuelana entrar em colapso e o governo não conseguir manter a sua ampla rede assistencialista junto aos pobres. Somente então, com a adesão das camadas populares, as manifestações poderiam derrubar o governo. Você concorda com essa análise? Acha que a situação social venezuelana necessita realmente se deteriorar ainda mais para que o governo caia? As classes populares estão se mantendo majoritariamente apáticas aos protestos?
 
AC - Aqui há muitas vertentes que seria interessante tratar e vou tentar ser o mais enfático possível para não tergiversar. Vale a pena discutir este tema com detalhe.
 
Em primeiro lugar, não sou adepto dessa visão evidentemente materialista da sociedade segundo a qual devemos dividir os partidários e os oponentes de um governo, que está fundamentado ideologicamente, a partir de uma diferenciação econômica e social. Há elementos muito claros aos quais podemos recorrer. Preste atenção como, na Argentina, a maioria dos eleitores e militantes do Partido Operário – de tendência trotskista – são de classe média alta. A esquerda mais radical, se é que há uma forma de descrevê-la, não conseguiu o apoio das massas populares, dos trabalhadores. Estes são essencialmente, anacronicamente, peronistas. Por essa razão, o discurso da maioria dos partidos que ostentaram o poder desde 1983 em diante vai por esse caminho, mesmo que não se pareçam em nada com a mensagem de Juan Perón. Na Venezuela tampouco é possível analisar a situação com métodos tão simplistas. Muitos empresários e membros da sociedade que poderíamos considerar como pertencentes à classe alta, poderosa, são o produto das práticas do Estado. Cada governo cria a sua própria elite econômica. Considerar que o discurso ou a prática marxista é, na verdade, uma resposta violenta frente a uma construção social classista é pecar pela ingenuidade. Sua própria dialética é classista! A ditadura do proletariado. No nosso caso, a tristemente famosa ”boliburguesía[1].
 
Agora, outro feito importante que não pode ser esquecido: o governo chavista, e agora madurista, se apropriou de uma política benéfica em curto prazo: o clientelismo. O problema do clientelismo é que não é sustentável ao longo do tempo e eventualmente começam a ser vistas as costuras. Na Venezuela souberam aproveitar do petróleo, que parecia ser uma fonte inesgotável de divisas, mas não funciona assim. O pensamento demagógico soube construir junto ao eleitorado uma situação de dependência e somou a isso um aparato propagandístico eficiente, que colocou na cabeça da população que, se cair o governo, estes benefícios gratuitos e um sem número de subvenções seriam erradicados. Aí há um problema.
 
Considero que, efetivamente, o clientelismo não faz bem a ninguém. Na Venezuela não há cultura do trabalho e o que se necessita é de uma mudança de esquemas mentais. Note-se que 90% do que consumimos é importado. Que outra evidência é necessária para demonstrar o irrefutável?

Aproveito a oportunidade para derrubar alguns mitos. A educação pública e gratuita existe, no meu país, desde 1880, com a assinatura do decreto 27 por parte de Antonio Guzmán Blanco. Nesse momento, a garantia se dá nas idades compreendidas entre 7 e 14 anos. Ou seja, a escola primária e uma parte do que hoje seria o ciclo secundário. Um ano depois foi fundado o Ministério da Instrução Pública e a expansão da matricula estudantil inicia um crescimento sustentável. Por outro lado, em 1940 o então ministro da Educação Nacional promulga a Lei da Reforma Educacional, na qual se evidenciava o caráter público e gratuito das instituições oficiais. Se falarmos de Educação Superior, será para dizermos que instituições autônomas como a Universidade Central da Venezuela ou a Universidade dos Andes são públicas e gratuitas há décadas. A criação de uma entidade como a “Universidade Bolivariana” não faz senão refletir um erro sugerido por Uslar Pietri em 1948: a crença errônea de que universidade é qualquer edifício que se outorgue tal nome. Falso: o que ocorre é que medimos tudo em termos quantitativos e não qualitativos.

Acrescentaria também que a existência de planos como Bairro Adentro, PDVAL ou Mercal, são a evidência mais tangível da ruína dos sistemas hospitalares e alimentares. Simplesmente possuem um caráter marginalizador. Mas, voltando à premissa do clientelismo, parece que alguns se contentam com migalhas.
 
Dito isso, posso voltar ao tema que nos compete e que acaba sendo mais simples de resumir.
 
Os protestos não são a denúncia única e geral de uma classe média urbanizada. Ainda que, certamente, sempre é a classe média que sofre as dificuldades mais terríveis da crise econômica. O mal-estar social se concentra nela. Em quem mais? As classes altas podem suportar esses males econômicos, que em pouco ou nada os aflige. Os mais necessitados conhecem a miséria em primeira mão e possuem certas condições de adaptação por costume que não existe na classe média.  
 
Entretanto, por vezes a mesma realidade é suficiente para deixar de lado os preconceitos. Tem ocorrido manifestações em Petare, Catia e el Valle. Regiões com baixos recursos, com índices de criminalidade altíssimos e onde trabalham muitos criminosos pagos pelo governo. Faz algumas semanas ocorreu uma manifestação, sem dúvida humilde, no bairro 23 de Enero, bastião do “Coletivo Tupamaros”.
 
O que eu quero expor com isso é que as pessoas necessitam aprender a diferenciar, porque o afã generalizador termina por frivolizar. E dessa maneira não se pode avaliar a situação de maneira imparcial. Esta não é uma crise dos venezuelanos privilegiados porque não conseguem papel higiênico ou porque aumentaram as passagens para Miami. Todo aquele que acredite nisso é um ignorante. É uma denúncia legítima. Quando a turba vai matá-lo não perguntam para você o quanto ganha ou em quem votou. Quando você se entrega à interessante aventura de conseguir alimentos, tampouco existe uma valoração desse tipo. Ao chavismo/madurismo convém simplificar o inimigo, assim é mais fácil atacá-lo. Mas o problema é mais complexo e mais profundo. 
 
Sobre se eu creio que é necessária a adesão maciça dos bairros ou classes populares para derrubar o governo... Parece-me que com muito menos é possível. Uma massa crítica pode não ser necessária. Sou dos que acreditam que é sempre uma elite condutora que decide os destinos de uma nação.

FIB/RI - Para muitos a piora na situação venezuelana ocorreu após a morte de Chávez, em março de 2013. Segundo essa perspectiva, a culpa pela grave crise econômica e de segurança pública na Venezuela não seria do chavismo e sim da inabilidade e incompetência pessoal do Maduro. Podemos dizer que o governo atual é ainda pior do que o de Chávez? A grave crise pela qual passa a Venezuela é principalmente fruto do “bolivarianismo” ou da incompetência de Maduro?
 
AC - Essa é uma estratégia que a mim, pessoalmente, me deixa muito indignado. Mas não é a primeira vez que se utiliza. É típico da esquerda histórica culpar os outros pelos seus erros. Se o problema é ideológico, acontece que o governo aplicou mal os princípios de Marx. Se o problema está ligado com a relação entre o Estado e o indivíduo e somamos a isso que essa relação se tornou repressiva e hostil, é porque eram fascistas, jamais comunistas. Estes são uns santos. Se a circunstância é típica de um momento temporal, manifesta-se em sujeitos particulares. Neste caso, Maduro.
 
Vamos direto ao ponto. Os problemas da Venezuela vêm se arrastando por décadas. O chavismo é a conseqüência de abusos sustentados por um sistema partidocrático envelhecido. Aquele, por sua vez, aprofundou os problemas da Venezuela. Maduro é um dirigente muito incompetente, isso é óbvio, mas Chávez levou o país para o abismo de forma premeditada. Se tivéssemos que julgar ambos pelo mesmo crime, Chávez teria o agravante da traição. Não foi Maduro quem entregou o país a Cuba, não foi Maduro quem armou os coletivos, não foi Maduro quem deixou que o crime corresse solto nas nossas ruas, não foi Maduro quem iniciou a repressão ou o revanchismo político, tampouco foi Maduro quem dividiu o país com um discurso hostil e agressivo para dividir e polarizar a população até o ponto insustentável que vivemos hoje. Foi Chávez quem fez tudo isso. Maduro tem muito que aprender com ele.
 
É uma pena que ele já não esteja entre nós. Ele deixou muitas dívidas pendentes com o povo venezuelano.

FIB/RI - Em 2002 as Forças Armadas venezuelanas participaram ativamente da revolução fracassada contra Chávez. Entretanto, desta vez os militares não se manifestaram a respeito dos protestos contra o governo. O que mudou de 2002 para agora? Há alguma chance dos militares venezuelanos apoiarem uma revolução nacional contra o chavismo ou foram cooptados pelo governo?
 
AC - Lembre-se de uma coisa. Em pouquíssimas ocasiões da história nacional um governo foi tão favorável aos militares como o de Hugo Chávez Frías. Estenda-se isso a Nicolas Maduro. O que acontece é que houve uma excelente compreensão da arquitetura política nacional. Aqui é necessário ter a aprovação das Forças Armadas para poder levar adiante um projeto político.
 
O Partido Ação Democrática foi o primeiro a entender isso, e sem o desenvolvimento paulatino de interesses dentro das instituições militares, nunca teriam podido derrotar o general Pérez Jiménez. Ironicamente, alguém que os apoiou treze anos antes, quando derrubaram o governo civil de don Rómulo Gallegos.
 
Se prestar atenção, há algo muito interessante após cada eleição na Venezuela; uma vez que o Conselho Nacional Eleitoral anuncia o vencedor irreversível, uma comissão das Forças Armadas referenda as palavras da Justiça Eleitoral. Não é curioso? Que peso pode ter a palavra do estamento militar quando tudo já está dito por quem supostamente detém o verdadeiro poder? Na Venezuela as coisas funcionam assim, o que nos dá muito que pensar.
 
Sobre a possibilidade de uma “revolução nacional” contra o chavismo, teríamos que ver... A História dá muitas voltas e general não define exército.

Manifestantes antigoverno usam escudos improvisados como proteção durante confrontos com a Guarda Nacional Bolivariana. Imagem: Jorge Silva/Reuters
 
FIB/RI - Juan Carlos Hidalgo, analista de Políticas Públicas da América Latina no Centro para la Libertad y Prosperidad Global do Cato Institute, afirmou em uma recente entrevista que: “A maior ameaça para Maduro não é a oposição na rua, mas o próprio chavismo. Recordemos que o chavismo é uma união de facções que já foi descrita como um ninho de lacraus. Não se entendem mas mantêm-se juntos para continuar a lucrar com a grande corrupção que existe em redor das receitas petrolíferas.”. Você está de acordo com essa afirmação de que a maior ameaça ao governo de Maduro poderá ser a divisão existente entre os chavistas e não a oposição ou os protestos?
 
AC - A idéia não é nova. Vem sendo discutida há algum tempo e readquiriu importância após a morte de Hugo Chávez. Este último, um militar, mas também um personagem com um discurso fortemente ideológico, soube aglomerar tanto os apaixonados empedernidos como membros do setor castrense, pouco dados a sensibilidades. Evidentemente, as fraturas dentro do chavismo existem. Não há porque negá-las. Mas duvido que seja um fator de ruptura, pois não creio que possam ser tão inconscientes.
 
Muitos costumam falar do poder de um homem como Diosdado Cabello, presidente da Assembléia Nacional. Mas para mim ele sempre me pareceu um grande leitor de Maquiavel. Para ele é mais conveniente estar na sombra, mover fios, manter a sua cota de poder. Não sei o quanto é importante para ele o protagonismo, que já tem de sobra e não por boas razões.
 
O que posso assegurar é que, tal como ocorre com toda proposta messiânica, o governo perdeu um sem número de eleitores comprometidos. A razão é simples: votavam em Chávez, não no Socialismo do Século XXI. O projeto político que atualmente governa a Venezuela não é algo que possa sustentar-se através do tempo, a menos que a “oposição” política permita essa situação para seguir havendo uma aparência democrática.
 
Fui testemunha de tanta complacência e colaboracionismo nos últimos anos que não me surpreenderia.

FIB/RI - Sabe-se que os subsídios petrolíferos fornecidos pela Venezuela são cruciais para a economia cubana e, portanto, para a manutenção do regime comunista em Cuba. Qual tem sido o papel dos cubanos na repressão às manifestações na Venezuela? No caso dos protestos recrudescerem, é possível que os cubanos passem a ter um papel mais ativo na repressão? Acredita que a situação possa evoluir até o ponto em que o povo venezuelano tenha que lutar em uma guerra de libertação contra uma Cuba convertida em potência colonial na Venezuela?
 
AC - Cuba passou por diferentes processos de transição. Diria também que por três crises importantes. A primeira, após o bloqueio econômico realizado pelos Estados Unidos. A segunda, após a queda da União Soviética, defensora internacional das suas práticas absolutistas. A terceira está sendo vivida hoje em dia, e é a possibilidade de perder a máquina de fazer dinheiro que é a Venezuela.
 
Eles colocaram os olhos em nossa terra desde sempre. Nos anos 60, certamente, nos invadiram. Chegaram inclusive a treinar um grupo de traidores nacionais, que hoje fazem a vida na oposição, para atacar o governo e a população – por meio do “dano colateral”. Era a época do foquismo, da guerrilha rural e urbana. A invasão de Machurucuto coloca um ponto final na situação. Uma simples declaração de guerra que foi respondida de forma eficiente pelo grupo de comandos Caçadores. O que tento mostrar é que se há algo que os partidários do regime de Castro souberam cultivar é a paciência. Não se renderão tão facilmente.
 
Há denúncias, fui testemunha de um par delas, de soldados cubanos disfarçados de Guardas Nacionais ou de civis, reprimindo os protestos. Os que foram seqüestrar, porque se tratava de um seqüestro, o general Vivas Perdomo, eram cubanos. Além disso, são muito ostensivos nesse sentido. Eles não se importam que saibamos. Têm sotaque muito forte e qualquer um pode perceber. Entretanto, há pessoas que se preocupam mais porque “O Império” ou “A CIA” praticam a ingerência na Venezuela, quando há evidências tangíveis da presença estrangeira no país, colaborando ativamente com o governo e nos atacando sem maiores delongas.
 
Não sei você, mas eu creio que, como dizem na Espanha, ou todos mouros, ou todos cristãos.

Presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, cumprimenta os simpatizantes de seu governo durante um comício com os agricultores, em Caracas. Imagem: Tomas Bravo/Reuters
 
FIB/RI - Vergonhosamente, os governos da América Latina têm se mantido alheios à situação na Venezuela – incluindo a presidente do Brasil, Dilma Roussef. Como isso está repercutindo entre os manifestantes? Existe a percepção de que o posicionamento dos governos esquerdistas não representa a opinião majoritária entre a população?
 
AC - Essa pergunta é retórica. Ambos sabemos a resposta.
 
Parece que os governos somente são autoritários e o terrorismo de Estado somente existe quando não corresponde à própria postura política. Costa e Silva era, sim, uma assassino, mas acontece que os 37 mortos que nós tivemos ainda por cima são nossa culpa. O governo não teve nada a ver com a situação. O mesmo acontece na Argentina, Chile ou Paraguai. Stroessner, Pinochet e Videla são execráveis, mas a nós que parta um raio.  
 
Há uma dupla moral muito repugnante em tudo isso e as pessoas deveriam fazer eco dessa situação.
 
Não sei quem poderia sentir-se representado por quem ostenta um discurso que pouco ou nada tem a ver com o seu acionamento. Por acaso porque um governo diz possuir um discurso “social” ele reflete, necessariamente, os problemas e as complexidades do seu país?
 
Pouco me importa o que tenham para dizer os presidentes da América e do mundo. Estou mais preocupado com o que pensam os seus cidadãos. Eu os convidaria a vir à Venezuela para ver se decidem de uma vez a quem apoiam: se os estudantes, comerciantes, trabalhadores, profissionais e demais moradores, os que temos de conviver com a miséria e o submundo, ou o governo, que por acaso possui o monopólio legítimo da violência.

Decisões, decisões...


Alexandre Villacian
Um dos dirigentes do núcleo de Curitiba (PR), Alexandre é também coordenador da Secretaria de Relações Internacionais da Frente Integralista Brasileira. 

 

Notas:
[1] Boliburguesía é um neologismo venezuelano fundindo as palavras “bolivariano” e “burguesia” e é utilizada para definir os partidários do chavismo que enriqueceram graças à proximidade com o regime.


14/04/2014, 13:07:16



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