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António Sardinha e o Integralismo Lusitano

Na presente comunicação, falaremos a respeito de António Sardinha e do Integralismo Lusitano, movimento cívico-político católico, tradicionalista e monárquico de que este foi e é o principal líder e doutrinador e cujas ideias, na opinião do insuspeito, posto que não católico e republicano, Fernando Pessoa, eram “as únicas com sistema e coerência” no Portugal de seu tempo.[1]

Salientamos, antes de mais nada, que António Sardinha teve inúmeros leitores e admiradores não apenas no Portugal do Conde de Monsaraz, de Hipólito Raposo, Rolão Preto, Luís de Almeida Braga, Pequito Rebelo, Manuel Múrias, Rodrigues Cavalheiro, Afonso Lopes Vieira, João Ameal, Marcelo Caetano, Fernando de Aguiar, Jacinto Ferreira, Mário Saraiva, Henrique Barrilaro Ruas e mesmo de Salazar, na Espanha de Ramiro de Maeztu, Pemán e Francisco Elías de Tejada ou no Brasil de Oliveira Lima, Jackson de Figueiredo, Gilberto Freyre, Arlindo Veiga dos Santos, Sebastião Pagano, Plínio Salgado, Gustavo Barroso, Câmara Cascudo, Guilherme Auler, Vicente do Rego Monteiro, José Pedro Galvão de Sousa, Ítalo Galli, Clovis Lema Garcia e Ricardo Dip, como também na Itália de Julius Evola. Este, aliás, citou Sardinha em nota que consta de sua obra Os homens e as ruínas,[2] salientando que o pensador português acertou ao afirmar que a Tradição não é apenas o Passado, mas, antes, a “permanência no desenvolvimento”, a “permanência na continuidade”.[3]

 
 

António Sardinha e o Integralismo Lusitano

 

António Sardinha, que, de acordo com Fernando de Aguiar, fora trazido por Hipólito Raposo “à conversão, à Fé, à Tradição, ao municipalismo donde caminharia para a Monarquia, popular e descentralizadora, realenga e representativa dos povos”,[4] foi, segundo Ramiro de Maeztu, o “criador e propulsor do movimento chamado ‘integralista’, cuja ideia-mãe consistia na crença de que a saúde da sociedade portuguesa somente poderia se encontrar ‘no regresso às condições naturais de sua formação e desenvolvimento’”.[5] Sardinha encontrou o lema para tal regresso, ainda segundo observou Maeztu, em uma frase que este atribui a Renan, mas que, em verdade, é de seu neto, Ernest Psichari, como destacou o próprio Sardinha:[6] "É preciso tomar o partido de nossos maiores contra o partido de nossos pais”. Seus principais inspiradores, ou “pais espirituais”, foram, de acordo com o pensador e político espanhol, Eça de Queiroz, Guerra Junqueiro, Ramalho Ortigão, Fialho d’Almeida e, “um pouco mais atrás”, Oliveira Martins, Antero de Quental e Camilo Castelo Branco, todos eles “patriotas, tão saturados da grandeza de Portugal no passado como desesperados de sua pequenez contemporânea”.[7]

Nascido em Monforte, no Alentejo, a 09 de setembro de 1888, e falecido em Elvas, também no Alentejo, a 10 de janeiro de 1925, António Maria de Sousa Sardinha, ou, simplesmente, António Sardinha, o principal doutrinador e líder do movimento de regeneração a que se denomina Integralismo Lusitano, foi poeta, ensaísta, jornalista e doutrinador político.

Ao falecer, com apenas trinta e seis anos de idade, não havia deixado descendência física, posto que seu único filho morrera algum tempo antes, ainda praticamente recém-nascido,[8] abrindo em seu coração, como escreveu Luís de Almeida Braga, “uma chaga, que para sempre ficou sangrando”.[9] Esta perda foi a “primeira das grandes esperanças mortas de quem tanto merecia da vida”, como escreveram seus irmãos de ideal na revista Integralismo Lusitano: estudos portugueses, por ocasião da trasladação das cinzas do poeta e doutrinador tradicionalista, no oitavo aniversário de sua morte, para jazigo próprio, no cemitério da vila natal daquele infatigável “Batalhador do Espírito”, que ali passou a repousar ao lado do “filhinho querido”.[10]

Inspirado poeta, Sardinha cantou, antes de tudo, a Tradição da Nação Portuguesa, monárquica e católica. Os sonetos e poemas de sua lavra constituem, no dizer de Gilberto Freyre, “uma poesia cheia de nobreza intelectual”.[11] De sua obra poética, podemos destacar: Tronco reverdecido (1910),[12] A epopeia da planície (1915),[13] Quando as nascentes despertam (1921),[14] Na corte da Saudade (1922),[15] Chuva da tarde (1923),[16] Era uma vez um menino (1926),[17] Roubo de Europa (1931)[18] e Pequena casa lusitana (1937).[19]

A despeito de “grande poeta”, na justa expressão do poeta, ensaísta e crítico literário português Amândio César,[20] é como ensaísta que António Sardinha revela todo o seu valor. Este “insigne Mestre tradicionalista”, no dizer de Arlindo Veiga dos Santos,[21] nos legou, como sublinhou Gilberto Freyre, “notáveis trabalhos de erudição histórica”.[22] Dentre tais trabalhos, podemos destacar: O valor da Raça (1915),[23] Ao princípio era o Verbo (1924),[24] a introdução às Memórias e alguns documentos para a História e Teoria das Cortes Gerais, do segundo Visconde de Santarém (1924),[25] Ao ritmo da ampulheta (1925),[26] A aliança peninsular (1925),[27] Na feira dos mitos (1926),[28] Glossário dos tempos (1942)[29] e À lareira de Castela (1943).[30]

Consoante salientou António José de Brito, os mais vivos e característicos traços da obra de António Sardinha, que podemos resumir no tradicionalismo e no nacionalismo, garantem ao autor de Ao ritmo da ampulheta e de A aliança peninsular “lugar bem alto e cimeiro, o lugar de quem permanece de pé no meio de um mundo em ruínas”.[31]

Junto de António Sardinha, jovens intelectuais portugueses como Alberto de Monsaraz, Luís de Almeida Braga, José Adriano Pequito Rebelo, Francisco Rolão Preto, Hipólito Raposo, João do Amaral e Domingos Garcia Pulido, pugnaram por uma Nova Nação Portuguesa, cujas instituições se baseassem na Tradição Nacional. Eram todos eles arautos do “Integralismo Lusitano”, expressão que fora utilizada pela primeira vez em 1913, por Luís de Almeida Braga, na revista Alma Portuguesa, editada na Bélgica, quando ali se encontrava exilado juntamente com Rolão Preto, Simeão Pinto de Mesquita e outros jovens envolvidos nas incursões monárquicas de 1911, partidas da Galiza e comandadas por Paiva Couceiro.[32]

Em 1914, na revista Nação Portuguesa, dirigida por Alberto de Monsaraz, a expressão “Integralismo Lusitano” já designava, como ressaltou José Manuel Quintas, um “índice de soluções sob o título ‘monarquia tradicional, orgânica, antiparlamentar’”.[33] Surgia, então, politicamente, o Integralismo Lusitano, movimento que representa, na expressão de Marcelo Caetano, “a mais completa e importante afirmação das doutrinas nacionalistas, na política e na economia”, que teve lugar em Portugal.[34]

Victor Emanuel Vilela Babuy durante apresentação desta comunicação no IV Encontro Internacional Evoliano.

A Monarquia Tradicional que defende o programa integralista não é senão a Monarquia em que o Rei reina e governa, mas tem seu poder concretamente limitado pelas Assembleias, constituídas pelos representantes dos corpos intermediários, dos grupos naturais componentes da Sociedade, às quais cabe a administração dos negócios do Estado. É a Monarquia de São Luís, Rei de França; o Regime Misto, ou Monarquia Temperada, tido por Santo Tomás de Aquino como a melhor dentre as formas de governo;[35] a Monarquia, enfim, que vigorou na Espanha e no Portugal das Cortes, na França dos Estados Gerais, na Inglaterra do Parlamento e na Alemanha da Dieta.[36]

No “programa” integralista de 1914 também é defendido o nacionalismo. Com efeito, o Integralismo Lusitano é um movimento eminentemente nacionalista, tendo como objetivo principal a restauração da grandeza perdida da Nação Portuguesa, escolhida por Deus para dilatar a Fé e o Império. Com efeito, assim sustentou António Sardinha, em Ao princípio era o Verbo:

O que se nos impõe é restituir à Pátria o sentimento da sua grandeza, - não duma grandeza retórica ou enfática, mas naturalmente, da grandeza que se desprende da vocação superior que a Portugal pertence dentro do plano providencial de Deus, como nação ungida para a dilatação da Fé e do Império. Dilatar a Fé e o Império equivale a sustentar o guião despedaçado da Civilização. Os motivos de luta e de apostolado que outrora nos levavam à Cruzada e à Navegação, esses motivos subsistem.[37]

Isto posto, insta sublinhar que, para António Sardinha, o nacionalismo decorre do tradicionalismo, compreendido este como continuidade no desenvolvimento”, como “permanência na renovação”.[38]

Ainda segundo Sardinha, o tradicionalismo, se, por um lado, “em relação a cada pátria”, “supõe um nacionalismo”, supõe, por outro lado, “em relação ao conjunto humano, um universalismo”, universalismo este que não se confunde com o cosmopolitismo e o internacionalismo, sendo “ouniversalismo que a Idade Média professou e a que Augusto Comte rendia tão calorosas homenagens: a sociedade internacional restabelecida e restaurada sobre as únicas bases duradouras, - as da Cristandade”.[39]

Para o autor de A aliança peninsular, o “nacionalismosem universalismo”representa, derivadamente:

Ou um núcleo tumultuário do princípio das nacionalidades, filho da Democracia [liberal] e que hoje balcaniza a Europa, ou uma renúncia covardemente suicida à função que pertence a cada pátria no enriquecimento, sempre crescente, do patrimônio coletivo da civilização.[40]

Sardinha, enfim, supõe a existência de dois nacionalismos, um verdadeiro, equilibrado, justo, edificador e tendente ao universalismo, e outro falso, exagerado, antritadicional e antiuniversalista, que coloca a Nação acima da Moral e mesmo de Deus.

Isto posto, insta sublinhar que o nacionalismo do Integralismo Lusitano – assim como, diga-se de passagem, aqueles do Patrianovismo e do Integralismo Brasileiro – se completa com o transnacionalismo hispânico, que Sardinha defende em toda a sua obra e particularmente em A aliança peninsular.

É importante ressaltar que Portugal, bem como o Brasil, é tão hispânico quanto a Espanha e que o termo hispânico deriva de Hispânia, nome de toda a Península também denominada Ibérica.[41] Com efeito, Portugal e o Brasil estão entre “as Espanhas” de que nos falou Francisco Elías de Tejada[42], não hesitando Ramiro de Maeztu em incluí-los entre as nações hispânicas em sua obra Defensa de la Hispanidad:

Primeira questão: se incluirão nela [na Hispanidade] Portugal e Brasil? Às vezes protestam os portugueses. Não creio que os mais cultos. Camões os chama (Lusíadas, Canto I, estrf. XXXI): "Huma gente fortissima de Espanha".

André de Resende, o humanista, dizia o mesmo, com palavras que elogia dona Carolina Michaëlis de Vasconcelos: "Hispani omnes sumus". Almeida Garrett o dizia também: "Somos Hispanos, e devemos chamar Hispanos a quantos habitamos a península hispânica". E dom Ricardo Jorge disse: "chame-se Hispânia à península, hispano ao seu habitante onde quer que demore, hispânico ao que lhe diz respeito". Hispânicos são, pois, todos os povos que devem a civilização ou o ser aos povos hispanos da Península. Hispanidade é o conceito que a todos abarca.[43]

No prefácio de sua obra À lareira de Castela, afirmou António Sardinha que fora no tempo de seu exílio em Espanha, à sombra da Catedral de Toledo, que sentira, como “uma realidade viva”, a “Espanha-Madre”, as Espanhas das clássicas inscrições e dos primitivos roteiros, que “tanto é Castela como Aragão, tanto é Portugal como Navarra”, vendo, desde então, na Hispanidade a unidade não da raça ou da terra, em seu sentido imediato, mas sim “a unidade cultural e social do elevado destino que Portugal e Castela nobremente conseguiram no Universo, dilatando com a Fé e o Império o mesmo ideal superior da civilização”.[44]

No Brasil, dentre os diversos autores que defenderam a hispanidade de Portugal e do Mundo Lusíada, podemos destacar os nomes de José Pedro Galvão de Sousa[45], Gilberto Freyre[46] e Bento Munhoz da Rocha.[47]

Em face do Estado fraco do liberalismo e do Estado Totalitário defendido pelos fascistas e praticado pelos comunistas e nacional-socialistas,[48] os integralistas lusitanos pugnam pelo Estado Integral, que não é um fim, mas sim um instrumento, um meio do “bem comum, da civilização geral e do serviço de Deus”. A “ideia totalitária” deve ser definida, outrossim, segundo preleciona José Pequito Rebelo, “não pela fórmula de que tudo tem o seu fim no Estado, mas sim que o Estado deve cumprir a totalidade dos seus fins”.[49]

Em abril de 1916, com a entrada de Portugal na I Grande Guerra, os integralistas lusitanos anunciaram sua transformação em organização política. A recém-constituída Junta Central do movimento subscreveu, então, um Manifesto convocando todos os monárquicos a lutar em defesa da Pátria em guerra.[50]

Em 1917, quando Sidónio Pais subiu ao poder, os integralistas colaboraram ativamente com seu governo. Como sublinha José Manuel Quintas, o propósito sidonista de acolher uma representação socioprofissional no Senado tinha para eles um “profundo significado político”: pôr termo ao monopólio da representação por intermédio dos partidos ideológicos (regime parlamentar), permitindo a representação dos municípios, dos sindicatos de operários e das corporações, por exemplo, o que representaria “um primeiro passo no sentido do restabelecimento da democracia orgânica da antiga Monarquia portuguesa”.[51]

Como recordou Hipólito Raposo, foi o integralista lusitano Pequito Rebelo convidado a assumir o cargo de Comissário Geral da Agricultura, mas se recusou a aceitá-lo, posto que era monárquico e, como tal, julgava não poder aceitar cargos de confiança na República, ainda que esta fosse presidida por um “homem de tal categoria intelectual e moral”.[52] Prontificou-se Rebelo, porém, a fornecer a Sidónio Pais todos os elementos de estudo de que dispunha, para que se tentasse solucionar a grave crise econômica “por meio de uma diligente e criteriosa organização agrária”. Tal estudo foi entregue, mas provavelmente se perdeu “na confusão dos trágicos acontecimentos que se seguiram nos fastos da política portuguesa”.[53]

O Integralismo Lusitano colaborou com o governo de Sidónio Pais, ainda, no plano da reforma da Instrução Pública, tentado por impulso de Fidelino de Figueiredo, junto do Ministro Alfredo de Magalhães.[54]

Foram, por essa época, eleitos deputados três integralistas, sendo António Sardinha um deles, e, conforme escreveu Hipólito Raposo, os integralistas chegaram a elaborar um projeto de Constituição Política, entregue a Sidónio Pais e por ele recebido com entusiasmo e que provavelmente se perdeu para sempre, se é que não foi “abafado por cautela”.[55]

Na sequência do assassinato de Sidónio Pais, os integralistas chegaram à conclusão de que era chegado o momento de restaurar o Trono. Diante da reação dos partidos ideológicos, que intentavam restaurar o regime parlamentarista republicano, integralistas desempenharam ativo papel no pronunciamento restauracionista de janeiro de 1919, que culminou na efêmera “Monarquia do Norte”.[56]

Em 1925, com o prematuro falecimento de António Sardinha, iniciou-se a decadência do Movimento Integralista Lusitano. No ano seguinte, os integralistas desempenharam relevante papel nas movimentações político-militares que, vitoriosas, levaram à derrubada do regime parlamentarista, a 28 de maio daquele ano. Pouco depois, porém, de o General Gomes da Costa ter sido afastado do governo, a Junta Central Integralista já principiava a expor suas reservas acerca da evolução política.da ditadura. Tais reservas não foram, contudo, bem recebidas nas hostes do Movimento Integralista Lusitano. Destarte, muitos membros de tal movimento continuaram apoiando o governo estabelecido, o que provocou inúmeras dissidências e cisões: em 1927, afastaram-se do movimento José Maria Ribeiro da Silva, Pedro Teotónio Pereira, Manuel Múrias, Rodrigues Cavalheiro, Marcelo Caetano, Pedro de Moura e Sá; em 1929, ocorreu a ruptura definitiva de Teotónio Pereira e Marcelo Caetano com o movimento, com a dissolução do Instituto António Sardinha; em 1930, ocorreu a dissidência integral e definitiva de João do Amaral, cuja ruptura se iniciara já em 1927, com a criação do diário Ideia Nacional[57].

Em 1931, consumada a ruptura entre os principais líderes integralistas e a ditadura e diante da série de deserções e dissidências a que fizemos referência, Francisco Rolão Preto e Alberto de Monsaraz, suspendendo a reivindicação do Trono, criaram o Movimento Nacional-Sindicalista,[58] que seria dissolvido por Salazar em 1934.

Havendo feito referência ao Movimento Nacional-Sindicalista, consideramos necessário sublinhar que este, ao contrário do que julgam muitos, sempre se proclamou diverso do Fascismo italiano e do Nacional-Socialismo alemão, condenando, ademais, a concepção totalitária do Estado. Em entrevista dada à United Press em 1933 e publicada no jornal espanhol Esfera, Francisco Rolão Preto, Chefe daquele movimento fortemente influenciado pela Doutrina Social da Igreja e pelo Integralismo Lusitano, afirmou:

O Fascismo e o Hitlerismo são totalitários, divinizadores do Estado, cesaristas: nós outros pretendemos encontrar na tradição cristianíssima do Povo Português a fórmula que permita harmonizar a soberania indiscutível do Interesse Nacional com a nossa dignidade moral de homens livres.[59]

Mais tarde, no célebre banquete realizado no Parque Eduardo VII, em Lisboa, em fevereiro de 1934, Rolão Preto fez questão de ressaltar o sentido das intenções do Movimento Nacional-Sindicalista “para além da Democracia, do Fascismo e do Comunismo”.[60]

Em 1932, quando faleceu D. Manuel II sem deixar descendência, o Movimento Integralista Lusitano “acabou por se dissolver para integrar a Causa constituída em torno de D. Duarte Nuno”, descendente de El-Rei D. Miguel I. Ao contrário, porém, da maioria dos antigos apoiadores de D. Manuel II, a qual, a convite de Salazar, passou a colaborar com o nascente Estado Novo, os integralistas o combateram desde o princípio.[61]

Se verdade é que, por um lado, António de Oliveira Salazar admirava o Integralismo Lusitano e foi inegavelmente influenciado por este, o que levou Machado Paupério a afirmar que o Estado Novo derivou das “ideias de Antônio Sardinha”,[62] por outro, não pôde ele contar com o apoio dos integralistas, sobretudo por não restaurar a Monarquia Tradicional.

Em O Sistema Corporativo, de 1938, Marcelo Caetano, havendo reconhecido “a considerável influência que no rejuvenescimento do pensamento corporativo tem exercido a experiência italiana”, patente na Constituição do Estado Novo e no Estatuto do Trabalho Nacional, diploma este inspirado na Carta del Lavoro italiana, enfatizou que

A aceitação da doutrina integralista por grande parte do escol da juventude portuguesa antes de 1926, atribui-lhe um papel importantíssimo na formação da nossa sensibilidade corporativa, e até na legislação do Estado Novo.[63]

Como ponderou Leão Ramos Ascensão na obra O Integralismo Lusitano, publicada em 1943, “a doutrina do Integralismo Lusitano irradiou fortemente por todos os sectores da sociedade portuguesa”, podendo-se afirmar que “alguns dos seus pontos são hoje unanimemente admitidos”. Os integralistas, contudo, não se regozijavam em demasia, posto que “os princípios integralistas formavam um sistema coerente e harmónico, cujas vantagens só poderiam verificar-se com a sua adopção em bloco”, mas “mutilado, esfarrapado, todo o sistema é comprometido e da sua deturpação podem resultar mais inconvenientes do que vantagens”. A “chave da abóbada de todo o sistema é a Realeza hereditária” e “a aceitação do sistema sem sua conclusão lógica torna-o ineficaz e contraproducente e pode ser a origem da sua derrocada”.[64]

Nas décadas de 1930 e 1940 foram sendo doutrinadas a terceira e a quarta geração do Integralismo Lusitano em torno de revistas como a Gil Vicente, dirigida por Manuel Alves de Oliveira, jornais como o Aléo, dirigido por Fernão Pacheco de Castro, e editoras como as Edições Gama, de Leão Ramos Ascensão, Centeno Castanho e Fernando Amado. Em 1945 foi criado o Centro Nacional de Cultura.[65]

Na década de 1950, já estavam os jovens em condições de receber o legado integralista por meio de uma reatualização doutrinária intitulada "Portugal Restaurado pela Monarquia". Por essa mesma época, surgiram novas publicações, como a revista Cidade Nova, de José Carlos Amado, Afonso Botelho e Henrique Barrilaro Ruas, e jornais como O Debate, de António Jacinto Ferreira e Mário Saraiva.[66]

O movimento dos denominados "monárquicos independentes", reunindo grande parte das novas gerações formadas junto dos mestres do Integralismo Lusitano, apresentou o seu manifesto em 1957. No ano imediato, Luís de Almeida Braga e Francisco Rolão Preto surgiram a apoiar a candidatura de Humberto Delgado à presidência da República. Segundo José Manuel Quintas, “terminavam ali os ‘anos de chumbo do Estado Novo’ (expressão de Fernando Rosas), com os integralistas em melhores circunstâncias para atrair os monárquicos desiludidos”.[67]

Em nossos dias, como ressaltou Mário Saraiva, “as gerações novas, viradas para o descobrimento da História que, antipatrioticamente, lhe tem sido ocultada”, vêm demonstrando “curiosidade especial para as doutrinas integralistas, também estas escondidas pelos facciosos meios de comunicação e de informação”[68].  Esperamos que esta curiosidade pelas doutrinas do Integralismo Lusitano só aumente em Portugal, Grande Pátria de que nasceu a nossa Pátria, assim como temos a certeza de que o ilustre nome de António Sardinha, bravo adail da Fé e da Tradição Lusíada, permanecerá vivo, iluminando, como um farol, o porvir daquela pequena grande Nação que um dia criou um vastíssimo Império.


Victor Emanuel Vilela Barbuy,
Presidente Nacional da Frente Integralista Brasileira


Notas:
[1] Da República (1910-1935),Recolha de textos por Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Morão, Introdução e organização de Joel Serrão, Lisboa, Ática, 1978, p. 354.
[2] Los hombres y las ruinas, Capítulo I, Tradução castelhana não assinada. Disponível em:  http://juliusevola.blogia.com/2010/092601-los-hombres-y-las-ruinas.-capitulo-i.-revolucion-contra-revolucion-tradicion.php. Acesso em 08 de setembro de 2014.
[3] Na feira dos mitos: idéias & factos, 2ª edição, Porto, Edições Gama, 1942, pp. 11 e 16. Grifos em itálico no original.
[4] Gente de casa: retratos de homens & perfis de ideias, Lisboa, Sigma, 1948, p. 185.
[5] Prologo de la primera edición española (1930), in António SARDINHA, A aliança peninsular, 3ª edição, Lisboa, qp, 1975, p. LXII.  Tradução nossa.
[6] Ao princípio era o Verbo, 2ª edição, Lisboa, Editorial Restauração, 1959, p. 10.
[7] Prologo de la primera edición española (1930), in António SARDINHA, A aliança peninsular, cit., pp. LXII e LXIII.  Tradução nossa.
[8] Cf. Guilherme AULER, Antonio Sardinha, Recife, Ciclo Cultural Luso-Brasileiro, 1943, p. 29.
[9] Estudo, in António SARDINHA, Roubo de Europa, Lisboa: J.F. Alves, 1931, p. XXIX.
[10] INTEGRALISMO LUSITANO, Antonio Sardinha, in Integralismo Lusitano: estudos portugueses, Volume I, Fascículo X, janeiro de 1933, p. 575.
[11] Antonio Sardinha. Disponível em: http://www.angelfire.com/pq/unica/il_gf_antonio_sardinha_por_gilberto.htm. Acesso em 08 de setembro de 2014. Artigo originalmente publicado na Revista do Norte, ano I, nº 1, Recife, 1925, pp. 5-6.
[12] Tronco reverdecido, Lisboa, Livraria Clássica Editora, 1910.
[13] A epopeia da planície, 2ª edição, Lisboa, Editorial Restauração, 1960.
[14] Quando as nascentes despertam, Lisboa, Livraria Ferin, 1921.
[15] Na corte da Saudade: sonetos de Toledo, Lisboa, Lumen, 1922.
[16] Chuva da tarde, Lisboa, Lumen, 1923.
[17] Era uma vez um menino, Lisboa, Livraria Universal, 1926.
[18] Roubo de Europa, Prefácio de Luís de Almeida Braga, Lisboa, Valentino de Sá, 1931.
[19] Pequena casa lusitana, Porto, Livraria Civilização, 1937.
[20] O poeta António Sardinha, in Reconquista, vol. III, n°s 2/3, São Paulo, 1952, p. 154.
[21] Roubo de Europa. In Reconquista, vol. III, n°s 2/3, São Paulo, 1952, p. 139.
[22] Antonio Sardinha, cit.
[23] O valor da Raça: introdução a uma campanha nacional,Lisboa, Almeida, Miranda & Sousa Editores, 1915.
[24] Ao princípio era o Verbo, cit.
[25] A Teoria das Cortes Gerais, 2ª edição, Lisboa, qp, 1975.
[26] Ao ritmo da ampulheta. 2ª ed. Lisboa: Biblioteca do Pensamento Político, 1978.
[27] A aliança peninsular, cit.
[28] Na feira dos mitos: ideias & factos, cit.
[29] Glossário dos Tempos, Lisboa, Edições Gama, 1942.
[30] À lareira de Castela, Lisboa, Edições Gama, 1943.
[31] António Sardinha sem disfarces, in Para a compreensão do pensamento contra-revolucionário: Alfredo Pimenta, António Sardinha, Chales Maurras, Salazar, Lisboa, Hugin, 1996, p. 95. Ensaio originalmente publicado em 1985, em número especial da revista Futuro Presente, de Lisboa.
[32] O artigo de Almeida Braga intitulado Integralismo Lusitano (anunciação) e publicado na revista Alma Portuguesa, nº II, série I, Lovaina, setembro de 1913, se encontra disponível em: http://www.angelfire.com/pq/unica/il_1913_IL_anunciacao_alma_portuguesa.htm. Acesso em 08 de setembro de 2014.
[33]Integralismo Lusitano – uma síntese. Disponível em: http://www.angelfire.com/pq/unica/il_jmq_integralismo_lusitano_sintese.htm. Acesso em 08 de setembro de 2014.
[34] Lições de Direito Corporativo,Lisboa, 1935, p. 12.
[35] Suma Teológica. 1ª parte da 2ª parte, Questão 105, Artigo 1º, Solução, Tradução de Alexandre Corrêa, Organização e direção de Rovílio Costa e Luís Alberto de Boni, Porto Alegre, Escola Superior de Teologia São Lourenço de Brindes, Livraria Sulina Editora; Caxias do Sul: Universidade de Caxias do Sul, 1980, p.1902. No opúsculo Do governo dos príncipes ao Rei de Cipro, Santo Tomás de Aquino, tendo em vista a mesma espécie de Monarquia, igualmente observou que é a Monarquia a melhor dentre as diferentes formas de governo(Do governo dos príncipes ao Rei de Cipro e do governo dos judeus à Duquesa de Brabante, 2ª edição, Tradução de Arlindo Veiga dos Santos. Prefácio de Leonardo van Acker. São Paulo: Editora Anchieta S/A, 1946, 43 e 45).
[36] Cf. Victor Emanuel Vilela BARBUY, A Monarquia Tradicional. Disponível em: http://monarquiatradicional.blogspot.com/2010_05_01_archive.html. Acesso em 09 de setembro de 2014. Sobre a Monarquia Tradicional: Francisco Elías de TEJADA, La Monarquía Tradicional, Madrid, Ediciones Rialp, S.A., 1954; Rafael GAMBRA, La Monarquía Social y Representativa en el pensamiento tradicional, Madrid, Ediciones Rialp, 1954; António SARDINHA, A Teoria das Cortes Gerais, cit.
[37] Ao princípio era o Verbo, cit., p. 14
[38] Idem, p. 10.
[39] Idem, p. 11.
[40] Idem, loc. cit.
[41] Cf. Victor Emanuel Vilela BARBUY, Brasil, Pátria hispânica, Grande Nação do passado e do futuro. Disponível em: http://cristianismopatriotismoenacionalismo.blogspot.com/2008/03/brasil-ptria-hispnica-grande-nao-do.html. Acesso em 09 de setembro de 2014.
[42] Las Españas. Madri: Ediciones Ambos Mundos, S. L., 1948.
[43] Defensa de la Hispanidad, Capítulo I: La Hispanidad y su dispersión. Disponível em: http://hispanidad.tripod.com/maezt3.htm. Acesso em 09 de setembro de 2014.
[44] À lareira de Castela, cit., pp. 12-13.
[45] SOUSA, José Pedro Galvão de. O Brasil no Mundo Hispânico. São Paulo: Ed. do autor, 1962.
[46] FREYRE, Gilberto. O Brasileiro entre os outros hispanos: afinidades e possíveis futuros nas suas inter-relações. Rio de Janeiro: José Olympio, 1975.
[47] ROCHA, Bento Munhoz da. Uma interpretação das Américas. Rio de Janeiro: José Olympio, 1948.
[48] Cumpre assinalar que o Estado Totalitário jamais se realizou na Itália de Mussolini, cujo regime nunca absorveu integralmente a sociedade, permitindo aos cidadãos um certo grau de liberdade no âmbito das atividades privadas, como, aliás, afirmaram Raymond Aron, em Democracia e totalitarismo (Democracia e totalitarismo, Tradução portuguesa de Frederico Montenegro, Lisboa, Editorial Presença, 1966, pp. 295-296), Hannah Arendt, em Origens do totalitarismo (Origens do totalitarismo, São Paulo, Companhia das Letras, 2012 pp. 355-358), e Roque Spencer Maciel de Barros, em O fenômeno totalitário (O fenômeno totalitário, Belo Horizonte, Itatiaia; São Paulo, Editora da Universidade de São Paulo, 1990, p. 81), nunca tendo o Duce, segundo Arendt, sequer tentado estabelecer um regime realmente totalitário em seu país (Origens do totalitarismo, cit., p. 437). Não podemos, pois, classificar o Estado fascista senão como um Estado Autoritário, de natureza diversa dos Estados Totalitários marxistas e do Estado Totalitário nacional-socialista. É o que Tasso da Silveira, um dos principais doutrinadores do Integralismo Brasileiro, já proclamava em 1937, em sua obra Estado Corporativo: “Na hora presente, precisamos acentuá-lo, só ficam rigorosamente dentro do quadro de um totalitarismo característico a Rússia de Stálin e a Germânia de Hitler” (Estado Corporativo, Rio de Janeiro, Livraria José Olympio Editora, 1937, p. 273).
[49] Espanha e Portugal: unidade e dualidade peninsular, in António SARDINHA, A aliança peninsular, cit., p. CXXXIII.
[50] Cf. José Manuel QUINTAS, Integralismo Lusitano – uma síntese, cit.
[51] Idem.
[52] Folhas do meu cadastro, vol. I. Lisboa: Edições Gama, 1945, p. 38.
[53] Idem, loc. cit.
[54] Idem, loc. cit.
[55] Idem, p. 37.
[56] Cf. José Manuel QUINTAS, Integralismo Lusitano – uma síntese, cit.
[57] Idem.
[58] Idem.
[59] A traição burguesa, Lisboa, Pro Domo, 1945, p. 246.
[60] Idem, p. 245.
[61] Cf. José Manuel QUINTAS, Integralismo Lusitano – uma síntese, cit.
[62] Teoria Geral do Estado. 7ª edição, Rio de Janeiro, Forense, 1979, p. 125.
[63] O Sistema Corporativo, Lisboa, 1938, pp. 27-29.
[64] O Integralismo Lusitano, Porto, Edições Gama, 1943, pp. 134-135.
[65] QUINTAS, José Manuel. Integralismo Lusitano – uma síntese, cit.
[66] Idem.
[67] Idem.
[68] Frontalidade: ideias, figuras e factos, Prefácio do Professor Doutor Pedro Soares Martinez. Lisboa, Universitária Editora, 1995, p. 48.


[*] Comunicação apresentada no último dia 12 de setembro, no IV Encontro Internacional Evoliano.

 


22/10/2014, 12:15:29



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