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Povo Anestesiado
Senador Cristovam Buarque, Vossa Excelência em 03/04/2006, em brilhante pronunciamento da tribuna do Senado Federal, tocou no ponto principal, tocou no nervo primacial, tocou no Nó Górdio, embora não o tenha cortado, da realidade triste que vivemos. Vossa Excelência fez a si mesmo várias perguntas. Perguntou como está chegando à cabeça das crianças brasileiras a idéia de que os Ministros mentem? Como fica na cabeça dos nossos jovens; como chegamos a esse estado de banalização do crime, da violência e da corrupção. Mais ainda, em Vosso pronunciamento Vossa Excelência falou na nossa incapacidade de indignação diante de tudo que aí está e alertou que estamos vivendo uma guerra civil. Concordo inteiramente.

Vossa Excelência teve a coragem de citar o número de 800.000 mortos, assassinados em 25 anos. Citou como se fosse dado de pouco conhecimento público, como de fato é. De onde eu concluo que o lugar onde mais se verifica a incapacidade de indignação diante desse fato e de outros é o Parlamento, com destaque especial para a Câmara Federal – na expressiva maioria representantes brasileiros inadvertidos desse cabuloso assunto; todos representantes da incapacidade de indignação nacional. Vossa Excelência está de parabéns em lembrar esses mortos da Democracia 1984-2004. Não é qualquer Senador dessa República que tem coragem de mostrar no plenário do Senado o atestado de óbito da Constituição Federal de 1988 e seu Estado de Direito.

Ao longo do seu brilhante discurso Vossa Excelência confessou (retoricamente) sua ignorância várias vezes. Por que perdemos, Senador Alberto Silva, a capacidade de indignação? O que aconteceu na cabeça de nós todos que passamos a ser tolerantes com o pecado, tolerantes com a maldade, tolerantes com as perversões do processo social brasileiro? Onde erramos nós todos? Em que momento começamos essa virada da tolerância com o pecado, com o crime, com a mentira, com a tragédia social e com a guerra civil que o Brasil vive?

Não sei qual foi o momento. Não sei se algum historiador chegou a fazer um trabalho para identificar em que momento o Brasil saiu da indignação para a tolerância, saiu da resistência para a conivência com que hoje assistimos a tudo de mal que acontece no País. Como não sei em que momento isso ocorreu, prefiro perguntar-me quando vamos mudar isso.

Eu não sei resistir a essas indagações por estudar essas questões de Segurança e Educação há mais de vinte e cinco anos, e que particularmente as considero emblemáticas do Estado a que chegamos, algo que lembra-nos o sábio Barão de Itararé referindo-se ao Estado Novo de Getúlio. Portanto, com a sua vênia, as respondo para Vossa Excelência.

Quanto à pergunta de porque nenhum historiador revela esse mal, só posso lhe dizer que se algum deles tentasse isso até maio do ano passado seria rapidamente ridicularizado e expulso do establishment universitário brasileiro. Sofreria uma perseguição e um descrédito incríveis. Conheço um intelectual na UnB que teve sua tese varrida e desacreditada porque ousou denunciar o poder devastador da hegemonia gramsciana que os mestres petistas tentam ocultar dos seus alunos!

Com Vossa vênia, deixe-me perguntar também: que estado da igualdade é esse que se seguiu aos “anos de chumbo” da ditadura militar 1964-1984? O que houve neste interregno? Que ideologia sucedeu o arbítrio de Golbery? Que consenso social, político e cultural seguiu ao autoritarismo schmittiano (de Carl Schmitt) de Geisel e cia? Que paradigma? E a pergunta fatal: que origem tem esse consenso hegemônico?

Vossa Excelência não concorda que, passados 20 anos, a contar do governo Sarney, o Brasil se democratizou, erigiu novo mandamento legal, e apagou por inteiro as obras, boas e más da ditadura militar? Que teve tempo suficiente para construir uma Educação, uma Segurança, e uma abundância material e moral dignas do nosso povo? Que foi tempo suficiente para o aparelhamento da sociedade civil organizada e, por fim, do inevitável aparelhamento do Estado/


Se Vossa Excelência concordar que aquele período negro (êpa, cometi um crime hediondo nessa República) é página virada na nossa História, irá convir que o novo consenso, o novo paradigma escolhido pela via democrática e constitucional foi ele mesmo o criador, ou, no mínimo, incitador dessa alarmante incapacidade de indignação.

Pareceu-me que Vossa Excelência se referia também ao grau que essa indignação nele atingiu. Pois involuimos em dignidade nesses 20 anos muito rapidamente; nossos representantes no Parlamento são a prova viva disso. Na sociedade a nova liberdade adquirida ganhou em licença o quanto perdeu em valor, permitindo outro ganho de criminalidade (também chamada de violência pelo politicamente correto); com uma novidade: a crueldade dos crimes, não é mesmo? No Parlamento bastaram apenas três safras ou três legislaturas para se chegar ao mundo dos delúbios compradores de votos.

Pois bem, nobre Senador, ouvindo atentamente ao Vosso pronunciamento, o qual começou pela indagação do que estaria passando na cabeça das nossas crianças e dos nossos jovens acerca dos últimos e vergonhosos acontecimentos, não consegui refrear a resposta que me veio à boca naquele instante diante da TV Senado: nada! Nada passa na cabeça dessas crianças ou desses jovens, Senador! A Educação – que lhe é tão cara – que esses jovens vem recebendo nos últimos 20 anos fracassou. Isso impede que eles tenham qualquer capacidade de entendimento do que se passa, quanto mais capacidade de indignação. O que têm são reações automatizadas, pavlovianas; emoções tortuosas, difusas e desconexas, longe de um norte causal das coisas e da História. Hoje, desenraizados, arremetem seus espíritos para toda sorte de ações inaceitáveis, com o incentivo de um Estado e verbas de sucessivos governos que, eles mesmos, não sabem para onde ir. Como esses jovens teriam capacidade de indignação se lhes foram subtraídas as regras mínimas da moral cristã – erradicadas da nossa cultura –; as balizas éticas da vida familiar, banalizadas por mil atos disruptivos e imorais; as mínimas regras de convivência social civilizada, substituídas que foram por um perigoso laissez faire que tudo permite, nada proíbe, tudo confunde – aquilo que em uma única expressão o Papa Bento XVI chamou de “ditadura do relativismo moral”? Mal do nosso tempo? Talvez. Mas onde estiveram tantos governos democráticos inadvertidos disso? Não sabiam disso? Ou estavam fazendo exatamente isso, destruindo o passado, dando esmolas e colhendo miséria?

Nobre Senador, há vinte anos atrás a família brasileira era mais digna – a fome era a mesma ou menor que a de hoje –; a sociedade era mais segura; as crianças não se drogavam nem jovens com menos de 30 anos morriam como moscas; não havia nenhum estado paralelo, nenhuma guerra civil senão a guerra de militares (com a ajuda da população) contra comunistas e guerrillas que tinham como modelo Cuba, União Soviética, China, Albânia e, principalmente, os mortos se contaram em 400 pessoas! Vou repetir: 400 pessoas (dado do Ministério da Justiça de Márcio Thomaz Bastos ou de seu e$critório de advocacia, o que é a mesma coisa!). Para isso eu não preciso de uma tese: eu estava lá e Vossa Excelência também. Depois disso o número, sem nenhuma guerra intestina ou estrangeira, foi mais do que 10 vezes o número de mortos americanos em 10 anos de guerra contra o Vietnã do Norte, por coincidência, uma guerra contra a mesma ideologia da Cuba, Uniõa Soviética, China Comunista, Albânia, etc, etc! Antes de 64 a vida ainda era mais amena, romântica, bela de ser vivida. Tínhamos até um herói: Juscelino! Como lamentamos a perda disso tudo! Mas o pior do nosso tempo é a Educação arruinada: crianças de nove, dez, onze, doze, treze anos ainda analfabetas, embora matriculadas e perfeitas cidadãs desde cedo.

Vossa Excelência me brinda com Vossa inteligência a todo momento; não deixará de me brindar com seu assentimento ao que acima escrevi contrito.

Não sou um saudoso fã do autoritarismo que perseguiu, censurou, prendeu, arrebentou e matou, nem que fossem apenas 400 brasileiros! Bastaria um, eu já o condenaria. Mas temos que relevar as proporções. O regime de Lula tem um DNA potencialmente assassino, infinitamente maior do que o regime de Golbery e Castelo. Infinitamente maior, Senador. Algo que se mede pela escala de terror de milhões de Stalin; exatamente o ditador totalitário que usava de métodos que o ora presidente Lula, em concerto com seus ministros vem de usar “violentando” a Constituição da Democracia (a propósito, violentar cadáveres é necrofilia). As ligações genéticas com o pessoal do Foro de São Paulo atestam isso e nos fazem entender muitas coisas sem resposta.

Apelo novamente à inteligência de Vossa Excelência para atentar para o fato que o regime Lula não começou em 2003 – ninguém fica tão incapaz de indignação e tolera tanta banalização do Mal em apenas 3 anos! O processo é bem mais antigo; eu lhe garanto: tem 20 anos e pouco, e ainda assim, como data do último marco constitucional. Além disso, temos que convir que há algo de profundamente errado com a nossa “Democracia”, ou com a nossa Constituição–Cidadã. Será a juventude da Constituição? Ou será a corrupção da democracia? Ou será a sua substância?

Vossa Excelência, referindo-se ao período militar afirma que não deixamos que os crimes da Ditadura fossem banalizados na opinião pública; felizmente, não deixamos que aqueles atos autoritários se transformassem em um processo tão banal que nos deixaríamos de indignar. Mas agora deixaram. Porque caímos em uma democracia, como disse o genial Millôr; porque (sobre)vivemos em uma sociedade licenciosa, de moral relaxada, munida de um habeas corpus social excessivamente liberalizador, e que rapidamente induz à perda de limites.

A mídia teve papel fundamental nisso. As redes de televisão e seus programas diários, incluindo o abominável Fantástico, é um dos instrumentos dessa banalização, Senador. Há anos essas emissoras nos bombardeiam com matérias e reportagens que visam justamente banalizar o crime, enquanto desinformam a degenerescência das polícias e do Exército com algum prazer de vendeta! Construíram toda uma estética criminosa nesta desinformatzia. São carandirus para lá, carandirus para cá; cidade disso, cidade daquilo; eis a educação e os paradigmas que nossos jovens vem tendo. Pseudo-artistas e pseudojornalistas que recolhem impressões a partir do millieu mais perverso para fazê-lo comum, banal. São dali mesmo; não são personagens, são reais, são criminosos. O meio mais eficiente para isso é glamourizar as caricatas personagens-modelos na TV do Big Brother. Não estou falando na metáfora de Orwell; estou dizendo do convite para a total e revolucionária corrupção dos costumes, da moral e tudo o mais que dispensa provas. Astros bad boys viram notícia. E rapidamente são reconhecidos em Brasília. Seu crime hediondo merece prêmio – o caso recente do MV Bill que testemunhou o seqüestro e tortura de três pessoas é prova disso! Enquanto o Senado se distrai com essa onda diversionista fabricável a partir de cada esquina do crime, o governo respira. Muita gente está sendo enganada pelo próprio discurso da frouxidão da Segurança. A banalização ainda tem o poder da indenização, do perdão, do indulto para o Mal, chega a parecer cristã, absolvendo e devolvendo o céu para ex-torturados bandidos de ontem. O Senador Agripino Maia teve que recuar na CPI dos Bingos nessa terça diante de um ex-torturado que usou do melhor título do seu currículo, da sua trajetória. Merecia uma indenização do escritório do Marcio Thomaz Bastos e não ser traído pelo Okamoto!

A resposta para as suas indagações tem o nome do Mal, e é um só. Impronunciável nas Casas do Parlamento brasileiro; incompreensível para a esmagadora maioria dos nossos políticos; desconhecida por inteiro do país e do seu povo, tão incapaz de indignação, tão anestesiado que está; tem o nome da besta que não é motivo de debate nesse país há 20 anos, que ainda não ousa dizer o seu nome: o socialismo, nobre Senador. E o nome do processo histórico que o instalou em décadas, Vossa Excelência não desconhece, eu já dei a pista: é gramscismo! Nada de utopias, paraísos verdejantes, abundância, amor, fraternidade, generosidade; somente socialismo, nobre Senador, seja o do PT, ou do PSDB, alternadamente, convergindo. Como é mesmo aquela palavra russa preferida de Gorbachov, szblizhinie? E se ainda essa convergência pudesse ser piorada, se agravar mais, agora se revela uma convergência de ladrões e trambiqueiros como nunca o Brasil conheceu, como disse hoje o acadêmico; uma espécie de Foro Social da Roubalheira, digo eu.

Está aí a explicação das suas indagações, Senador. Desculpe o desafio intelectual; a provocação intelectual; afinal não é todo o dia que me correspondo com um Senador da sua grandeza e um ex-Ministro da Educação.

O meu maior desejo, e que gostaria de vê-lo atendido por vossa Excelência, é saber se há salvação para a Educação Zero que esse regime criminoso construiu nos últimos treze anos. Que grau de criminalidade tem essa convergência socialista. Eu estou cético, Senador, não acreditando que em menos de três gerações nos recuperemos dessa devastadora hegemonia gramsciana. Temo a guerra civil.

Continuarei assistindo aos seus pronunciamentos. Dê um abraço no Senador José Jefferson Carpinteiro Péres, a quem eu estimo muito também.

Mui respeitosamente,

Carlos Alberto Reis Lima, 57 anos

médico; freqüentou História e Mestrado de Ciência Política nos anos 80 na mesma UFRGS até se cansar dela.

13/04/2006, 13:00:51



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