Em fins de 1931, o sr. Laval, primeiro ministro francês, partiu para os Estados Unidos, a fim de conferenciar com o sr. Hoover, chefe do governo norte-americano. A humanidade assistiu ao diálogo entre a França e os Estados Unidos.

Esse encontro teve, sem exagero, o sentido profundo de uma tragédia esquiliana.

A luta do homem contra a conjuração das fatalidades constitui o espírito do velho teatro grego, que exprimiu, tão ao vivo, a vibração da consciência dos povos da antiguidade, arrastados todos como títeres aos conflitos em que a impres­critível vontade dos deuses traduzia a inamovibilidade das for­ças naturais no embate com as superiores diretrizes do espírito humano.

A conversação entre a França e os Estados Unidos assume um caráter de intensa vibração dramática, pela inutilidade de todas as tentativas, pelo gesto perdido de todos os esforços, no sentido de remover a tempestade que se está formando no hori­zonte das nações.

* * *

A tormenta vem se preparando desde o dia em que os governos começaram a perder gradativamente o “controle” das forças econômicas.

Os governos, representando a soberania nacional, forma­vam-se pelo funcionamento da grande máquina da vontade geral.

A vontade geral não exprimia uma realidade orgânica, mas uma realidade simplesmente teórica, baseada no conceito do individualismo. A índole do sufrágio universal vai buscar sua origem na redução de todos os interesses à expressão de um único interesse: o da manutenção das mais amplas liberdades através das quais o indivíduo possa largamente se expandir.

A soberania nacional, provindo desse princípio, tem de re­presentar um lugar comum, que não venha colidir em nenhuma oportunidade e de nenhuma forma com os interesses de ex­pansão do indivíduo. De sorte que os governos emanados da vontade geral têm a sua ação reduzida aos próprios limites, determinados pelo pensamento essencial que demarca a capa­cidade interpretativa dos fenômenos sociais.

Essa capacidade interpretativa, se é ampla no sentido da generalidade do sufrágio, é extremamente restrita, no sentido da intromissão nos negócios públicos, do caráter humano do eleitor.

O sufrágio universal é extensivo no seu exercício e na sua finalidade teórica; mas é restrito na sua significação, como é vago na sua finalidade prática.

O sufrágio universal abrange os horizontes mais amplos, mas apenas toca à superfície dos terrenos que abarca.

Pois sendo profundamente individualista, ele compreende a maior soma de indivíduos e os projeta no único plano em que se pode homogeneizar a Opinião, que é o plano vago, indistinto, da liberdade do pensamento, da sua livre manifes­tação.

Ora, nesse plano, respeitados todos os pensamentos, como índices de liberdades individuais, chegamos a uma conclusão curiosa: tais pensamentos, ou co-existirão, anulados uns pelos outros, ou um deles se imporá, o que será a negação da liber­dade e da individualidade dos vencidos.

O Estado Liberal, portanto, partindo da aceitação do prin­cípio da mais completa liberdade, expressa pela vontade geral e traduzida na soberania nacional, chega ao seguinte dilema:

—  ou trair a sua própria tese, se deixar predominar uma determinada vontade sobre as demais vozes que o sufrágio interpreta;
—  ou manter-se sem finalidade prática, inibido de oferecer soluções aos problemas em que entram em choque as diferen­tes correntes da opinião.

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Cumpre notar que o que nós chamamos as “correntes de opinião” se encontra hoje sob a influência magnética de dois pólos:

—  os interesses dos detentores dos meios de circulação das riquezas (banqueirismo internacional);

—  e os interesses artificialmente postos em choque pelos marxistas a serviço do capitalismo internacional, isto é: 1.°) os interesses das classes trabalhadoras; 2.°) dos dirigentes téc­nicos.

Por mais que se subdividam os partidos da “direita” e da “esquerda”; por mais que se multipliquem as facções “centris­tas”, todos agem sob a influência de um único problema: o da chamada “luta de classe”.

Ora, o Estado Liberal não quer conhecer a “luta de classe”.

Não quer, justamente porque os poderes que lhe outorga o mandato emanado do sufrágio universal são vagos e indefinidos.

Esses poderes não provêm do cidadão considerado como “homem integral”, e sim do cidadão considerado como “indivíduo votante”.

Pois a democracia toma o indivíduo, teoricamente, como instrumento de função política, sem outra finalidade senão a de construir governos representativos da soberania nacional.

Não lhe interessa o indivíduo global, na sua tríplice afirma­ção, como personalidade moral, como fração de classe e como expressão cívica.

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Só esta última é apreciada pela democracia e é dessa fei­ção que decorre o caráter dos governos.

Nestas condições, os governos não têm poderes para se imiscuir senão nos lineamentos gerais garantidores das mais amplas liberdades.

Conseqüentemente, as forças econômicas se organizam à revelia do Estado. Agem livremente no mundo, sem discipli­na em seus movimentos e nas suas diretrizes.

Os governos perderam todo o “controle” dessas forças. Elas supriram a deficiência dos governos, criando a sua pró­pria autoridade, que é internacional e tem assento na City e na Wall Street, nas Bolsas e nos Bancos mundiais, nos “bureaux” das grandes companhias.

O mundo não é governado pelos governos, e sim pelas “praças”.

A grande crise do mundo é a crise da autoridade.

* * *

Na Europa, ainda fumegante sob as cinzas da Grande Guerra ateada pelo super-banqueirismo e pelos fabricantes de armas, o mundo assistiu ao drama do fracasso de Wilson.

Era o fracasso da Democracia, em face do instinto de conservação e o terror recíproco dos povos, manobrados pelos detentores do poder e da soberania financeira do mundo.

Muito mais tarde, no desequilíbrio universal, assistimos à cena da conversação entre Laval e Hoover, dois fantoches da liberal democracia tentando reagir contra os elementos conju­rados para a destruição do mundo.

Quando Laval partiu para os Estados Unidos, um jornal de Paris escrevia:

“Que poder tem, constitucionalmente, o sr. Laval para comprometer as finanças da França?

Nenhum poder.

Que poder tem, constitucionalmente, o sr. Hoover para tomar compromissos sobre as finanças dos Estados Unidos?

Nenhum poder.

Que competência particular tem o sr. Laval para ir falar da situação econômico-financeira?

Nenhuma competência.

E o sr. Hoover, cujas previsões têm sido invariavelmente desmentidas, pelos acontecimentos, que qualidades possui para propor remédios?

Qualidade alguma”.

* * *

Essas perguntas exprimem admiravelmente a situação dos governos do mundo, em face dos grandes interesses em jogo. A dificuldade em que se encontram hoje todos os povos se origina, exclusivamente, da falta de disciplina internacional, do trabalho e da produção. Os estoques estagnados, sem possi­bilidade de financiamento, são ainda uma pequenina parcela do que os povos podem produzir, para se abastecerem larga­mente.

Entretanto, a produção, ameaçada, paralisa. Porque não há portadores de dinheiro para consumir. Há estômagos, mas não há consumidores!

Há necessidade de produzir mais, muito mais do que atual­mente se produz; porém, não há possibilidade de intercâmbios intensos, não há crédito, não há dinheiro.

Nunca foi tão grande a fartura e nunca foi tão grande a miséria!

Nunca foi tão necessário o trabalho e nunca foi mais inú­til o trabalho!

Nunca os meios de comunicação se tornaram tão fáceis para o transporte de mercadorias; e nunca esses meios de comunicação se tornaram tão supérfluos, quando as nações fecham os portos, através das guerras aduaneiras!

Essa é a situação do mundo; e, sob os trágicos elementos desencadeados das desconfianças e dos pavores recíprocos, a luta dos homens que têm sobre seus ombros a responsabilidade dos destinos universais, assume as proporções de um grande drama impressionante.

Os governos perderam a autoridade.

O mundo pesa, mais do que nunca, sobre os ombros dos novos Atlas.

Porque falta aos heróis de hoje a força que provém de uma concepção de finalidade do Estado.

Finalidade de aperfeiçoamento e de justiça humana, que deve sobrepairar às contingências dos interesses materiais das classes em conflito, que inspiram o roteiro das Nações.

É preciso destruir a direita reacionária, como a esquerda que se diz revolucionária.

Destruir todos os partidos intermediários do centro, velhos oportunistas e charlatães.

E realizar, na finalidade superior do Estado, a verdadeira finalidade do homem integral, pequeno mundo em si mesmo e parte do mundo na Nação; ser essencial, como personalidade, e ser contingente, como fator de produção, de riqueza coletiva e de grandeza nacional.

Pois é dessa concepção do Homem e do Estado que virá a concepção do Governo capaz de disciplinar, de dirigir e de equilibrar o mundo.

 

Plínio Salgado

Nota:

[1] Extraído de: O Sofrimento Universal, Livraria José Olympio Editora, Rio de Janeiro, 1934 – São Paulo, pág. 93.

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