Esses, que aí vão, em multidões, enchendo os bondes, os trens dos subúrbios, povoando as estradas, ressoando os passos nas pedras das ruas, mal rompe a aurora, — são eles, os cons­trutores de toda a grandeza material de um povo.

São eles, os operários, os que batem o aço das naves, os que erguem os vigamentos dos prédios, os que fiam e tecem as roupas que vestimos, os que fabricam mil objetos, todos esses que constituem os primores da civilização.

À luz vermelha das fornalhas, revolvendo o carvão incan­descente; domando o aço que amolda ao canto das bigornas; movendo as chaves que despertam o clamor dos motores e dos dínamos; — ei-los, os criadores do progresso, os mágicos das forjas, dos tornos, dos teares, dominadores dos elementos.

Sem eles não há realizações materiais numa Pátria. Sem eles não há força, saúde, riqueza e conforto num país. Sem a colaboração deles será inútil o esforço dos cientistas, dos inventores, dos técnicos, dos estadistas. Porque os operários são a inteligência executora comandada pela inteligência cria­dora, e uma não pode passar sem a outra, pois ambas se completam.

* * *

Desgraçados os países onde os operários foram transfor­mados em seres sem alma, autômatos sem vontade, nos quais morre toda a alegria da criação que vem do fundo de um coração livre!

Desgraçados os países, também, onde os operários são es­quecidos, humilhados, desprezados e explorados, vivendo uma vida sem esperança!

Uma nação só é grande quando os seus operários são felizes, quando eles sentem, na segurança da sua liberdade e na fartura do seu lar, a justiça e o respeito dos seus com­patriotas.

O operário brasileiro tem uma extraordinária missão. O Brasil é um país novo, onde quase tudo está por fazer. Pos­suímos jazidas imensas de ferro a explorar; um extenso terri­tório, que deve ser cortado de estradas de ferro. Precisamos de uma grande frota para o nosso comércio marítimo e de uma poderosa esquadra para a defesa do nosso litoral. Temos necessidade de construir estradas para automóveis e automó­veis para essas estradas. É-nos indispensável contar com mi­lhares de aviões, pois além de sermos a Pátria da Aviação, o nosso território é de tal forma gigantesco, estendendo-se em tão vastas latitudes, que os meios rápidos de comunicação nos são imprescindíveis. Urge criarmos uma laboriosa agricultura e uma indústria nacional, capazes de aproveitar as produções da terra. Por todos esses motivos, ser operário no Brasil é ser soldado de um grande exército, o Exército da Economia Nacional.

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Para ter uma compreensão profunda do seu glorioso pa­pel, o operário brasileiro deve guardar no intimo do seu cora­ção o amor da Pátria, que lhe dará a ideia da dignidade do Trabalho. Esse sentimento deve ser acompanhado pelo da Família, que imprime ao Trabalho um caráter de Humanidade, espiritualizando o seu esforço construtor, e pelo sentimento de Deus, que inspira confiança, ânimo e fortaleza, enaltecendo e elevando a criatura que, por Ele, se salva do perigo de se bru­talizar e se transformar em máquina inconsciente.

À primeira hora do dia, quando o perfil das fábricas se estampa no róseo tom da alvorada, e as chaminés, ao canto das sereias, elevam para o espaço o seu pendão de fumo, como é comovente a marcha dos operários para o trabalho!

Quereis sentir a maravilhosa grandeza do homem, no ins­tante em que realiza o seu esforço criador?

Vede aquele quadro: o trabalhador levanta com sua tenaz a barra incandescente da fornalha. Leva-a para a bigorna. Como gritos de luz, irradiam-se vivas fagulhas; multiplicam-se, em círculos, como estrelas. Retine, cantando, a voz do metal. E o trabalhador, coroado por uma constelação de fúlgidas cen­telhas, resplandece como estátua de ferro em estremecimentos humanos. E o clarão que se reflete no suor do seu rosto, parece dar estranhos polimentos ao semblante de músculos retesos no ímpeto criador e na glorificação do homem.

 

Plínio Salgado

Nota:
[1] Nosso Brasil, 1937, in Obras Completas, 1954, S. Paulo, Vol. 4, pág, 341.

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