Por Guilherme M. Cirillo

Dois de Novembro. Tarde de verão canicular. Os boatos aterrorizadores eram, naquele dia de finados, os salpicos que anunciavam a nossa grande satisfação pela realização do 1° Congresso Provincial do Espírito Santo.

O Congresso, apesar de tudo, ia sendo conduzido por mão enérgica.

De todos os recantos da Província Capixaba, chegavam, de instante a instante, novos caminhões, automóveis e trens apinhados de destemidos Camisas-Verdes ansiosos por ouvir a palavra dos chefes.

A Pérola do Sul, que tem por sentinela constante o épico Itabira, estava cheia de apreensões e, apesar do pânico e da confusão que os desordeiros assalariados de Moscou pretendiam implantar, embuçados na esfarrapada capa de antifascistas, antiguerreiros, etc., assistia, com orgulho e satisfação, à chegada dos novos bandeirantes deste século. Ela, em homenagem aos seus bravos hóspedes Camisas-Verdes, também se vestira de verde. Era o verde das suas florestas; o verde das matas que enfeitam o gigantesco penhasco; o verde da sua arborização; tudo de mistura com alguns milhares de disciplinados Camisas-Verdes.

Tudo verde!

Eles, os apaniguados do famigerado Komintern, diziam entre dentes: o Congresso se realiza, mas alguém sofrerá as consequências.

Lá de longe de um lugarzinho pitoresco — São Vicente — um punhado de intrépidos integralistas se aprestava para, de caminhão, comparecer ao grande Congresso. Seriam uns vinte. Entre eles, lá estava Sechin, aquele que daí a poucos minutos seria, no Integralismo, das terras da heroína Maria Ortiz, o seu primeiro mártir.

Nada fazia suspeitar àquela família feliz que via seu filho seguir ao encontro dos seus companheiros de ideais, a desgraça que pairava sobre a sua modesta casinha.

Tudo pronto. Parte o caminhão estrada afora. Todos estão alegres e vêm cantando os patrióticos hinos do Sigma.

Lá numa dobra (sempre nas dobras) da estrada, uma voz de alcóolatra se faz ouvir: ALTO! É parado o caminhão. Nesse instante fatal, de dentro da mataria verde que ali estava para enfeitar a passagem, embuçados e covardes, surgem os comunistas que iniciam tremenda fuzilaria contra aquele pugilo de indefesos soldados da Pátria. O chauffeur, compreendendo a cilada em que caíra, pisa o carro e arranca levantando um turbilhão de areia. A fuzilaria continua até que se perde de vista o caminhão.

No fundo da carroceria, jaz inerte o corpo daquele quase menino — Sechin. Fora ele a feliz vítima, fora ele que tivera a grande ventura de ser o primeiro, no Espírito Santo, a derramar seu sangue pela grandeza do Brasil.

Os companheiros aflitos, aos trancos do caminhão que corre, tentam reanimá-lo.

Ei-los na Cidade.

Um quarto de hospital.

Médicos, enfermeiros, todos correm empregando seus esforços para salvar aquela criança tão prematuramente roubada ao convívio de seus velhos pais, irmãos e companheiros de lutas.

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As horas se passam.

Há muito que a noite caía sobre a cidade.

Sechin abre os olhos. Vê que está cercado de companheiros. Sorri.

A bala traiçoeira atingira-o no peito, lado direito. Ele murmura algumas palavras. O Chefe se acerca do seu leito.

— Chefe! — clama Sechin. — Levante-me o braço.

O Chefe jeitosamente ergue-lhe o braço e Sechin, meio erguido do leito, olhando para o infinito, numa voz forte e vibrante, com espanto de todos, brada firme:

“AO CHEFE NACIONAL! ANAUÊ! ANAUÊ! ANAUÊ!”. E tomba morto.

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Sechin morreu. Ei-lo envolto na sagrada bandeira do Sigma. Seu corpo de menino ainda está quente. Ferido miserável e traiçoeiramente, numa emboscada feita pelos assassinos a soldo de Moscou, tombou quando se dirigia, com uma plêiade de jovens companheiros, ao Primeiro Congresso Provincial do Espírito Santo, a fim de ouvir a palavra dos seus superiores.

Sechin está morto.

Madrugada. Sol ainda escondido.

Foi uma vigília triste. Mil e muitos companheiros ali ficaram, olhando aquele cadáverzinho e cada um prometendo a si mesmo novas energias para enfrentar com denodo e coragem, os miseráveis inimigos da Pátria.

O Chefe determina: — Sechin será sepultado no pequenino cemitério de São Vicente. Está formado o préstito fúnebre. Partimos. Todos têm os olhos marejados de sentidas lágrimas.

Acompanhávamos consternados o corpo daquele novo mártir; tendo saído da casa de seus velhos pais, com vida e saúde, íamos entregar à sua bondosa mãe, pai e irmãos, aquele corpo frio, sem vida, aquele cadáver.

Que dirão? Como será? Como nos receberão? Que nos vão dizer? E pensando em mil coisas, lá íamos dirigindo aquela caravana tristonha. Chegamos. O dia já está amanhecendo. O sol já estendeu pelas campinas ainda orvalhadas, seus raios brilhantes. Eis a casinha dos pais de Sechin. Toda caiada de branco e cercada de viçoso arvoredo.

Debaixo de um silêncio sepulcral fizemos a entrega do corpo de Sechin. Seus pais e irmãos, ali estão, tristes e chorosos. Alguns instantes mais e seguimos todos para o pequenino cemitério local. À beira da campa, fala o companheiro designado. Diz o que foi a brutal tragédia que, naquele dia triste de finados, enlutou a grande família integralista.

Despede-se de Sechin e é feita a sua chamada: ALBERTO SECHIN! E todos nós respondemos: Presente! Nesse instante, instante que nunca mais se apagará dos meus olhos, a velha mãe de Sechin, ergue o braço e diz: “FILHO QUERIDO, PELO BEM DO BRASIL, ANAUÊ!” E virando-se para nós acrescenta: “DIGAM AO CHEFE NACIONAL QUE AINDA TENHO DOIS FILHOS PARA MORREREM PELA GRANDEZA DA PÁTRIA!”