Por Plínio Salgado

Caetano Spinelli foi o terceiro mártir da ideia integralista. Natural de Campinas (Província de São Paulo), contava perto de cinquenta anos, mas a sua têmpera rija era a de um jovem.

Quando desfraldei a bandeira do Sigma, desfilando nas ruas da capital paulista com os primeiros “camisas-verdes”, fato que se deu, precisamente, no dia 23 de abril de 1933, às três horas da tarde, Spinelli foi um dos que marcharam.

Pertencia ao núcleo da Mooca, todo constituído de operários; ele também era um operário.

Desde aquele dia, o bravo Spinelli não faltou a um só desfile, foi pontual a todas as convocações, trabalhou sem cessar, sacrificando tudo pela causa que abraçara.

Pouco tempo depois do desfile inaugural, fui instalar solenemente o núcleo de Niterói, realizando-se uma sessão brilhantíssima no Teatro Municipal daquela cidade. Entre os companheiros de São Paulo que me acompanharam, estava Spinelli. Lembro-me bem da conversa que entretive com ele, bom trecho da viagem; contava-me episódios da Revolução Constitucionalista, de que fizera parte, batendo-se valentemente contra as tropas da Ditadura, no setor de Bragança. Dizia-me que somente no Integralismo encontrara, afinal, um ideal claro, pelo que se sentia satisfeito consigo mesmo.

Compreendendo a profundeza do sentimento integralista, versado em nossa doutrina, pois não perdia uma noite das reuniões doutrinárias, Spinelli lamentava que tantos pobres operários ainda vivessem iludidos pelos comunistas, que lhe prometem um paraíso para lhes dar um inferno, onde não há o culto de Deus, nem a honra da Família, nem a ideia da Pátria.

Uma das qualidades que faziam de Spinelli um integralista perfeito era a sua disciplina. Os seus superiores nunca tiveram conhecimento da menor falta sua. Modesto, humilde, obediente, trabalhador, entusiasta fiel em alto grau à sua honra de miliciano, falando pouco e agindo muito, nunca revelou mesquinhos melindres, nunca pleiteou lugares, nunca fez comentários a ordens recebidas. Todos o admiravam pelo seu espírito de sacrifício e capacidade de renúncia.

Não era apenas a vibração patriótica e revolucionária que o destacavam. Notava-se em Spinelli, mais que isso, uma espécie de amor paternal pelas pequenas coisas do seu núcleo e do Integralismo. Era de ver-se o seu orgulho quando comandava a sua fração, a alegria que se estampava no seu posto, o seu carinho pela nossa bandeira, pelo nosso ritual.

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Recordo-me de uma convocação que o Chefe Provincial fez, para experimentar a disciplina dos milicianos, num sábado à noite, para o romper do dia de domingo. Era um dos rigorosos invernos paulistas. Fui ver a concentração. A tropa estava em forma, e Spinelli sempre firme, como uma estátua de pedra. A sua imobilidade, o estranho brilho dos seus olhos sempre me impressionaram.

Uma vez Spinelli passou por um desgosto. Tiraram-no da Mooca e o transferiram para a Sede Central. Ele não articulou uma queixa, não disse uma palavra contra os companheiros. Fiel, disciplinado, ia para onde o mandassem. Deram-lhe, mais tarde, a organizar o núcleo do Cambuci. Esse núcleo tinha importância por ser num bairro operário, mas, por isso mesmo, não dispunha de recursos financeiros. Soubemos agora, durante a enfermidade de Spinelli, que ele tirava cem mil réis de seu reduzido ordenado mensal, para “aguentar” o núcleo.

Esse homem pobre, que vivia de seus salários, dava um exemplo aos ricos indiferentes à sorte da Pátria, e mesmo a muitos integralistas que dão do supérfluo ao movimento, ao passo que ele, como a mulher do Evangelho, tirava de suas necessidades. A sua teoria era simples: “ou se acredita, ou não se acredita numa ideia”.

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No dia 7 de outubro, dia da grande parada que teve tão trágicas e gloriosas consequências, tendo vindo do interior da Província milhares de milicianos, todos desejosos de conhecer e cumprimentar as altas autoridades integralistas, o Comando Provincial, como medida de ordem, para evitar perturbações e delongas, isolou o 1º andar da sede, avisando que só depois do desfile, haveria permissão para os cumprimentos.

Dois homens disciplinados, sempre cumpridores dos deveres, que nunca se insurgiram contra as ordens superiores, pediram, nesse dia, encarecidamente, ao seu comandante, licença para me ver. Misteriosa coincidência! Eram Jayme Guimarães e Caetano Spinelli.

Foi a última vez que vi, na plenitude de suas energias, esses dois bravos companheiros. Notei em Spinelli um certo ar de melancolia, ao ponto de lhe perguntar eu se estivera doente.

Momentos depois, a tropa se punha em marcha. Era o desfile mais imponente de todos os que até então se tinham realizado no Brasil. Ao rufar dos tambores deslocavam-se as nove legiões paulistas, tendo à frente as duas legiões carioca e fluminense. Da janela, assistimos à passagem da tropa. Assim, passaram a 1ª e a 2ª Legiões carioca e fluminense; em seguida, vimos passar a 1ª Legião paulista; tinha já passado a 1ª Bandeira da 2ª Legião, quando ouvimos o crepitar das metralhadoras comunistas. Uma tremenda fuzilaria reboava dos lados da Praça da Sé; em todo o trajeto, rua Benjamin Constant, Largo de São Francisco e até mesmo no início da Avenida Brigadeiro Luís Antônio, atiravam contra os “camisas-verdes”, instantes antes ovacionados por uma multidão de mais de 50 mil pessoas.

Jayme Guimarães foi sepultado dois dias após. Quanto a Caetano Spinelli, seguiu para o Hospital, de onde só saiu agora, para o cemitério.

Acompanhei todos os dias dolorosos do bom miliciano. Ele era pai de onze filhos, o menor dos quais conta apenas dois anos. Sua esposa não o abandonou um instante. Via, dia a dia, definhar o nosso companheiro. Nunca saiu um lamento de seus lábios. Religioso, recebeu os confortos espirituais, e aguardou, como um bravo, que sempre enfrentou os perigos, o instante supremo. Nunca deixou de erguer o braço e saudar-me, cada vez que eu entrava no seu quarto. Esses “anauês” foram-se tornando cada vez mais fracos, mais sumidos… As faces de Spinelli, nos intervalos da febre devoradora, apagavam-se numa palidez de cera. Suas mãos brancas, adquirindo, dia a dia, a transparência dos que se despedem, ainda se erguiam, e de seus lábios tristes saíam os “anauês”.

Só falava em Integralismo. Chamou o filho, pediu-lhe que não deixasse acabar o núcleo do Cambuci. Queria ver sua camisa; sorria levemente contemplando-a.

Tímido e humilde, Spinelli ocultava um desejo, que só no último dia teve coragem de revelar: desejava um retrato do Chefe, com autógrafo. Corri à minha casa, com um nó na garganta. Satisfiz imediatamente ao desejo daquele para quem a oferta era ainda pequenina, pois ele soubera dar ao Integralismo, tendo onze filhos e nada mais possuindo senão os dias e as noites para o trabalho, o único tesouro, o único capital dessas crianças, que era a vida de seu pai.

Ele abraçou o retrato. Pouco depois, veio uma crise de delírio e, falando agitadamente, exclamava: “Já vieram as minhas bandeiras! Vejam que bandeira do Sigma tão bonita! Tragam a minha camisa que agora vou para o desfile”.

À meia-noite, voltou-lhe a razão. Chamou a esposa e olhando para o alto, disse: “Vou-me embora, duas moças estão me chamando”.

E foi transferido para a Milícia do Além.