Por Luís Compagnoni

Três horas da madrugada. O céu estava atapetado de estrelas. Pelo ar uma leve aragem, característica das noites de verão. Na rua um murmúrio de vozes diferentes e desconexas. Nancy acordou-se e, saltando célere da cama, foi em direção à janela ver o motivo daquela bulha. Deteve-se, porém, em seguida, recordando que eram os “camisas-verdes” do núcleo vizinho que se preparavam para a grande concentração que se realizaria na localidade próxima. Vestiu-se rapidamente e correu para a porta do quarto do irmão. Bateu com força:

— José! Ô! José!… Vamos, os companheiros te esperam!…

Meio sonolento ainda, ele dirigiu-se para a janela e saudou com um estrepitoso Anauê! os companheiros que o aguardavam.

— Já vou, já vou — gritou em seguida José. Vestiu-se, enfiou uma nova camisa verde e saiu correndo do quarto.

Nancy deteve-o.

— Tão grande e não sabe nem vestir uma camisa verde! Trabalhei o dia todo de ontem para você fazer bonito hoje. Vê que desajeitado!

E, dizendo isto, ia arrumando o colarinho, os bolsos desabotoados da camisa, resmungando, com aquele modo todo especial de irmã mais velha, fazendo as vezes de mãe. José estava ansioso para sair, mas Nancy, segurando-o pela gravata, continuou:

— Suponho que já esquecestes quem vai ser o porta-bandeira na concentração.

— Já sei, já sei — mastigava o outro — sou eu.

— Cuidado, não vás te esquecer das bandeiras — ironizou Nancy.

— Tens cada uma… — disse José sorrindo. Beijou a irmã e, continuando: — Beija mamãe por mim, não quero acordá-la. — Em seguida correu para fora junto aos companheiros, não ouvindo Nancy a gritar-lhe: “Hoje te farei uma surpresa”.

Os “camisas-verdes” o receberam com estardalhaço: “Olha o porta-bandeira com camisa nova, ainda engomada!” De fato, a camisa de José refletia palidamente a luz da lâmpada elétrica colocada defronte à sede do núcleo.

— Cuidado! — fez um integralista em tom de mofa — não vá manchar a tua rica camisetinha…

Uma sonora gargalhada reboou pelo ambiente.

— Parece incrível — monologava José — que todos me acham diferente.

Daí a instantes chegaram pesados caminhões. Depois de verificar que todos haviam respondido à chamada, o chefe mandou embarcar.

No caminho, todos alegres, cantando, palestrando em voz alta para abafar o ruído do motor, José era o mais alegre com sua camisa nova. Porta-bandeira na grande concentração! Sentia-se feliz. Via-se na frente de milhares integralistas, num mar verde, alvo de milhares de olhos, com peito saliente, segurando firmemente a bandeira da Pátria que ele aprendera a amar com seus companheiros de ideal.

De repente, alguém afirmou que a concentração correria perigo, devido a capangas, comunistas, que queriam pela força impedir a reunião.

Alguém num canto do caminhão fez mofa: “…estas ameaças são velhas como papai Adão…”. Todos riram e ninguém pensou mais nisso.

Os integralistas haviam deixado os festejos carnavalescos para obedecerem às ordens de seus superiores. A viagem seria longa. Talvez umas 4 ou 5 horas. A poeira, apesar de umedecida pelo orvalho, era insuportável. Eles não faziam caso. Outros integralistas viriam de muito mais longe.

José continuava guardando com todo o cuidado as bandeiras nacional e integralista. De vez em quando batia com a mão espalmada sobre a camisa, para fazer cair o pó que se acumulava. A luz dos refletores dos caminhões que vinham atrás, de vez em quando se projetava sobre o veículo de José e seus companheiros.

José e Nancy eram dois irmãos no verdadeiro sentido desta palavra. Amigos nos prazeres e nos pesares. Quando alguma amargura os atingia, corriam a desabafá-la. Nancy, sendo mais velha, era quem possuía mais autoridade moral. José adorava-a. Por isso estava ele pensando, intrigado com as alegres mas significativas reprimendas de Nancy.

Finalmente, chegaram a uma praça que estava repleta de “camisas-verdes”. Anauê! Anauê! Anauê! — se ouvia a todo instante. Todos se cumprimentavam com entusiasmo… José foi localizado bem à frente, junto aos outros porta-bandeiras. Eram 9 horas da manhã. Daí a pouco chegaram mais caminhões também repletos de “camisas-verdes”. Desceram e tiveram ordens de permanecer em forma.

José estava impaciente. As sacadas permaneciam cheias de gente. Uma verdadeira multidão esperava o momento de reunir. O calor desse mês, fevereiro, era sufocante. José colocava calmamente a bandeira nacional no mastro. Entregou em seguida o integralista para um companheiro que iria carregá-la. Os dois ficariam juntos. De repente, um longo apito e, em seguida uma voz forte:

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— Legiões, em forma!

Ia iniciar-se o desfile. Nancy, que prometera uma surpresa a José, estava cumprindo a promessa. Num automóvel, acabava de chegar com mais quatro moças da seção feminina. A milícia já se movimentava, puxada pelo numeroso bando de clarins e tambores. José, depois de ter-se retocado, obedecendo às instruções de Nancy, lá estava garboso e mesmo imponente. Sem capacete, mostrando seus cabelos loiros e ondulados. Não cedendo à tentação de olhar quem o olhava, mantinha a cabeça ereta, numa atitude viril. E marchava com passo cadenciado e firme. Sentia um prazer indizível. Respirava com prazer. A voz clangorosa dos clarins cortava o ar. Palmas, gritos de entusiasmo se confundiam com os Anauês da multidão. José não suportava mais a emoção. Parecia estar voando. A saliva lhe sufocava a respiração. Um nó na garganta e bateu as pálpebras para secar duas lágrimas que queriam rolar pelas faces.

“Que pena Nancy não estar aqui!” — pensava ele. Veria como estou fazendo bonito.

De repente, ouve-se um grito imenso de espanto. Capangas, comunistas, passaram rápidos em automóveis por uma esquina e atiraram sobre os integralistas, fugindo em seguida. Correria do povo. Os chefes da milícia ordenam: Alto e reagir. José fica aturdido no primeiro instante. Não sabe o que fazer. Recorda-se porém da bandeira que carrega e desce-a. Tudo isso no meio dos gritos e da confusão reinante, ele não notara que seu companheiro porta-bandeira estava ferido. Quis socorrê-lo, mas uma outra descarga vindo de um segundo automóvel que passou logo depois do primeiro, imobilizou-o. O companheiro, ferido nos braços, deixara cair a bandeira. José sente um estremecimento em todo o corpo. Diversas balas o atingiram. Da fronte escorre-lhe o sangue que vai cair sobre a camisa nova. Com esforço consegue se aproximar da outra bandeira, a bandeira integralista, que também fora confiada à sua guarda. Segura-a com a já pouca firmeza que lhe resta e une-a com a bandeira brasileira. “Meu Deus!”, exclama docemente, voltando seus olhos para o céu, como para oferecer o sacrifício que se está consumando. Olha em redor e vê os companheiros perseguindo os assaltantes e outros socorrendo os feridos. Nancy, logo no primeiro instante, correra, instintivamente, para José. Tudo, porém, fora tão rápido que quando ela chegou, um torpor mortal imobilizara quase por completo os membros de José. Nancy, com um grito de angústia, arremessou-se sobre o corpo de José e quis levantá-lo, mas não pôde. Suas forças também baquearam e então encostou o corpo do irmão ao seu regaço. Passou-lhe pela fronte a mão e enxugou o suor frio e visguento da morte que latejava dos poros. José, com a respiração difícil, entrou em agonia, e no delírio da morte, balbuciava palavras desconexas: “Vê… que… desajeitado… A… camisa… nova… Porta… bandeira…

Não… vá… manchar… a… camisa…”. Naquele estado ele talvez recordava as recomendações da irmã e as obrigações de guarda das bandeiras. Com a mão direita segurava as duas bandeiras que resumiam o grande ideal de sua vida e com a esquerda fez um visível movimento para retirar da camisa nova e engomada o sangue que caía da cabeça. Não pôde, e a mão caiu distendida ao longo do corpo.

Continuava o delírio. Vinha a morte. Os olhos iam perdendo o brilho. A língua tornava-se trôpega. O nariz afilara-se-lhe. Nancy segurou-o ainda mais perto de si. Estava como que inconsciente, apreciando a grande surpresa que queria ter feito e, na realidade, estava fazendo. José olhou-a. Reconheceu-a. Quis esboçar um sorriso. Não o conseguiu. Com voz sumida, perto da morte, acrescentou: “Um… beijo… mamãe…”.

No último alento, crispando as mãos sobre as bandeiras já tintas de seu sangue mártir, murmurou bem baixinho: “Meu… Deus… Mamãe…”.

E expirou.

Nancy, transfigurada, naquele instante trágico, não era simplesmente a irmã, mas representava a mulher brasileira plangente e conformada oferecendo aquele sacrifício em nome do lema que aquela mocidade defendera com o próprio sangue. “Meu Deus”. “Mamãe”. As bandeiras unidas. Ele ofereceu a própria vida pelo lema que o dirigiu na sua curta existência terrena: POR DEUS, PELA PÁTRIA E PELA FAMÍLIA!