Hoje, dia 13 de Maio, aniversário da assinatura da Lei Áurea e da primeira aparição de Nossa Senhora na Cova da Iria, na Serra de Aire, na Freguesia de Fátima, em Portugal, o Centro Anchieta, que muito tem feito em prol da recatolização integral do Brasil, lança um novo portal na rede mundial de computadores. Tal portal, em que, aliás, teremos a honra de colaborar, se chama Brasil Terra de Santa Cruz e será um grande baluarte do autêntico pensamento católico neste nosso vasto Império.

Tendo o honor e o privilégio de escrever, pela vez primeira, no aludido portal, a convite do nobre Professor Igor Awad Barcellos, escreverei justamente sobre a data de hoje, data que é e será sempre uma das mais importantes da História do Brasil, do Mundo Lusíada, do Mundo Hispânico e da Cristandade.

Aos 13 de Maio do ano de 1888, a Princesa D. Isabel Cristina Leopoldina Augusta Micaela Gabriela Rafaela Gonzaga de Bourbon-Duas Sicílias e Bragança, mais conhecida como apenas Princesa Isabel, na condição de Regente do Império do Brasil, assinou, com uma pena de ouro, a lei que em virtude disto ficou conhecida como Lei Áurea, pondo termo ao ignominioso sistema escravista no nosso Brasil. Pelo seu gesto grandioso, a Princesa Isabel, a partir de então cognominada a Redentora, trocou o Trono Imperial pela redenção de uma estirpe, como, aliás, bem lhe disse, profeticamente, o Barão de Cotegipe naquele 13 de Maio,[1] e inscreveu seu nome em letras de ouro na História Pátria. Como recompensa por seu ato, o Papa Leão XIII agraciou-a com a Rosa de Ouro, ofertada a soberanos e personalidades católicas insignes e cuja fragrância, nos dizeres deste mesmo Sumo Pontífice, “mostra o odor doce de Cristo, que deve ser difundido extensamente por seus seguidores fiéis”.[2]

Doze dias após a assinatura da Lei Áurea, escreveu Joaquim Nabuco ao Barão de Penedo afirmando que via “a Monarquia em sério perigo e quase condenada”, posto que a Princesa Imperial se tornara “muito popular”, mas as chamadas “classes conservadoras” fugiam dela e a lavoura tinha se tornado republicana.[3]

Aos 15 de Novembro de 1889 foi a Monarquia abolida por um golpe de Estado e dois dias mais tarde a Família Imperial, banida do País, seguiu para a Europa a bordo do vapor Alagoas. O aludido golpe foi assim resumido por Plínio Salgado:

Em 1889, sem que tivesse havido qualquer eleição ou consulta ao povo brasileiro, a guarnição do Exército da capital do Império, tendo à frente o Marechal Deodoro da Fonseca, destronou o nosso velho imperador, embarcando-o à força no paquete Alagoas que o conduziu, com sua família, para o Exílio, onde veio a falecer após cinquenta anos de serviços prestados à Pátria. O Partido Republicano era, entretanto, uma escassa minoria em todo o território nacional.[4]

Um dia após o golpe republicano, escreveu a Princesa Isabel que, se era a abolição a causa de tudo aquilo, ela não se arrependia desta, considerando valer a pena perder o Trono por ela.[5] Como salientou o historiador e biógrafo Hermes Vieira, no exílio, “a que foi forçada  e onde passou, impiedosamente, o resto de sua existência”, que se prolongou ainda por trinta e dois anos em que não pôde jamais “rever sua terra e sua gente, experimentou ela, principalmente no começo, os mais rudes golpes que lhe alancearam o coração”,[6] a exemplo do falecimento dos pais, D. Pedro e D. Teresa Cristina. E foi longe, muito longe do Brasil a que tanto amou e engrandeceu e que um dia foi forçada a deixar com a alma despedaçada pela dor e pela tristeza que, ainda como sublinhou Hermes Vieira, deu a Princesa Isabel “toda a medida da majestade e da magnanimidade do seu coração”, vivendo “no desterro como símbolo da fraternidade, como afirmação da Pátria, acima dos partidos e dos regimes” e ocultando, “debaixo de sua meiguice, da sua adorável simplicidade”, muita fortaleza de caráter, muito heroísmo, muitas obras valorosas.[7]

No longo desterro, passado quase todo em terras de França, pátria de seu esposo, o Conde D’Eu, a Princesa Isabel “guardou para sempre”, no dizer de Plínio Salgado, “a recordação e o amor ao Brasil e a íntima satisfação de haver livrado nossa Pátria da vergonhosa nódoa que maculava sua Bandeira”.[8]

Hoje, passados cento e trinta e um anos da assinatura da Lei Áurea, sob as bênçãos de Cristo Rei e de Nossa Senhora Aparecida e inspirados pelo valoroso exemplo da Princesa Isabel, temos o dever inelutável de combater com todas as nossas forças as ideologias racistas que as chamadas “esquerdas” vêm há anos tentando implantar no nosso Brasil, assim como temos o igualmente inelutável dever de pugnar por uma Nova Abolição, Abolição da nossa Terra de Santa Cruz das correntes da escravidão aos grandes grupos financeiros internacionais, à usurocracia mamonística da nefanda Internacional Dourada.

Durante a chamada Questão Religiosa, travada entre a Igreja e a maçonaria na década de 1870, a Princesa Isabel corajosamente se colocou do lado do Corpo Místico de Cristo, tendo sua ação sido decisiva para que fosse decretada, em setembro de 1875, a anistia dos bispos D. Vital de Oliveira e D. Antônio de Macedo Costa. Defensora da Fé e obstáculo aos Seus poderosos inimigos, a Princesa Isabel foi, desde então, fortemente atacada por estes, que publicaram diversas circulares contra sua ascensão ao Trono Imperial e tiveram papel decisivo no golpe que implantou a República, impedindo que a Terra de Vera Cruz tivesse como governante a grande Imperatriz Isabel I.

Em julho de 1877, a Princesa D. Isabel, na ocasião Regente do Império, enviou ao Santo Padre Pio IX uma carta “repassada de fé e patriotismo”[9] em que pediu ao Sumo Pontífice a beatificação de “Anchieta, missionário de caridade heroica e de milagres”.[10]

Fervorosa devota de Nossa Senhora da Conceição Aparecida, cujo santuário, em Aparecida, então distrito de Guaratinguetá, no interior da Província de São Paulo, visitou em romaria por diversas vezes, a Princesa Imperial ofertou à agora Rainha e Padroeira da Terra de Santa Cruz, numa de tais visitas,  a magnífica coroa de ouro cravejada de brilhantes com que esta seria coroada em 1904 e que até hoje permanece na cabeça da imagem.

Como observou o Professor Hermes Rodrigues Nery,[11] conta-se que, logo depois da assinatura da Lei Áurea, quiseram homenagear a Princesa Isabel com um monumento que se chamaria “Isabel, a Redentora” e que seria colocado no alto do Corcovado, no Rio de Janeiro, ao que a Princesa respondeu dizendo que se um monumento fosse erguido no cimo do Corcovado deveria ser este não em homenagem a ela, mas sim a Nosso Jesus Cristo. Mais tarde, mais precisamente entre os anos de 1922 e 1931, foi, como se sabe, erguida a estátua do Cristo Redentor no topo do Corcovado, “na montanha clara,/ ardente de beleza/ sobre o granito batido/ de ventos imemoriais/ e sob a lucilação/ das estrelas sagradas”, estendendo os braços sobre o Rio de Janeiro e toda a Terra de Santa Cruz “numa bênção infinita”, como ressaltou Tasso da Silveira no seu magnífico Cântico ao Cristo do Corcovado.[12]

Católica autêntica e patriota sem jaça, a Princesa Isabel, que, sem sombra de dúvida, teria sido uma soberana verdadeiramente magnânima caso assumisse o Trono deste magno Império do pretérito e do porvir, deve ser tida como um exemplo e um modelo por todos aqueles que lutamos para dar a Cristo um Reinado Social fecundo em nossa Terra de Santa Cruz.

Feitas estas considerações a propósito da Princesa Isabel, passaremos agora a tratar daquela que foi a primeira aparição de Nossa Senhora de Fátima na Cova da Iria, na região central da pequena-grande Nação de que nasceu a nossa Nação, sendo as linhas que se seguem de agora até o término do presente artigo, em verdade, uma versão revista, e ligeiramente modificada de um texto que escrevemos no ano de 2017, por ocasião do centenário da primeira aparição de Nossa Senhora aos pastorinhos de Fátima.

Há exatos cento e dois anos, mais precisamente aos treze dias do mês de maio do ano da Graça do nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo de 1917, ao meio-dia. Nossa Senhora apareceu, pela primeira vez, na Cova da Iria, na Serra de Aire, na Freguesia de Fátima, no Conselho de Ourém, no Distrito de Santarém, na região portuguesa de Lisboa e Vale do Tejo, diante dos três pastorinhos Lúcia, Jacinta e Francisco, iniciando aquele que foi e é, sem sombra de dúvida, um dos mais belos milagres de toda a História de Portugal, do Mundo Lusíada, da Cristandade e do Orbe Terrestre.

Em suas luminosas Mensagens ao Mundo Lusíada, conferência dedicada à Santíssima Virgem e proferida nas comemorações centenárias da Diocese de Viseu, terra de muitos de seus antepassados paternos, Plínio Salgado, baseado nas igualmente luminosas páginas da obra Fátima: Graças-Segredos-Mistérios, de Antero de Figueiredo,[13] assim descreveu o primeiro encontro da Nossa Mãe e Rainha dos Céus com os pastorinhos, crianças tão humildes que só possuíam de seu “os rosários, tesouros que não se desvalorizam e únicos que se levam para o Céu feitos colares de estrelas”:[14]

No campo despovoado nenhum rumor. No céu, nenhuma nuvem. É meio-dia, brilha o sol de maio. As aves procuram as sombras. É nesse momento que lhes aparece, na fronde da azinheira próxima, uma linda Senhora.

Estremecem de susto os pastorinhos. Querem fugir. A Senhora (que parece da idade de uns 18 anos e resplandece numa luz dourada) tranquiliza-os:

– Não tenhais medo, que não vos faço mal.

Enquanto Jacinta e Francisco quedam estarrecidos, Lúcia, a mais velhota e a mais afoita, pergunta à encantadora Aparição:

– De onde é vossemecê?

– Sou do Céu – responde a Senhora, apontando para o Alto.

Pede-lhes que venham ali todos os dias 13 de cada mês, até outubro, prometendo revelar-lhes um segredo e transmitir uma mensagem.

Corre o mês de maio (mês de Maria); o colóquio terminará em outubro (mês do Rosário…).

Começa o Poema, que arrebata as multidões, e a multiplicação das graças entre as quais sobreleva, como nenhuma outra, a obra recristianizadora de Portugal.

É uma nova mensagem ao mundo lusíada…[15]

Sim, a mensagem da Santíssima Virgem de Fátima, que, como tudo o que vem de Deus, “tem forma de poesia puríssima e altíssima”,[16] foi e é, como a mensagem silenciosa de Nossa Senhora Aparecida no Brasil, nos albores do século XVIII, uma mensagem ao Mundo Lusíada, bem como a todo o Orbe Terrestre.

Como bem disse Plínio Salgado, este tão nobre quanto pouco conhecido e injustiçado Adail da Fé e do Império, “profeta incandescente e sublime de seu povo” e “encarnação viva do Brasil melhor”, nas palavras de Francisco Elías de Tejada y Spínola,[17] a mensagem da Virgem de Fátima visa, antes e acima de tudo, a conversão dos pecadores e “as preces que solicita são para que se extirpe da face da terra certo pecado que o entendimento das crianças não pode compreender”. Tal pecado é, como aduziu o autor de Primeiro, Cristo! e da Vida de Jesus (Plínio Salgado), exatamente o pecado contra aquela dignidade que Nossa Senhora veio restaurar no Gênero Humano, restituindo-lhe a nobreza perdida.

O pecado que calafeta a alma, impedindo-a de receber a Luz; que endurece os corações ao ponto de se tornarem insensíveis ao pranto das esposas abandonadas e dos filhos lançados na orfandade com os progenitores vivos. Paixão que mata o sentimento da família, fonte de espiritualidade e escudo da pessoa humana contra a escravização das tiranias políticas. Cegueira que impede a contemplação das realidades sociais. Depravação que eclipsa o bom-senso, faz raciocinar segundo o egoísmo, interpretar o mundo consoante os apetites individuais e decidir conforme o interesse inconfessável. Loucura que começa desorganizando os lares e termina destruindo todas as formas da estabilidade moral e apodrecendo os fundamentos da Pátria.[18]

É tal, no entender deste ínclito Bandeirante do Brasil Integral e Profundo que foi e é Plínio Salgado, o crime do Mundo Moderno, da civilização moderna, e

É esse crime da civilização moderna a causa da tristeza da Virgem, a Sua dolorosa preocupação, o motivo principal da Sua mensagem. Ela vê a catástrofe do mundo contemporâneo e bem sabe que por detrás das falsas bandeiras das reivindicações sociais e desses estandartes da liberdade que iludem a tantos espíritos e mesmo católicos de boa-fé, está o anseio pela expansão dos instintos e o desenfreamento da sensualidade. Para combater esse inimigo, a Senhora veio à Serra de Ourém falar aos portugueses e ao mundo. Contra tão cruel destruidor da dignidade humana, oferece-nos uma arma: a oração; um escudo: a fé; uma força: a Graça Divina; um dever: o combate sem tréguas.[19]

Não é necessário dizer que, ao falar das “falsas bandeiras das reivindicações sociais e desses estandartes da liberdade” que a tantos espíritos têm iludido, quis Plínio Salgado se referir ao comunismo e ao liberalismo, liberalismo este que, como ponderou o próprio autor de O Rei dos reis (Plínio Salgado), é a “doença mortal da verdadeira liberdade”.[20]

Quando a Santíssima Virgem apareceu pela vez primeira na Cova da Iria, há pouco mais de um século, era Portugal governado pelas forças materialistas e anticristãs da antitradição e da antinação e parecia, no dizer de Plínio Salgado, que a Rainha Celeste esquecera a velha casa lusitana.[21]

Em verdade, porém, como acentuou o autor de Mensagens ao Mundo Lusíada e de A Tua Cruz, Senhor (Plínio Salgado), a Santíssima Virgem Mãe não se havia olvidado dos portugueses e da Pátria que ainda se ufanava de ser a Terra de Santa Maria. Andava Ela, com efeito, pelos campos e pelas serranias, onde residiam as reservas da Estirpe, “como as águas profundas do oceano que os inconstantes ventos da superfície jamais conseguem agitar”. Estava Ela presente à hora do Ângelus, quando os sinos das igrejas tangiam compassadamente e os pastores e lavradores se descobriam, “murmurando preces ao canto nostálgico das noras”. Nos rigorosos invernos, às horas em que os grã-finos “se desenfadavam nos teatros e salões e os homens de partido, entre baforadas de tabaco, discutiam política nos cafés”, a nossa amada “Mãe Celeste saía pelos caminhos batidos de vento gélido” e chegava às portas das humildes casas de pedra das aldeias, “onde as famílias se reuniam para conservar intangível o velho sentimento da fidelidade portuguesa”.[22]

A pequena-grande Nação Portuguesa, gloriosa “semente de Impérios”, na expressão de Gustavo Barroso,[23] não secara, como salientou Plínio Salgado, a despeito dos “ventos internacionais do materialismo que sopravam nos quadrantes do mundo; latejava-lhe no cerne o humo vitalizador” da Tradição, tal como algumas “árvores aparentemente mortas guardam, no íntimo dos troncos e nas escondidas raízes, o segredo da seiva imperecível”. Assim, desfiavam-se “Ave-Marias” e, enquanto o frígido vento uivava nos pinheirais ou a chuva cantava longamente, “as vozes da Raça, pelas vozes humildes”, repetiam: “Santa Maria, Mãe de Deus…”[24]

Foram, sobretudo, os humildes que não se esqueceram da Santa Mãe de Deus e que sustentaram a velha e sempre nova e gloriosa Fé dos cavaleiros e dos navegantes de Portugal.[25] Eram, no dizer de Plínio Salgado, as rudes mãos que arrancavam da terra lusitana o pão e o vinho, “nodosas e calosas do muito amanho, que vem de séculos”, que passavam,

pelos dedos gretados e ásperos, as contas do rosário, repetindo a atitude dos reis paladinos, dos reis poetas, dos reis juristas, dos reis navegadores, que fundaram a Pátria, ensinaram-na a lavrar e a cantar, outorgaram-lhe ordenações, forais e decretais, deram-lhe barcos, astrolábios, cartas de mareantes e um destino no mundo.[26]

Foi pelos humildes dos campos e das serras, fiéis à Fé verdadeira, que, a 13 de maio de 1917, quis Nossa Senhora, Mãe de Deus e Rainha dos Céus, enviar a Sua mais veemente mensagem ao Mundo Lusíada[27] e a toda a Terra.

A 13 de maio do ano da Graça de 1951, dava-se à Nação Portuguesa, ao Mundo Lusíada e ao Mundo Católico o público conhecimento de que sua Santidade, o Papa Pio XII, determinara que o Ano Santo para o estrangeiro encerrar-se-ia em Fátima, a 13 de outubro, data, como há pouco restou dito, da derradeira aparição da Virgem na Cova da Iria. Foi noticiado, ainda, que, além das solenidades religiosas, seria realizado, em Fátima, na semana da última aparição de Nossa Senhora, o I Congresso Internacional Católico sobre a Mensagem de Fátima.

O aludido Congresso reuniu pensadores, homens de Estado, professores, religiosos, escritores, jornalistas, economistas e sociólogos do Mundo inteiro, como o Cardeal Federico Tedeschini, Legado do Santo Padre Pio XII, D. Manuel Gonçalves Cerejeira, Cardeal-Patriarca de Lisboa, D. Manuel Trindade Salgueiro, Arcebispo de Mitilene, Manuel Gonçalves Cavaleiro de Ferreira, Ministro da Justiça de Portugal, Adroaldo Mesquita da Costa, Vice-Presidente da Câmara dos Deputados do Brasil, Monsenhor Fulton Sheen, Bispo Auxiliar de Nova Iorque, e o jornalista e escritor inglês Douglas Hyde, que abandonara o comunismo e se convertera graças à Mensagem de Fátima.

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As palavras das pessoas mencionadas no referido Congresso foram transcritas, naquele mesmo ano de 1951, no quarto número da revista tradicionalista bilíngue de cultura Reconquista, que tinha como diretores José Pedro Galvão de Sousa (para o Brasil), Fernando de Aguiar (para Portugal) e Francisco Elías de Tejada (para a Espanha).

Fátima, esta “explosão transbordante do sobrenatural neste mundo prisioneiro da matéria”, na tão feliz e tantas vezes citada expressão do poeta francês Paul Claudel,[28] é, no dizer de Fernando de Aguiar, “a grande Mensagem de Paz”, paz nas almas, paz entre os homens e os povos, e “em Fátima continua Maria a corrente maravilhosa das suas dádivas benditas de Luz e Misericórdia divinas”. Se, no dizer do autor de Gente de casa (Fernando de Aguiar), “os homens ouvirem o Seu Conselho Maternal, o mundo será salvo e a Paz reinará em todos os corações pelo hino apoteótico das conversões”.[29]

Como observou Fernando de Aguiar, Mãe de Deus e Mãe dos homens, Rainha dos Céus e Medianeira de todos os clamores e súplicas do Ente Humano, é Santa Maria “fonte de sabedoria e manancial inexaurível de Justiça e de Fortaleza cristã para todos”, sendo a Sua Mensagem em Fátima “a grande Promessa” do século XX,[30]que, aliás, permanece viva no século XXI e viva permanecerá até o Fim dos Tempos.

Consoante salientou o Cardeal Federico Tedeschini, a Santíssima Virgem Mãe foi a Portugal e falou no idioma português, mostrando ser mãe dos portugueses e amá-los,[31] e, acrescentamos nós, mostrando ser mãe dos lusíadas de todos os Quatro Cantos do Mundo e amá-los.

Portugal é, com efeito, uma “Nação de Santos”, Nação de Santos como Nun’Álvares Pereira, o Santo Condestável, santo e herói a um só tempo; como São João de Deus, um dos mais célebres e gloriosos santos da Igreja; como o Santo Taumaturgo António,[32] Santo António que, como bem disse João Ameal, é Santo António de Lisboa, Santo António de Coimbra, Santo António de Portugal, Santo António de Pádua e, “para além de quaisquer limites de nação e de lugar, como o saudou Leão XIII – Santo António de todo o Mundo”,[33] e também, é claro, como a grande Santa Rainha Isabel I.

Ademais, era Portugal, ainda em 1917, a despeito de seu (des)governo, a Nação que merecera, dentre tantos títulos, o de Fidelíssima, sendo Portugal Fidelíssimo o nome com que a História e a Igreja o conhecem e muito o exaltaram nos séculos precedentes, e era, ainda, a Nação que “sobre tantos e tão nobres títulos”, tinha, como ainda tem, tradicionalmente, o título de Terra de Santa Maria.[34]

Foi em razão de tudo isso, pois, que a Virgem Nossa Senhora, “Rainha do Mundo e da Paz”, na expressão do Santo Padre Pio XII,[35] escolheu os filhos de Portugal, como sublinhou D. Tedeschini, inspirando seus reis e seus navegantes, que A proclamaram Padroeira da Nação; e escolheu os filhos da Pátria de que nasceu a nossa Pátria porque estes se tinham mantido fiéis a Ela, “passando esta fidelidade a ser a mais bela joia” do “diadema nacional” português e fazendo com que Portugal merecesse “o título insuperável de Nação Fidelíssima”.[36] E foi, é claro, em razão de tudo isso que Nossa Senhora escolheu a Sua Terra de Portugal para nela transmitir, no inculto e belo idioma de Camões, a Sua Mensagem.

Como bem salientou D. Manuel Gonçalves Cerejeira, Cardeal Patriarca de Lisboa, Nossa Senhora do Rosário, aparecida em Fátima,[37] onde falou a um Mundo esquecido de Cristo,[38] abriu-nos, na Serra de Aire, o Seu Imaculado Coração para nele reaprendermos a imitar os mistérios da vida, da morte e da ressurreição de Seu Divino Filho. Assim, tal como quando passou por este Mundo, em tempos que já lá vão, quando Nossa Senhora nos fala é para nos encaminhar para o Cristo, “o Único que é o Salvador”.[39]

O Ministro da Justiça de Portugal, Sr. Dr. Manuel Gonçalves Cavaleiro de Ferreira, encerrou o seu discurso no I Congresso Internacional Católico sobre a Mensagem de Fátima tratando da missão evangelizadora de Portugal e assinalando que esta “Nação talhou as suas fronteiras e forjou a sua alma” na Reconquista Cristã, quando o islamismo ameaçava submergir a Cristandade Europeia.[40] E do êxito da luta portuguesa, nasceu para a nova Nação, quando já estava em decadência por toda a Europa o Espírito das Cruzadas, o desejo de repeti-las, “por novos caminhos e diferentes meios”. Assim, o Espírito de Cruzada, assimilado como missão nacional lusitana, iria em breve

desentranhar-se em novas nações e em novas cristandades de além-mar, precisamente numa época em que o cisma da Reforma abalava a unidade do velho continente e o avanço do Oriente fazia tremer a segurança dos Estados cristãos. A História repousa na Providência.[41]

Ainda segundo Gonçalves Cavaleiro de Ferreira, como que parece que foi o extremo ocidental da Península Hispânica e da Europa escolhido para, nas épocas de desânimo, suscitar “um renovo de energia, fazendo reluzir nas trevas o clarão dos ígneos providenciais”.[42]

Destarte, quando novamente o Mundo foi assolado pela heresia e pela guerra, bem como pela “desordem nos espíritos e nas instituições”. E então, nos sangrentos dias da I Guerra Mundial, de Fátima ecoou sobre todo o Orbe uma admirável Mensagem de Paz,

renovando a promessa eterna dum Mundo novo se os homens souberem confiar – pedindo em fraterna interdependência o favor divino, penitenciando-se em fraterno sacrifício, amando-se na intimidade do mesmo destino e na esperança da mesma redenção.[43]

O representante brasileiro no aludido Congresso, Deputado Adroaldo Mesquita da Costa, iniciou seu discurso enfatizando que, na abençoada Pátria de nossos Maiores, onde a Santíssima Virgem entregou ao Mundo a Sua Mensagem, quis o eminentíssimo Cardeal-Patriarca de Lisboa, “glória da Igreja e orgulho da Pátria” Portuguesa, que, ao concerto de vozes daquele Congresso, cada qual mais eloquente “nos louvores a Deus e na defesa da Sua causa”, se ajuntasse a voz do Brasil, “mais belo florão da vergôntea lusitana,” a fim de tal modo patentear à Cristandade que,

seja qual for a latitude em que se fala a língua portuguesa, se obedece aos mesmos mandamentos, se professa o mesmo credo, se cultivam os mesmos ideais e se guardam, com zelo e santo orgulho, as sagradas tradições “daqueles que foram dilatando a fé e o império” e que “por obras valorosas se vão da lei da morte libertando”.

O Brasil está aqui presente.[44]

O discurso de Adroaldo Mesquita da Costa se encerrou com a citação dos versos finais do soneto Em Fátima, de Olegário Mariano, que desde 1938 portava o título de Príncipe dos Poetas Brasileiros e que, entre 1953 e 1954, ocuparia o cargo de Embaixador do Brasil em Portugal. O aludido soneto seria publicado, na íntegra, no boletim A Voz da Fátima, da Diocese de Leiria-Fátima, a 13 de setembro de 1953 e é deste mensário católico que o transcrevemos:

EM FÁTIMA

Rude e áspera é a paisagem, mas que importa?
Vibra tal esplendor na luz ambiente,
Que a alma da gente em preces se transporta
Ao céu e volta pura a alma da gente.

Como que paira milagrosamente
A Santa no alto da campina morta,
Derramando dos olhos, em torrente,
A esperança que eleva e a fé que exorta.

Gente de Portugal! Ó minha gente!
Tu que em Fátima vês Nossa Senhora,
Pede-lhe consternada e reverente

Que volva os olhos aos que nela pensam
E alongue os braços de Brasil afora
Para ungi-lo na unção da sua bênção.[45]

Não podemos concluir estas linhas sem antes recordar que, como bem evocou o Monsenhor Fulton Sheen, o dia 13 de outubro de 1917, data da derradeira aparição de Nossa Senhora na Cova da iria, é uma data de acentuado relevo na História Mundial.[46]

Com efeito, naquele dia, em Moscou, às vésperas do dilúvio da revolução bolchevista, Maria Alexandrovitch, uma nobre senhora russa, ensinava duzentas crianças numa igreja. Subitamente, porém, um tropel de cavaleiros vermelhos entrou pelo templo, destruindo as imagens e o altar-mor e matando pisoteadas algumas crianças. Maria Alexandrovitch correu então em busca dum líder bolchevista que conhecia e disse-lhe: “Aconteceu uma coisa horrível: homens a cavalo profanaram a Igreja e pisaram aos pés crianças indefesas”. O bolchevista então disse apenas: “Já sei. Fui eu que os mandei”. Começava, assim, na Rússia, no dizer de D. Fulton Sheen, a “revolução contra Deus”,[47] revolução a que opunha ele aquilo que reputava ser a Revolução com Deus e que é “a revolução de Maria”, cujo Magnificat é, no sentir do ilustre pensador e religioso, “um documento mais revolucionário que o Manifesto Comunista” de Marx e Engels.[48] A “revolução de Maria”, porém, é uma Revolução de amor e não de ódio[49] e que, de acordo com o significado etimológico e astronômico do termo “revolução”, que significa retorno ao ponto de partida, promove a volta do Ente Humano ao Seu Criador.

Em Roma, naquele mesmo dia 13 de outubro do conturbado e sangrento ano de 1917, os sinos das igrejas da Cidade Pontifícia repicavam alegremente no ato de consagração de um novo Bispo, proclamando a investidura de mais um sucessor dos Apóstolos. Ninguém imaginava, contudo, que tal Bispo, Monsenhor Eugenio Pacelli, seria um dia o Papa Pio XII, “o Angélico Pastor do rebanho de Cristo”.[50]

Ainda em 13 de outubro de 1917, em Fátima, a Santa Virgem anunciou aos três pastorinhos o próximo término da I Guerra Mundial e afirmou que, caso não houvesse arrependimento, haveria um novo conflito, ainda maior e mais sangrento, tendo falado, ainda, da necessidade de consagração da Rússia ao Seu Coração Imaculado, que levaria à conversão desta e a um período de paz no Mundo. Foi ainda em tal data, em Fátima, que a Santíssima Senhora fez o sol se destacar dos Céus e baixar sobre a Terra, diante de dezenas de milhares de pessoas,[51] num dos maiores milagres de toda a História.

Na hora presente, hora em que o Mundo é, ainda mais do que em 1917, assolado por terríveis heresias e pelos mais graves desrespeitos à Lei Eterna; em que que cristãos são perseguidos e martirizados como há muito não o eram e em que paira sobre a Terra a ameaça dum conflito muito maior do que as duas grandes guerras do século passado, devemos voltar nossos olhos a Nossa Senhora do Rosário, aparecida em Fátima, e seguir o Seu pedido de oração, de penitência e de mudança de vida, tendo plena consciência de que, como disse a Santa Virgem aos pastorinhos, por fim o Seu Imaculado Coração triunfará!

Seja esta a nossa singela homenagem à Santíssima Mãe de Deus, Regina Coeli et Terrae, neste aniversário de Sua primeira aparição na Cova da Iria, na terra de nossos Maiores, Nação de que surgiu a nossa Imperial Nação. E àqueles que estiverem lendo estas linhas nas terras lusíadas d’Europa, dirigimos as palavras finais das Mensagens ao Mundo Lusíada, de Plínio Salgado, “o mais eloquente intérprete da Brasilidade”, no dizer de Hipólito Raposo,[52] e, como tal, um dos mais eloquentes intérpretes da Lusitanidade:

Recebei minhas palavras (…), na terra de meus maiores, como um apelo do Coração do Brasil ao vosso Coração para que se conserve a unidade da Fé católica nos dois impérios da língua portuguesa que constituem um só império no sentimento cristão; e, para que se conservem, com esta Fé, as virtudes antigas da Raça e aquele universalismo civilizador baseado nos valores do Espírito, que têm sido luz em nosso caminho, força na desventura, grandeza da alma no triunfo, segurança da nossa vitalidade e fundamento do nosso porvir![53]

            Por Cristo, pela Cristandade e pela Terra de Santa Cruz!

            Victor Emanuel Vilela Barbuy,

            São Paulo, 13 de maio de 2019.

*Texto originalmente publicado no portal Brasil, Terra de Santa Cruz (https://aterradesantacruz.org/)

[1] Cf. CARVALHO, José Murilo de. D. Pedro II. São Paulo: Companhia das Letras, 2007, p. 191; VIEIRA, Hermes. Princesa Isabel, uma vida de luzes e sombras. 2ª edição. São Paulo: Edições GRD, 1989, p. 161.

[2] Acta Leonis XIII. Volume VI. Bruges: Desclée et Cie., 1900, p. 104.

[3] Apud LYRA, Heitor. História de D. Pedro II (1825-1891). Volume III (Declínio). 2ª edição, Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo (EDUSP), 1977, p. 31.

[4] Extremismo e Democracia, São Paulo, Editorial Guanumby, s/d, pp. 15-16.

[5] Cf. BARMAN, Roderick J., Princess Isabel of Brazil: Gender and Power in the Nineteenth Century. Wilmington, Delaware: Scholarly Resources, 2002, p. 249.

[6] Princesa Isabel, uma vida de luzes e sombras. 2ª edição. São Paulo: Edições GRD, 1989, pp. 231-232.

[7] Idem, p. 233.

[8] História do Brasil. Volume II. São Paulo: Editora F.T.D. S.A., 1970, p. 145.

[9] Cf. MOUTINHO, Murillo, S.J. A Causa de beatificação e canonização do Pe. José de Anchieta. São Paulo: Loyola, 1980, p. 24

[10] Apud MOUTINHO, Murillo, S.J. A Causa de beatificação e canonização do Pe. José de Anchieta, cit., loc. cit.

[11] A Catolicidade da Princesa Isabel: Expressão de um amor universal. Disponível em: http://imperiobrasileiro-rs.blogspot.com/2011/12/catolicidade-da-princesa-isabel.html. Acesso em 13 de Maio de 2019.

[12] Cântico ao Cristo do Corcovado (1931). 7ª edição. In Poemas. Seleção coordenada por Ildásio Tavares. São Paulo: Edições GRD; Rio de Janeiro: Academia Brasileira de Letras, 2003, pp. 80-81.

[13] Fátima: Graças-Segredos-Mistérios. 1ª edição. Lisboa: Livraria Bertrand, 1936.

[14] Mensagens ao Mundo Lusíada. 5ª edição (na verdade 6ª). In Primeiro, Cristo! 4ª edição (na verdade 5ª).  São Paulo: Voz do Oeste; Brasília: INL (Instituto Nacional do Livro), 1979, p. 160. Na referida edição, o nome da obra, por um lapso, consta como Mensagem ao Mundo Lusíada e não Mensagens ao Mundo Lusíada, que é o seu verdadeiro título, como consta das edições anteriores.

[15] Idem, pp. 160-161.

[16] Idem, p. 160.

[17] Plínio Salgado na Tradição do Brasil. In VV.AA., Plínio Salgado: “in memoriam”.  Volume II. São Paulo: Voz do Oeste/Casa de Plínio Salgado, 1986, p. 47.

[18] Mensagens ao Mundo Lusíada. 5ª edição (na verdade 6ª). In Primeiro, Cristo!, 4ª edição (na verdade 5ª), cit., pp. 162-163.

[19] Idem, p. 163.

[20] Idem, p. 142.

[21] Idem, p. 158.

[22] Idem, pp. 158-159.

[23] Portugal, semente de Impérios, Rio de Janeiro, Getúlio Costa, 1943.

[24] Mensagens ao Mundo Lusíada. 5ª edição (na verdade 6ª). In Primeiro, Cristo!. 4ª edição (na verdade 5ª), cit., p. 159.

[25] Idem, loc. cit.

[26] Idem, pp. 159-160.

[27] Idem, p. 160.

[28] Citamos de memória.

[29] Fátima. In Reconquista, ano II, nº 4, São Paulo, 1951, p. 245.

[30] Idem, p. 247.

[31] A missão de Portugal no Mundo e a de Fátima na Cristandade. In Reconquista, ano II, nº 4, cit., p. 252.

[32] Idem, p. 254.

[33] Santos portugueses. Porto: Livraria Tavares Martins, 1957, p. 132.

[34] A missão de Portugal no Mundo e a de Fátima na Cristandade. In Reconquista, ano II, nº 4, cit., p. 255.

[35] Magnificat anima mea Dominum. In Reconquista, ano II, nº 4, cit., p. 250.

[36] A missão de Portugal no Mundo e a de Fátima na Cristandade. In Reconquista, ano II, nº 4, cit., p. 255.

[37] Fátima e sua mensagem. In Reconquista, ano II, nº 4, cit., p. 274.

[38] Idem, p. 272.

[39] Idem, p. 274.

[40] A Fé não é uma simples expressão emocional do espírito. In Reconquista, ano II, nº 4, cit., p. 292.

[41] Idem, pp. 292-293.

[42] Idem, p. 293.

[43] Idem, loc. cit.

[44] O Brasil está aqui presente. In Reconquista, ano II, nº 4, cit., p. 294.

[45] Em Fátima. In A Voz da Fátima, ano XL, nº 372, Leiria, 13 de setembro de 1953, p. 4

[46] Moscou, Roma e Fátima. In Reconquista, ano II, nº 4, cit., p. 301.

[47] Idem, loc. cit.

[48] Idem, pp. 302-303.

[49] Idem, p. 303.

[50] Idem, p. 301.

[51] Idem, pp. 301-302.

[52] A notável oração do Dr. Hipólito Raposo. In VV.AA. Plínio Salgado: “in memoriam”. Volume II: São Paulo, Voz do Oeste/Casa de Plínio Salgado, 1986, p. 189.

[53] Mensagens ao Mundo Lusíada. 5ª edição (na verdade 6ª). in Primeiro, Cristo! 4ª edição (na verdade 5ª), cit., pp. 174-175.

 

Publicado em 13 de Maio de 2019 e revisado em 13 de Maio de 2020.

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