O criador e idealizador do Integralismo brasileiro, Plínio Salgado (1895–1975), falando, no breve ensaio Trechos de uma carta, de 24 de abril 1934, na sessão de raças e capitalismo (1), afirma o seguinte:

“A animosidade contra os judeus é, além do mais, anticristã e, como tal, até condenada pelo próprio catolicismo. A guerra que se fez a essa raça, na Alemanha, foi, nos seus exageros, inspirada pelo paganismo e pelo preconceito de raça. O problema do mundo é ético e não étnico” (2).

Em seguida, na sessão de Soluções Integralistas, afirma:

“No integralismo, o judeu se apaziguará com os outros povos. Raiará uma época de verdadeira fraternidade. O longo fadário, a angustia do israelita cessarão. Esse povo poderá até ter o direito de construir a sua própria nação, entregando-se aos trabalhos do campo e das fabricas, cooperando com sua grande inteligência para a civilização, livre agora das desconfianças que desperta e em que vive, o que o leva a isolar-se e a enquistar-se nas pátrias alheias. Não podemos odiar uma raça da qual saiu Jesus Cristo. Veja, pois, que o nosso ponto de vista é superior a respeito dos problemas. Não combatemos nem raças nem classes: Insurgimo-nos contra uma civilização (3).

Dessa forma, compreendemos que o pensamento do Integralismo brasileiro sobre as raças, não é o mesmo pensamento de Hitler ou de alguns outros movimentos de cunho nacionalista. Não apenas o judeu, como o negro, o branco, o pardo, todos eles são bem aceitos em nossas fileiras e serão tratados com total respeito, desde que sigam os princípios e diretrizes do Movimento e não se vendam a nenhuma ideologia espúria como o comunismo ateu e assassino ou o Nacional Socialismo (nazismo) paganizante.

Ora, uma das provas de como o Integralismo combatia profundamente o racialismo (eufemismo para racismo) de ideologias perigosas como o Nacional Socialismo, pode ser vista no prefácio do livro Plínio Salgado - In Memoriam, Arruda Camargo fala essas palavras: “… o saudoso Rui de Arruda Camargo mostrou-me, um dia, um jornal alemão, escrito por um líder nazista, o qual se queixava, dizendo que o nacionalismo do Sr, Plínio Salgado impedia a propagação do nazismo, entre os alemães de Santa Catarina”. (4)

Como observa Victor Emanuel Vilela Barbuy, o sociólogo Gilberto Freyre, em

Uma cultura ameaçada  – a luso-brasileira, de 1942 (citado por Jayme Ferreira da Silva em “A Verdade Sobre o Integralismo”), refere-se ao geógrafo nacional-socialista Reinhard Maack, que, na revista de professores da Universidade de Harvard, nos EUA, já havia expedido suas ideias profundamente racistas: “O geógrafo Maack atribui essas ideias universalistas, para ele absurdas, ao próprio movimento integralista, recordando, com indignação, que um dos chefes teuto-brasileiros do extinto partido teria exclamado, em discurso em Blumenau: ‘Na época de completa fraternização de toda a família brasileira num Estado integral, não haverá mais diferenças de raça e de cor’. Para nós, um dos pontos simpáticos e essencialmente brasileiros do programa daquele movimento. Para o geógrafo Maack: ‘heresia das heresias’. Os homens de raça e de cultura germânica, sob a orientação nazista, não se submeteriam nunca a semelhante confraternização de raças e de costumes, dentro das tradições portuguesas que se tornaram estruturais para o desenvolvimento brasileiro.” (5)

Como se sabe, muitos têm Gustavo Barroso, o segundo homem na hierarquia da Ação Integralista Brasileira (AIB) e o segundo mais votado no plebiscito que escolheu o candidato desta à Presidência da República, em 1937, como racista e antissemita no sentido étnico do termo, alguns até mesmo o invocando para justificar seu preconceito étnico contra o judeu, usando, aliás, muitas vezes, a equivocada expressão “Integralismo barrosiano” para designar suas posições racistas. Eles, porém, deveriam saber que Gustavo Barroso deixa claro que combatia o racismo judaico em nome do antirracismo (6) e, se referindo ao frânces Drumont, autor de França Judaica, que diz que “os judeus entram pobres num país rico e saem ricos dum país empobrecido”, declara que seu antijudaísmo era de cunho econômico e que não  era antijudaico “no sentido de perseguir judeus, mas no sentido de esclarecer o povo brasileiro contra o perigo” que, em seu entender, o judeu representava (7). Gustavo Barroso ainda elogiava os chamados “judeus patriotas” e, na obra A Sinagoga Paulista, chegou a convidar um homem de origem judaica para ingressar na Ação Integralista Brasileira (8). Claro, Barroso pode sim ter cometido exageros, porém esses exageros não constam em nossos manifestos e não refletem a posição oficial do Integralismo.

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Isto posto, vale lembrar que, se referindo ao nacional-socialismo (nazismo) e ao fascismo italiano, no livro O Integralismo e o Mundo, Gustavo Barroso diz as seguintes palavras:

O Fascismo se enraíza na gloriosa tradição do Império Romano e sua concepção do Estado é cesariana, anticristã. O estado nazista é também pagão e se baseia na pureza da raça ariana, no exclusivismo racial. Apoiado neste, combate os judeus. O Estado Integralista é profundamente cristão, Estado forte, não cesarianamente, mas cristãmente, pela autoridade moral de que está revestido e porque é composto de homens fortes. (9)

Cabe recordar, ainda, que podemos mencionar inúmeros membros do Integralismo que eram negros, como o próprio João Cândido, líder da famosa Revolta da Chibata, Abdias do Nascimento, e Dario de Bittencourt, que foi, inclusive, Chefe Provincial da Ação Integralista Brasileira no Rio Grande do Sul.

Vemos, assim, que para o Integralismo o problema não está no fato de ser branco, pardo, negro, judeu ou qualquer outra coisa, mas sim no fato de o indivíduo seguir uma ideia maldita e burra como o comunismo, que dizimou povos inteiros, levando miséria e desgraça por onde passou, como na União Soviética do tirano Joseph Stalin, ou mesmo o liberalismo, do qual, aliás, derivou o comunismo. Em outras palavras, para o Integralismo “o problema do mundo é ético e não étnico” (10).

Vemos também que o Integralismo foi um dos primeiros movimentos brasileiros que exaltaram a cultura indígena, a começar pela própria saudação Integralista, que consiste no levantamento do braço com a exclamação “Anauê!”, que provém do tupi e, segundo o dicionário Montoya, significa “você é meu parente”.

A visão do Integralismo sobre as raças é esta que foi exposta neste artigo. Se você for um judeu ou judia como Edith Stein, será recebido/a de braços abertos, mas se for um judeu ou judia como Marcus Elias Ravage, não poderá entrar em nossas fileiras, porque na verdade não importa sua etnia, mas sim se a ideia que defende e os seus atos são bons ou perniciosos para o Brasil e para a humanidade.

Termino meu texto com a frase de um dos maiores líderes integralistas que já existiram, o grande Miguel Reale, Secretário Nacional de Doutrina da Ação Integralista Brasileira:

Nós brasileiros devemos nos libertar do jugo do capitalismo financeiro e do agiotarismo internacional, sem que para isso abandonemos os princípios éticos para descambarmos até aos preconceitos racistas. A moral não permite que se distinga entre o agiota judeu e o agiota que diz ser cristão; entre o açambarcador que frequenta a Cúria e o que frequenta a Sinagoga. O combate ao banqueirismo internacional e aos processos indecorosos dos capitalistas sem pátria, justifica-se no plano moral. E quando a pureza da norma ética está conosco, não se compreende bem qual a necessidade de outras justificações, que podem ser de efeito, mas que certamente são discutíveis.”  (11)

Gregório Floriano
Florianópolis, SC

Referências

(1) Caro leitor, como até hoje não existe um consenso a respeito de se raças existem ou não, não estranhe que esse termo seja empregado, ainda mais na década de 1930.

(2) Trechos de uma carta, in Panorama, Ano I, Nº 4 e 5, São Paulo, abril e maio de 1936, p. 5.

(3) Idem, loc. cit.

(4) Plínio Salgado – Vida e obra, in AA., Plínio Salgado: “In memoriam”, volume I, São Paulo, Voz do Oeste/Casa de Plínio Salgado, 1985, p. 14.

(5) O negro e o Integralismo. Disponível em: http://integralismo.blogspot.com/2008/06/o-negro-e-o-integralismo-victor-emanuel.html. Acesso em 20/09/2020. Os trechos entre aspas são de Gilberto Freyre.

(6) Judaísmo Maçonaria e Comunismo, Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1937, p 25.

(7) Idem, p. 12.

(8) A Sinagoga Paulista, Rio de Janeiro, ABC Limitada, 1937, pp. 68-69.

(9) O Integralismo e o Mundo, 1ª edição, Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1936, p. 17.

(10) Cf. Plínio SALGADO, Trechos de uma carta, cit., loc. cit.

(11) Nós e os fascistas da Europa, in Obras políticas (1ª fase - 1931–1937), Brasília, Editora Universidade de Brasília, 1983, p. 231–232.

Imagem: Votação no núcleo da AIB do Engenho Novo, no Rio de Janeiro. Década de 1930.

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