O Integralismo compreende a realidade substancial do homem, que não é apenas corpo ou apenas alma, mas uma unidade com as duas realidades.

Na morte, que é separação da alma e do corpo, o corpo do homem cai na corrupção, ao passo que sua alma vai ao encontro de Deus, ficando à espera de ser novamente unida a seu corpo glorificado. Deus, em sua onipotência, restituirá definitivamente a vida incorruptível a nossos corpos, unindo-os às nossas almas, pela virtude da Ressurreição de Jesus. [1]

Que é o homem? Segundo Santo Agostinho e muitos outros pensadores cristãos, é a unidade onde permanecem essas duas realidades, a alma e o corpo. O Integralismo compreende essa natureza. O corpo do homem não é o homem e nem sua alma sozinha poderia ser. Se o homem ressuscitará em seu corpo glorioso, isto é, o corpo sem corrupção, quando sua alma retornar ao corpo na ressurreição, é correto dizer que o Homem é a unidade tanto da alma como do corpo.

“Deus criou o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou, homem e mulher os criou” (Gn 1,27). O homem ocupa um lugar único na criação: ele é “a imagem de Deus”; em sua própria natureza une o mundo espiritual e o mundo material; é criado “homem e mulher”; Deus o estabelece em sua amizade. [2]

Embora o homem seja imagem de Deus (por seu Logos), o pecado o fez perder a Graça, coisa que o faz não possuir a semelhança com Deus. Todos possuem a imagem, mas não a semelhança, visto que essa última depende da gratuidade da Graça, esta última operante nos santos ou beatos, ou em qualquer outro em que a Graça operante receba retribuição por meio da graça cooperante.

A natureza decaída do homem tem direitos, mas para cada um desses direitos existe um dever. O Integralismo proclama com convicção o dever do homem, visto que vieram antes dos direitos, e esses sem aqueles não fazem mais do que instaurar a desordem. Onde todos querem direitos, sem correlacioná-los com o dever diametralmente paralelo, nada há que justifique a exigência, uma vez que ela não é justificável se não pode ser concedida e se aquele que a exige recebe-a graças a pressões desonestas, como greves [3] ou qualquer outro recurso de força — e se estabelece uma desarmonia. Afinal, se alguém vê-se obrigado a conceder um “direito falso” — isto é, que não tem um dever paralelo —, quer dizer quem alguém ou algo é ferido no seu direito verdadeiro em vista da concessão desse falso direito [4].

Quando analisamos o homem pela ótica integralista, é preciso adjetivar esse nome com o predicado de “integral”, isto é: Homem integral. E isso devemos fazer devido ao fato de existirem diversas concepções do homem, muitas vezes analisado apenas por aspectos de sua totalidade, e mutilado com vistas a trabalhar apenas um desses aspectos como sendo “o todo”. Ou seja, com um aspecto em mãos atiram o resto no lixo. Quando uma ideologia observa apenas um aspecto do homem, seja ele o econômico, sexual, racial, espiritual ou qualquer outro isoladamente, é como se um halterofilista treinasse apenas um único braço. Iria deformar-se.

Por isso o Integralismo observa a composição do homem em sua tríplice dimensão: espiritual, material e intelectual, e se orienta para ela com justeza, não desejando “criar um novo homem” (como se Deus houvesse errado ao fazer-nos), mas apenas reinstaurar a sua dignidade, que é arrastada para cada vez mais longe da verdade por tantas filosofias atrofiadas, que não cessam a criar demagogias que desvirtuam o conhecimento moral comum dos homens, fazendo uso de tantos sofismas quanto seja possível imaginar.

O homem foi criado para uma finalidade, e na sua natureza está presente o livre-arbítrio, que indica a presença intrínseca de que é um ente feito e destinado a algo de grande, cujo destino não nos cumpre outorgar ou presumir, mas respeitar e procurar criar os meios capazes de guiar com liberdade e responsabilidade os homens à busca de Deus. Não por outro motivo o Integralismo proclama não só os direitos: mas os “Direitos e Deveres do Homem”.

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Para a proteção do homem e de sua dignidade inerente, ele se organiza em grupos naturais que lhe são lícitos por uma ordem natural, e não se pode interferir nessa estrutura a menos que para protegê-la justamente de qualquer intromissão indevida. Essa ordem natural estabelece uma hierarquia de deveres [5]:

1 – O dever para com Deus;
2 – O dever para consigo mesmo;
3 – O dever para com sua família;
4 – O dever para com a nação;
5 – O dever para com a comunidade internacional.

Toda essa ordem de deveres está comprometida, se faltar ao homem a orientação e a estrutura extrínseca através das quais busca meios de cumprir seus deveres. Por isso, ao Estado, no seu tamanho natural e justo, cabe assegurar e possibilitar o desenvolvimento do homem e de sua condição de dignidade. Ofertar ao homem um ambiente saudável que favoreça a sua Revolução Interior, para que esse homem, percebendo a nobreza dos valores do espírito sob aqueles viciosos da carne, consiga vencer os graves defeitos morais e através dessa vitória se encaminhe a si mesmo e aos demais, ao progresso efetivo.

Quando o Chefe Plínio Salgado ensina:

“Deus criou o mundo e, criando o homem, quase podemos dizer que lhe ordenou: ‘Cria-te, agora, a ti mesmo’. Se liberdade é poder de opção, ela tem qualquer coisa de poder de criação. Não arrancamos coisa alguma do nada, porque isso é poder que só pertence a Deus; mas podemos utilizar do material que Deus nos ofereceu e exercitar nele o nosso livre-arbítrio, que é, de certo modo, um poder de criar”.

Ele não outra coisa ensina se não aquilo que decorre de Gn 1,28, isto é:

“Deus os abençoou: ‘Frutificai, disse Ele, e multiplicai-vos, enchei a terra e submetei-a. dominai sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus e sobre todos os animais que se arrastam sobre a terra’”.

Continua em Gn, 1,29-30:

“Eis que eu vos dou toda a erva que dá semente sobre a terra, e todas as arvores frutíferas que contêm em si mesmas a sua semente, para que vos sirvam de alimento. 30 E a todos os animais da terra, a todas as aves dos céus, a todo o que se arrasta sobre a terra, e em que haja sopro de vida, eu dou toda a erva verde alimento”

Eis que o homem, tendo que submeter a terra por dever, ganha também uma coparticipação na Criação. Para isso tem um livre-arbítrio, uma criação que lhe é própria, a responsabilidade com suas ações, e disso procede tanto o mérito quanto o demérito, a culpa ou a não-culpa.

Moisés J. Lima
Presidente do Núcleo da Frente Integralista Brasileira em São Paulo

Notas

[1] C.I.C. [Catecismo da Igreja Católica] número 997, sobre o homem.

[2] C.I.C. número 355, sobre o homem.

[3] A greve é plenamente lícita e faz parte da liberdade. Entretanto, existe uma exploração e uma instrumentalização da greve por parte de determinadas correntes políticas, que a têm, muitas vezes, convertido em instrumento de terror à economia e de injustiça para com a Pátria, e consequentemente, para consigo mesmos e suas próprias famílias.

[4] Direito aqui como aquelas concessões justas a ações operadas com vistas ao cumprimento de um dever. Não entramos no mérito do dever relativo à Lei Eterna ou à Lei Natural.

[5] Ordem de deveres do homem bem estabelecida na obra “Compêndio de Instrução Moral e Cívica”, de Plínio Salgado.