A carta do Prof. Orlando Fedeli sobre a “Vida de Jesus” de Plínio Salgado fez história. É uma pena que o professor não tenha se dado ao luxo de ler a obra antes de criticá-la.

Quando começávamos a estudar o Integralismo, confessamos que a carta criou em nós um grande preconceito contra a “Vida de Jesus”. É claro que Plínio Salgado não é o líder religioso dos integralistas. Não fazemos sobre a sua figura uma seita. [Veja-se nosso artigo posterior Orlando Fedeli contra o Integralismo.]

Mas, graças a Deus, um dia, tomamos a decisão de ler sua “Vida de Jesus”. Até então, não podíamos entender como um livro aprovado pela Igreja, uma das biografias de Jesus mais editadas pela Humanidade, quiçá a traduzida a um maior número de línguas, e tão recomendada por tantos Prelados e ilustres professores da Igreja — como o Padre Leonel Franca… — só foi ter seus erros descobertos em 2004, pela leitura breve de um leigo interessado (apesar de todos os seus grandes e inegáveis méritos na defesa da Doutrina).

É possível que nenhum dos Bispos a conceder-lhe o Nihil Obstat tenha se dado conta de tantos erros graves? Como tantos tomistas, santos sacerdotes e prelados podiam tê-lo lido sem perceber nada disso?

A leitura nos deu a resposta. E a resposta nos decepcionou: infelizmente, o Prof. Fedeli mentiu.

Sugerindo a ida do Padre Franca ao Purgatório por seu elogio, talvez tenha ido ele pela crítica…

Os tópicos

Primeiramente, gostaríamos de citar uma passagem do prefácio da própria “Vida de Jesus” (Ed. Ática, 5° ed., p. I):

Não fiz aqui obra de erudição ou de exegese. Estas narrativas são o espelho de um sentimento que vive em mim e tudo explica em mim.

Plínio Salgado era, antes de qualquer apelido, um Poeta.

Por isso, embora não seja um romance, a “Vida de Jesus” é uma trama romanceada. Isso explica que ele crie diálogos e cenas, como uma expansão do diálogo entre Jesus e o homem rico, que muito nos chamou a atenção. Nada disso suplanta a trama real, nem a nega, nem a distorce ou inova — mas introduz nela um sentimento, dentro da ortodoxia.

Explicado isso, mostraremos que, apesar de não pretender fazer obra de erudição, Plínio Salgado nada escreveu em “Vida de Jesus” contra o entendimento da Igreja. 

É claro que não somos teólogos, nem mesmo amadores. Somos leitores e admiradores da obra de Plínio Salgado — e também somos Católicos. O que sabemos da Fé é o que requer o nosso estado. Não quereríamos ensinar ao Prof. Fedeli (que Deus o tenha) a Fé: mas poderíamos ensiná-lo sobre o que Plínio Salgado escreveu.

A crítica de Fedeli tem seis tópicos:

  1. Maliciosas sugestões.
  2. A descida de Jesus aos infernos.
  3. O Limbo dos Patriarcas.
  4. Panteísmo, gnose e monismo.
  5. Divindade de Jesus.
  6. Destino dos Povos.

Tratemos um a um.

Maliciosas sugestões

São duas as maliciosas sugestões de Fedeli sobre Plínio Salgado.

Em uma, sugere que seja um “esotérico mal disfarçado de Católico”. Em outra, espírita. São sugestões bobas, que merecem uma resposta apenas rasteira.

Por que esotérico? Por escrever isso:

“A marcha dos séculos! O Homem se arranca pesadamente, penosamente, da treva em que tombou desde o Pecado, e através de cuja cadência verifica, dia a dia, não lhe dar a conquista da natureza a reconquista daquela Harmonia Inicial que, no fundo da consciência, compreende haver perdido” (Plínio Salgado, op. cit., p. 619).

Que modo arrevezadamente esotérico de falar do pecado original! Parece até linguajar maçônico…

É preciso destacar que esta passagem não é sobre o Pecado Original. É sobre a busca de consolações nas coisas, pelo que o homem, através do Pecado, perdeu no Espírito. O “modo de falar”, isto é, o estilo, é próprio de todos os livros de Plínio Salgado: tratando-se do seu estilo e linguagem, bastaria qualquer outra passagem da “Vida de Jesus”, toda ela escrita assim. Nada há aí, no entanto, que se aproxime da negação da doutrina católica sobre o Pecado Original — antes do qual havia uma “Harmonia Inicial” entre Deus e o Mundo, o Homem e a Natureza, o Corpo e a Alma. A ideia de “harmonia” é uma razão poética constante em toda a obra política e literária de Plínio Salgado… ainda antes que escrevesse sobre a Fé.

Na passagem citada, em seu contexto original, Plínio fala da sinonímia entre a saudade e a esperança de Deus. Tudo de uma psicologia muito católica, muito tomista.

Depois, Fedeli bate mais. Quer que Plínio Salgado seja espírita:

“É o Limbo, onde também se espera o Messias. A região crepuscular, onde os povos se encontram e as civilizações se conhecem. O país, o mundo, onde mora a inocência das crianças e dos selvagens; a bondade natural dos espíritos harmoniosos; a justiça dos justos e a santidade dos santos” (idem p. 615).

[…]

E que são esses “espíritos harmoniosos” de que fala Plínio, o Salgado (porque há outro Plínio não salgado, mas azedo em seus ódios)[?] Esses tais “espíritos harmoniosos” têm cheiro de Allan Kardec.

É que Fedeli nunca leu nada de Plínio Salgado. Em outra ocasião, já demonstramos que também não leu A Quarta Humanidade, sobre a qual escreveu outras coisas. Por não ter lido nada, não conhece sua linguagem. Só não foi pego tão desprevenido quanto os dois autores de um livro recente, que supuseram que a ideia de “Gênio Político” significa que Plínio Salgado se achava um gênio…

A acusação de espiritismo, enquanto toda a virtude se concentra na sã harmonia, é tão gratuita que nos vemos desnecessitados de responder.

A descida de Jesus aos infernos

Mas onde Fedeli se incomoda mesmo é na descida de Jesus aos infernos. Seu escândalo tem três origens:

  • A confusão entre o Inferno dos Condenados e o Limbo dos Patriarcas por Plínio Salgado.
  • A descida de Jesus ao Inferno dos Condenados.
  • O caos e o ecumenismo do Limbo dos Patriarcas na “Vida de Jesus”.

Gostaríamos de falar de um por um. Portanto, leiamos, primeiro, como Fedeli começa o assunto:

“Cristo desce aos Infernos. É o “outro lado” (Plínio Salgado, Vida de Jesus, ed. Voz do Oeste, São Paulo, 21a edição, p. 611).

“O Cristo vai ao Tártaro, o horrendo Averno, o Orco em turbilhão. (…) Cristo e Satã se encontram face a face” (idem p. 612).

Meu caro Leonardo, isso não está no Credo e nem nos Evangelhos. Quando Cristo foi aos infernos, Ele não desceu ao inferno de Lúcifer e lá não se encontrou, face a face, com Lúcifer. Isso é pura imaginação romântica de Plínio Salgado.

O problema é que o “outro lado” mencionado não é, exatamente, o Limbo.  É a dimensão sobrenatural dos infernos. E, por uma malícia pecaminosa ou por ingenuidade, Fedeli cita duas passagens diferentes do mesmo capítulo, em narrativas diferentes. Plínio Salgado não confunde o Sheol e a Geena, mas distingue diferentes graus nos infernos (p. 701):

Os gregos colocaram ali o Tártaro sombrio, mas puseram também os doces Campos Elíseos.

Por isso, Plínio põe a descida ao Limbo após o momento do Inferno dos condenados, que é o “Tártaro, o horrendo Averno, o Orco em turbilhão” (p. 702):

Mas eis [depois do Tártaro] que suave canto vibra na mansão das sombras. O Cristo transpõe os limites desse estranho país, onde bilhões de almas o aguardam desde todas as épocas.

É o Limbo, onde também se espera o Messias.

Há prova mais cabal de que Fedeli não leu o livro? Nem a página anterior, nem a mesma página, que cita. É uma confusão infernal — perdoem-nos o trocadilho. Onde Plínio fala de dois infernos, tal como fala a Igreja, Fedeli entende um grande inferno: e aí dá pulinhos triunfais por não ter lido nada. Daí que, quando Fedeli diga:

Lá no limbo onde Jesus teria se encontrado face a face com Lúcifer — que mentira deslavada! — lá se encontravam…

É uma mentira deslavada, de fato, que Jesus tenha se encontrado com Lúcifer no Limbo. Não é isso que diz Plínio Salgado. Se Fedeli lesse o livro, saberia.

*

Mas a nós é claro que Cristo desceu, também, de certa forma, ao inferno de Lúcifer. É o que diz Santo Tomás (S. Th., IIIa, q. 52, a. 2):

De dois modos podemos dizer que um ser está num lugar.

Primeiro pelo seu efeito. E, neste sentido, Cristo desceu a cada um dos infernos, mas de maneiras diferentes. Assim, sobre o inferno dos condenados produziu o efeito de descendo a eles, convencê-los da sua malícia e incredulidade. Quanto aos detidos no purgatório, deu-lhes a esperança de alcançarem a glória. E aos Santos Patriarcas, que só pelo pecado original estavam enclausurados no inferno, infundiu-lhes o lume da glória eterna.

[…]

Assim, pois, embora não estivesse localmente senão numa parte do inferno, contudo o seu efeito de certo modo derivou para todas as partes dele; como também, tendo sofrido num lugar da terra, libertou todo o mundo com a sua Paixão.

E, ainda, no a. 6:

Pela sua descida aos infernos Cristo de certo modo visitou todos os que estavam em qualquer parte deles [isto é, inclusive Lúcifer].

Plínio Salgado nada atenta contra isso, quando diz, sobre o inferno dos condenados (p. 702): “A Luz anuncia a derrota das trevas no coração dos homens”. E: “Lusbel não se convence; aos seus conclama, e jura que, em todas as gerações de homens, sob a terra, far-se-á presente, sob formas constantemente renovadas. Porém o Cristo lhe diz que a consciência humana já não estará desarmada; as vitórias do Mal serão efêmeras e a vitória do Bem será o final triunfo”. Assim se deve entender Cristo e Satã face a face: misticamente, pela vitória da Luz sobre as trevas, e a revolta das trevas contra a Luz (convencendo-se “da sua malícia e incredulidade”), e não fisicamente.

É exatamente o que dizia Santo Tomás, em cit., a. 2:

Por isso diz [São João] Damasceno: “Assim como evangelizou aos que viviam na terra, assim também aos que estavam no inferno”; não certo para converter os incrédulos à fé, mas para convencê-los de infidelidade. Pois, não podemos entender por essa pregação senão a manifestação da sua divindade aos encarcerados do inferno pela milagrosa descida de Cristo até eles.

O Limbo dos Patriarcas

No Limbo (verdadeiro Limbo, o que Fedeli não entendeu), Fedeli se estupefaz, ficando um tempo pra mostrar todas as “barbaridades ecumênicas” de Plínio Salgado. Um ecumenismo estranho para um autor que, no parágrafo anterior à descida ao Limbo, tinha acabado de escrever (p. 702):

O paganismo terminou o seu hediondo ciclo e as potências rebeldes ao ritmo divino já não terão altares sob a forma de deuses perversos.

Que ecumenismo tresloucado é esse dos ciclos hediondos de deuses perversos que na verdade são demônios?

É porque Fedeli é um mau leitor.

Ele escreve:

“É ali que estão Sócrates e Homero, Platão e Sófocles, Sólon e Fídias, o Raciocínio e a Poesia, a Idéia e a Tragédia, a Legislação e a Beleza. Os astrônomos da Caldéia, os sábios de Mênfis, os filósofos da China, os navegadores da Fenícia encontram-se naquele estranho país, onde nenhum pensamento pensado e nenhum gesto realizado, e nenhuma palavra pronunciada deixaram de existir em vibrações perenes” (Plínio Salgado, idem, p. 615).

Mas esse limbo parece até o Grande Hotel do Além!

Todo mundo está lá!

Isso não é nada católico!

Estranho país, realmente estranho, onde convivem — em vibrações perenes – a Lao Tsé e os espertos navegadores e comerciantes fenícios junto com A Idéia!

Do contrário, Plínio Salgado escreve (p. 705):

nesses lívidos círculos do Infinito, onde vivem os ritmos um dia vibrados e as imagens imperecíveis que desabrocharam no incomensurável lago do Não-Ser;

oh! nesses planos do mundo os nomes não morreram;

não morreram os nomes dos homens;

nem suas palavras, nem seus gestos;

nem os lugares por onde andaram e que também viveram com seus próprios episódios…

[…]

Vibram, agora, imponderavelmente, nas novas percepções afinadas pela morte… 

Onde vibra essa tal “convivência” do “Grande Hotel do Além”? Nas “novas percepções afinadas pela morte”, no “incomensurável lago do Não-Ser”. As “vibrações perenes” são as que já vibraram — não nascem mais.

Isso é muito diferente da ideia de Fedeli:

Nesse limbo caótico, só faltou a Missa Nova do maçom Monsenhor Annibale Bugnini. E que programão nesse limbo! Parece até o Festival da Canção Universal!

Não há festival, caos ou programão. O Limbo é um “lago do Não-Ser”, lugar de morte, onde vivem os homens, que Plínio, poeticamente, não dissocia de suas aventuras, palavras, gestos e glórias. Plínio fala de ações, religiões, artesanato, discursos e geografia, é claro. Mas não fala de nada disso exceto em relação aos homens que ali habitam (p. 708):

…naquele mundo em que bilhões de almas, íntegras, indivisíveis nas suas personalidades, se exprimem na sinfonia arrebatadora da qual a História representa apenas a resumida indicação… 

Por isso, Plínio nunca fala apenas dos gestos ou das ações. Fala do “Homem”.

O Homem pintando renas nas pedras das cavernas;

modelando os vasos etruscos, as ânforas cretenses;

as taças gregas… (etc.)

(p. 707)

É sempre o Homem, não a coisa ou a ação. A ação se refere a ele, em sua “personalidade indivisível”, que vive na sombra, no Não-Ser, na morte do Limbo, onde vibra perenemente o Passado, através de sua alma imortal.

Mas Fedeli comete outro grave erro. Ele pensa que essas grandes religiões e grandes construções são, para Plínio, a bela expressão de glória da Humanidade. Ele não leu o que ele mesmo citou (p. 707): “O Homem […] verifica, dia a dia, não lhe dar a conquista da natureza a reconquista daquela Harmonia Inicial”… Tendo perdido a consolação da Graça, o Homem se refugiou na consolação da Natureza. Agora, com a descida do Salvador, Ele “transpôs as portas da morte” (p. 708), levando a Glória Celeste que inutilmente buscou a História no Mundo.

Esse é todo o contraste pretendido.

*

Fedeli vai acusar Plínio Salgado de ecumenismo. Mas, antes, o acusa de naturalismo, dizendo que tomou por base o homem natural da inocência selvagem de Rousseau:

“É o Limbo, onde também se espera o Messias. A região crepuscular, onde os povos se encontram e as civilizações se conhecem. O país, o mundo, onde mora a inocência das crianças e dos selvagens; a bondade natural dos espíritos harmoniosos; a justiça dos justos e a santidade dos santos” (idem p. 615).

Veja lá, meu caro Leonardo, que seu Plínio bota no mesmo saco, quero dizer, no mesmo limbo, “a inocência das crianças e dos selvagens”. O limbo dos inocentes existe e é católico, mas o limbo da “inocência dos selvagens”, esse limbo é o inventado por Rousseau. Nele moram o Peri e o Tarzan. Isso é puro sonho romântico e não catolicismo.

É claro que não é bem assim.

Em seu famoso ensaio Capitalismo e comunismo, republicado em pelo menos três dos seus principais livros, por exemplo, Plínio escreve que

O homem natural de Rousseau é o índice de todo o Individualismo que gerou o Liberalismo.

E, em Estado Totalitário e Estado Integral, entrevista nacionalmente repercutida, republicada em outros vários de seus livros, acusa formalmente ao princípio antropológico de Rousseau de levar ao comunismo totalitário:

Ao contrário de Hobbes, um outro filósofo chamado Locke, também materialista, também naturalista, pensava que o homem é bom, que as leis, o arbítrio do Estado é que o tornam mau. Baseado no mesmo materialismo experimental de Hobbes, chegava Locke à conclusão de que cumpria dar a máxima liberdade aos indivíduos, competindo ao Estado assegurar essa máxima liberdade. Bastava isso para que tudo corresse no melhor dos mundos.

Também J. J. Rousseau foi da mesma opinião de Locke. O “homem natural” de Rousseau exprime todo o seu pensamento político. O curioso nisto tudo é que, partindo de um mesmo princípio — o naturalismo —, Hobbes separa-se de Locke, porém ambos vão encontrar-se nas últimas consequências do Estado Liberal, isto é, no Comunismo Bolchevista, no Estado Socialista, que destrói toda a Personalidade Humana, os Grupos Naturais, a Liberdade. Tanto Hobbes como Locke e Rousseau, são “unilaterais”.

[…] Como Marx, que é naturalista e continuador dos economistas liberais, [Georges] Sorel aceita, integralmente, os mesmos princípios que já estavam em Hobbes, em Locke, em Rousseau.

São alguns exemplos que julgamos oportuno citar.

Se o Prof. Fedeli conhecesse o conceito de “Homem Integral”, base de todo o pensamento de Plínio Salgado, não poderia tentar associar o autor ao homem de Rousseau. Antes, por caridade mesmo, deveria compreender no seu lirismo aquilo que ele gostaria de indicar: a ignorância, que é uma inocência, do selvagem. E a ignorância invencível é Catolicismo.

*

O que mais incomoda Fedeli é que “está todo mundo lá”.

No Limbo de Plínio Salgado, estão pagãos de todos os povos.

Mas Fedeli não deveria estranhá-lo. É verdade que a Igreja deu poucas definições magisteriais sobre o Limbo.

Santo Anastácio Sinaíta, nas suas Quaestiones et Responsiones, quaest. CXI, dá uma voz da Tradição da Igreja quando responde, sobre a oração pelos pagãos mortos antes da vinda de Cristo:

Ninguém deve anatemizar quem que tenha morrido antes da vinda de Cristo. Até nos infernos chegou a pregação de Cristo, uma única vez. […] Está numa antiga tradição que um estudante amaldiçoou muito o filósofo Platão. Então, durante o seu sono, Platão apareceu a ele e lhe disse: “Homem, pare de me amaldiçoar, pois com isso só fazes mal a ti mesmo. Que pequei, não nego. Mas quando Cristo desceu aos infernos, ninguém acreditou nEle antes de mim”. […] [Mas] isso só aconteceu uma vez, porque Cristo só desceu uma vez aos homens subterrâneos, para que pudesse visitar os que adormeceram em todas as eras.

É mais ou menos dentro do que diz Santo Tomás (S. Th., Supp., q. 71, a. 5), quando associa a Salvação de Trajano, um imperador romano pagão posterior a Cristo, a “uma sentença fundada na justiça que lhes remunerasse (a certos idólatras) os méritos próprios, nesta vida”. Que mais não dizer da justiça sobre os méritos próprios daqueles que precederam a Encarnação?

Portanto, não deveria o Prof. Fedeli se escandalizar tanto pelo que Roma nunca opôs. Aliás, o Catecismo de Trento diz apenas que Cristo desceu aos “Patriarcas e outros justos”. Uma vez que não se deve anatemizar ninguém que tenha morrido antes da vinda de Cristo, nada obsta à extensão feita por Plínio Salgado, em sua muito legítima “imaginação romântica”. É tudo.

Panteísmo, gnose e monismo

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Fedeli, presumindo culpa, diz assim:

“Que é a criação do Universo diante da humanização de Deus? O Fiat não passa da revelação do Verbo, do Verbo que era em princípio, no limbo dos mundos, nas adormecidas energias cósmicas” (Plínio Salgado, Vida de Jesus, ed. cit, p. 21). E isso é completamente herético!

“O Verbo, in principio, estava em Deus e o Verbo era Deus” (Jo, I, 1)

O Verbo não estava — coisa nenhuma — nas “adormecidas energias cósmicas”! Afirmar isso, ou é panteísmo ou é Gnose! Isso jamais foi Catolicismo.

Ele o responde com Jo I, 1. Mas, logo na passagem seguinte, Plínio cita Jo I, 2-3. Não é exagero: é realmente o que se segue (p. 17):

O Fiat não passa da revelação do Verbo, do Verbo que era em princípio, no limbo dos mundos, nas adormecidas energias cósmicas. “Ele estava no princípio com Deus — diz o Evangelista de Éfeso —; todas as coisas foram feitas por Ele e, sem ele, nada do que foi feito se fez”.

Então, deve-se supor que a passagem imediatamente anterior não era uma negação do Evangelho de São João… 

É mais fácil imaginar que o Verbo estava no Princípio, quando as “energias cósmicas” ainda estavam adormecidas na Inteligência de Deus. E falo que é mais fácil porque em um de seus livros mais importantes, “A Psicologia da Revolução” (ed. Obras Completas, p. 177), ele diz assim, sobre Deus e as “Energias Cósmicas” (isto é, a energia):

A matéria inconsciente, ela mesma obedece a um plano estabelecido por uma Inteligência Ordenadora.

Quem prolongar a análise das moléculas, chegará ao infinitamente pequeno, que já não é matéria, mas energia.

[…] Tudo é força no universo e entretanto a força está subordinada, em última análise, ao número. Essa expressão número envolve a ideia cálculo.

Existe, pois, nos planos misteriosos dos mundos, algo ou Alguém que tem parentesco íntimo com a nossa faculdade de calcular.

E, no rodapé (p. 178):

No sistema universal existirão apenas as expressões Matéria, Espaço e Energia? […] Parece evidente que existe um Universo ignorado [o espiritual], que não pode ser submetido à apreciação dos mesmos métodos pelos quais estudamos o Universo conhecido.

O que queremos mostrar é que, para Plínio Salgado, Deus é uma Inteligência Ordenadora que está em um plano ALÉM da Energia e a dirige. Embora seja difícil perscrutar o sentido exato de expressões líricas, ainda que se saiba que devem ser tomadas num sentido perfeitamente ortodoxo, é possível conectar a ideia das “adormecidas energias cósmicas” à do “limbo do mundo”, que a antecede na frase. O Princípio precede a Criação.

Por isso, não compreendemos quando Fedeli diz:

“Passado, presente, futuro confundem-se na unidade dos tempos eternos (Sic!). A única realidade é aquela imortalizadora luz, aquela luz que “estava no princípio em Deus” e que “era Deus”. Nela “estava a vida e a vida era a luz dos homens” (Plínio Salgado, Vida de Jesus, ed. cit, p. 619).

Essa afirmação é gnóstica ou panteísta, pois que nela se diz que a “única realidade” é a luz divina do Verbo. Se for assim, tudo é divino.

Plínio Salgado afirma, nessa frase, um monismo anti Católico.

Plínio escreve que o Homem tem saudades da “Harmonia Inicial”, perdida pelo Pecado Original, conforme já o explicamos. Mas ele não tem apenas as saudades do Passado: tem o anseio do Futuro, que é o Reino de Deus.

Daí que ele diga (p. 707):

Essa compreensão de um passado remotíssimo, anterior à paliçada lacustre e ao machado de sílex, tem uma equivalência, pode-se dizer uma sinonímia: a aspiração a um futuro melhor, isto é: a saudade de uma luz que se apagou.

Qual luz? O Verbo.

E por que Ele é a “única realidade”? Porque é em vã busca do que só Ele pode oferecer que se buscam os bens materiais e os prazeres. Como já citamos aqui (p. 707):

O Homem […] verifica, dia a dia, não lhe dar a conquista da natureza a reconquista daquela Harmonia Inicial que, no fundo da consciência, compreende haver perdido.

Esse sentido fica claro neste parágrafo (p. 708):

Como as plantas que procuram o sol, num tropismo irresistível, o Espírito procura, mesmo sem o saber, o Princípio de toda a Vida.

Muito tomista, Plínio não diz nada para além de Santo Tomás. Eu desafio ao leitor que esboce a incompatibilidade (S. Th., Ia, q. 44, a. 4):

Todas as coisas desejam Deus como fim, desejando qualquer bem, quer pelo apetite inteligível, quer pelo sensível, quer pelo natural, que é sem conhecimento; pois nada tem a natureza de bom e de desejável senão enquanto participa da semelhança de Deus.

É claro que nem tudo é divino. Se fosse, as consolações materiais não seriam perversões dessa busca: seriam um fim muito lícito.

Deus é a única realidade a que busca o Homem, em sua marcha na História.

Isso não é monismo. É tomismo.

A divindade de Jesus

Fedeli, sempre malicioso, escreve assim:

Quando alguém escreve uma Vida de Jesus de 640 páginas, e se vê obrigado a declarar, nos Apontamentos Iniciais, que ele crê na Divindade de Jesus, é porque, ele mesmo está consciente que, em suas 640 páginas, isso não ficou muito claro.

Mais uma vez, demonstra que não leu mesmo a “Vida de Jesus”. A edição do Prof. Fedeli (pela Ed. Voz do Oeste) tem 640 páginas — como estamos usando a 5° edição portuguesa da Ed. Ática, temos diante de nós um livro de 735 páginas, e muitas outras posteriores, não numeradas, que não nos daremos ao trabalho de contar. Qualquer que seja a edição, são 83 capítulos. Nós folheamos os 20 primeiros capítulos, até a página 134, e procuramos passagens que deixam claro a Divindade de Cristo:

“Um Deus ia nascer” — p. 10.

“Que é a criação do Universo diante da humanização de Deus?” — p. 17.

“O próprio Deus, que se submetia a todas as precariedades e necessitava de amparo humano em sua infância terrena” — p. 30.

“[Maria] Mãe de Deus” — p. 30 

“Maria, no único filho, terá o governador dos povos, mais alto do que José [filho de Raquel], porque resplandece de divindade, e mais doloroso do que Benjamin, porque abatido e esmagado na sua fraqueza humana” — p. 47.

“Até que ponto as meditações do Homem? Até que ponto as meditações do Deus-Homem?” — p. 91.

“Nunca poderemos conceber quais os pensamentos do Homem-Deus, do Deus-Homem” — p. 93.

“Deus [Jesus] marcha em direção da terra” — p. 100.

“Quando ela [Maria] era jovem e ele [Jesus] criancinha, esquecia-se por vezes que trazia no regaço o Verbo Encarnado, a suprema força e o supremo Poder Criador. […] Milagre que consistia em a Humanidade embalar o seu Criador” — p. 111.

“Os homens, que encheram as bolhas de água, e Deus, que transformara a água em vinho” — p. 117.

“A sua autoridade [Jesus] provém de mais alto, de muito mais alto, daquilo que nEle é intangível e inatingível: a sua natureza divina” — p. 134.

Fedeli diz que isso não deixou as coisas muito claras. Para nós, deixou…

Íamos terminar esta resposta, quando relemos tudo e caiu a ficha de que, em outra parte (que já falamos aqui), Fedeli acusa Plínio exatamente em uma afirmação taxativa da divindade de Jesus (que nós citamos ali acima): 

Que é a criação do Universo diante da humanização de Deus? O Fiat não passa da revelação do Verbo, do Verbo que era em princípio, no limbo dos mundos, nas adormecidas energias cósmicas” (Plínio Salgado, Vida de Jesus, ed. cit, p. 21). E isso é completamente herético!

Destino dos Povos

Mas, para Fedeli, o Deus de Plínio Salgado não pode ser verdadeiro Deus, porque é o “Destino dos Povos”:

E que vale essa afirmação de crença na divindade de Jesus, se Plínio Salgado escreveu e assinou noutro livro, que para ele, a Divindade, se identifica com o Destino dos Povos, e ele o invoca dizendo:

“É que escondes teu fogo imortal, Destino dos Povos, no risco fosfóreo do Boitatá, nas fagulhas da Mãe de Ouro, no ritmo de nossas canções tristes, e na brasa do cachimbo do Curupira e do Saci”? (Plínio Salgado, Quarta Humanidade, 2ª edição, p. 147)

Como nossa edição é de 1955, tivemos medo de que tivesse sido reescrita pelo autor, e fomos atrás da 1ª edição, de 1934. Ali tivemos certeza de que Fedeli não citou o texto verdadeiro do livro. Plínio escreve “É que acendes o teu fogo imortal”. Não “é que escondes”. A diferença é substancial e muda tudo.

De toda maneira, é uma pena que o Prof. Fedeli não cite outras passagens do mesmo texto, que não é de “A Quarta Humanidade”, embora esteja anexo a ele, como consta do rodapé (o que não sabe, já que já demonstramos em outra ocasião que ele não o leu):

“Força providencial” (ed. Obras Completas, p. 123)

“Tu, que conduzes os povos, que modificas as cartas geográficas, que derrubas e ergues os tiranos, que oprimes as multidões em obediência a teus secretos desígnios, e, como as oprimes, as elevas, na glória das civilizações” (p. 124)

“A Ti, Espírito Imortal, que presides aos destinos dos povos” (p. 128)

“Ó Espírito Imortal, que traças os destinos dos povos sobre a face da terra” (p. 132)

Tudo isso é coisa de um Deus bem católico: espiritual, imortal, inteligente, providencial. Plínio, poeta e literato, o chama de “Destino” porque nEle está o Destino supremo de todos os Povos: “O Senhor dissipa os projetos das nações; e reprova os intentos dos povos, e arruína os desígnios dos príncipes. Mas os desígnios do Senhor permanecem eternamente” (Sl 32, 10-11).

E o que Deus está fazendo no “risco fosfóreo do Boitatá, nas fagulhas da Mãe de Ouro, no ritmo das nossas canções tristes, e na brasa do cachimbo do Curupira e do Saci”? Ei-lo:

Tu, ó Destino dos Povos, estás, mais do que nunca, presente na angústia da Nova Geração Brasileira. É que estás presente em toda a extensão do país, na luta do cearense contra a inclemência da terra, voltando a cada ano para o teatro do seu eterno martírio, com energias que se renovam a cada sacrifício… na irrequieta cavalgada dos entreveros nos pampas do Sul… (etc.) 

É que acendes o teu fogo imortal, Destino dos Povos, no risco fosfóreo do Boitatá, nas fagulhas da Mãe de Ouro, no ritmo de nossas canções tristes, e na brasa do cachimbo do Curupira e do Saci, nos largos sertões, como se fosse a própria alma do Brasil, ígnea e palpitante… (etc.) e quando o jangadeiro afronta as ondas do mar bravo, ou quando o caudilho rompe as florestas… (etc.) estás presente, ó Espírito Imortal, que traças os destinos dos povos sobre a face da terra. 

Por isso, a Geração Nova do Brasil não teme fracasso na sua luta… (p. 132)

Presente, não imanente — e presente graças à sua ação sobre o destino da Pátria, criando a sua grande cultura popular, o seu grande povo, os grandes sacrifícios dos seus homens, que, provendo “tudo isso”, deu forças para que a “Geração Nova do Brasil”, sob Sua Providência, crie uma Grande Potência. O sentido é evidente. É uma elegia lírica às benesses de Deus para o Brasil. 

Orlando Fedeli cometeu uma difamação gravíssima contra a Fé de um irmão católico. Agravada pela extensão e consequências sobre a fama do atingido, bem como pela intenção do difamador. Deus tenha piedade da alma do Professor Fedeli, que tanto bem prestou, em outras áreas, à Igreja do Brasil.

Matheus Batista
Editor-Chefe das Redes Sociais e Coordenador de Propaganda da Frente Integralista Brasileira

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Marcos

Perfeito. Mais um excelente artigo do companheiro Matheus Batista, e mais uma mentira que cai por terra. Anauê!

Jonas de Mesquita

Excelente! Agora, precisamos de um rebatendo mais especificamente o Plínio Correia de Oliveira.

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