Segue o excelente recado do editor, jornalista e escritor Gumercindo Rocha Dorea, ex-Presidente da Confederação dos Centros Culturais da Juventude e atual Presidente de Honra da Frente Integralista Brasileira, ao ex-Presidente Fernando Henrique Cardoso.

 

 

Recado a um ex-presidente da República, ex-ministro, ex-senador, ex-professor universitário e que, hoje, amplia e “revitaliza” os quadros dos remanescentes caluniadores do Integralismo.

Sr. Fernando Henrique Cardoso:

Foi, com incontida revolta interior, que tive o desprazer de adquirir os dois últimos volumes de sua autoria (“O improvável presidente do Brasil” e “Pensadores que inventaram o Brasil”),[1] um com Brian Winter, onde estão repetidas velhas e surradas calúnias contra o Integralismo e seus seguidores. Mais lamentável ainda por ter sido forjado o livro para “deleite” de Bill Clinton e de alguns possíveis leitores da grande república norte-americana. Estes, porém, de dotados de mente aberta e decidirem conhecer realmente o verdadeiro pensamento e a obra da “poderosa geração integralista”, terão satisfeita a sua curiosidade lendo a obra de seu conterrâneo, Thomas Skidmore,[2] um dos mais respeitados brazilianists que tentaram interpretar o Brasil e o Integralismo. A sua conclusão é simples e verdadeira: “A visão integralista era de um Brasil cristão baseado numa sociedade disciplinada com pouca tolerância para a ação revolucionária da esquerda”.

E não destoaria esta constatação com a de Bartolomé Benassar e Richard Marin,[3] ao afirmarem com conhecimento de causa: “…a AIB distingue-se do fascismo pela sua forte identidade católica, afirmada na própria divisa: Deus, Pátria, Família. Segundo uma concepção providencial da História, o Integralismo deseja ser a matriz de uma revolução continental que tem em vista a edificação de um império cristão”.

E Ronaldo Poletti,[4] um dos mais prestigiados mestres do Direito contemporâneo brasileiro, em páginas de extraordinária vitalidade, sintetiza: “As ideias de Plínio Salgado sobre o Império, ao qual ele adere de maneira clara, estão associadas ao Direito Romano influenciado pelo Cristianismo, à dignidade da pessoa humana como fundamento de todos os direitos. Daí também sua identificação com o sonho de Bolívar para a América e sua percepção, provavelmente o primeiro no Brasil, da obra do mexicano José de Vasconcelos, autor de A raça cósmica!”

Que mal há em proceder eticamente como Flávio Aguiar – prefaciado por Antônio Cândido – em sua ímpar antologia Com palmos medida,[5] inventariar um texto de Plínio Salgado, ao lado de Oswald e Mário de Andrade, José Américo, Rachel de Queiroz, Jorge Amado, Graciliano Ramos e José Lins do Rego – no tocante ao Modernismo e década de 1930? Poderia Flávio Aguiar deixar de anotar a presença de Plínio Salgado “como líder de movimentos nacionalistas de extrema direita”, ao tempo em que reconhece nele um “romancista e ensaísta de peso”? Não seria mais honesto em Fernando Henrique assim proceder, do que qualificar o verde-amarelismo de “desvio fascistizante, que chegou a ser ridículo e falso”? Não procede Flávio Aguiar, porém, com os autores reconhecidamente como comunistas, de acentuá-los como tais. Não seria melhor reconhecer Plínio Salgado apenas como integralista?…

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Todos sabemos que a calúnia – e sobretudo a mentira aceita e repetida – cria raízes de difícil erradicação. Mas que, também, forja combatentes para repudiá-las. Este simples volume é uma prova de que a verdade encontrará, sempre, defensores atentos, uma constatação aqui se evidenciando: a luta continua.

Gumercindo Rocha Dorea.

(Recado, in Gumercindo Rocha DOREA (Organizador), “Existe um pensamento político brasileiro?” Existe, sim, Raymundo Faoro: o Integralismo!: uma nova geração analisa e interpreta o Manifesto de Outubro de 1932 de Plínio Salgado, São Paulo, Edições GRD, 2015, pp. XI-XIII).

[1] O improvável presidente do Brasil. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2ª ed., 2013, pp. 11/18; Pensadores que inventaram o Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1ª reimpressão, 2013, p. 75.

[2] Uma história do Brasil. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2ª ed., 1998, p. 159.

[3] História do Brasil, 1500-2000, trad. de Serafim Ferreira. Lisboa: Teorema, 2000, p. 343, edição apoiada pelo Ministério francês da Cultura e da Comunicação. Esta obra não foi traduzida no Brasil.

[4] Conceito jurídico de Império. Brasília-DF: Consulex, 2009, pp. 284-290.

[5] Com palmos medida. Terra, trabalho e conflito na literatura brasileira. São Paulo: Boitempo Editorial, 1999, pp. 198-201.

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