Nas últimas semanas, manifestantes “esquerdistas” que se autoproclamam “antifas” têm danificado e depredado monumentos históricos em diversos países do Mundo. Em Portugal, onde alguns desses “esquerdistas” têm defendido até mesmo a destruição da Torre de Belém, foi vandalizada com tinta vermelha, no último dia 11 de junho, a estátua do Padre Antônio Vieira, no centro de Lisboa, por um grupo desses inocentes e ignorantes úteis aos verdadeiros inimigos de Deus, da Pátria e da Família, que certamente desconhecem o fato de ter sido aquele grande jesuíta um crítico ferrenho da escravidão e dos preconceitos étnicos. A propósito, não custa citar aqui algumas das palavras de Vieira a respeito dos escravos negros, no Sermão Vigésimo Sétimo, proferido em 1633 na cidade do Salvador, nestas partes do Brasil. Com efeito, após ter se referido ao tráfico negreiro como “trato desumano, em que a mercancia são homens” e “mercancia diabólica, em que os interesses se tiram das almas alheias, e os riscos das próprias”,[1] assim sustentou, no aludido sermão, este exemplo de missionário e maior de todos os oradores da nossa língua,[2] figura que se conta no número das mais ilustres da História de Portugal, da Terra de Santa Cruz e de todo o Mundo Lusíada:

Estes homens não são filhos do mesmo Adão e da mesma Eva? Estas almas não foram resgatadas com o sangue do mesmo Cristo? Estes corpos não nascem e morrem, como os nossos? Não respiram com o mesmo ar? Não os cobre o mesmo céu? Não os aquenta o mesmo sol? Que estrela é logo aquela que os domina, tão triste, tão inimiga, tão cruel?[3]

Há muito que as chamadas “esquerdas” deste País têm para cá importado da Europa e dos Estados Unidos da América as ideias mais absurdas e contrárias à nossa realidade, à História Pátria e à Tradição Nacional. Dentre as diversas mercadorias exóticas e nefastas trazidas por elas para o nosso Brasil se encontram a luta de raças[4] e, agora, também a ideia de depredar monumentos históricos por elas associados ao racismo, à escravidão e ao colonialismo.

Assim, espelhados em ações de vandalismo perpetradas por “esquerdistas” na Europa e na América do Norte, alguns verdadeiros inimigos de Cristo e da Nação Brasileira e muitos “inocentes úteis” ao seu serviço têm defendido a destruição de estátuas de bandeirantes[5] como Borba Gato e de outros vultos de nossa História, que vão do escritor, publicista, tribuno parlamentar e jurisconsulto José de Alencar[6] até a Princesa Isabel, que, aliás, na condição de Regente do Império, assinou, aos 13 de Maio de 1888, a célebre Lei Áurea, pondo termo à escravidão no Brasil e trocando seu trono imperial pela liberdade dos negros escravizados, como, aliás, bem lhe disse, profeticamente, o Barão de Cotegipe naquele 13 de Maio.[7]

Acabávamos de escrever o parágrafo precedente, quando recebemos a lamentável notícia de que, no último dia 15, num ato criminoso, foi manchada com tinta vermelha a estátua de São José de Anchieta no município do mesmo nome, no litoral do Espírito Santo, por vândalos que certamente não sabem quem foi o Apóstolo do Brasil e primeiro poeta, dramaturgo e gramático da nossa Terra de Santa Cruz, além de um dos seus primeiros e maiores educadores e missionários. Natural das Ilhas Canárias, possessão ultramarina do Reino de Castela, Anchieta, que, aliás, se conta entre os principais fundadores das vilas de São Paulo e de São Sebastião do Rio de Janeiro, hoje as duas maiores metrópoles do Brasil, da América Meridional e do Mundo Lusíada, foi não apenas um grande luso-brasileiro por adoção e o primeiro grande vulto de literato desta nossa Índia Brasílica,[8] mas também um grande defensor dos índios, cuja língua, estudou com profundidade, chegando a fala-la com perfeição e sendo, inclusive, autor da primeira gramática do idioma tupi, em que compôs inspirados poemas e autos e para o qual, ademais, verteu o Catecismo e a Ave-Maria.

A Tradição é a medula de um povo[9] e o caráter de uma Nação.[10] A Nação que não preserva sua História, sua Memória, sua Tradição, é uma Nação que perde sua Identidade, que corta as próprias raízes, que se destrói a si mesma. Uma Nação que despreza o seu Passado é uma Nação sem Presente e sem Futuro ou, em outros termos, o Hoje que renega o Ontem não terá Amanhã. Não sabem disto os inocentes e ignorantes d’aquém e d’além mar que têm praticado ou pretendem praticar atos de vandalismo como o do último dia 11 em Lisboa e aquele do último dia 15 em Anchieta, antiga Reritiba, mas, ao contrário, têm plena consciência disto os senhores a quem eles servem e que financiam movimentos antitradicionais e antinacionais por todo o Orbe Terrestre e a imprensa que os apoia.

No nosso Brasil, os soldados de Deus e da Pátria estaremos sempre alertas, vigilantes e prontos a lutar em defesa da Imperial Nação Brasileira, de suas gloriosas Tradições, de sua Memória, de sua História e de seu Patrimônio, conscientes sempre de que nenhuma Nação que não valoriza o Passado poderá ser uma Grande Nação e que só os homens que amam a Tradição podem ser senhores do Porvir.

         Por Cristo e pela Nação!

         Victor Emanuel Vilela Barbuy,

         São Paulo, 17 de junho de 2020.

NOTAS:

[1] Sermão vigésimo sétimo, in Sermões, Volume XII, Revisto pelo Padre Gonçalo Alves, Porto, Lello & Irmãos-Editores; Lisboa, Aillaud & Lellos, Limitada, 1951, pp. 333-334.

[2] No mesmo sentido, escreveu Agrippino Grieco que “Vieira é o maior dos nossos oradores” (Evolução da prosa brasileira, 2ª edição, revista, in Obras completas de Agrippino Grieco, Volume 3, Rio de Janeiro, José Olympio Editora, 1947, p. 10). Fernando Pessoa, por seu turno, referiu-se ao autor do Sermão de Santo António aos peixes (Antônio Vieira) como o “Imperador da língua portuguesa” em seu poema épico Mensagem, de 1934 (Mensagem, in Fernando Pessoa: Obra poética, 2ª edição, Rio de Janeiro, Aguilar, 1965, p. 86).

[3] Sermão vigésimo sétimo, in Sermões, cit., p. 334.

[4] Sobre a luta de raças, cuja importação para o Brasil denunciamos no nosso Manifesto de 13 de Maio, de 2009 (Disponível em: https://www.integralismo.org.br/manifesto-de-13-de-maio/. Acesso em 17 de junho de 2020), recomendamos o excelente texto de Matheus Batista Martins, intitulado A luta de raças é a doença de uma civilização (Disponível em: https://www.integralismo.org.br/opiniao/a-luta-de-racas-e-a-doenca-de-uma-civilizacao/. Acesso em 17 de junho de 2020).

[5] Sobre os bandeirantes, homens de seu tempo e de seu meio, que, em regra, não foram santos mas heróis a quem o Brasil deve a maior parte de sua atual extensão territorial, recomendamos, dentre outras, as seguintes obras: José de Alcântara MACHADO, Vida e morte do bandeirante, Introdução de Sérgio Milliet, São Paulo, Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2006; Alfredo ELLIS JÚNIOR, Raça de Gigantes: a civilização no planalto paulista, 1ª edição, São Paulo, Editora Hélios Limitada, 1926; Idem, O bandeirismo paulista e o recuo do meridiano, 1ª edição, São Paulo, Companhia Editora Nacional, 1934; Affonso d’Escragnolle TAUNAY, História geral das bandeiras paulistas, 3ª edição, São Paulo, Edições Melhoramentos, 1975 (3 volumes); BELMONTE, No tempo dos bandeirantes, 4ª edição, revista pelo autor, São Paulo, Melhoramentos, 1998;  Cassiano RICARDO, Marcha para Oeste, 4ª edição, Rio de Janeiro, José Olympio Editora, 1970; João Fernando de Almeida PRADO, As bandeiras, São Paulo, IBRASA, 1986 (2 volumes); Ricardo Ramón BLANCO, Las “Bandeiras”: Instituciones bélicas americanas, Brasília, Universidade de Brasília, 1966; Francisco de Assis Carvalho FRANCO, Dicionário de bandeirantes e sertanistas do Brasil, 4º edição, Belo Horizonte, Itatiaia; São Paulo, EDUSP, 1989; Tito Lívio FERREIRA, Gênese social da gente bandeirante, São Paulo, Companhia Editora Nacional, 1944. A tais obras podemos acrescentar outras, que, embora não tratem especificamente dos bandeirantes, não deixam de conter importantes páginas sobre essa autêntica estirpe de gigantes: Pedro Taques de Almeida Paes LEME, Nobiliarquia Paulistana histórica e genealógica, 5ª edição, Belo Horizonte, Itatiaia; São Paulo, EDUSP, 1980 (3 tomos); João de SCANTIMBURGO, Os paulistas, 4ª edição, São Paulo, Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2006; Paulo PRADO, Paulística: História de São Paulo, Rio de Janeiro, Ariel Editora, 1934; Tito Lívio FERREIRA, História de São Paulo, São Paulo, Gráfica Biblos Limitada, s/d; Francisco José de Oliveira VIANNA, Populações meridionais do Brasil, Volume 1, 7ª edição, Belo Horizonte, Itatiaia; Niterói, EDUFF, 1987; Idem, Instituições políticas brasileiras, Instituições políticas brasileiras, Primeiro volume, Fundamentos sociais do Estado (Direito Público e Cultura), 2ª edição, Rio de Janeiro, Livraria José Olympio Editora, 1955, Volume 1; Idem, Evolução do povo brasileiro, 3ª edição, São Paulo, Companhia Editora Nacional, 1938; Manuel de Oliveira LIMA, Formação histórica da nacionalidade brasileira, 3ª edição, Prefácios de Gilberto Freyre, Ernest Martinenche e José Veríssimo, Rio de Janeiro, Top Books; São Paulo, Publifolha, 2000; Plínio SALGADO, História do Brasil, Volume I, São Paulo, Editora FTD, 1970; Idem, Como nasceram as cidades do Brasil, 5ª edição, Prefácio de Euro Brandão, São Paulo/Brasília, Voz do Oeste/Instituto Nacional do Livro, 1978; Idem, Nosso Brasil, 4ª edição (em verdade 5ª), São Paulo, Voz do Oeste, Secretaria de Estado da Cultura, 1981; Gilberto FREYRE, Problemas brasileiros de Antropologia, 3ª edição, Prefácio de Gonçalves Fernandes, Rio de Janeiro, Livraria José Olympio Editora, 1962; Idem, Nordeste, 1 edição, Rio de Janeiro, José Olympio Editora, 1937; Idem, Ferro e civilização no Brasil, Rio de Janeiro, Record; Recife, Fundação Gilberto Freyre, 1988; Continente e ilha, Rio de Janeiro, C.E.B., 1943; Félix Contreiras RODRIGUES, Traços da Economia Social e Política do Brasil Colonial, Rio de Janeiro, Ariel Editora, 1935; Hélio VIANNA, Formação brasileira, Rio de Janeiro, José Olympio Editora, 1935; Idem, Estudos de História Colonial, São Paulo, Companhia Editora Nacional, 1948; Idem, História do Brasil, 1ª edição,Tomo  I, São Paulo, Edições Melhoramentos, 1961; José Francisco da Rocha POMBO, História do Brasil, Nova edição ilustrada, Volume II, São Paulo, Jackson, 1935; João Pandiá CALÓGERAS, Formação histórica do Brasil, 1ª edição, São Paulo, Companhia Editora Nacional, 1938.

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[6] Havendo mencionado o nome de José de Alencar, reputamos ser mister sublinhar que, diferentemente do que supõem alguns, jamais foi ele um defensor da escravidão, muito pelo contrário, e que suas famosas Cartas de Erasmo, que lhe valeram tal pecha, não contêm, como bem escreveu José Murilo de Carvalho, “qualquer defesa da justiça e da moralidade da escravidão em si” (Apresentação, in José de ALENCAR, Cartas de Erasmo, Organização de José Murilo de Carvalho, Rio de Janeiro, ABL, 2009, p. XXVII). Com efeito, como ressaltamos em nossa dissertação de Mestrado, Alencar foi sempre moralmente contrário à escravidão, ainda que a aceitasse como instituição necessária ao Império até o momento em que “caducasse” e se extinguisse por si mesma, momento este que deveria ser, aliás, apressado por todas as medidas indiretas possíveis (Ideias jurídicas de José de Alencar, Dissertação de Mestrado defendida em 09 de junho de 2014 na Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo. Disponível em: https://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/2/2131/tde-13022015-134909/pt-br.php. Acesso em 17 de junho de 2020). A propósito, vale citar aqui um trecho do discurso proferido por Alencar, então Deputado Geral do Império, na Câmara dos Deputados, aos 14 de maio de 1870: “Cumpre notar, (…) Senhores, que eu nunca pretendi que o Partido Conservador fosse escravagista, que o Partido Conservador aceitasse a instituição da escravidão como uma instituição firmada no direito, na moral que deva ser mantida e respeitada. Não, Senhores, o nobre Presidente do Conselho [Visconde de Itaboraí] acaba de o dizer: ‘Raros serão os brasileiros – eu acrescentarei: esses mesmos, cegos pelo interesse ou pelo erro -, raros serão os brasileiros que aceitem a instituição da escravidão como uma instituição legítima.’ (Muitos apoiados.) Todos nós brasileiros desejamos ardentemente ver desaparecer do País essa instituição (muitos apoiados); todos nós brasileiros fazemos votos para que deixemos de formar no mundo civilizado a exceção triste (digamos a verdade), que muito breve teremos infelizmente de constituir (Discursos parlamentares de José de Alencar, Brasília, Câmara dos Deputados, 1977, pp. 186-187. Grifos em itálico no original).

[7] Cf., dentre outros, Hermes VIEIRA, Princesa Isabel, uma vida de luzes e sombras, 2ª edição, São Paulo, Edições GRD, 1989, p. 161; José Murilo de CARVALHO, D. Pedro II, São Paulo, Companhia das Letras, 2007, p. 191. Cumpre assinalar que, diversamente do que alguns ignorantes têm apregoado, era a Princesa Isabel uma ardorosa defensora da causa da abolição da escravatura, havendo fomentado campanhas de doações para a compra de alforrias, doado importantes somas de dinheiro ao movimento abolicionista e até mesmo acolhido e alimentado diversos escravos fugitivos no Palácio Imperial de Petrópolis. Ademais, apareceu ela em público por mais de uma vez com uma camélia, símbolo do movimento abolicionista, a adornar-lhe as vestes e plantou algumas mudas dessa mesma flor nos jardins de sua vivenda em Petrópolis. Sobre o apoio e participação da Princesa Isabel na causa da abolição: Eduardo SILVA, Camélias do Leblon e a abolição da escravatura, São Paulo, Companhia das Letras, 2003; Idem, As camélias do Leblon e a abolição da escravatura (Artigo disponível em: http://www.casaruibarbosa.gov.br/dados/DOC/artigos/o-z/FCRB_EduardoSilva_Camelias_Leblon_abolicao_escravatura.pdf. Acesso em 16 de junho de 2020); Robert DAIBERT JUNIOR, Isabel, a “Redentora” dos escravos, Bauru, SP, EDUSC, 2004; Augusto Oliveira MATTOS, Das Camélias do Leblon à Rosa de Ouro: as representações de Isabel no contexto do abolicionismo, in Em tempo de histórias, nº 10, Brasília, 3 de fevereiro de 2011 (Disponível em: https://periodicos.unb.br/index.php/emtempos/article/view/20083/18481. Acesso em 17 de junho de 2020); Hermes VIEIRA, Princesa Isabel, uma vida de luzes e sombras, cit); Paulo REZZUTTI, D. Pedro II – A História não contada,  São Paulo, Leya Brasil, 2019; ISPA BRASIL, Isabel, a princesa do Bem Comum (Disponível em http://www.ispabrasil.com/blog/isabel-a-princesa-do-bem-comum. Acesso em 17 de junho de 2020).

[8] Neste sentido, escreveu José Guilherme Merquior que Anchieta foi a nossa “primeira grande figura de literato” (De Anchieta a Euclides: Breve História da Literatura Brasileira, 4ª edição ampliada, São Paulo, É Realizações, 2014, p. 43).

[9] Cf. Francisco ELÍAS DE TEJADA Y SPINOLA, La lección política de Navarra, in Reconquista, ano I, volume I, n. 2, São Paulo, 1950, p. 127.

[10] Cf. Plínio SALGADO, O ritmo da História, 3ª edição (em verdade 4ª), São Paulo, Voz do Oeste; Brasília, INL (Instituto Nacional do Livro), 1978, p. 209.

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