Este é um trecho do resumo de um longo discurso proferido pelo célebre tomista e nacionalista Alcebíades Delamare, ofertando aos universitários integralistas, em 6 de maio de 1937, durante sessão solene do Instituto Nacional de Música, a Bandeira do Brasil. O orador fala, primeiro, do papel dos integralistas; depois, do seu método revolucionário; por fim, da sua doutrina, em uma importante exposição.

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Às violências da força, às conjuras da politicagem, ao orgulho da tecnocracia, ao imperialismo do capital, à degradação da burguesia, devereis opor, nas refregas que ides empreender, as virtudes tradicionais do espírito cristão, a renúncia ao gozo, o prazer do sacrifício, o amor à ordem, o respeito à autoridade, o acatamento à lei.

Sois soldados de uma nova cruzada contra os infiéis, que pretendem, na sua insensatez e na sua volúpia, completar, neste sombrio fim de era, a obra nefanda de barbarização definitiva do século XX, tornando-o mais desastroso, mais odiento, mais nefasto à humanidade, do que foram os séculos XVIII e XIX.

Sois os arautos do advento da Idade Nova, que breve será instaurada no Brasil sob o signo sagrado do Cristo e a flâmula bendita do Sigma.

Haveis de reconquistar o Brasil, não pela força bruta das armas mas pelo poder invencível das almas. Recuperá-lo-eis para as gerações de amanhã, não nos prélios sangrentos das quarteladas, mas nos comícios pacíficos das urnas.

O anti-Cristo, para apossar-se da nossa Pátria, forjou entre os nossos irmãos desprevenidos e exaustos a mística do anti-Brasil. Para colimar à sua sinistra finalidade usou das mais perigosas armas: — a dissimulação, a mentira, a fraude, a hipocrisia, a perfídia — pondo em funcionamento todos esses processos diabólicos com que costumam os inimigos de Deus, da Pátria e da Família mascarar suas intenções para não descobrir os jogos das suas cavilosidades.

Usareis de métodos diferentes. Não da técnica brutal de Sorel. Mas dos processos suaves do Cristo: a mansidão, a lealdade, a paciência, a confiança, o amor. No vosso meio, portanto, não medrará jamais a vaidade que desviriliza o caráter, não imperará em tempo algum o individualismo que degrada a dignidade da pessoa humana, nunca vicejará o orgulho que insensibiliza a consciência.

Nas vossas fileiras não assentarão praça os covardes, os trânsfugas, os bifrontes, os energúmenos, os gozadores, os interesseiros, os que aguardam como rafeiros a hora da partida dos benefícios da vitória, nem os que farejam como corvos os despojos dos vencidos. Falareis, portanto, a linguagem clara dos que prezam a verdade, acima de tudo, contra tudo, apesar de tudo. Direis, invariavelmente, o que pensais, e afirmareis, em qualquer circunstância, os vossos propósitos.

Alcebíades Delamare

Vestistes uma camisa verde. E vestindo-a, tomastes uma atitude na vida, definistes para sempre uma posição em face dos acontecimentos, pusestes ao serviço de uma causa santa o que possuis de melhor — a vossa inteligência, a vossa liberdade, a vossa vida.

Erguestes um braço. E erguendo-o com entusiasmo, com convicção, galhardia, desassombro, elegância, preferistes um posto de vanguarda no setor mais perigoso da luta pela defesa da honra e da dignidade da Pátria.

Que fazem vossos adversários?

Acusam-vos de inimigos da democracia, das liberdades, das instituições tradicionais do Brasil, não obstante as provas esmagadoras que tendes dado de que o integralista é o soldado intemerato da Ordem, o defensor impertérrito da Autoridade, o guardião vigilante da Lei, o sentinela indormido dos nossos lares, o pregoeiro apostólico do nosso Deus, — o homem de aço que esse predestinado condutor das multidões forjou no cadinho da sua fé e do seu patriotismo para restaurar o Brasil na fé tradicional de seus maiores e no patriotismo puro que inspirou os artífices da sua unidade política, espiritual e territorial.

Que fazem vossos adversários?

Camuflados em defensores da democracia, mas obedientes às ordens do capitalismo internacional, e dóceis aos manejos das alfurjas maçônicas soviéticas, pregam aos ingênuos e aos ignorantes as velhas, bolorentas, mofadas, sediças baboseiras filosóficas, que o liberalismo manchesteriano fez proliferar no caldo de cultura da revolução francesa.

Recebem de Moscou, pelas vias misteriosas que o bravo e cultíssimo Gustavo Barroso tem denunciado em seus livros formidáveis, os recursos com que se fomentam as revoluções plutocráticas, se abastecem os cofres dos instigadores dos movimentos separatistas, se custeiam os batalhões provisórios ao serviço secreto do caudilhismo lindeiro, se asseguram as ridículas exibições de força, as truculências afoitas, as arbitrariedades afrontosas dos desmandos fardados que os sabres de uma revolução sem programa, sem ideais, sem ramos, sem finalidades guindaram ao supremo posto da governança de Estados dignos de melhor sorte, como por exemplo, a Bahia.

A vós, moços universitários, reservou o Chefe Nacional a missão nobilíssima de levar a palavra da Boa Nova à mocidade das escolas superiores.

Como vos desobrigareis dos encargos dessa tarefa gloriosa?

Usando da vossa palavra para esclarecer a verdade, para dissipar as dúvidas, para confundir os trapaceiros, para por um dique às enxurradas de mentiras, de infâmias, de calúnias que os canos de esgotos da maledicência mercenária verteram intramuros dos nossos estabelecimentos de ensino.

Direis, antes de tudo, aos vossos colegas a verdade elementar que eles desconhecem: que o Integralismo baseia todo o seu corpo doutrinário no princípio da obediência ao Eterno, ao Imutável, ao Absoluto, ao Princípio e Fim de todas as criaturas e de todas as coisas, do que decorre o reconhecimento que proclama a finalidade transcendental do homem, o qual, nem por isso, deixa de ser — como já vos disse o Chefe Nacional — um índice biológico com aspirações legítimas na terra como corpo, e com aspirações superiores no infinito, como centelha da Luz Divina.

Eis porque o Integralismo afirma no homem a integração de um ser dotado de uma personalidade intangível, inviolável e sagrada. Intangível na sua consciência. Inviolável na sua natureza. Sagrada na sua dignidade.

Sobre a pessoa humana — criatura de Deus, anterior e superior ao Estado —, assenta o Integralismo a estrutura do seu edifício ideológico.

Direis ainda aos fâmulos do Kremlin e aos cornacas de Dimitroff que o Integralismo, por considerar a Família unidade do Estado, principium urbis et seminarium reipublicae, como a definira Cícero; por tê-la na conta do fundamento e esteio do Estado Orgânico Racional Cristão, como nos ensina a filosofia perene; por conceituá-la instituto de Direito Natural, que precede a sociedade civil e antecede a existência do Estado, destinada, pelo caráter de sua permanência, invariabilidade e indissolubilidade, a conservar a vida do indivíduo e a perpetuar a espécie no tempo, como o tem demonstrado a sociologia da vida; direis, repito, à farândula ululante do materialismo histórico, aos teoristas trêfegos do Estado Inorgânico, aos doutrinários imaginosos do biologismo spenceriano, que o Integralismo garantirá à Família, na hierarquia da ordem social, o primeiro grau, porque reconhece que ela é o núcleo celular da sociedade, a fonte geradora e a força geratriz das energias que nutrem, animam e vitalizam o Estado Orgânico Cristão.

Dir-lhe-eis mais ainda que esse Estado, que ides muito em breve instaurar no Brasil, não se arrogará ao direito de substituir a Família na sua função educativa, na sua missão formadora da juventude, usurpando-lhe, sob pretextos fúteis e à sombra de preconceitos estultos, os direitos inauferíveis e os privilégios indeclináveis que lhe assistem. Complemento do lar, segunda célula social, necessariamente participará a Escola no regime integralista da natureza da família e da natureza do Estado, recebendo o seu espírito daquela e o impulso deste para transmiti-los às gerações confiadas à sua guarda de formação.

Toda vez que a Escola se desvirtua de sua finalidade própria — como tem acontecido no Brasil por mais de uma feita, e ainda recentemente se nos ofereceu ensejo para assistir, desolados e estarrecidos, ao espetáculo da sua progressiva, calculada e hábil transformação em instrumento de anarquia mental e de confusão moral —, preferível será — como disse Tristão de Ataíde — para a felicidade nacional, que se cerrem as portas de todos estabelecimentos de ensino, a permitir-se que o mal, o erro, a falsidade, a chicana, o sofisma estadeiam a arrogância e a filáucia da impunidade à sombra das prerrogativas da liberdade de cátedra.

Antes, mil vezes antes um povo de analfabetos do que uma nacionalidade de paricultos! — clamou, de uma feita, o Chefe Nacional. Para o homem ter um coração aberto aos eflúvios do patriotismo, para formar uma alma acrisolada no culto da família, para saber amar a Deus, não é preciso ter aprendido a ler, escrever e contar. É com material humano dessa espécie, inocente e sincero na alegria do seu gesto, cândido e impetuoso no arroubo da sua bravura, da sua coragem, do seu destemor, que se engrossam, dia a dia, as fileiras compactas dessas multidões de caboclos nordestinos, de praianos destemidos, de montanhezes altivos, de gaúchos galhardos, que acorrem ao chamamento apostolar de Plínio Salgado — homem admirável que Deus suscitou para salvar o Brasil do caos, da dissolução, da anarquia, da desordem, do esfacelamento.

Dir-lhe-eis também que o Estado Orgânico Integral Cristão, não pretendendo ser um fim, nem um princípio, mas apenas um meio, destinado a garantir a cada homem, na ordem temporal, a realização de sua natureza humana, assegurará à associação (sindicato) os direitos que lhe competem — não a absorvendo como faz o regime liberal, não interferindo na órbita de suas atividades específicas como ocorre no regime marxista, não ingerindo na esfera de sua vida privada, nem perturbando o ritmo de suas funções próprias. Fiscalizando-a, tutelando-a, defendendo-a, considerando-a peça mestra no Estado e não órgão do Estado, não terá sobre ela o direito de precedência, mas tão somente o de preeminência em tudo quanto interessar à ordem social e não atentar contra a liberdade, a dignidade e inviolabilidade da pessoa humana.

Dir-lhe-eis por fim que o Chefe Nacional vos ensina que é na autonomia do Município que reside o princípio essencial da democracia pura, porque será ele o foco da vida brasileira — como diria Pimenta Bueno —, elemento precípuo e indispensável do laço social de agregação nacional; porque será ele o primeiro escalão — na frase lapidar de Barraquero — para subir alguém ao grande cenário da vida política do País. Da reunião de Municípios resultará a Nação Integral — organismo uno, indivisível, indissolúvel, do qual necessariamente será o Estado a resultante lógica, como órgão supervisionador desse todo inamolgável, com todas as suas forças vivas, energias criadoras e atividades produtivas encaminhadas e norteadas para a grandeza nacional.

Tudo isso direis aos que por não vos conhecerem, não vos compreenderem, não vos sentirem, — vos odeiam, vos injuriam, vos infamam, mal sabendo que por muito amá-los, por deveras querê-los, por sinceramente perdoá-los, como vossos irmãos, aqui vos conservais de braços abertos na postura de um acolhimento cordial que é uma afirmação de fé e brasilidade.