É um dever dos engenheiros integralistas esclarecerem aos seus colegas sobre o papel que os engenheiros vão desempenhar no Brasil Integral, sobre a importância que a engenharia terá no Brasil futuro quando estiver implantado o Estado Integral.

No Estado liberal, em que vivemos, a engenharia nacional sempre foi e ainda é desprezada: sempre é colocada em segundo plano.

Para os grandes problemas que a técnica moderna tem a resolver, o governo chama sempre e invariavelmente os técnicos estrangeiros. Como prova basta ver o que o governo atual acaba de fazer chamando o arquiteto Piacentini para estudar o projeto da Cidade Universitária. Há anos atrás o governo Epitácio entregou a resolução do problema das secas no Nordeste a técnicos estrangeiros. Se quisesse citar exemplos do que venho afirmando poderia encher páginas com citações.

Quando é entregue a engenheiros brasileiros cuidar de algum problema nacional surgem logo as influências políticas prejudicando as soluções técnicas. Vemos influências de chefes políticos do interior prejudicando o tratado de estradas de ferro ou de rodagem. Influências políticas ou forças financeiras estrangeiras na solução de problemas de fornecimento de energia elétrica, como ainda agora vemos no caso da construção da Usina do Salto para o fornecimento de energia elétrica para a Central do Brasil. Este é um caso típico. Uma comissão de engenheiros estudou minuciosamente o problema de fornecimento de energia elétrica à Central, chegou à conclusão clara e insofismável da vantagem da Central ter a sua usina própria, mesmo sob o ponto de vista da economia imediata. A comissão dá parecer favorável à construção da Usina e opina por um dos concorrentes para a construção. A Light, cujo privilégio de fornecimento de energia para a iluminação particular já terminou em 1915, e cujo privilégio para a iluminação pública termina em 1945, não estando incluída na reversão ao governo as usinas, não deseja que o governo tenha usina própria, pois de um lado receia que, quando terminar o privilégio em 1945, o governo esteja em condições de fornecer a energia para a iluminação pública e particular, independente de suas usinas, e de outro lado, receando que o governo tendo usina própria, possa realmente e com eficiência controlar o preço do kilowatt, o que hoje o governo não pode fazer por lhe faltar meios, iniciou pela imprensa e por meios políticos formidável campanha contra a construção da usina do Salto, para ver se o governo desprezando o parecer dos técnicos resolve lhe comprar a energia.

Vemos engenheiros estudarem com carinho regulamentos técnicos que precisam ser transformados em leis, mas para que isto se dê é necessário que os deputados ou vereadores discutam estes regulamentos. Vão discuti-los de que modo? Os deputados ou vereadores são na quase totalidade ou inteira totalidade leigos no assunto. Não têm a menor ideia do que vão discutir. Discutem os regulamentos e projetos de leis, introduzem modificações que os interesses políticos lhes obrigam, e deste modo inutilizam o trabalho dos engenheiros.

Durante o regime discricionário tivemos a felicidade de ver sancionada a lei de regulamentação da profissão de engenheiro. Esta lei foi elaborada com critério, e método integralista. Foi elaborado o anteprojeto pelo Sindicato Central de Engenheiros, o governo publicou-o; vieram sugestões de todas as associações de engenharia do Brasil, e mesmo de engenheiros isolados. Estas sugestões todas foram remetidas ao Sindicato Nacional de Engenheiros, que refundiu a lei e tornou a remetê-la ao governo, que, por sua vez, nomeou uma comissão de engenheiros e arquitetos para estudá-la novamente, sofreu o projeto nesta nova comissão ligeiras modificações, sendo em seguida sancionada.

Neste mesmo período a Associação Brasileira de Concreto, num trabalho ininterrupto de 10 meses, elaborou um regulamento para construções de concreto armado. Este regulamento foi adotado na íntegra pela Prefeitura do Distrito Federal, por diversos Estados, municípios e escritórios técnicos do país.

Estas duas leis elaboradas exclusivamente por técnicos têm sido elogiadas e apresentadas como modelo por autoridades no assunto, mesmo estrangeiras, e citadas como dignas de serem imitadas.

No Estado Integral, com o regime corporativo, sem Câmara Política, [1] mas com Câmara Corporativa onde estão representadas somente as profissões ou grupos de profissões, é possível a elaboração de leis igualmente perfeitas, como estas duas que já temos. Um sindicato ou corporação discute e elabora um projeto de lei, com interesse exclusivamente técnico. Este projeto de lei elaborado é remetido à Câmara Corporativa, por intermédio do grupo de corporações ou círculos de produção, que têm interesse no caso. Aquela Câmara discute-o e o aprova, enquadrando-o dentro do arcabouço do Estado.

Não havendo eleição exclusivamente política desaparecem, portanto, as injunções de ordem política, que deturpam o trabalho legislativo dos técnicos.

Com uma organização de Estado baseada exclusivamente na representação profissional, o técnico toma uma preponderância enorme na resolução de todos os problemas. Quando uma comissão de técnicos opinar sobre algum assunto o seu parecer vai ser discutido por quem entende do assunto.

Quando, no Estado Integral, tivermos de resolver, por exemplo, o problema da Baixada Fluminense, não haverá influências de chefetes políticos locais, porque eles não existirão mais por falta de meio propício à sua proliferação, serão ouvidas as corporações de engenheiros, médicos e lavradores, que opinarão a respeito deste problema.

Os técnicos terão ingerência direta no governo da Nação, mas como técnicos, poderão obrigar os capitalistas a ficarem em seu lugar como auxiliares do desenvolvimento do país, e não como senhores absolutos.

No Estado Integral, pela organização estatal corporativa, pela situação material do Brasil em que está tudo por se fazer, os engenheiros terão uma missão sublime a desempenhar, que é dar base material ao Brasil para que ele seja a grande nação que tem o direito de ser.

O Integralismo, reconhecendo a necessidade desta base material para a verdadeira independência do Brasil, dará todo o apoio e autonomia, dentro da verdadeira técnica, à engenharia brasileira, prestigiando o engenheiro brasileiro, dando-lhe o bem-estar material e moral de que ele necessita para poder realizar a grandeza material do Brasil.

Roberto Cortines
Engenheiro e Chefe do Núcleo Integralista de Botafogo, no Rio de Janeiro. Artigo publicado em A Offensiva e reeditado no livro Brasil Integral, de Osvaldo Gouveia, em 1936.

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Nota do Site:
[1] O Estado Integral, segundo os documentos integralistas, terá uma Câmara Política. Nessa Câmara, estarão os representantes, não do sufrágio universal, mas das corporações técnicas (em que se inclui a de engenheiros), culturais, científicas e morais, incluindo-se aí os representantes dos grupos locais e das famílias.