Completando a definição do ilustre Prof. Luiz Mendonça Júnior, nosso antecessor na 19ª cadeira da Escola Politécnica de São Paulo, definimos a estatística como sendo “o processo do método indutivo aplicado aos fenômenos atípicos e coletivos e suas respectivas correlações numéricas”.

Pelo Jornal A Razão que o esclarecido Deputado Loureiro Júnior geria em S. Paulo, em artigo É a História uma Ciência?, fizemos ver que a História, apenas, registra fenômenos atípicos e coletivos mas não o aprecia na sua frequência, nem na intensidade de sua atuação, nem nas respectivas correlações numéricas. A História registra que nos anos de 1902, 1918, 1921, 1942 e 1953 ocorreram danosas geadas nos cafezais do Sul do Brasil. O fato histórico exaure-se aqui. Mas, a História silencia sobre a “frequência” do fenômeno geada, como sobre a intensidade, ou sobre as relações numéricas, isto é, não dirá qual a geada mais intensa, nem que correlação terá havido entre a intensidade das geadas e a alta consequente do preço do café nos mercados mundiais. Acresce que, duas delas — a de 1918 e 1942 — foram contemporâneas das maiores guerras, e portanto quando o café já escasseava nos centros consumidores. A História não sumariza as correlações entre esses fatos, ao menos na intensidade numérica dos graus do fenômeno.

A História é simples auxiliar da Estatística. Ora, se a Estatística não chega a ser ciência, por falta de objeto próprio, menos ainda a História, simples máquina registradora de fatos, embora utilíssimos, a ponto de Cícero havê-la qualificado de mestra vitae, lux veritatis etc. Poincaré, na Science et Hypothése faz ver que sem a consideração da “frequência estatística”, o registro histórico torna-se inútil. É inútil saber que operação fez ou deixou de fazer um comandante — que Poincaré nomeia João-Sem-Terra. É preciso indagar, estatisticamente se aquelas operações, repetidas “frequentemente”, em “grande número”, que vantagens ou desvantagens trariam e sua correlação com outras circunstâncias.

Ora, chama-se Integralismo aquela teoria segundo a qual os problemas administrativos e políticos são apreciados em conjunto e na respectiva correlação de suas intensidades e frequência.

O grande sábio Alexis Carrel (L’Homme, cet inconnu) aplica esse princípio ao organismo humano. É excusado, diz ele, confiar o doente a um sapientíssimo especialista em moléstia do coração, pois que se tal especialista não souber de medicina em geral (ou integral) o doente, não obstante com o coração curadíssimo, morrerá do fígado, ou dos rins, ou da bexiga. Isso quer dizer que, antes de apelar para o “especial” (especialista) devemos atender ao geral, pois ensinavam os lógicos que a parte (o coração) está no todo, mas o todo (o organismo inteiro) não está na parte.

O Estado Anti-Integralista ou parcial ensina o contrário: “governar é abrir rodovias”. O Integralista examinará em tal sentença as correlações estatísticas: quantas rodovias? Provocando a importação de quantos automóveis? Estes gastando quantos milhões de divisas? E quantas toneladas de gasolina? Estas custando quanto em dólares? O conjunto rodovia — automóvel — gasolina quanto custará orçamentariamente? Será esse conjunto apto a fixar populações, formando cidades, como costumavam fazer as ferrovias? Que prejuízo a concorrência da nascente rodovia poderá acarretar ao capital fixo das velhas ferrovias?

Nada desse aspecto de interações estatísticas indaga o anti-integralista; se for médico, irá generalizando casos particulares, como se o geral se contivesse no particular, e irá aconselhando: “só se alimente de leite” — até que alguns pacientes cheguem a fabricar queijo no estômago; “viva só de coalhada”. “Arranque todos os dentes, se não quiser ter úlceras no estômago”. “Extraiam todas as amígdalas”. — Como se a natureza houvesse criado órgãos inúteis. Tudo isso para, tempos depois, as revistas médicas, onde tais conselhos haviam surgido desacompanhados de correlações estatísticas, darem marcha-à-ré e começarem a desaconselhar: “o leite nem a todos faz bem”. “Muitos organismos não suportam a coalhada”. “Se as amígdalas fossem inúteis, a natureza não as teria criado”. “Em vez de extrair seus dentes, conserve-os com cuidado”, etc.

Que resposta dará o já desdentado, o já desamigdalado a tais tardios conselhos? O de mandar o médico estudar Estatística, isto é, examinar o fenômeno das moléstias como atípicos e de difícil generalização coletiva e portanto exigindo, para a generalização, observações em grandíssimo número. No método indutivo, a pressa em generalizar conduz a erro.

No plano político, administrativo, econômico, social, não faltam “médicos” das moléstias dos respectivos setores que generalizem: “a época é da indústria, a da lavoura está superada”. E lá vai São Paulo se transformando em maior centro industrial à custa do êxodo rural, pois outro apressado generalizador já havia concluído que “impatriótica é toda a imigração externa” sem notar que a correlação seria, como está sendo, o despovoamento do Nordeste. Montando-se, porém, milhares de indústrias, sem qualquer atenção ao consequente despovoamento das roças, nem ao fato de que, cada roceiro que vem para a fábrica citadina são dois braços a menos para plantar e boca a mais para consumir alimentos, um dia todos se espantam com os problemas — que previram — da alta do custo do feijão e do arroz na cidade, da falta de habitação, de bondes, de ônibus, para a cidade de São Paulo, com o aumento de mais de um milhão de habitantes entre 1940 e 1950, evidentemente teria de encontrar déficit em tudo isso e — o que é mais doloroso — o déficit em energia elétrica, sem cuja correção as indústrias deverão paralisar-se.

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Ora, o “pai” da Estatística, aplicada aos fenômenos sociais, lá pelo começo do século 18, foi o Professor Achenwall, que resumia a Estatística dentro de perfeita conceituação da atual teoria do Integralismo, pois que dizia ele ser a Estatística a disciplina que considerava a vires unites agunt, ou seja, “como agem as forças unidas”, e portanto, integradas umas às outras, não dispersas. Integradas ou integralizadas quer dizer: quem propõe rodovias, deve ter estudado sua correlação a gastos com automóveis, gasolina, etc. Quem propaga que a era da lavoura passou, e agora tudo é indústria, deve correlativa e inicialmente indicar como e onde a pari-passu se construiriam as centrais elétricas produzindo os milhões de quilovates necessários ao incremento industrial reclamado.

Poeta inglês, que muito apreciamos na juventude, ensinava, porém: where ignorance is bliss, it is folly to be wise: “onde a ignorância é alegria, é asneira ser-se sábio” (no sentido de prudente, avisado). Parece que é verdade: apanhamos, como touro em tourada, porque em 1939, escrevendo a tese para concurso Geopolítica Povoadora, sem negar que à indústria coubesse o papel de elevar o padrão de vida, e que à lavoura caberia a criação da riqueza-base, e daí a divisa: ex-rure, Pátria; fomos declarados inimigos da indústria, quando afirmamos, pela definição de Achenwall, se considerarmos as forças “unidas” dentro do mercado interno da nação, que somente uma lavoura próspera terá poder aquisitivo para criar uma indústria também próspera.

Ninguém aprende, porém, com Achenwall, e daí ninguém perceber que pretender governar sem Estatística ou “integração de forças” é o mesmo que querer governar sem bússola…

Em São Paulo, esse absurdo é a regra. Prolongam-se as ferrovias para o interior e ao final fundam-se cidades da noite para o dia. Para essas cidades afluem jovens casais entre 25 e 30 anos de idade anualmente, procriando em 80% dos casos. Ao fim de sete anos, enorme é a população infantil e só daí em diante é que os administradores anti-integralistas, portanto alheios à Estatística, levam a mão à cabeça e exclamam: “precisamos de escolas… governar é abrir escolas (não é mais abrir rodovias, apenas escolas)… cada escola que se abre é cadeia que se fecha…”. No entanto urgiria somente, desde o dia da fundação da cidade, ir somando os nascimentos registrados em cartório, dar-lhe desconto razoável pelas prematuras mortes ou mudanças para, no sexto ano de fundação, ficar concluída a escola, com número de classes em relação ao provável de alunos, e assim o de professores, de acomodação para hospedagem dos professores, tanto quanto o número correlato de bancas, carteiras, quadros-negro, pátios de recreio, etc.

É assim que se compreende a administração no Estado Integralista, que significa não o Estado Totalitário, mas o Estado atendido na integralidade das suas necessidades, compreendidas como a necessidade geral do Estado. Essa compreensão do Estado há de ser teísta e monoteísta, pois à maneira da Escola de Pitágoras, compreende Deus como unidade, criando o homem à sua semelhança, uno em essência, mas vário nos seus acidentes. A sociedade humana gera na sua organização jurídica, o Estado semelhante ao homem — uno na essência soberana e variado na autonomia das várias formas acidentais.

Daí, no organismo estatal, nada haver de isolado, tal qual no organismo humano, onde todas as sensações “integram-se” no cérebro, uno para todo o sistema nervoso.

João Carlos Fairbanks
Publicado na Enciclopédia do Integralismo, vol. III.