Integralismo, universalismo e totalitarismo [1] significam praticamente a mesma coisa, a mesma teoria apontada hoje para salvar a civilização ocidental do caos comunista. Tanto Integralismo como universalismo e totalitarismo significam em geral aquilo que abrange um ser, uma coisa no seu todo, no seu conjunto ou na composição total de suas partes — independente da análise individual destas partes. Esta análise particular não pode nunca prescindir das suas relações com o todo a que pertencem.

O jardineiro que cuidasse apenas das rosas dum jardim, desprezando o cuidado das outras flores, não seria integralista, como não é integralista aquele príncipe de Estado que só atende aos interesses de um partido, de uma classe socialmente existente como parte integrante do todo ou do universo relativo chamado República. O jardineiro que cuidasse de todas as flores e se esquecesse do gosto dos seus patrões quanto à disposição dos canteiros e alegretes, não seria também integralista, universalista ou totalitarista, como não seria integralista aquele príncipe que desse carta branca a todos os partidos e classes sem se importar das finalidades supremas da sociedade, que são superiores aos partidos e classes ainda que existissem só para o bem comum destas classes.

O jardineiro, pois, que tivesse presente a variedade total das flores, seu tempo exato de plantio e floração, as suas peculiaridades biológicas, o seu efeito no lugar e no espaço, as suas relações de dependência do gosto dos patrões e dos proventos que disso nasceriam para ele próprio, seria um verdadeiro integralista, porque a sua noção de jardim abrangeria o todo, o universo, o conjunto de todos os “seres” do jardim — dos seres e das suas relações entre si.

Subamos um pouco. O homem que se deleitasse em saciar com todos os requintes todos os seus sentidos e ignorasse crassamente a existência das suas faculdades espirituais, intelectuais e volitivas não seria universalista, mas partidista — e dos piores. Assim também seria partidista aquele príncipe que facultasse toda a abundância material de bens aos súditos, negligenciando o valor espiritual ou prescindindo dos imperativos morais da alma humana. O homem que se deleitasse na análise de suas potências intelectuais, no seu rico funcionamento para alcançar a verdade, que conhecesse perfeitamente todo o mecanismo lógico do espírito humano, a sua potência abstrativa, as leis e os últimos princípios do conhecimento, da evidência e da verdade, ainda seria um homem imperfeito, um falso integralista, porque toda a filosofia não passa de um logro duma ilusão perigosa quando não integra ou não totaliza ser humano na interdependência do bem e da verdade dentro do quadro de sua origem e do seu fim.

E assim não seria integralista aquele político, aquele príncipe que fizesse as suas leis sob o imperativo imediato das exigências do povo, dos partidos e das classes, desprezando as suas relações orgânicas com o “todo” da sociedade, “todo” que reclama a integração nas finalidades últimas dum imperativo absoluto, independente dos interesses relativos dos partidos e das classes. Este príncipe lembraria o criador que soltasse o gado numa invernada selvagem, sem limites e sem cerca, e acabaria um proprietário sem propriedade.

O homem, finalmente, que por um impulso de ascetismo ou misticismo, ditasse leis e estabelecesse normas de vida comum, dentro do círculo subjetivo de sua noção de vida, e obrigasse fanaticamente a todos a entrar nesta comunidade, não admitindo outra lei e outra liberdade que a decorrente do seu “eu” absoluto e desprezando a distinção ingênita das variedades pessoais dos indivíduos humanos, não seria integralista, mas a hipertrofia monstruosa do individualismo.

E assim não é integralista o príncipe que pretende encarnar o absoluto, fingidamente impessoal, para que os súditos se enquadrem passivamente, impessoalmente no todo do Estado, sem a satisfação imediata dos seus anseios bioteleológicos. Um escopo impessoal para seres que sentem a personalidade em todos os refolhos da sua alma, é um contrassenso que só à custa da metralha se pode manter num povo, num país. Mas assim como há místicos de Deus, há místicos do diabo, com a diferença que uns são de Deus e outros do diabo. Há porém ainda outra espécie de integralistas nesta última categoria, mais vizinha do verdadeiro Integralismo, mas condenados ao insucesso pela fragilidade do último anel que fecha o “todo” do sistema. São aqueles que reclamam o Absoluto, mas que o diluem nas sombras nebulosas de um apersonalismo misterioso, sem contornos precisos, um Deus desconhecido ou pressentido com arrepios agnósticos, variáveis, subjetivos com tinturas de iodo asiático: Agostinho entre Mané e Cristo…

E agora podemos tentar, em forma de recapitulação, uma definição mais precisa, mais formal. É mais do que notório que, desde longos decênios, se vem operando, na inteligência contemporânea, uma reforma do ideal científico, como corolário da reforma geral do saber racional. As ciências naturais tentaram suplantar, depois da Renascença, o patrimônio espiritual-especulativo das épocas anteriores. A máquina mecânica se desenvolveu de tal modo que chegou a paralisar, em sua projeção universal e sobretudo social, a máquina do espírito humano que criara a máquina material. Aconteceu ao espírito moderno o que aconteceu ao fino relojoeiro suíço que ficou anônimo e desconhecido, enquanto o seu relógio Ômega é universalmente admirado. Sobreveio porém a crise do conceito mundial-matemático-mecânico das ciências naturais, e se estendem a todos os terrenos, abalando finalmente a estrutura da economia mundial e trazendo com esta, à flor da água, a falsa sociologia moderna, materialista, positivista, liberal ou individualista.

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E entre os escombros ainda fumegantes, o espírito já se traçou uma nova rota que tem como ponto de partida a síntese e como ponto de referência a subordinação das partes ao todo, à síntese, independente das conclusões a que uma análise sucessiva das partes possa levar o espírito humano: As partes só têm sentido no todo e na sua análise devem sobrepujar as relações integrantes com o todo. Esta tendência representa um novo ideal — ou digamos, com mais verdade, um reviver de velho ideal, apenas adulterado se o quisermos proclamar na sua invasão aplicada do comunismo e, em parte, do fascismo, enquanto este quer abarcar o todo que o deveria abarcar, logicamente, a ele.

O Integralismo, ou universalismo ou totalitarismo é, pois, a teoria que afirma peremptoriamente que as partes de um todo — por exemplo, as classes de um Estado — só podem “plenamente” ser compreendidas e organizadas para o bem comum para a sua relação com o todo. O todo é o ser original, próprio que não deve ser confundido com a análise das partes.

O todo é, em última instância, “um ser lógico”, e como princípio formal ou gerador da realidade intelectual anterior às partes. O todo não é portanto o resultado genericamente falando do exame natural-empírico das partes. O Integralismo canoniza assim o velho princípio aristotélico-escolástico de que o todo seja maior que qualquer parte da divisão: a parte não pode ser igual ao todo e, muito menos ainda, maior. [2] Basta lembrar o sistema de partido de um Estado para se ver em que pé fica a sua tão apregoada virtude. O esquecimento deste princípio, ninguém já terá coragem de negá-lo, foi a causa precípua da desordem em que vivemos.

Para terminar: esta reforma do conhecimento científico da essência é um impulso e antes de tudo uma confirmação do pensamento católico. O Integralismo descobre na pesquisa do todo as relações que ultrapassam o reino do ser puramente natural e procura integrá-lo, alargá-lo e completá-lo no mundo sobrenatural. Só na luz do Ser sobrenatural se compreende o último sentido do ser natural. Só então o todo não admite interstícios vazios e repousa a inteligência no gozo puro da verdade. E ainda aqui nos acena o grande gênio de Agostinho num grande aperto de mão quando escreve: “No meu procurar da verdade eu já me poderia ter procurado há muito tempo pela fé, se a tivesse conhecido”. É a confirmação do fides quaerens intellectum e do credo ut intelligam

Dom Arnoldo Nicolau de Flue Gut
Frade beneditino. Nasceu em 1895 e faleceu em 1982. Foi ordenado em 1920. Professor de Filosofia e Direito Canônico, foi diretor do Colégio de São Bento, em São Paulo, e reitor da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras (atual FFLCH), na Universidade de São Paulo. Além de Filosofia e Teologia, estudou o Bacharel em Direito Romano e Ciências Políticas, concluindo o Doutorado em Direito Canônico na Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma, em 1927. Foi um dos fundadores da Ação Integralista Brasileira. Em 1933, participou da redação das Diretrizes Integralistas. Publicou, em 1940, na Alemanha, a versão em livro de sua tese Plínio Salgado, o criador do Integralismo Brasileiro, na Literatura. Esse livro o levou a ser expulso da Alemanha, na época sob as mãos do Partido Nazista.

Notas do Site

[1] Diz Plínio Salgado, em Estado Totalitário e Estado Integral: “Os Integralistas são lógicos, tendo uma concepção totalitária do mundo e uma concepção não totalitária do Estado. É evidente que, sendo o Estado uma das expressões do mundo, se este é considerado em seu conjunto, o Estado tem de ser considerado como uma “parte” do conjunto”.

[2] Segundo o autor, em seu livro Plínio Salgado, o criador do Integralismo Brasileiro, na literatura brasileira, sobre a palavra “Integralismo”: “Desde 1932 quando foi empregado [o termo], o seu emprego revelava já o seu sentido filosófico e se filiava à concepção orgânica e hierárquica da sociedade e do mundo, concepção inseparável do conceito de ordem no sentido da filosofia grega e escolástica, dentro de um mundo criado e não imanado”. Segundo ele, o “pensamento central” dessa concepção, que “o todo vem antes da parte: a síntese antes da análise”, é um axioma da filosofia perene. Ele explica: “Esta filosofia do Estado em Aristóteles se resume na subordinação do bem particular ao bem comum, da parte ao todo, princípio que Santo Tomás repetiu dezenas de vezes, ampliando-o pelo pensamento platônico de que a unidade precede à multiplicidade”.

*Texto publicado originalmente em Panorama nº 9, de 1936, sob o título “O Integralismo e a Hora Presente” (assinado por N. F. G.).