Este trabalho de Otto Ohlweiler, integralista gaúcho, tem uma grande importância como roteiro do método e da filosofia do Integralismo. O autor expõe com clareza o princípio de interpretação filosófica que o Integralismo reivindica para o futuro Estado Integral. Em particular, este estudo repercutiu como análise das filosofias de decadência.

Filosofia e método integral

Um fato caracterizou antes de tudo a decadência do pensamento de uma época: o ecletismo na filosofia. Toda cultura decadente é, aliás, falta de finalidades e objetivos reais; desce das altas cogitações especulativas do ser ao particularismo das coisas vãs. E as necessidades de observação e de análise são substituídas pelos efeitos da imaginação e da eloquência.

Assim a Grécia da decadência já não podia apresentar ao mundo as concepções orgânicas de um Sócrates, de um Platão e de um Aristóteles, mas sim um Epicuro fazendo dos destinos o único critério da razão, o estoicismo de Zenão e o ecletismo e o ceticismo dos últimos representantes do pensamento grego. Estes filósofos, degenerando as doutrinas de seus grandes mestres, dividiram-se e subdividiram-se e encontraram-se mais tarde no crepúsculo do pensamento grego num ecletismo amorfo, para caírem depois no ceticismo de um Pirro, de um Argesilau, de um Carnéades e de um Enesidemo. Todos estes pensadores já não conseguiam alçar-se nas asas audaciosas de uma nova concepção metafísica no firmamento de ideias. A verdade parecia que os atemorizava. Para eles a única atitude digna de um filósofo era a “ataraxia” do estoico, deste senso filosófico que os tornava estranhos ao cosmos e às suas leis.

Daí ao misticismo dos neoplatônicos romanos, como Sacca e Plotino, apenas um passo. Mas também o misticismo em filosofia é um indício de decadência.

Avessos às altas especulações filosóficas, dada uma vida de preocupações práticas, os romanos nada mais construíram do que uma filosofia eclética e sem estrutura orgânica, servindo-se para isto dos seus mestres gregos. Cícero, talvez o mais ilustre de seus representantes, era antes político do que filósofo. Seus estudos prediletos versaram sobre moral, porque uma vida essencialmente materialista tornara o povo amoral. Daí um Sêneca, um Epicteto, um Marco Aurelio. Mas também, a moral destes era uma moral decadente: o estoicismo.

Partindo do ceticismo dos gregos, os romanos evoluíram do misticismo dos neoplatônicos até a teurgia com seus últimos pensadores. O ocultismo deslocava a filosofia. Já nada mais restava dos grandes mestres gregos. Era o terminar solene e trágico de uma civilização que havia muito agonizava: a civilização pagã. Só um homem, Cristo, que diriam divino, pregando uma doutrina toda feita de amor e de doçura regeneraria o mundo.

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Trataremos agora de traçar um paralelo entre o pensamento da decadência greco-romana e o pensamento moderno. Veremos que muitos dos característicos daquela, também os apresenta a filosofia moderna. Não que queiramos dizer que a história se repita; não, porque todo o fato novo é sempre um novo fator que influirá no desenvolvimento futuro das coisas, tornando impossível, portanto, a repetição de um mesmo fato.

Desde Descartes, que com seu método analítico-filosófico criou as bases da filosofia moderna, que a filosofia vem como que desorientada navegando entre as concepções mais extremas possíveis. Do empirismo de Bacon ao racionalismo cartesiano. Do ocasionalismo de Malebranche ao panteísmo de Spinoza. Do materialismo de Hobbes ao sensualismo de Locke. Deste ao idealismo de Berkeley e daí ao fenomenismo de Hume. Do criticismo kantiano ao materialismo evolucionista. Do idealismo de Fichte, Schelling e de Hegel ao realismo de Herbart, Schopenhauer e de Hartmann. Do pessimismo de Schopenhauer ao amoralismo nietzscheano. Do positivismo comteano ao utilitarismo de Mill. Do materialismo transformista de Darwin e Haeckel ao evolucionismo de Spencer e Fouillée…

A anarquia reina na filosofia moderna. E a propósito, podemos falar de uma filosofia moderna, como de uma coisa bem definida? Não, porque ela é antes um conjunto heterogêneo das filosofias mais díspares, sem um núcleo de verdades comuns que a possa reunir num todo orgânico.

E como na Grécia e em Roma decadentes, tivemos também o ecletismo de um Victor Cousin que quis ver no sincretismo de todas as doutrinas a verdadeira filosofia. O próprio Victor Cousin passando-se da escola escocesa ao panteísmo hegeliano e daí a um misticismo misto de Plotino e Leibniz é bem o protótipo dos ecléticos…

E, como na decadência greco-romana, há uma eclosão estranha das práticas do ocultismo, fato este facilmente explicável. Quando as ideias dos pensadores já não encontram mais eco no seio do povo, este procura satisfazer as suas aspirações intelectuais na teurgia, mesmo porque lhe é mais fácil a crença do que a ciência…

E os Keyserling, os Ortega y Gasset fazem da filosofia, com seus passatempos literários, uma mera arte decorativa…

Spengler, o filósofo-tipo da decadência, procurando mostrar que todo o otimismo encerra a covardia, prega que a única atitude digna de assumirmos nesta hora trágica é a daquele soldado de Pompeia que se deixou morrer queimado na erupção do Vesúvio, porque haviam esquecido de licenciá-lo. “É nosso dever — diz — permanecer sem esperança, sem salvação no posto já perdido”. É o novo fatalismo determinista daqueles que não creem no poder criador do homem. É a nova ataraxia. É o pessimismo dos decadentes…

Otto Alcides Ohlweiler em 1935

É preciso reagir para reafirmar o valor criador do espírito humano.

Urge a construção da filosofia dos tempos novos. A filosofia síntese de todas as filosofias parciais. A filosofia das concepções orgânicas e totalitárias do cosmos e das coisas, como síntese destas doutrinas unilineares, que, no arrojo de um senso individualista, tudo procuraram analisar, estranhas entretanto do ritmo e da harmonia que as levasse a uma finalidade objetiva.

Eis aqui outra face característica do pensamento moderno: o afinalismo. O mundo moderno perdeu o senso das grandes finalidades e por isso vaga desorientado num grande vácuo.

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Esta rápida incursão que acabamos de fazer através do pensamento moderno fez-nos apenas ver as suas qualidades negativas. Não queremos fazer obra, somente, de destruição, mas o que nos interessa de momento são apenas essas qualidades negativas.

São elas que nos induzem a formular a nossa primeira e grande conclusão: “a filosofia nova deverá estar isenta dos erros do passado. E para que tal suceda ela deverá apresentar os seguintes caracteres específicos: será uma filosofia orgânica, totalitária e finalista. Em uma palavra: será uma filosofia integral”.

Para uma filosofia sob estas bases, necessitamos antes de tudo de formular um método capaz de nos dirigir neste sentido. Sim, porque o método é primordial na construção de qualquer concepção filosófica. “Toda filosofia — diz Farias Brito — encerra uma concepção do mundo e propondo assim uma interpretação da existência deduz uma orientação para a vida”. Todo o novo método nos induz a formular uma concepção nova do cosmos e das coisas, e daí para a elaboração dum sistema de filosofia tudo é trabalho de sistematização e coordenação.

A filosofia integral deverá, como vimos, ser a filosofia das concepções orgânicas e totalitárias. Esta proposição, já de per si, nos basta para formular a nossa segunda conclusão: “para termos de um assunto qualquer, em estudo, uma concepção integral, devemos procurar tomar em consideração todos aqueles fatores que podem influir no mesmo, isto é, todos os fatores que lhe são determinantes”. Eis aqui o método que procuramos e que foi estabelecido, desde o início, pelo Integralismo.

Com este método precisamos construir uma concepção do mundo e então sobre ela edificar o sistema filosófico integral. E assim poremos termo à anarquia do pensamento contemporâneo que é também, a causa da grande crise moral, social e religiosa que vivemos. [1]

À filosofia compete a regeneração do mundo. Já Farias Brito dizia que somente na filosofia se encontraria o princípio capaz de regenerar a sociedade. Toda a sua “filosofia do espírito” tinha um objetivo moral: destruir o dogma do materialismo, desta “filosofia do desespero”, para ele última etapa do pensamento de uma civilização agonizante. Mas, não se tendo de todo desvencilhado dos erros do passado, prendendo-se, por demais, a Spinoza e trabalhando num ambiente onde não encontrou eco, sua obra neste sentido foi perdida. Mesmo porque o seu panpsiquismo panteísta [2] era ainda uma concepção parcial do universo.

Retornando ao nosso assunto procuremos agora passar em revista o método da filosofia integral. Ensina-nos este método, como vimos acima, a procurar interpretar as coisas de uma maneira integral, e que, para tal, procuremos considerar, em todo o fenômeno em estudo, todos aqueles fatores de que é função. Ora, para que isso fosse integralmente possível, seria necessário um conhecimento exato e completo de todas as causas que possam influir no dito fenômeno, e ainda mais, seria necessário também o conhecimento da intensidade relativa de cada fator determinante.

Este método — dirão — encerra em si toda uma impossibilidade, porque, como poderíamos nós, dentro do relativismo de nossos conhecimentos, satisfazer as exigências que o mesmo requer? Como poderíamos num fenômeno ter o conhecimento completo das causas? Sim, se quiséssemos aplicar este método de uma maneira absoluta, ele representaria toda uma utopia e ainda mais, traria em seu seio suas próprias contradições, pois que se conhecêssemos todos os fatores que influem num fato qualquer, com sua respectiva intensidade relativa, teríamos dele uma intuição perfeita e todo método seria, então, desnecessário. Ter a intuição perfeita e identificar-se com ela, é ser ela mesma. Sujeito que conhece e objeto conhecido seriam uma e a mesma coisa. Seria — no dizer de Malebranche — a visão direta nos arquétipos das coisas, só compatíveis com o Ser Infinito.

Também Descartes foi reprochado por seus adversários, como exigindo uma coisa impossível, quando com seu método pretendia que se abandonasse toda classe de preconceitos.

Tanto o método cartesiano como o nosso exigem condições inatingíveis à natureza humana. São, portanto, dois métodos de cujos limites, sempre a cada vez mais, nós devemos nos aproximar, ainda que, de antemão saibamos ser impraticável alcançar a meta final. Tanto mais nos aproximaremos da perfeição quanto em maior escala conseguiremos aplicar. Somente assim, prosseguiremos em rumo à perfeição ainda que essa perfeição seja inatingível. Somente assim, o progresso da filosofia, e aliás de toda a ciência, será uma realidade. Semelhantemente, um filósofo ou um cientista sabem que a verdade absoluta é inatingível ao espírito humano; no entanto, tudo fazem para dela se aproximarem.

Se em estudo qualquer, filosófico ou científico, resolvemos a priori empregar o método que discutimos, não poderemos jamais cair no unilateralismo dos filósofos modernos, que pretendem muitas vezes tudo explicar por uma causa única.

Com o método da filosofia integral, Bacon não teria sido levado a ver na indução pura o verdadeiro método científico, impugnando todo o valor do silogismo, nem Descartes, como mais tarde Spinoza partindo de algumas ideias intuitivas, para ele verdades necessárias, pretenderia deduzir todo o seu sistema filosófico como se fosse uma ciência geométrica. Descartes não viu que só a matemática pode ser puramente dedutiva porque seus objetos são pura invenção do espírito, são apenas possíveis, mas não reais. O nosso método teria mostrado que é na justa harmonização dos métodos indutivo e dedutivo que se deve procurar o verdadeiro método científico.

Nem Malebranche com seu ocasionalismo afirmaria serem os corpos materiais apenas modos de ser dos seus arquétipos eternos: as ideias.

Nem Leibniz faria da atividade a essência dos corpos, para ele compostos de elementos inextensos e ativos: as mônadas.

Nem Locke negaria as ideias inatas propostas por Descartes, nem teria identificado o belo com o prazer que o acompanha.

Nem Berkeley negaria radicalmente a matéria, não vendo que com seu próprio método de raciocínio negar-se-ia o espírito, e erigir-se-ia o fenômeno como única realidade (Hume).

Nem Condillac faria das sensações a única fonte do conhecimento.

Nem Marx teria afirmado que o “modo de produção da vida material condiciona o processo de vida social, político e intelectual em geral”. Porque isto nos leva a perguntar quais as causas do desenvolvimento social. Nada mais — dirão os marxistas — do que as contradições que nascem entre a estrutura econômica, isto é, das reações de produção, única base real, e a superestrutura jurídica e política. Mas agora, desejaríamos saber as causas que determinam essas contradições, que seriam por sua vez a causa última do desenvolvimento dialético da história. Só um determinismo, ininteligível aos próprios marxistas, poderia encerrar a questão.

Nem Schopenhauer teria encontrado no instinto de conservação o princípio que condiciona todas manifestações dos seres, desde as afinalidades químicas do átomo até a mais alta expressão intelectual do homem.

Nem Nietzsche subordinaria toda atividade humana unicamente à “vontade de poder”.

Nem William James com sua filosofia da ação pregaria o primado da vontade sobre a inteligência. Nem, erigindo o êxito em critério supremo da verdade e afirmando que todo o valor de um pensamento, duma ideia, está na força e na influência utilitária que exerce, reduziria a verdade ao útil. Para William James não existe mais uma verdade absoluta. A verdade é uma criação humana.

Nem Freud pretenderia ter achado no sexualismo a chave de todos os mistérios da psicologia.

Nem Bergson veria como Hegel na mudança a única realidade, como se atrás do contínuo vir-a-ser não se encontrasse o ser e os conceitos eternos do mesmo.

Nem Einstein, afirmando ser a velocidade da luz uma velocidade limite concluiria que o comprimento de um corpo seria nulo para uma velocidade igual à da luz. Como se o comprimento de um corpo fosse somente função da velocidade. Com este raciocínio o infinito seria o finito em repouso absoluto.

Aplicando nosso próprio método procuremos, agora, precisar um pouco mais os caracteres da filosofia integral.

Bacon preconizando o uso exclusivo da indução e Descartes, ao contrário, da dedução, podem ser considerados como os fundadores do empirismo e do racionalismo modernos, destas duas correntes do pensamento de que a anarquia intelectual que vivemos é uma decorrente.

A razão humana sendo, dada a relatividade das nossas faculdades cognitivas, falha, só com o auxílio constante da experiência poderá progredir. Da mesma maneira, empirismo sem direção racional não tem sentido. Uma ciência puramente empírica é impossível, pois que ciência não é apenas registro dos fatos. Harmonização do método científico. Um exemplo concludente nos levará a esta conclusão: o planeta Urano parecia não obedecer regularmente às leis da gravitação. Le Verrier deduziu daí que Urano devia ser perturbado pela ação de outro astro. De fato, mais tarde a experiência provaria esta dedução.

Aplicando nosso método à natureza humana podemos chegar a uma nova conclusão. Nosso método ensina-nos a ver no homem não só manifestações racionais mas também instintivas. O homem não é só razão, nem só instinto: é razão e instinto. É do instinto que procuraremos extrair certas noções que em vão se procuram deduzir racionalmente. É nele que residem as noções de perfeição, de Absoluto, de Infinito, de Belo… [3] E assim não veremos mais um Descartes procurando racionalmente deduzir as qualidades do ente infinito de tal modo que dele diria Tiberghien: “concebe melhor o infinito que o finito”.

A razão obra logicamente. O instinto intuitivamente. A lógica é a arma da razão. A intuição do instinto. Os grandes homens têm sido ora lógicos ora intuitivos, parecendo que estas qualidades são função da constituição psicológica do indivíduo. Mas é somente na combinação dos processos lógicos e intuitivos que a ciência poderá progredir.

A intuição pura não nos pode, de maneira alguma, fornecer a certeza. Poincaré cita a propósito o caso de certas funções contínuas desprovidas de derivada. “Nada — diz o matemático francês — contraria mais a intuição do que esta proposição imposta pela lógica. Nossos pais não teriam deixado de dizer: é evidente que toda função contínua tem uma derivada, portanto toda curva tem uma tangente”.

Semelhantemente, uma ciência puramente lógica seria impossível. A lógica pura só nos conduziria a tautologias. Todos os corolários de um teorema fundamental estão dentro do enunciado deste. Da mesma maneira, toda a trigonometria está dentro da definição do triângulo.

A lógica não pode ser criadora. Só a intuição cria coisas novas, porque só o instinto é criador.

Isso nos mostra que a lógica e a intuição devem ambas manter seus papéis: a intuição cria e a lógica dá o rigor da certeza à nova criação.

Depois destas rápidas excursões especulativas podemos, como terceira e definitiva conclusão, precisar definitivamente os traços gerais da filosofia integral: “será a filosofia das concepções orgânicas e totalitárias; será uma filosofia empírico-racional; e enfim será intuitiva e lógica nos seus processos”.

Otto Alcides Ohlweiler
“Panorama” n° 3, março de 1936.

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Notas do Site
[1] O autor dá à filosofia, aqui e adiante, um papel superior ao que ela deve ter numa reta ordem.

[2] Classificação do Padre Leonel Franca. Foi amplamente contestada por outros estudiosos da obra de Farias Brito. A concepção da 3ª fase britiana era orgânica e integral.

[3] Ponto de vista pessoal do Autor e não do Integralismo. [Nota original do revisor da Panorama]