I

Em Matemática define-se integral como a soma de um número infinitamente grande de parcelas, sendo cada parcela infinitamente pequena. Por analogia, dir-se-ia que o elefante ou a figueira brava seria, cada um, a integral de células animais ou vegetais. Cada célula é pequeníssima; somadas as células em avultadíssimo número, dão o colosso do elefante ou da figueira. O oceano seria a integral de moléculas de água; o deserto do Saara, a integral de grãos de areia.

Pois bem, o Estado deve ser o oceano, o elefante ou a figueira do exemplo; deve ser a soma de todas as células operosas do organismo social. Sem nenhuma esquecer. O Estado é a integral dessas células. Cada pequeno lavrador é uma célula, e seu conjunto constitui o galho da federação agrícola integral do Estado. Cada operário, cada industrial, cada artífice idem, idem. Daí a formação dos sindicatos, que são integrais parciais de classe para a integralização social comum.

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Integral significa soma, total, partido significa parcela, parte, fragmento. Assim, no organismo do elefante, se este, o organismo, é o total, as células, os membros, são partes, são parciais. Daí já se deduz a impossibilidade do Estado-parcela, do Estado-partido, que faliu no mundo inteiro. O Estado há de ser total, integral, cada célula produzindo para a totalidade social, e a totalidade social vigiando o bem-estar de cada célula, como a parábola bíblica do Bom Pastor: estão abrigadas as 99 ovelhas? Pois vamos cuidar de abrigar a centésima tresmalhada.

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E é coerente com o que se observa na Natureza. Meu corpo — a integral de infinitas células — goza de saúde; de repente, pequenas células de um dente enfermam, a ramificação do nervo respectivo fica descoberta. A dor transmite-se ao cérebro. Todo o imenso rebanho corporal de células sofreu, porque algumas sofreram. Vou ao dentista, isto é, vou procurar atender às necessidades das poucas ovelhas tresmalhadas das células dentárias. Curo-me, todo o rebanho celular corporal sente-se bem. Porque nosso organismo não segue a política do Estado partidário, o conjunto celular do corpo não dirá às células doentes: nós estamos bem, vocês se arrumem…

O mal dos partidos é este: cada um olha para o seu interesse, para a organização de sua disciplina interna. Como vivem em luta entre si, são forças que se subtraem e, portanto, não podem constituir o Estado, como soma das aspirações gerais.

João Carlos Fairbanks

Essa impressão eu a trago da adolescência: em 1907, ao concluir preparatórios, assisti em S. Paulo às conferências do Sr. Paulo Doumer, depois Presidente da França, que causaram grande sensação naquela época. Meu bom pai, com o carinho que sempre dispensou à sã leitura dos filhos, pôs-nos nas mãos a obra daquele estadista, Le livre de mes fils, “O livro dos meus filhos”, no qual o insigne patriota — aliás chefe de partido — solicitava dos descendentes cuidarem mais das necessidades nacionais que das partidárias, profligando a generalidade ocorrente no sentido oposto.

Meus olhos de quinze anos aprenderam, então, sob pasmo, que, contrariamente ao que estudávamos em educação cívica, os homens políticos cuidavam sempre muito mais dos seus partidos do que do interesse comum. Porque, acima de tudo, eram parciais, viam parcialmente as necessidades públicas, sob o ângulo particular do mesquinho interesse de partido.

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Não é assim na natureza: nosso aparelho digestivo é o único a comer; mas, pela totalidade, pela integralidade do nosso organismo, espalha o benefício do alimento pelos vasos quilíferos.

Se o aparelho digestivo não fosse integralista, se seguisse a política parcial ou partidarista, diria aos vasos quilíferos: “vocês não funcionem; nós já comemos, o resto que se amole”.

E aconteceria o que aconteceu aos Estados formados de partidos; cada um comeria esquecido do total. O total pereceria e com ele os partidos egoístas. Ora, se o aparelho digestivo egoisticamente não permitisse que o cérebro, o coração, os membros, recebessem o benefício do alimento, o corpo todo — a integral geral — morreria e com ele o órgão assim tornando egoísta. O acessório segue sempre o principal…

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Também os rins filtram os líquidos, separando impurezas que intoxicariam todo o organismo. Se os rins fossem políticos partidários, fariam essa purificação no interesse próprio. Resultado: todo o corpo se envenenaria e, no seu perecimento, morreriam também os rins.

O mesmo raciocínio se aplicaria aos vegetais: se as raízes, depois de alimentadas seguissem o partidarismo, impediriam a seiva elaborada de subir pelo tronco. Pois se o interesse parcial delas estava satisfeito, que lhes importaria o interesse integral da árvore?

Donde se deduz que a natureza segue o Integralismo, não o partidarismo. E que o Estado Integral é conforme a Natureza, e o Estado partidário a ela se opôs pela simples razão que o Integralismo dentro da realidade natural considera a parte no todo, e não o todo na parte, no que afinal consiste o absurdo da concepção partidária.

II

Salientáramos que Integralismo se opõe a partidarismo, como a ideia de soma se antagoniza à da parcela.

Partidarismo é sistema de governo em que o interesse parcial de um grupo se antepõe ao interesse geral da Nação.

Integralismo é o sistema oposto: nenhum interesse, nada acima do interesse da Nação.

Esta Nação é integralmente concebida como a federação dos municípios; os municípios como a federação das corporações profissionais ou culturais e, portanto, representando a totalidade das famílias municipais, por isso os respectivos pais e mães, incumbidos de sustentá-las, já se acham representados nos sindicatos de seus ofícios ou classes laboriosas.

Se uma Câmara Municipal vier abranger amanhã representantes de todas as atividades locais — lavoura, comércio, indústria, patrões, empregados, classes intelectuais — tal Câmara representará todas as famílias do município, porque será constituída pelos elementos ativos que dão de comer, de vestir e educação a todas as famílias e a todas as pessoas de cada família. Será uma Câmara integralista.

Se, pelo contrário, a Câmara vier a ser composta de elementos meramente partidários — PRP ou PD, etc. — será corporação meramente partidária. Nada representará de real, de concreto, de objetivo. Apenas votará impostos para custear propagandas partidárias, como o ensina a velha experiência.

E todas as famílias e cada uma de suas pessoas serão sacrificadas em taxações, para continuar sem escolas, sem água, sem esgotos, sem sarjetas, etc.

Nesse sentido é que deve fixar-se a revolução social. Não há mais lugar nem para revoluções políticas, nem para prevalecimento de partidos, nem para o Estado liberal-individualista.

Rui Barbosa, retornando ao Senado em 1921, previu a época dessa transformação e do consequente desaparecimento dos partidos, se não se disciplinassem no sentido do bem público.

Eis suas palavras:

“Por enquanto, Sr. Presidente, as revoluções eram políticas, tinham praias que as circundavam e lhes punham raias visíveis. Depois que se fizeram sociais, e sociais são hoje todas, todas beiram nesse mar tenebroso, cujo torvo mistério assombra, de ameaças, as plagas do mundo contemporâneo”.

Rui Barbosa, o maior gigante do Estado liberal e dos seus partidos componentes, rezou, assim, o De Profundis da era político-partidária.

A era que surge da revolução social-mundial, contém as ameaças do comunismo — o Estado sem Deus, sem Pátria, sem Família. Mas traz, também, a Ação Integralista: O Estado em nome de Deus, para a Pátria, pela Família, as necessidades materiais desta atendidas nas reivindicações profissionais de seus respectivos chefes.

João Carlos Fairbanks
Publicado em “O que o Integralista deve saber”, 1935. Título original: “Que é Integralismo?”.