O Manifesto de Recife foi um dos primeiros documentos ligados ao Integralismo. Em 24 de novembro de 1932, um mês após a publicação em São Paulo, por Plínio Salgado, do Manifesto de Outubro, um grupo de acadêmicos da Faculdade de Direito de Recife lançou o seu próprio manifesto, sustentando os princípios básicos do novo movimento integralista. O manifesto foi divulgado no Diário de Pernambuco.

Manifesto do Núcleo da Faculdade de Direito de Recife

“Se desceu uma noite sobre o Brasil, porque os homens que tinham a responsabilidade de seus destinos não souberam evitá-la, procuremos arrancar da Raça e da Terra a nossa luz. Para que não sejamos iluminados por um sol estrangeiro”.

Plínio Salgado

O MOMENTO

Nunca uma geração brasileira teve tantas responsabilidades como esta, que já tem por mais de uma vez escutado o tamborilar trágico das metralhadoras. Mas, talvez como nunca uma geração esteja tão capaz de desempenhar a sua vocação histórica. Pois nada como o sangue, o sofrimento para retemperar o homem. Despertar energias cabeceantes. Transformar a vida social. Renová-la. Além disso ela não pode mais ter certas ilusões que envenenaram as gerações passadas. Não tem mais o direito de aspirar a cocaína liberal, salvo se quiser andar em atraso a própria vida. Não tem, por outro lado, o direito de embebedar-se com o ópio comunista. Com a utopia do internacionalismo. Ninguém nega o dever da colaboração entre as nações todas, realizando não já o fim nacional, limitado, porem o fim humano, mais amplo, da solidariedade social. Universalismo. O internacionalismo russo, “parecendo apenas um devaneio de sonhadores que desejavam “salvar” a humanidade, nada mais é que um imperativo categórico da sua precária situação de produtores”. País sem autarquia, isto é, sem independência econômica, a Rússia, para viver, precisa colocar “fora da Rússia” seus cereais. São observações do professor Everardo Backheuser.

O Brasil subordinado a Moscou, dali recebendo os seus capitães-mores e governantes gerais, – eis a que pretendem reduzi-lo os comunistas. Desejo que pode ser o da finança judaica internacional, que pode ser o dos inimigos da nacionalidade, mas lamentável, mas inconcebível num rapaz brasileiro. Além disso, nem a burguesia, podre e cética, nem o comunismo, bárbaro e grosseiramente materialista, são capazes de ressoar o estado de espírito da nossa geração. De responder ao insopitável movimento de renovação espiritual, que se processa em nosso país, sobretudo na mocidade. A mocidade desassombrada, que não quer compromissos com os imediatistas, os céticos, os descrentes. Daí o anseio incontido de revisão de valores. De aprofundamento espiritual. E essas energias intimas transbordam, naturalmente repercutindo na vida externa.

Nasceu por tudo isso um maior interesse pela vida nacional. Um amor à terra mais intenso, mais profundo, agora embebida novamente do sangue de irmãos. Ninguém quer seja vão tamanho sacrifício!

E a mocidade levanta-se. Ergue-se cheia de entusiasmo, de confiança. Desperta com vontade de vencer. Mas igualmente sem romantismos. Sem ilusões, serena. Ciente de todas as falhas de nossa índole, de nossas instituições. Mas, também, de todas as nossas virtudes. De todas as grandes necessidades do país. De todas as suas possibilidades. Segura da imensidade de sua tarefa… de que a luta contra o espírito reacionário será incessante. Contra todas as correntes desfibradoras da nacionalidade. Contra o capitalismo. Contra o comunismo. Contra o ceticismo, o sibaritismo, a descrença. E esse Movimento Integralista, partindo justamente de onde deveria partir – de São Paulo intrépido das bandeiras – vem objetivar todas as profundas aspirações da mocidade brasileira. Desejo de realização. Nacionalismo sadio. Espiritualismo tradicional. Fora de sentimentalismos românticos.

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E é preciso que o Integralismo triunfe no Brasil inteiro. Que não seja um fogo de palha. Que parta de todos os cantos do Brasil. E que interesse o estudante, o político, o agricultor, o operário, todas as classes.

A mocidade nordestina de modo algum poderia ficar indiferente. E muito menos alunos da Faculdade de Direito de Recife. Esta escola, que certa vez ouviu proclamar a morte da metafísica, precisa tornar-se uma célula vivíssima desse grande movimento de renovação política, social e espiritual.

QUE É O INTEGRALISMO

Batemo-nos pelo Estado Integralista. Que tem a verdadeira noção do homem, ser composto com “vida orgânica inserida na ordem do determinismo econômico, mas uma vida racional que a deve dominar por natureza, levando-a a uma vida espiritual que é independente de todo determinismo material” (Tristão de Ataíde). O Estado que respeita e se informa de todos os componentes da sociedade civil; o grupo biológico (família), o grupo profissional (corporação), o grupo político (município), o grupo espiritual (igreja). Que sintoniza todas essas manifestações de vida, realizando o seu fim. Incumbência do direito, que objetiva (porque mais particularizado e utilizando coação) os princípios morais reguladores da ação humana. Queremos a reabilitação do princípio de autoridade. Que esta se respeite e faça respeitar-se. Defendemos a família, instituição fundamental cujos direitos mais sagrados são prescritos pela burguesia e pelo comunismo. Pregamos a humanização da economia. Não se trata de nenhuma frase de efeito. O momento não comporta literatura. É a verdade. Pois a economia capitalista ou socialista, preocupadas com a mass production, não leva em conta o fundamento real, vivo da economia – as necessidades humanas. Reconhecemos a dupla função, indivíduo social, da propriedade e do capital. Com todas as consequências lógicas. A reabilitação da política. Uma política nacional informada de todas as realidades econômicas, sociais, espirituais. Que coloque o Brasil à altura de sua missão na América. Pelo globo todo. Somos pela representação profissional. Contra os partidos políticos. Instáveis. Inexpressivos. Fracionadores.

“A representação de classes é uma necessidade imperiosa no Brasil. Ela consulta a índole do povo brasileiro de constituir-se em um partido único. É uma ilusão dizer-se que o nosso país pode organizar mais de um partido de caráter nacional. O que se pode organizar no Brasil são partidos estaduais, se continuarmos a viver a vida de permanente desagregação da república federativa” (Plínio Salgado).

Opomo-nos ao voto universal; quanto mais ele ganha extensão, menos real, menos consciente ele torna. Necessidade, portanto, da eleição indireta. E justamente o que há de mais real, de mais orgânico entre nós, é o profundo municipalismo de nossa vida política. E ele nunca foi ouvido!

O município no Brasil “tem limites históricos e naturais, é essencialmente grupo político espontâneo, descendente dos patriarcas rurais” (Santiago Dantas).

Proclamamos que a religião é o elemento central de toda existência. Que a solução de todos os problemas econômicos, pedagógicos, políticos, depende da concepção geral da vida. Os velhos políticos rirão sem dúvida dos nossos propósitos. Os comodistas recusar-se-ão a colaborar conosco. Que se fiquem. Mas esse movimento de mocidade já é hoje incoercível. Porque é a profunda verdade nacional, a própria realidade mundial. São forças pós-revolucionárias, forças jovens, cheias de fé, nacionalistas no bom sentido, humanas.

E não querem mais fazer alto.

O COMITÊ:

(ass.) Otto Guerra

Andrade Lima Filho

Américo de Oliveira Costa

João Roma

Álvaro Lins

José Carlos Dias da Silva