Nietzsche e a “vontade de poder”

Para Freud tudo é libido. Para Marx tudo depende das forças econômicas. Para Nietzsche tudo é “vontade de domínio”.

No Assim falava Zaratustra, este escreve:

“Eis aqui toda a vossa vontade, sapientíssimos, como uma vontade de poder; e isto ainda que faleis do bem e do mal e das apreciações de valores”.

No Genealogia da Moral, Nietzsche procura demonstrar como “bom” e “poderoso” foram do início a mesma coisa. Assim como “plebeu” e “mau”. Interpreta depois o cristianismo como o triunfo dos ideais dos escravos. Suas “virtudes” foram um método pelo qual o Judaísmo venceu a dominadora Roma. Tudo, ainda, é vontade de poder. Examina, em seguida, o “ideal ascético” como uma vontade do nada, e que “o homem prefere a vontade do nada ao nada da vontade”.

Já agora, podemos compreender o seu Super-Homem, aquele que responderá ao “tu deves” com o espírito do leão — “eu quero”. Conquistará assim a sua liberdade. E, depois, livre e inocente como uma criança, criará o seu mundo por meio da sua vontade. E inventará valores novos. Os seus valores.

Azevedo Amaral e os instintos sociais

Entende Azevedo Amaral que a plasmagem das coletividades sociais e seus diferentes tipos, depende de três “elementos instintivos que constituem características fundamentais da vida biofísica do homem”… “O instinto de conservação, o instinto nutritivo e o instinto de domínio…”

Para ele, o “instinto de procriação”, “apresenta um caráter mais completo, sendo a resultante de componentes que irradiam de três outros instintos fundamentais”.

A unilateralidade dos sistemas

Penso que o erro de Freud, como o erro de Marx, como o erro de Azevedo Amaral, como o erro de Nietzsche, está na unilateralidade dos sistemas por ele criados. A vida é mais complexa. Já Alberto Torres dizia que “a vida contém, efetivamente, elementos que ainda não foram registrados pelos instrumentos de pesquisas ou pelos poderes da nossa inteligência”.

Fruto de um pensamento analista, todas essas teorias veem o mundo através da sua “especialidade”. O psiquiatra Freud generaliza sobre anormais. O economista Marx encontra em todas as coisas sua economia. O amalucado alemão Nietzsche pensa que tudo é vontade de comandar. O “cientista” Azevedo Amaral não é capaz de compreender o espírito e a realidade das forças espirituais.

A pura alegria de conhecer

Entretanto, nenhum é capaz de emprestar importância à pura alegria de conhecer e compreender.

E foi por essa alegria que os seus livros vieram à luz. E foi por essa alegria que eles pensaram e pesquisaram longos anos.

Nietzsche, apesar de tudo, confessa:

“As minhas ideias… eram já substancialmente as mesmas… O fato de as reter ainda, tendo-se apertado cada vez mais a ponto de se entrelaçarem e de se fundirem, confirma em mim a segurança de que não nasceram ao acaso, esporadicamente, mas que brotaram de um tronco comum, de uma fundamental vontade de conhecimento, que governa e dirige as forças mais íntimas, e que fala com uma linguagem cada vez mais nítida e exige conceitos cada vez mais precisos”.

A confusão que Nietzsche faz mais adiante, é mais, propriamente, de palavras. Tendo falado em “vontade de conhecimento” e “vontade do nada” preocupa-se com o termo “vontade”, porque ele já generalizara e pensara que toda “vontade” era “vontade de poder”. A confusão das ideias nasceu da confusão das formas.

Análise da “vontade de poder”

A “vontade de poder” não é somente vontade de domínio no sentido de propriedade, posse, mas, principalmente, no sentido de mandar, governar.

O avarento é o tipo clássico do homem cuja vida centralizou-se sobre a “vontade de poder”, caracterizando-se essa constante pela ascendência do elemento vontade de propriedade, vontade de posse.

O caudilho é o tipo do homem, dominado pela vontade de poder, sob o aspecto de vontade de mandar, governar.

Assim, a vontade de poder se decompõe em vontade de poder mandar e vontade de poder possuir.

A vontade de conhecimento não se liga a nenhum desses objetivos. Existe como existe a pura alegria de conhecer.

Assim como vivem os prazeres de mandar e de possuir, vive a alegria de conhecer, emoções tão primárias umas como as outras, tão fundamentais umas como as outras.

A alegria do enlevo

A verdade provoca o nosso entusiasmo e a nossa admiração. O Belo nos enleva.

A alegria do enlevo e a “vontade de embelezar” existem no homem tão fundamentalmente, como existem a “vontade de nutrição”, a “vontade de conservação”, a “vontade de procriação”, a “vontade de poder”, a “vontade de associação” e a “vontade de compreender”.

A alegria da pureza

A mais cândida e a mais encantadora de todas as alegrias é a alegria do dever cumprido, é a alegria de ter feito o Bem.

A “vontade de bem-fazer” é tão desinteressada, como a “vontade de compreender” e a “vontade de embelezar”. Tão primária como a “vontade de nutrição”. Tão inata como a “vontade de poder”.

Nós não temos dados para dizer, arbitrariamente, que no começo foi isso ou aquilo.

É certo que a vida, examinada do alto, é uma “vontade”, um impulso para diante, mas nós não podemos reduzi-la, simplesmente, à vontade de “poder” ou de “bem-fazer”. A vida é o complexo de todas essas “vontades”. A vida é um amplo movimento.

Todas as “vontades” materiais, puramente corporais, geram prazer. Todas as “vontades” espirituais produzem alegria.

Numa síntese mais alta diríamos que o impulso vital se resume nas vontades de “prazer” e de “alegria”. Com as suas negações — a satisfação, a tristeza e a dor.

As “constantes” e os “centros de vida”

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Todas essas forças são “constantes”. Todos os indivíduos humanos as possuem. Eu diria, empregando a  técnica do professor Rodolpho Simch, que se tratam de “constantes biológicas”.

A disposição dessas “constantes” em cada tipo humano é que varia, distinguindo os caracteres. Em certos tipos a vida centraliza-se na “vontade de nutrição” e temos o “gastrônomo” e o “glutão”, conforme essa pessoa for mais ou menos espiritualizada. Em outros, na “vontade de procriação” e temos o libidinoso e o pai de família, classificação esta que varia, ainda, segundo  grau de espiritualização do indivíduo. Já noutros, a “constante” que predomina é a de “conservação”, e temos o assassino e o guerreiro. Noutros mais, o centro da vida estabelece-se na “vontade de poder” e temos o avarento, o proprietário, o caudilho e o político, no seu mais baixo sentido. Em outros, na “vontade de associação” e temos os agremiadores de homens, os políticos na sua significação mais elevada. Enquanto que em outros mais, a vida tem a sua mais alta expressão na “vontade de compreender” e temos o bisbilhoteiro e o sábio, na “vontade de embelezar” e temos o artista, na “vontade de bem-fazer” e temos o santo.

Todas essas forças, todos esses centros de vida, plasmam os caracteres dos indivíduos, das sociedades e dos Estados.

Em uma mesma pessoa, o centro de vida pode variar de uma “constante” para outra. São os homens sem caráter ou de caracteres indefinidos. E podem localizar-se em mais de uma “constante”.

O sentido das épocas é dado pelas concepções do universo, que revelam o local em que permanece o centro da vida entre as “constantes” que integram a personalidade humana.

A Batalha

Em todas essas coisas eu pensava, quando assisti ao grande filme francês A Batalha.

Por ele, os japoneses ficavam fotografados sob estas determinantes gerais: dissimulação, patriotismo e “vontade de poder”. Acima de tudo “vontade de poder”. Poder de qualquer forma. Todos os meios são bons.

E a mim me parece que os fascismos, profundamente nietzscheanos, se baseiam principalmente na “vontade de poder”. A exaltação do patriotismo serve à “vontade de poder”, do povo e dos governantes. A “vontade de compreensão” serve à “vontade de poder”. A “vontade de perfeição” serve à “vontade de poder”. Tudo se subordina à “vontade de poder”. É a glorificação do Estado Forte. Não como um meio. Mas como um fim. Os chefes fascistas são endeusados, tornam-se super-homens, e procuram poder cada vez mais. O centro da vida, para os fascismos é a “vontade de poder”.

Somente o Integralismo pertence à Nova Humanidade. Profundamente espiritualizado, para o Integralismo as “constantes” principais são a “vontade de bem-fazer”, a “vontade de compreender”, a “vontade de embelezar” e a “vontade de associar”.

O Chefe não é um deus. É um homem que deseja reunir, criar cultura e fazer o bem. O Chefe não fabrica valores novos. Não determina o Bem e o Mal. O Chefe respeita o que é de Deus. Obedece à imortal tábua de valores do pensamento cristão.

Por isso, a marcha do Integralismo não é para o poder. Mas, sim, para a Nova Humanidade. O poder virá fatalmente, como uma consequência da nossa caminhada. Nós faremos do Brasil, uma potência. Mas o Brasil Grande e Forte será uma consequência do nosso esforço pelo Brasil Unido, Bom, Verdadeiro e Belo.

Daí a diferença das técnicas. Daí, a obrigação do Integralismo vencer dentro da Ordem e da Moral, depois de ter criado um profundo movimento de educação e cultura.

Nós queremos um Brasil praticando Bondade, um Brasil investigando a Verdade, um Brasil criando Beleza, um Brasil irmanando os seus filhos e irmanando os outros povos.

E o Brasil terá cumprido a sua missão sobre a Terra.

A batalha que nós estamos travando é a luta por uma espiritualização mais perfeita. “O homem deve praticar sobre a terra as virtudes que o elevam e aperfeiçoam”. Este é um dos pensamentos primordiais do Manifesto de Outubro.

O patriotismo japonês, italiano ou alemão, vai ao sacrifício das vidas, para que o Japão, a Itália ou a Alemanha sejam poderosas.

O patriotismo brasileiro, pregado pelo Integralismo, vai ao sacrifício das vidas para que o Brasil se purifique, esclareça, embeleze e aproxime a Humanidade.

Essa é a “grandeza” com a qual nós sonhamos.

Mário Ferreira de Medeiros
“Panorama” n° 2, fevereiro de 1936.