É tempo de dizer quais são os quatro pontos cardeais da doutrina política do Integralismo. São aqueles que constituem a sua essência ideológica, a sua finalidade prática, o seu método de difusão e, finalmente, o seu processo de execução.

A essência ideológica, ou quididade racional, da doutrina política do Integralismo, é a organização social da Nação, nos moldes naturais da constituição orgânica da Família. Sobre esse assunto o documento mais preciso e importante é o artigo de Plínio Salgado, que tem por título A Revolução da Família, que foi publicado no jornal A Offensiva, há mais de vinte anos, e foi reproduzido no livro intitulado Palavra Nova dos Tempos Novos.

A finalidade prática a que visa tal doutrina política é a ordem social, considerada em toda a plenitude sumamente complexa da sua realidade existencial. O documento em que esse ponto se acha mais bem focalizado e seguramente explanado, é o artigo de Plínio Salgado, que tem o título O Problema da Ordem, e foi igualmente estampado em A Offensiva, há vinte e tantos anos.

O método de difusão da doutrina integralista, de modo a constituir uma mentalidade nacional, consiste na catequese esclarecedora, educativa, persuasiva, amorável, tenaz, segura e paciente, mediante a qual os Apóstolos e Padres da Igreja evangelizaram o mundo pagão. Aliás o Integralismo, para conseguir recristianizar as instituições laicizadas da sociedade burguesa, não poderá empregar outra técnica de catequização, que não seja a mesma usada e aconselhada pelo Divino Mestre, ao ensinar a sua doutrina. Esse ponto importantíssimo do pensamento integralista, destinado a orientar os propagandistas e doutrinadores da nossa ideologia, foi magistralmente versado, por Plínio Salgado, no artigo que leva o título de Técnica de Sorel e Técnica de Cristo, publicado, mais ou menos, na mesma época em que foram os outros dois já citados. Desse modo, a ação cultural do Integralismo, baseada nos princípios da doutrina cristã, há de secundar o apostolado religioso da Ação Católica, orientado e promovido pela Igreja, sob o comando geral da Sé Apostólica, apostolado esse que via recristianizar os homens e as famílias praticamente descristianizadas pelo laicismo liberal do Século XIX.

O processo de execução da doutrina política do Integralismo consiste nos meios administrativos que serão empregados para organizar a Nação e fazer funcionar os diversos poderes e órgãos do Estado Integralista. O assunto foi explanado por Plínio Salgado, no artigo que tem por título Concepção Integralista do Trabalho, composto há mais de vinte anos.

Nesse artigo, fica demonstrado que a eficiência da administração pública e o funcionamento do Estado, posto ao serviço da comunidade nacional, cifram-se apenas no trabalho dos governantes e dos governados, mobilizado, valorizado e subordinado ao bem comum. E quem poderá negar que a felicidade do povo depende do trabalho de todos os cidadãos e não somente dos favores do Governo?

A liberal democracia vai definhando e morrendo, porque não compreendeu que a força vital da Nação, força conservadora e propulsora, reside no trabalho disciplinado do povo, que cria a riqueza nacional, e não no poder do Estado, que pouco produz, e tira grande parte dos recursos dos que trabalham e produzem realmente. Não é cobrando impostos extorsivos que o Estado promoverá a grandeza da Nação, o progresso econômico e o bem comum do povo. É pelo trabalho, só pelo trabalho, tanto dos homens de governo, como dos homens de empresa, quer dos trabalhadores manuais, quer dos trabalhadores intelectuais. O bem comum só se consegue pelo trabalho coletivo, disciplinado pelas virtudes cristãs.

Pensar é trabalhar, agir é trabalhar, organizar é trabalhar, administrar é trabalhar, produzir é trabalhar, servir é trabalhar, distribuir é trabalhar, zelar é trabalhar, dirimir questões é trabalhar, instituir é trabalhar, educar é trabalhar, aprender é trabalhar, fazer boas obras é trabalhar, dar bons exemplos é trabalhar, corrigir é trabalhar, praticar virtudes é trabalhar, cumprir deveres é trabalhar, observar os mandamentos da Lei de Deus é trabalhar, dominar os maus instintos é trabalhar, combater os vícios é trabalhar, evitar os pecados é trabalhar, salvar a alma é trabalhar, santificar-se é trabalhar, buscar a glória de Deus é trabalhar. Diante disso, poderá ainda subsistir alguma dúvida, sobre o valor do trabalho? Sobre o seu poder criador e conservador? Foi pelo seu trabalho onipotente, que Deus criou o mundo visível e invisível, os seres inanimados e animados. É ainda pelo seu trabalho, providente e eficiente, que Ele conserva e renova a natureza. É pelo seu trabalho de Pai Extremoso e Senhor Soberano, que Ele dirige os destinos dos povos.

Karl Marx era materialista como os burgueses. Por isso, não viu o trabalho de Deus e o trabalho do Espírito Criador. Apenas pôde ver o trabalho manual do homem econômico, e o capital crematístico da burguesia. E só com essas duas muletas, quis fazer caminhar o mundo social, e pretendeu, igualmente, explicar a filosofia da História, pelo dualismo mutilado e manco de sua dialética materialista.

Nós, integralistas, porém, vemos a realidade esplêndida do Universo, em toda a portentosa grandeza do Ser Absoluto, de que dimana a variedade incontável dos seres contingentes. Por isso, tomando em consideração a realidade integral do Ser, só nos satisfaz a Verdade integral. Não nos confinamos em compartimentos estreitos de sistemas filosóficos parciais e fragmentários, mas buscamos a amplidão ilimitada e desembaraçada de uma concepção integral e totalitária do Universo infinito.

Eis porque os racionalistas burgueses e os adeptos do marxismo não nos compreendem, nem nos podem compreender. Isso acontece, porque eles são apenas homens animais, seres humanos incompletos, subordinados a seus instintos inferiores, que se julgam inelutavelmente governados pelo determinismo cósmico, como os ventos e as ondas, como as areias do deserto e as feras da floresta. Por isso, a luz da sua razão é uma lamparina fumacenta, que não lhes permite devassar a grandeza imensa do Universo, em que vivem precariamente, mais como vermes do que como homens.

Seu pensamento rasteja, no lodo pegajoso da matéria, e, como tal, é incapaz de librar-se nas alturas luminosas do espiritualismo cristão.

Só as almas que se elevam arrojadamente até Deus, é que podem contemplar a imensidade suprassensível e maravilhosa do mundo do Ser, do mundo do Saber e do mundo do Dever.

Por ter uma concepção totalitária do Universo, é que nós integralistas repudiamos, teórica e praticamente, o absurdo do Estado totalitário. Pois, o Estado, que no Tempo é posterior à Família, e dela procede, como poderá subordinar a Família a seu absolutismo? Como poderá ser o Estado o valor absoluto e total, se ele não passa de uma instituição social, criada pelo Homem? Primeiro existiu Deus, e Deus criou o Homem. Depois Deus e o Homem criaram a Família. A Família se desenvolveu e formou o clã. Os clãs se uniram e constituíram as tribos. As tribos se unificaram, sob uma autoridade comum, e criaram o Estado municipalista, do tipo das politéias gregas. Por fim, o gênio político de Roma, mediante a eficiente organização militar das suas legiões, e pelo cunho prático da sua cultura e do seu Direito, estabeleceu o Estado nacional, nos moldes gerais, que ainda hoje subsistem. Nós, integralistas, ao invés de termos o propósito estúpido de criar no Brasil um Estado Novo, segundo o modelo fascista ou nazista, cesarista ou bonapartista, pretendemos, com todas as veras de nossa alma e com todas as luzes da nossa inteligência, instaurar um Estado Integral, nacionalista e cristão, ordenado e ordeiro, disciplinado e disciplinador, obediente à Lei de Deus e ao Direito Natural, conservador e preservador do patrimônio espiritual da cultura luso-brasileira, respeitador dos direitos das classes oprimidas e repressor dos abusos dos grupos demagógicos e financeiros, que dilapidam os bens públicos e exploram a economia nacional. Os demagogos, os aventureiros, os harpagões das finanças e os tubarões do comércio são contra nós, não querem o Estado Integral, que acoimam de totalitário. Mas isso não é, por motivos ideológicos, nem por convicções políticas. É somente, tão somente, por motivos pecuniários, por ambições de ganhos fáceis e poderes abusivos. Esses nunca estarão conosco. Mas veremos quem vai vencer, nessa porfiada luta, em que se empenham os idealistas, pelo seu ideal humano e cristão, e os interesseiros, pelo seu interesse desumano e pagão. Deus está do nosso lado! Pois, Ele é a Verdade, e nós estamos com a Verdade. E, se Deus está conosco, nós só não venceremos, dado o caso que Ele não queira, porque venha preferir entregar o povo que o desprezou nas mãos dos seus inimigos, como outrora entregou os hebreus que prevaricaram em poder dos cruéis filisteus. Isso é possível, porque grande parte do nosso povo é responsável pela nossa corrupção moral e política, como de modo geral afirmou o Papa Pio XII, na sua mensagem de Natal de 1942, sobre a Ordem Nova, nestes termos: “Grande parte da humanidade, e, não recusamos dizê-lo, também não poucos dos que se chamam cristãos, entram de algum modo na responsabilidade coletiva do desenvolvimento errôneo, dos danos e da falta de elevação moral da sociedade de hoje em dia”.

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Os quatro pontos da doutrina política do Integralismo, a que atribuí o adequado adjetivo “cardeais”, merecem essa designação, visto que são pontos em torno dos quais, gira tudo quanto se refere à concepção nacionalista e cristã do Integralismo. Como vimos, o primeiro deles constitui o princípio essencial, ou o fundamento principal da doutrina; o segundo é o fim prático, que se tem em mira atingir; o terceiro é o método de difusão da doutrina, isto é, a dialética da ideia, que transita de algumas consciências individuais, para a consciência coletiva, de modo a influir no destino da Nação; o quarto é o processo de execução da Nova Ordem, resultante do funcionamento do Estado Integral, processo esse que constitui a dialética da ação, do movimento integralista, como dinâmica social, livre-arbitrista e finalista. Essa dialética da ação é a passagem do pensamento político da elite dirigente, para o comportamento funcional do Estado, criador da Nova Ordem Nacional.

A Família historicamente foi a célula-ovo, donde procedeu a Nação. Dela também veio o município, isto é, a comunidade regional, de interação direta, que outra coisa não é senão uma federação solidária de famílias.

O Estado também teve o nascedouro na Família, através do patriarcado. O patriarcado que já era o germe da autoridade estatal deu origem à gerontocracia, isto é, ao conselho de anciães, que foi a forma primitiva de governo dos povos oriundos de um mesmo tronco genético. O direito costumeiro, que engendrou o direito civil, nasceu do seio da Família. Foram os “mores” familiares as primeiras normas jurídicas. A Família foi a primeira Escola, e ainda hoje é a Escola, em que começa o nosso aprendizado. A economia antes de ser nacional foi doméstica. A res familiaris antecedeu à res publica. A propriedade familiar foi a origem da propriedade, como fato social. A vida comunitária, de que procedem a vida civil e a vida pública, começou no ambiente familiar. E, para as novas gerações, ainda hoje começa. Na Família, é que adquirimos a nossa individualidade, pela geração, e a nossa personalidade incipiente, pela educação materna. Na Família, é que aprendemos, pela convivência, com os mais velhos, a ser homens sociais, pela prática da solidariedade coordenadora do grupo, pela obediência à autoridade paterna, e pelo exercício consciente da responsabilidade, que livremente nos faz aceitar e cumprir os deveres para com o próximo, mais próximo, que é o consanguíneo. A Família é o repositório das tradições culturais e o sacrário das crenças religiosas. Quando a Família se desintegra, a sociedade se corrompe e os homens degeneram. Quando a Família se dissolve, o povo se desorganiza, e surge o conglomerado inexpressivo e desclassificado da massa, vivendo instintivamente uma vida apenas gregária. Então o controle social só se consegue pela Força. Desaparecem a Religião e o Direito. A moral se torna utilitária e ferozmente individualista. Impera o darwinismo social. Só valem os direitos dos mais fortes e os privilégios dos mais espertos. A coletividade deixa de ser sociedade. Pois, os homens já não são mais sócios. São apenas trabalhadores escravizados. O Estado todo-poderoso e truculento é o dono do rebanho humano, e explora o trabalho coletivo dos trabalhadores, como melhor lhe convém. Manda e goza uma burocracia despótica. Geme e trabalha o proletariado, infeliz. Assim, desaparece a democracia liberal, licenciosa e anárquica, comodista e descuidosa. Da democracia cristã, verdadeiramente cristã, já não existe, nem pode existir, o menor traço. Vigora, apenas, monstruosa e formidável, engordando e crescendo, oprimindo e matando, como a besta do Apocalipse, a democracia popular, a ditadura do proletariado, o Estado-Leviatã de Stalin, ou de qualquer outro deus humano no Ser e desumano no Agir, adorado e temido pelos escravos e fanáticos do regime sem-Deus.

A Família, portanto, é tudo na ordem social. Sem a Família, não pode haver homens integrais, livres filhos de Deus; nem tão pouco haverá um Estado Integral, humanitário e cristão.

É por isso que o Integralismo é a “Revolução da Família”. É por isso, também, que eu sou integralista, como devem ser todos os cristãos, que cônscia e sinceramente amam e servem a Deus, à Pátria e à Família.

Sendo, assim, tão importante a Família, não é de admirar que Jesus Cristo, Mestre e Salvador da Humanidade, tenha dedicado exclusivamente à Família, e à sua manutenção pelo trabalho, pelo trabalho santificado e santificador, a maior parte de sua vida terrena. Pois, durante trinta anos, o Messias Prometido, o Verbo Encarnado, viveu apenas para a felicidade do lar, para o bem da Família.

Somente por espaço de três anos foi que Jesus se entregou de corpo e alma à sua missão divina de pregar o Reino de Deus, de fazer milagres, em benefício dos homens, e de salvar almas, para a glória do Céu.

Todavia, no seio da Sagrada Família, o Filho do Homem, o Homem-Deus que trabalhava honradamente como carpinteiro, crescendo em sabedoria e graça diante de Deus e dos homens, promoveu a salvação das almas mais excelsas e mais santas, entre todas as que salvou e salvará — as almas de Maria Santíssima, sua Mãe, e de São José, Patrono da Igreja Universal. Para salvá-las e santificá-las, pelo seu convívio e pelo seu Amor, foram muito bem empregados os trinta anos, vividos no seio da Família!

Jesus Cristo assim fez, para ser perfeito no amor do próximo, no serviço do próximo, amando e servindo, por tanto tempo, à Família, antes de ocupar-se das coisas do Pai Celeste.

Glória, pois, à Família e ao Trabalho pela Família, que assim foram dignificados, santificados e glorificados pelo próprio Filho de Deus Vivo!

Francisco Galvão de Castro
“Os quatro pontos cardeais do Integralismo”, Enciclopédia do Integralismo, Suplemento, 1960.