Toda a vida de Plínio Salgado foi de luta cerrada. Mas luta por quê? Contra o quê?

Cremos ser possível distinguir os seus inimigos em apenas quatro: o materialismo, a burguesia, o parcialismo e a improvisação.

Materialismo ou espiritualismo

A história assiste à luta entre duas concepções opostas da existência. A primeira é o materialismo, que vem em sua linha pura do naturalismo grego, evoluindo para as formas do nominalismo, do racionalismo e do naturalismo enciclopédico, com o liberalismo e o socialismo. O materialismo concebe o universo segundo suas expressões físicas e o homem segundo sua temporalidade. Ele exclui, desconsidera ou diminui a dimensão imaterial da existência.

A segunda concepção é o espiritualismo. Ele procede da fé dos Patriarcas hebreus. É a concepção cristã da existência. É o que nos ensinam os Evangelhos e a Tradição Cristã. Segundo a ideia espiritualista, a vida é um fenômeno transitório, voltado a uma finalidade superior e transcendente. Existe Deus, existe a Alma e, como consequência, tudo que se relaciona a essas duas ideias. O homem deve trabalhar na terra pela vida imortal de sua alma, que aqui existe em união com o corpo. [1]

Essas duas concepções se combatem. Santo Agostinho traçou a disputa eterna entre a cidade de Deus e a cidade dos homens. A Civilização Cristã medieval levou a filosofia espiritualista ao seu maior grau. A Civilização Moderna revolucionária estendeu às últimas consequências a ideia materialista. Contra a modernidade materialista, Plínio afirma o espiritualismo cristão, base única sobre a qual se pode construir a sociedade humana. É sobre isso que se erguerá o edifício do Estado Integralista, a Quarta Humanidade. [2]

Só através do espiritualismo se pode falar em liberdade, responsabilidade, honestidade, moralidade e personalidade. Só assim pode existir Pátria, Família e Propriedade. Essa tese deve ser levada, com seriedade, às suas consequências.

Burguesia ou Cristo

A Burguesia é a condição de espírito constante e fundamental da Modernidade. Ela está entre os ricos e os pobres. Ela conduz ao materialismo: gerou liberalismo e comunismo; destruiu a civilização cristã; multiplicou as heresias; arruinou as famílias e as pátrias; dizimou as virtudes, dessacralizou o casamento, criou desavergonhados, desonrados, covardes, comodistas, castrados e preguiçosos. É ela que mantém a Civilização Burguesa, cheia de contradições, tão ameaçada, pelos seus inimigos e por si mesma, que é absolutamente insustentável.

Por definição, o Espírito Burguês é o processo psicológico de substituição dos meios pelos fins, e dos fins pelos meios. Na Burguesia, os bens materiais e os sentidos, naturalmente meios para uma finalidade superior, tornam-se fins em si mesmos, a que se dirigem todas as manifestações e realizações de um homem.

Os burgueses são os adoradores de Mamon dos quais nos fala São Mateus, no capítulo 6, versículo 24. “Não podeis servir a Deus e a Mamon”.

Já nos anos 30, o combate ao comunismo não era por outra coisa que por combater a Burguesia:

“O nosso combate ao comunismo é justamente por ser ele ateu como os burgueses; cruel, como os burgueses; sexualista como os burgueses; sem amor aos filhos, às esposas, aos irmãos, aos pais, como os burgueses; e finalmente porque o comunismo é a última consequência de uma civilização materialista em que vive, gozadora, estúpida e brutal, uma burguesia que tolera nos seus próprios salões ridículos os literatos comunistas, burguezotes esnobes”. [3]

O contrário do Espírito Burguês começa em nós mesmos. Não servindo a Mamon, servir a Deus, assumindo o estado de espírito próprio dos seus: O Espírito de Cristo, da humildade, que é o da vida integral, retidão religiosa, honestidade e bondade. [4]

É preciso assumir aquilo que Plínio Salgado chamou de “Revolução Interior”, como único meio para a solução dos problemas sociais, políticos e econômicos do mundo. Essa Revolução deve partir da meditação sobre Cristo, confiando na graça do Altíssimo: “Uma vez que não há modelo na terra que vos sirva de padrão para vosso esforço no rumo do ‘perfeito’, lembrai-vos do Inocente que foi pregado na cruz. Ele é o Cordeiro que tira os pecados do mundo. Só Ele nos poderá indicar os seguros caminhos. […] Essa batalha tremenda nós só poderemos ganhá-la contra nós mesmos, pela meditação diária, na hora dos profundos silêncios e desamparadas solitudes, sem outro ponto de referência senão nossa própria luz interior, acerca da vida [de Jesus]”. [5]

Esse espírito de Cristo, operado na Revolução Interior, trará a solução dos graves problemas causados ao mundo pela Civilização Burguesa. Sem isso, toda revolução exterior será infrutífera. Portanto, “esta Revolução Integralista é, principalmente, dirigida contra nós mesmos”.

Parcialismo ou Integralismo

O parcialismo é a consideração das realidades segundo apenas um ou outro dado em prejuízo do conjunto. Dessa incapacidade de integração das coisas surgiu, também, a burguesia, que, por outro lado, a generalizou.

Em contrário é que o Chefe levanta seu Integralismo: “O Integralismo é a doutrina que decorre de uma filosofia integral. Afirmo que, depois do relativismo de Einstein, da física nuclear, não podemos ter do universo – e consequentemente do homem, da sociedade, das nações – visões parceladas e unilaterais. Não há problemas isolados, mas todos interrelacionados, não sendo possível resolver determinada questão sem uma visão do conjunto e da correlatividade dos fenômenos; a medicina moderna, principalmente depois da biotipologia de Nicola Pende, mostra-nos que o corpo humano funciona em conjunto, pela interdependência dos órgãos e das glândulas de secreção interna. Do mesmo modo, a nação: podemos nos unilateralizar visando este ou aquele problema, todos se interferem. O mundo é a unidade diferenciada a que se referia Aristóteles. Uma só lei rege os astros e os elementos constitutivos do átomo. Uma só lei rege o homem, como indivíduo e pessoa, como rege suas comunidades nacionais. Baseado nessa doutrina, tiro as conclusões sociológicas e políticas”. [6]

LEIA TAMBÉM  Gustavo Barroso, nazista?

Será Mircea Eliade nos recordando que “não existe heresia monstruosa, orgia infernal, crueldade religiosa, loucura, absurdo ou insanidade mágico-religiosa que não seja ‘justificada’, no seu próprio princípio, por uma falsa — porque parcial, incompleta — interpretação de um grandioso simbolismo”. [7]

Assim também todas as ideologias modernas surgiram desse esfacelamento da Verdade. A realidade tem seus aspectos diversos hipertrofiados ou hipotrofiados.

Vem o marxismo, com a economia, ou o liberalismo político, com a sociedade civil, ou o liberalismo econômico, com o livre mercado. A história da filosofia após a Escolástica até Husserl foi um self-service da Verdade. Nas ciências, o evolucionismo, o sociologismo, o positivismo, o naturalismo, os mecanicismos (biológicos, sociais, físicos de todas as ordens).

Onde se refugiou a integração dos fragmentos da Verdade na Verdade toda?

Daí a Síntese. Mas Síntese com justiça e com Cristo. Retorno à unidade inicial, anterior às partes. [8]

Síntese no Homem, agora homem integral, na hierarquia mas concretude das suas justas aspirações, no equilíbrio das suas naturezas, na compreensão da sua existência situada. [9]

Síntese da sociedade, considerada em todos os seus membros. Não existe problema que se resolva isolado; não existe grupo que se salve sozinho; não existe projeto que sobreviva sem a apreciação cuidadosa de todos os fatores.

Foi essa, por exemplo, sua luta contra os partidos, responsáveis por dividir a Nação e valorizar interesses particulares acima dos interesses conjuntos nacionais. [10]

E síntese da nação, nos valores que a ela subordinam e se subordinam, nos seus grupos naturais, nas suas categorias morais e sociais. Todos os fenômenos considerados na relação holística com o Todo. [11]

Improvisação ou ordem

Enfim, Plínio Salgado é a ordem. A improvisação é o caos.

Tim Harford, o maior defensor da bagunça, ainda lembra que o nosso ímpeto inato pela ordenação não poderia ser um instinto tão enraizado senão porque é importante à sociedade. [12]

A própria ideia de cosmos é uma ideia de ordem. Se tudo está integrado, se nada se separa, tudo deve ser considerado, ordenado, dirigido aos valores superiores e subordinados, conciliado com as necessidades paralelas. Os grupos, indivíduos, problemas, recursos, aspirações, ameaças, se solucionados pelo improviso, criarão problemas ainda mais profundos uns aos outros. [13]

Por isso toda a sua doutrina possa, talvez, se resumir a uma só palavra: Ordem. Ordem desde a raiz. Daí que Gustavo Barroso, atendendo à pergunta “Afinal de contas, que é Integralismo?”, encontrasse a resposta “nesta única e curta definição: Integralismo é organização”. [14]

Assim, uma vez conforme à visão dos problemas em conjunto, o segundo grande imperativo de qualquer Nação é esse: “Raciocinar a longo prazo a fim de evitar as soluções de emergência, nas horas em que, pela incúria dos responsáveis, os crimes se manifestam”. [15] Resolver todos os problemas em profundidade, desde a raiz, sem jamais se contentar com as soluções rasas que não vão além da superfície.

Deus, Pátria e Família

Contra os quatro problemas, sua divisa imortal. Deus, Pátria e Família. É a mesma de Santo Ambrósio. [16]

Deus, Jesus Cristo, presente na Igreja e base de toda a Civilização Cristã. [17]

A Pátria Brasileira, una e forte, não geográfica, mas histórica, social e moral, que se estende da história de Portugal e carrega todos os feitos grandiosos dos nossos heróis em qualquer tempo e regime.

A Família, ou as realidades mais afetivas e concretas dos homens: aquelas em que vivem no dia a dia, aquilo pelo qual ainda são humanos e onde recebem e praticam todas as virtudes.

Pelo bem do Brasil!

Matheus Batista
Suplente de Secretário-Geral da Frente Integralista Brasileira

Referências

[1] As distinções e conceituações são feitas por Plínio Salgado em O que é o Integralismo, O conceito cristão da Democracia e Espírito da Burguesia. Ele identifica suas origens em A quarta humanidade.

[2] Plínio Salgado, A quarta humanidade.

[3] Plínio Salgado, Cartas aos camisas-verdes, p. 93.

[4] Cf. Plínio Salgado, Espírito da burguesia. No mesmo sentido: Nikolai Berdiaev, O espírito burguês, in Uma nova Idade Média.

[5] Idem, Cartas aos camisas-verdes, p. 135, 138. Para o exercício dessa Revolução Interior, Plínio Salgado legou-nos sua obra-prima, Vida de Jesus, que ensina o exemplo de Cristo para nossa vida.

[6] Entrevista com José Carlos Badawil, Veja, 13 de maio de 1970, p. 23.

[7] Mircea Eliade, Imagens e símbolos, p. 12.

[8] Cf. Plínio Salgado, A quarta humanidade.

[9] Cf. Plínio Salgado, Direitos e deveres do homem. Ainda sobre a leitura integralista do homem, vide nosso estudo, Iniciação ao estudo do Integralismo.

[10] Cf. João Carlos Fairbanks, Que é Integralismo?.

[11] Cf. o discurso de trigésimo aniversário da Ação Integralista Brasileira, por Plínio Salgado. A hierarquia integralista dos valores está sinteticamente exposta nas Diretrizes Integralistas.

[12] Tim Harford, Messy, p. 16.

[13] Cf. Plínio Salgado, Discursos parlamentares. A questão se encontra melhor explicada em nossa Iniciação, cit. acima. Também João Carlos Fairbanks, A estatística e o Integralismo.

[14] Gustavo Barroso, Espírito do século XX, p. 173.

[15] Entrevista com Daniel Linguanotto, Manchete 165, 18 de junho de 1955, p. 34.

[16] Santo Ambrósio de Milão, De officiis ministrorum, l. I, c. XXVII.

[17] Cf. Plínio Salgado, Primeiro, Cristo!.