Em 3 de outubro de 1923, a coluna de Escotismo da revista O Tico-Tico (n° 939, p. 10) apresentava um relatório de Bienevenuto Cellini sobre um acampamento realizado pelos Escoteiros do Mar em Niterói. A certo ponto, Cellini, o Jaboty-été, relata o comparecimento dos índios Anuzês. Se apresentando, sob seu upó Tikenê, eles prestaram homenagem à Bandeira do Brasil e, estendendo os braços direitos aos índios Aritis, “clamaram compassadamente”:

“Aná-u-ê! Aná-u-ê! (saudação de quem chega).

Ouviu-se logo a resposta dos Aritis, que na mesma posição clamaram por sua vez: 

Anê-rê! Anê-rê! (saudação de quem está)”.

São muito abundantes os registros escoteiros posteriores da saudação “Anauê”. A União dos Escoteiros do Brasil apresentava, com efeito, na edição de 9 de março de 1932, sua saudação oficial como “Anauê”, que, do tupi, se verteria “Salve”. Salve? Você é meu irmão?

Muito já se discutiu a etimologia da referida saudação. Gustavo Barroso, na linha de Teodoro Sampaio e Couto de Magalhães, a fazia derivar de uma corrupção do binômio “Enecoema” e “yauê”, saudação e resposta dos tupis, donde “eneyauê”, aproximável, respectivamente, da mística numerológica do nove (ENN) e do nome bíblico do Deus verdadeiro, Yahweh. “Ene” traria também um senso de elevação à Divindade: “Deus te abençoe”, etc. 

O erudito etnógrafo Pe. Constant Tastevin, duvidando dessa abordagem, associaria Anauê a Ndawé (pronunciado com precedência de e mudo), que deriva de e equivale a Yawé-té, vulgares respostas geograficamente diversas a todas as saudações indígenas, matutina, vespertina, noturna, etc. O termo vem traduzido como “É verdade!” ou “É isso mesmo!”. E Ndawé, o indauê, corromperia-se, gradualmente, no nheengatu, em Anauê. Seria Anauê, então, a resposta confirmativa da língua geral a todas as saudações. 

Câmara Cascudo não se contenta com o Pe. Tastevin. Baseado em suas pesquisas, ele credita o Anauê a um neologismo da língua geral promovido pela catequese. Um de muitos. E seria construído dessa maneira: a-nâ-iauê. O “a” corrompido, o “nâ” de “fundido, junto, unido” e “iauê” como “mesmo, igual”. Seria assim: “eu junto com os iguais”, “eu reunido aos iguais”, etc. É, por lógica, um grito de solidariedade, união e unificação. Um clamor pela unidade com os iguais. Um grito, um sinal, uma ordem.

É isso o Integralismo. É isso que transparecemos a todo momento. Em nossos uniformes, a união indistinta e igual de todos os brasileiros. Em nosso Sigma, a soma e integração de todos os brasileiros no esforço maior da Pátria. Em nossa saudação, a fusão de todos os corações num mesmo espírito nacional.

Os indígenas, logo fica claro, não devem ter importado sua “estética” de qualquer “totalitarismo estrangeiro”… Daí também que, com franqueza, se dirigindo a Getúlio Vargas em 1938, Plínio Salgado pontuasse: “o gesto indígena de braço para o ar não é a saudação romana [de cunho fascista], que seria horizontal”. Saudação, porém, que, a bem da verdade, pela saudação de Bellamy, era e é, até hoje, alheia a qualquer regime político, um universal gesto de juramento, presente mesmo no juramento brasileiro à Bandeira pelo alistamento militar masculino.

Estendamos a destra.

Clamemos, então, não segundo a mística dos outros povos, mas consoante as mais profundas das nossas tradições telúricas, num clamor moral pela unidade nacional do Brasil e pela indivisibilidade dos brasileiros:

Anauê!

Matheus Batista
Suplente de Secretário-Geral da Frente Integralista Brasileira

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