O marxismo é um conjunto de proposições de natureza histórica, sociológica e econômica que formam um sistema filosófico, voltado para a ação revolucionária.[1] Como frisou Heraldo Barbuy, dentre as diversas afirmações do marxismo, algumas são totalmente inverificáveis, enquanto outras puderam, em suas palavras, “ser confrontadas com a experiência e foram pela experiência refutadas”.  No marxismo, porém, nos dizeres do autor de O problema do Ser (Heraldo Barbuy), “tanto as proposições inverificáveis, quanto as que foram refutadas pela prática, funcionam como um sistema religioso”. Destarte, “as críticas racionais e a contestação do marxismo pelos fatos, têm sido completamente inúteis em face da eficiência que o sistema tira do seu caráter religioso”.[2]

Sistema que, na expressão de Restituto Sierra Bravo, “exalta exageradamente a liberdade humana em todos os campos da vida e do homem, social, econômico, psíquico, moral e sobrenatural”, propugnando a independência, mais ou menos plena, “desta liberdade da lei divina e moral”,[3] o liberalismo é, tanto quanto o marxismo, uma religião ou, mais precisamente, uma falsa religião.

Podemos dizer que, dentre as proposições do liberalismo, algumas são plenamente inverificáveis, enquanto outras puderam ser confrontadas com a experiência e foram por esta inteiramente refutadas, mas tanto as críticas racionais ao liberalismo quanto a contestação deste pelos fatos têm sido totalmente inúteis em face da eficiência que tal sistema tira de seu caráter religioso.

Credo unilateral do século XVIII, o liberalismo está morto há muito, mas seus adeptos insistem em carregar o seu cadáver, assim como os cadáveres de seus ídolos. Dentre tais ídolos se encontra o “deus mercado”, verdadeiro Moloch a que se têm sacrificado não apenas crianças, mas todos os povos e nações da Terra, e que, lamentavelmente, tem sido muito adorado no Brasil nos últimos anos.

Com efeito, o liberalismo econômico, que considera a atividade econômica independente e separada de toda moral, que põe como motor de tal atividade a busca pela obtenção de lucro monetário e que vê o homem não como sujeito, mas como objeto da economia,[4] cultuando o “deus mercado”, tem sido o campo do liberalismo que mais tem florescido em nosso País, única grande Nação do Mundo, aliás, em que o prestígio do credo liberal é atualmente ascendente e não descendente. A propósito, a frase de Perillo Gomes segundo a qual “liberal é o termo de maior prestigio em nosso meio”[5] é hoje, infelizmente, muito mais válida do que no já longínquo momento em que foi escrita.

Sustentando uma liberdade absoluta tanto na vida pública quanto na particular, tanto no que se refere ao Estado como no que diz respeito à vida econômica e à Religião, o liberalismo, de forma geral, tem sido, nos dizeres de Plínio Salgado, “a origem de todos os erros políticos (…) o responsável por todos os erros modernos”.[6]

Sistema de ideias fundado na plena autonomia do indivíduo, tem sido o liberalismo a filosofia da burguesia[7] e, mais do que isso, a verdadeira falsa religião da burguesia, burguesia esta que, em última análise, antes de ser uma classe, é um estado de espírito,[8] uma atitude em face da vida e do Mundo, uma mentalidade presente não só na assim chamada classe burguesa, mas em todas as classes componentes da Sociedade e caracterizada, antes e acima de tudo, pelo materialismo e pela busca constante de riquezas materiais e de prazeres.

Fonte, em última instância, de todas as heresias e desgraças contemporâneas, o falso conceito de liberdade do liberalismo tem sido um instrumento de escravização dos homens e não uma garantia de sua dignidade.[9] Erro incompatível tanto com a sã Filosofia quanto com a Revelação, o falso credo liberal, por meio de seu equivocado conceito de liberdade, conduz o homem à escravidão do pecado, à escravidão econômica e à escravidão política.

Destarte, a falsa e licenciosa liberdade do liberalismo, que não faz qualquer distinção entre o bem e o mal,[10] acaba por levar à tirania e à morte das justas liberdades da pessoa humana, donde Plínio Salgado haver afirmado que “o liberalismo é o pior inimigo da liberdade”.[11] O mesmo não ocorre, porém, com a verdadeira concepção de liberdade, segundo a qual a liberdade não é um bem supremo e válido por si mesmo e existe liberdade apenas para o bem, sendo a liberdade, em última análise, não o direito de se fazer aquilo que bem se entende, mas sim a faculdade de cada ente humano de cumprir seus deveres e exercer seus direitos, cujas bases se encontram na Lei Natural, dentro de uma ordem estabelecida para assegurar as liberdades de todos.

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Com efeito, a verdadeira liberdade só pode subsistir quando as diversas liberdades que a compõem, incluindo as chamadas liberdades políticas concretas,[12] são mantidas num sistema em que imperem a ordem, a disciplina e a hierarquia dos princípios morais e intelectuais e em que sejam afirmados os princípios doutrinários em que tal liberdade se baseia,[13] tendo-se sempre em conta que não há verdadeira liberdade contra a Lei Natural e a Lei Divina.

Assim sendo, devemos dizer que nos opomos à falsa liberdade do falso credo liberal, mas não à autêntica liberdade, defendendo, como García Moreno, o grande presidente-mártir do Equador, liberdade para tudo e para todos, exceto para o mal e os malfeitores, ou, em outros termos, liberdade para o bem e para os bons e severidade para o mal e para os maus.

Conscientes de que o liberalismo, formalmente condenado pela Igreja em todos os seus graus e aspectos,[14] é, na frase de Plínio Salgado, a “doença mortal da verdadeira liberdade”,[15] assim como é o caminho para a escravidão da maior parte do povo, proclamamos que é preciso mostrar a todos que tal sistema é uma falsa religião morta cujo cadáver não pode e não deve mais ser carregado.

Por Cristo e pela Nação!

Victor Emanuel Vilela Barbuy
Secretário Nacional de Doutrina e Estudos da Frente Integralista Brasileira.

Notas:

[1] Cf. Heraldo BARBUY, Marxismo e Religião, 1ª edição, São Paulo, Dominus, 1963, p. 3.

[2] Idem, loc. cit.

[3] La persona humana en el magisterio social de Pio XII, Madrid, Editorial Aguilar, 1960, p. 3.

[4] Idem, p. 4.

[5] O liberalismo, Prefácio de Tristão de Athayde (Alceu Amoroso Lima), Barcelona, Imprenta Boada, 1933, p. 17.

[6] Pio IX e o seu tempo (prefácio à obra Pio IX, de Villefranche), 3ª edição, in Obras Completas, 2ª edição, Volume XI, São Paulo, Editora das Américas, 1957, p. 404-405.

[7] Cf. Tristão de ATHAYDE (Alceu Amoroso Lima, Prefácio, in Perillo GOMES, O liberalismo, cit., p. 11.

[8] Cf. Plínio SALGADO, Espírito da burguesia, 3ª edição, in Obras completas, 2ª edição, Volume XV, São Paulo, Editora das Américas, 1957, p. 11. Sobre o espírito burguês, vide também, dentre outros, Tristão de ATHAYDE (Alceu Amoroso Lima) [Problema da burguezia, Rio de Janeiro, Schmidt, 1932; “Catholicismo burguez”, in A Ordem, nº 62 (nova série), Rio de Janeiro, abril de 1935, pp. 257-266], Nikolai BERDIAEFF (De l’esprit bourgeois, Tradução francesa de Elisabeth Bellençon, Paris, Delachaux et Niestlé S. A, 1949), Max SCHELER (Vom Umsturz der Werte, Bern, Francke, 1955) e Werner SOMBART (El burgués: contribución a la historia moral e intelectual del hombre economico moderno, tradução castelhana de Víctor Bernardo, Buenos Aires, Oresme, 1953).

[9] Pio IX e o seu tempo, cit., p. 403.

[10] Cf. Francisco Galvão de CASTRO, Os quatro pontos cardeais do Integralismo, Suplemento da Enciclopédia do Integralismo, Rio de Janeiro, Livraria Clássica Brasileira, 1960, pp. 22-23.

[11] Pio IX e o seu tempo, cit., p. 413.

[12] Sobre as liberdades concretas: Francisco Elías de TEJADA, Libertad abstracta y libertades concretas, in Verbo, número 63, Madrid, 1968, pp. 149 e seguintes; José Pedro Galvão de SOUSA; Clovis Lema GARCIA; José Fraga Teixeira de CARVALHO, Dicionário de Política, São Paulo, T. A. Queiroz, 1998, pp. 320-323.

[13] Cf. Plínio SALGADO, Pio IX e o seu tempo, cit., p. 414.

[14] Cf. Félix SARDÁ Y SALVANY, “O liberalismo é pecado”, Tradução não assinada, São Paulo, Companhia Editora Panorama, 1949, p. 37.

[15] Mensagens ao Mundo Lusíada”, 5ª edição (na verdade 6ª), in “Primeiro, Cristo!”, 4ª edição (na verdade 5ª), São Paulo, Voz do Oeste; Brasília, INL (Instituto Nacional do Livro), 1979, p. 142.

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