A Ação Integralista Brasileira surgiu oficialmente a 07 de outubro de 1932, com a divulgação do denominado Manifesto de Outubro, de Plínio Salgado, lido por este em tal data no Teatro Municipal de São Paulo e remetido no mesmo dia a diversos pontos do País.

A mensagem essencialmente cristã e brasileira do Manifesto de Outubro espalhou-se rapidamente por todo o Brasil. Em pouco tempo a Ação Integralista Brasileira (AIB) já reunia centenas de milhares de membros e outros tantos simpatizantes em toda a Terra de Santa Cruz, constituindo o primeiro “movimento de massas” e o primeiro partido de âmbito nacional do País desde o fim do Império, realizando a maior obra cívica de que se tem notícia em nossa História e reunindo várias dezenas de intelectuais da mais alta projeção, que constituíam, segundo Miguel Reale, “o que havia de mais fino na intelectualidade da época”[1] e, no dizer de Gerardo Mello Mourão, o “mais fascinante grupo da Inteligência do País”.[2]

Em maio de 1937, a AIB, bastante fortalecida após os Congressos de Vitória, em 1934, e Petrópolis, em 1935, iniciou um plebiscito interno para decidir qual seria o seu candidato às eleições presidenciais que se realizariam no princípio do ano seguinte. Nesta ocasião, Plínio Salgado, Chefe Nacional da AIB, proferiu um discurso intitulado Salvemos a Democracia!, nele ressaltando o caráter democrático do movimento cívico-político por ele fundado e da escolha do candidato da AIB à sucessão presidencial, em nítida contraposição ao método autocrático dos demais partidos.[3]

A consulta plebiscitária encerrou-se no dia 30 de maio, sendo Plínio Salgado, que recebera oitocentos e quarenta e seis mil, trezentos e cinquenta e quatro votos, o escolhido para concorrer à suprema magistratura da Nação pela AIB.[4]

A 12 de junho de 1937, na sessão soleníssima das Cortes do Sigma, no Rio de Janeiro, quando foi proclamado candidato da AIB à sucessão presidencial, Plínio Salgado pronunciou célebre discurso intitulado Cristo e o Estado Integral. Neste discurso, Plínio afirma, em suma, que o “Estado Integral” é essencialmente “o Estado que vem de Cristo, inspira-se em Cristo, age por Cristo e vai para Cristo”, e proclama sua crença em “Deus Eterno”, na “Alma Imortal”, em seu “poder optativo, deliberativo” e em sua “capacidade de interferência nos fatos históricos, levantando as multidões e conduzindo-as”, bem como em “Cristo e na luz que d’Ele desce”. Sublinha, ademais, que fora por Cristo que se levantara; por Cristo que queria um “grande Brasil”; por Cristo que ensinava “a doutrina da solidariedade humana e da harmonia social”; por Cristo que lutava; por Cristo que conclamava os integralistas e os conduzia; por Cristo que batalharia[5].

O programa com o qual a AIB concorreria às eleições à Presidência da República, o denominado Manifesto-Programa, fora redigido por Plínio Salgado em 1936. Tal Manifesto foi muito bem resumido pelo escritor, jornalista e enciclopedista Alarico Silveira, que, havendo lembrado que a AIB, se apresentando às eleições presidenciais de 1938, proclamava, por meio da palavra de seu Chefe Nacional, sua escala de valores, que fazia prevalecer “o Espiritual sobre o Moral, o Moral sobre o Social, o Social sobre o Nacional e o Nacional sobre o Particular”[6], passou a enumerar as principais diretrizes do programa integralista:

Em seu programa de realizações, se elevado ao governo, incluía [o Chefe Nacional da AIB] a organização corporativa do Estado, por meio da organização sindical dos municípios e das “províncias”. A criação da Câmara Corporativa Econômica e do Senado (constituído pelas corporações não econômicas); a eleição, pelo Congresso, do chefe do governo; a criação de um Ministério da Economia Nacional, a planificação econômica do país, a organização de um sistema bancário nacional, a revisão dos contratos de empréstimos nacionais e internacionais, a organização de cooperativas de produção, crédito e consumo, a unificação do aparelho de arrecadação de impostos; aumento do poderio armado, com a criação de um Ministério da Aeronáutica; intangibilidade da magistratura, através da unificação do direito subjetivo e adjetivo; criação da magistratura do trabalho, transformação dos sindicatos em órgãos de direito público, ampliação das funções sindicais, subordinação dos contratos individuais de trabalho às normas estabelecidas pelas convenções coletivas de trabalho; incentivo às artes, à educação; elevação da “dignidade da imprensa”, tudo subordinado ao lema de propraganda: Deus, Pátria e Família[7].

Em outubro de 1937, a AIB, em plena expansão, contava, segundo seu jornal oficial, o Monitor Integralista, da cidade do Rio de Janeiro, então Distrito Federal, com um milhão trezentos e cinquenta e dois mil membros distribuídos em três mil e seiscentos núcleos, alguns dos quais no exterior e na denominada “Província do Mar”, isto é, nos navios de nossa Marinha de Guerra e de nossa Marinha Mercante[8]. Contava, ainda de acordo com o Monitor Integralista, com oito grandes diários: A Ofensiva, do Rio de Janeiro, fundado pelo Chefe Nacional Plínio Salgado e dirigido por Madeira de Freitas; A Ação, de São Paulo, fundado e dirigido por Miguel Reale; O Imparcial, da Bahia; Diário do Nordeste, do Recife; A Província, de Maceió; A Razão, de Fortaleza; Ação, de São Luís do Maranhão, e Correio da Noite, de Porto Alegre. Estariam em circulação, em breve, segundo o referido jornal, mais dois grandes diários integralistas, um em Curitiba e o outro em Belo Horizonte. Além destes grandes diários, contava a AIB com cento e cinco hebdomadários e quinzenários espalhados por todas as Províncias, com três revistas ilustradas (Anauê! e Brasil Feminino, do Rio de Janeiro, e Sigma, de Niteroi), uma revista de alta cultura (Panorama, de São Paulo, fundada e dirigida por Miguel Reale), o próprio Monitor Integralista e cerca de três mil boletins, semanais e quinzenais, impressos ou mimeografados, referentes ao serviço dos diferentes núcleos da organização.[9]

As chances de Plínio Salgado nas eleições não eram poucas, como reconheceu Carlos Henrique Hunsche em sua tese intitulada Der Brasilianische Integralismus e defendida perante a Universidade Friedrich Wilhelm, em Berlim, a 29 de junho de 1938.[10] Na enquete realizada pelo vespertino A Noite, do Rio de Janeiro, Plínio Salgado ficou em primeiro lugar com oitenta e oito mil quinhentos e quarenta e sete votos, ficando em segundo lugar o Sr. Getúlio Vargas, que sequer era candidato, com dezesseis mil e quarenta e sete votos.[11]

As eleições presidenciais não foram, contudo, realizadas, uma vez que Getúlio Vargas, se aproveitando da divulgação do “Plano Cohen” – farsa criada por Góis Monteiro, que se apoderou de um documento escrito por Olympio Mourão Filho, simulando como seria uma revolução comunista, e o divulgou como se autêntico fosse[12] -, instaurou, a 10 de novembro de 1937, o Estado Novo.

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No início do Estado Novo, Getúlio Vargas pretendia dar o Ministério da Educação a Plínio Salgado ou a quem este indicasse. Uma vez que não concordava com certos princípios da Carta de 1937, por ele considerados totalitários, Plínio Salgado não aceitou o Ministério, permitindo, no entanto, que algum outro integralista o assumisse. Numa reunião dos principais líderes da Ação Integralista Brasileira foi escolhido o nome de Gustavo Barroso para ocupar o Ministério, tendo sido essa decisão transmitida a Francisco Campos, então Ministro da Justiça, que intermediava as negociações entre Vargas e os integralistas a propósito do aludido Ministério. Contudo, Francisco Campos, que admirava Plínio Salgado mas não gostava nem um pouco de Gustavo Barroso, não transmitiu a decisão ao presidente-ditador, de modo que o Ministério da Educação acabou não sendo dado a um integralista.[13]

A 03 de dezembro de 1937, Vargas – que, ao criar o Estado Novo, fechara o Congresso e revogara a Constituição de 1934, outorgando nova Carta, de autoria de Francisco Campos e de acentuado caráter autoritário – decretou a dissolução de todos os partidos políticos, incluindo a AIB. Esta, segundo Plínio Salgado, obteve a permissão verbal do ditador para continuar funcionando como entidade cultural e educacional, com o nome de Associação Brasileira de Cultura (ABC). Enquanto, porém, Alcibíades Delamare, advogado e correligionário de Plínio Salgado, promovia o registro da nova entidade e levava os papéis a Francisco Campos, que protelou o despacho o quanto pode, deixando, por fim, de dá-lo, os interventores de alguns Estados e o Chefe de Polícia do Rio de Janeiro, Filinto Müller, desencadeavam violenta perseguição contra os integralistas, prendendo líderes e depredando sedes.[14]

Meses depois do fechamento da AIB, mais precisamente a 11 de Maio de 1938, um grupo de integralistas liderado por Belmiro Valverde atacou, juntamente com o Tenente Severo Fournier, conhecido liberal, o Palácio Guanabara, residência de Vargas e de sua família, com o objetivo de depor o ditador e prendê-lo. Este precipitado ataque, desferido, segundo Plínio Salgado, à revelia sua e dos demais líderes do movimento pela deposição de Vargas e pela redemocratização do País, que se formava havia meses, custou a desarticulação de todo este movimento, bem como do próprio Movimento Integralista, que seguia forte, a despeito de a AIB haver sido dissolvida, como restou dito, a 03 de dezembro de 1937, e custou, ademais, a prisão de milhares de pessoas, muitas das quais barbaramente torturadas e algumas até fuziladas, e a consolidação de uma ditadura que, na expressão de Plínio Salgado, “desgraçou o Brasil durante oito anos”.[15]

A despeito de lamentar o fato de o ataque ao Palácio Guanabara haver sido precipitado e dado à revelia dos líderes do amplo movimento que então se formara em prol da derrubada do chamado Estado Novo, não podemos deixar de reconhecer jamais o valor dos camisas-verdes que participaram do glorioso Levante de 11 de Maio, Levante que deve ser sempre recordado como um heroico ato de um pugilo de autênticos patriotas e nacionalistas na acepção integral, sadia e edificadora do vocábulo e cujos mortos, a maioria fuzilada pelo criminoso Benjamim Vargas, irmão do ditador, devem ser reverenciados como lídimos mártires do Movimento do Sigma, assim como do Brasil Profundo, Autêntico e Verdadeiro.

Cumpre assinalar que entre os atacantes do Palácio, todos Integralistas, com exceção do covarde Severo Fournier, que dali acabou fugindo, encontravam-se o chamado “Almirante Negro” João Cândido, principal líder da denominada Revolta da Chibata, de 1910, e o Príncipe D. João Maria de Orleans e Bragança, neto da Princesa Isabel, que, aliás, residira, por vários anos, no Palácio Guanabara, de que era proprietária.

Encerramos estas linhas prestando nossa homenagem aos jovens brasileiros e camisas-verdes que tombaram no Levante de 11 de Maio de 1938, sonhando um Brasil Maior e Melhor, reconduzido às vias que lhe foram traçadas pela Divina Providência. A esses homens, que viveram pouco neste Mundo mas morreram como autênticos heróis do Brasil Integral e vivos estão e sempre estarão em nossos corações, demos três “Anauês”:

Anauê! Anauê! Anauê!

Victor Emanuel Vilela Barbuy
Presidente Nacional da Frente Integralista Brasileira

Notas:

[1] Entrevista concedida ao Jornal da USP. Disponível em: http://espacoculturalmiguelreale.blogspot.com/2007/08/entrevista-concedida-pelo-prof-reale-ao.html. Acesso em 11 de Maio de 2019.

[2] Entrevista concedida ao Diário do Nordeste. Disponível em: 11 de Maio de 2019.

[3] Cf. LOUREIRO, Maria Amélia Salgado. Plínio Salgado, meu pai. São Paulo: Edições GRD, 2001, p. 222.

[4] NOGUEIRA, Rubem. O homem e o muro: memórias políticas e outras. São Paulo: Edições GRD, 1997, pp. 167-168.

[5] SALGADO, Plínio. O Integralismo perante a Nação. 2ª ed. In SALGADO, Plínio. Obras Completas. 2ª ed., vol. IX. São Paulo: Editora das Américas, 1957, pp. 200-203.

[6] Tal hierarquia de valores aparece, pela primeira vez, nas Diretrizes Integralistas, redigidas em 1933 por Plínio Salgado, com a colaboração de Miguel Reale e do monge beneditino Dom Nicolau Flue Gut, e aprovadas pelo Padre Leonel Franca, da Companhia de Jesus. As

Diretrizes Integralistas estão disponíveis em: https://www.integralismo.org.br/novo/?cont=123&vis. Acesso em 28 de julho de 2010.

[7] SILVEIRA, Alarico. Enciclopédia Brasileira, tomo I. Rio de Janeiro: INL, 1958.

[8] Monitor Integralista, ano V, nº 22, 7 de outubro de 1937, p. 4.

[9] Idem, p. 7.

[10] HUNSCHE, Carlos Henrique. O Integralismo brasileiro. Porto Alegre: Centro de Documentação AIB/PRP, 1996, p. 101.

[11] Cf. HUNSCHE, Carlos Henrique. O Integralismo brasileiro, cit., loc. cit.

[12] CARNEIRO, Glauco. História das revoluções brasileiras. 2ª ed. Rio de Janeiro: Editora Record, 1989, pp. 360-361; MOURÃO FILHO, Olympio. Memórias: a verdade de um revolucionário, apresentação e arquivo de Hélio Silva. 2ª ed. Porto Alegre: L&PM Editores, 1989, pp. 62-70; NOGUEIRA, Rubem. O homem e o muro: memórias políticas e outras, cit., pp. 177-189; TELLES JUNIOR, Goffredo. A folha dobrada: lembranças de um estudante. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1999, pp. 136-137.

[13] Cf. MELO, Olbiano de. A marcha da revolução no Brasil. Rio de Janeiro: O Cruzeiro, 1957, p. 124.

[14] SALGADO, Plínio. Livro verde da minha campanha. Rio de Janeiro: Livraria Clássica Brasileira, 1956, p. 106.

[15] Idem, p. 114.

Publicado em 11 de Maio de 2019 e revisto em 11 de Maio de 2020.