Segue o texto de Victor Emanuel Vilela Barbuy, ex-Presidente Nacional e atual Secretário Nacional de Doutrina e Estudos da Frente Integralista Brasileira, que serviu de base à palestra proferida por este no último dia 14 de março, por ocasião da posse da nova Diretoria da FIB.

 

DOIS LIVROS

 

O escritor Octavio de Faria, autor da monumental Tragédia burguesa, série de romances que o consagrou como um dos maiores romancistas católicos de todo o Mundo, publicou, em 1935, a obra Dois poetas, em que tratou de dois dos maiores vates brasileiros, que não por acaso militaram nas fileiras da Ação Integralista Brasileira: Augusto Frederico Schmidt e Vinícius de Moraes. Inspirado no título deste grande livro do autor de Maquiavel e o Brasil e Mundos Mortos (Octavio de Faria), resolvi intitular Dois livros a presente palestra, que trata, com efeito, de dois livros, de dois dos principais livros integralistas da última década, a saber “Existe um pensamento político brasileiro?”, Existe, sim, Raymundo Faoro: o Integralismo!: Uma nova geração analisa e interpreta o Manifesto de Outubro de 1932 de Plínio Salgado, lançado pelas Edições GRD, de São Paulo, em 2015, e Plínio Salgado, hoje: Uma nova geração passa a limpo o Chefe Integralista, publicado em 2019 por EAC Editor, de Rio Branco, em parceria com a editora ArteSam, de São Paulo.

A primeira de tais obras, organizada por Gumercindo Rocha Dorea, reúne o Manifesto de Outubro, de Plínio Salgado, e uma série de ensaios, quase todos escritos por jovens, comentando cada um dos capítulos daquele tão relevante quanto criminosamente olvidado documento de nossa História, autêntica Carta Magna do Integralismo. A segunda das obras aludidas, por seu turno, foi organizada por Ronan Matos e reúne breves porém significativos ensaios de autores novos a respeito da obra de Plínio Salgado, bem como o magnífico ensaio Plínio Salgado na Tradição do Brasil, de Francisco Elías de Tejada y Spínola, originalmente publicado no segundo volume da obra Plínio Salgado, in memoriam, de 1986, e o também magnífico discurso proferido por Plínio Salgado na Câmara dos Deputados por ocasião do trigésimo aniversário da fundação da Ação Integralista Brasileira, em 1962.

O livro “Existe um pensamento político brasileiro?”, Existe, sim, Raymundo Faoro: o Integralismo!, que foi, aliás, lançado, numa noite memorável, no Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, conta com um excelente prefácio da lavra do Professor Acacio Vaz de Lima Filho[1] e com “orelhas” escritas por este que vos fala, além de um formidável recado do Sr. Gumercindo Rocha Dorea ao ex-Presidente Fernando Henrique Cardoso, velho detrator do Integralismo,[2] e um ensaio de Guilherme Jorge Figueira sobre O Manifesto de Outubro, ontem & hoje, além, é claro, do Manifesto de Outubro e dos textos em que são analisados, um por um, os artigos de tal documento. São estes, com efeito, os seguintes: Concepção do Universo e do Homem no Integralismo, de Cesar Ranquetat Júnior; Como entendemos a Nação Brasileira, de Mateus Müller; O princípio de Autoridade, de Alisson Almeida; O nosso nacionalismo, de Victor Emanuel Vilela Barbuy; Plínio Salgado e o pensamento tradicional, de Fernando Rodrigues Batista; O que pensamos das conspirações e da politicagem de grupos e facções, de Sérgio de Vasconcellos; O Integralismo no século XXI e a questão social, de Marcelo Batista da Silveira; Família: Célula-base da Nação, de Fernando Rodrigues Batista; O Município, centro das famílias, célula da Nação, de Victor Emanuel Vilela Barbuy e Anderson Salim Calil e O Estado Integralista, de Victor Emanuel Vilela Barbuy.

O livro Plínio Salgado, hoje, por sua vez, conta com introdução de seu organizador, o infatigável companheiro Ronan Matos, assim como com prefácio de Victor Emanuel Vilela Barbuy, “orelhas” do Professor Igor Awad Barcellos e posfácio de Guilherme Jorge Figueira, além dos seguintes ensaios: Plínio Salgado e a consciência da nacionalidade, de Cleiton Oliveira; Praça Plínio Salgado: patrimônio histórico de Rio Claro-SP; de Guilherme Jorge Figueira, Plínio Salgado na Tradição do Brasil, de Francisco Elías de Tejada y Spínola; Cristo e César no pensamento de Plínio Salgado, de Victor Emanuel Vilela Barbuy; Trigésimo aniversário da Ação Integralista Brasileira e atualidade de seus princípios filosóficos, de Plínio Salgado e Plínio Salgado e o Estado Integral, de Matheus Batista.

Isto posto, faz-se mister sublinhar que é uma grande pena não dispormos aqui de tempo suficiente para tratar de cada um dos textos dos dois livros ora em apreço, todos eles de alto nível, sendo alguns mesmo excelentes e de leitura fundamental para aqueles que querem conhecer o pensamento político de Plínio Salgado e o Integralismo em geral, a exemplo do último texto mencionado, em que o brilhante companheiro Matheus Batista fez uma síntese do Estado Integral talvez só comparável àquela de Sacerdos[3] em O Estado Integral.

No prefácio de “Existe um pensamento político brasileiro?”, Existe, sim, Raymundo Faoro: o Integralismo!, o Professor Acacio Vaz de Lima Filho lembrou que, alguns anos antes, escrevendo um artigo a propósito do Manifesto de Outubro, enfatizara ele alguns fatos da recente História deste País, sistematicamente silenciados pelos grandes meios de comunicação, “revelam o quão profundamente o ideário integralista está vivo, e quão intensa foi a participação de antigos militantes da Ação Integralista Brasileira em momentos decisivos para a nacionalidade”.[4] Dentre tais dados, aos quais acrescentou, no aludido prefácio, outros que posteriormente lhe ocorreram, evocou o Prof. Acacio Vaz de Lima Filho, com efeito, toda a inegável importância do Padre Hélder Câmara no campo social e, em seguida, recordou o fato de que “um outro integralista, Luís da Câmara Cascudo, chamou a atenção do Brasil para o seu próprio folclore”.[5] Outro veterano das coortes da Ação Integralista Brasileira, o Prof. Alfredo Buzaid, um dos mais notáveis juristas do Brasil e das Américas, foi o responsável, como frisou o Prof. Acacio, pelo Código de Processo Civil de 1973,[6]  muito superior, diga-se de passagem, ao novo Código de Processo Civil Pátrio, promulgado durante o governo de Dilma Rousseff. Miguel Reale, “por igual um seguidor de Plínio Salgado”, nas palavras do mesmo Prof. Acacio, ao fundar o Instituto Brasileiro de Filosofia, em 1950, ao lado de Heraldo Barbuy, Vicente Ferreira da Silva e outros, “priorizou em nossa terra a investigação filosófica genuinamente nacional”, e, mais tarde, presidiu a elaboração do novo Código Civil Pátrio,[7] também conhecido, aliás, como Código Reale. Integralista era igualmente o General Olympio Mourão Filho, que, segundo o autor de O poder na Antiguidade (Acacio Vaz de Lima Filho), “iniciando o movimento cívico-militar de 31 de março de 1964, livrou o Brasil da escravidão comunista”.[8] E foi, ainda nos dizeres de Acacio Vaz de Lima Filho, outro adepto da Doutrina do Sigma, o Prof. Goffredo Telles Junior, que redigiu a Carta aos brasileiros, “no momento em que a Revolução de Março, tendo-se desviado de sua pureza original, implantara uma ditadura de tecnocratas”. Fora, a propósito, este mesmo Prof. Goffredo que, pouco depois do triunfo do Movimento Revolucionário de 1964, publicara a obra A Democracia e o Brasil: Uma doutrina para a Revolução de Março. Aliás, outros teriam sido os rumos da Revolução de 1964 se os nossos militares houvessem dado atenção a este grande livro do Prof. Goffredo Telles Junior…[9]

Como observou o Prof. Acacio Vaz de Lima Filho, tais fatos revelam este dado insofismável: O Integralismo pode, sem dúvida alguma, ser atacado, mas não pode jamais ser ignorado ou subestimado.[10]

No mesmo prefácio, havendo ressaltado que a Ação Integralista Brasileira passou e hoje vive na nossa História, o autor de A censura: Magistratura moral da República Romana (Acacio Vaz de Lima Filho) fez ver que a Doutrina Integralista continua viva, que seus princípios fundamentais estão de pé, posto que dotados de validade atemporal.[11]

Neste sentido, lembrei, tanto nas “orelhas” da obra “Existe um pensamento político brasileiro?”, Existe, sim, Raymundo Faoro: o Integralismo![12] quanto no prefácio de Plínio Salgado, hoje,[13] que, ao saudar Plínio Salgado, por ocasião de uma conferência que este realizou na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, aos 3 de agosto de 1953, o Prof. Heraldo Barbuy, assinalado filósofo, sociólogo e escritor paulista, examinando a obra de Plínio Salgado como escritor, pensador e homem de ação, sublinhou que a Doutrina Pliniana havia se tornado, então, mais do que nunca, necessária por firmar os verdadeiros conceitos do Homem, da Sociedade e do Estado, e concluiu seu discurso exaltando a tenacidade, a coerência e a capacidade de sacrifício de Plínio Salgado, sustentando seu nobre e límpido pensamento em meio às injustiças e incompreensões.[14]

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Como escrevi numa das mencionadas “orelhas” e no aludido prefácio,[15] na hora presente, ainda muito mais do que no ano de 1953, é necessária a Doutrina Pliniana para o nosso Brasil e, aliás, para todo o Mundo e a leitura daquelas obras certamente confirmará tal fato a todas as pessoas intelectualmente honestas que a realizarem.

Consoante enfatizou Cleiton Oliveira, no belo ensaio Plínio Salgado e a consciência da nacionalidade, “poucos autores no Brasil se posicionaram tão firmes na defesa de nossos princípios de nacionalidade e por eles se bateram tão abertamente” quanto Plínio Salgado, que, “além de dedicar seu empenho intelectual de intérprete do Brasil e da brasilidade, dedicou a vida em defesa desse Brasil em face das forças que teimam em subjugá-lo”.[16]

Ainda como frisou Cleiton Oliveira, o autor da Vida de Jesus, de Espírito da burguesia de O estrangeiro (Plínio Salgado) é uma figura marcante na História Pátria, não apenas por haver mobilizado mais de um milhão de pessoas em torno de um ideal na década de 30 do século passado, mas também e acima de tudo “por deixar um legado, que fascina uma juventude sempre renovada em cada década, apenas aguardando o momento propício para reacender e empolgar toda a nacionalidade”.[17]

 Maior escritor em prosa do chamado Modernismo Brasileiro da década de 1920 e do dealbar da década de 1930 e autor da Vida de Jesus, que é, inegavelmente, a “joia de uma literatura”, como bem escreveu o Padre Leonel Franca,[18] Plínio Salgado inscreveu seu nome em letras de ouro na História Literária e Cultural do nosso Brasil.[19]

Criador e condutor do maior movimento cívico-político e cultural de que se tem notícia na nossa História e um dos poucos políticos brasileiros do século XX que, no dizer de Alceu Amoroso Lima, efetivamente fizeram “Política com P grande”,[20] inscreveu Plínio Salgado também seu nome, igualmente em letras de ouro, na História Política desta Terra de Santa Cruz.[21]

Havendo inscrito o nome em letras de ouro na História Literária, Cultural e Política deste grande Império do pretérito e do porvir, esse bandeirante do Brasil Profundo que foi, é e será Plínio Salgado inscreveu, em uma palavra, o seu nome, em letras de ouro, na História Pátria.[22]

Tendo sido, como frisou Francisco Elías de Tejada, o primeiro a efetivamente compreender a Tradição do Brasil, sendo, pois, um autêntico descobridor bandeirante das essências da nossa Terra de Vera Cruz,[23] e havendo, ademais, elaborado  uma “teoria da Tradição Brasileira com traços de granítico castelo, destinado a suscitar adesões para quem queira em tempos vindouros conhecer a substância do Brasil”, como salientou o jus-filósofo e publicista espanhol,[24] Plínio Salgado inscreveu, do mesmo modo, o seu nome, em letras de ouro, na Tradição do nosso Brasil.[25]

“Cavaleiro do Brasil Integral”, na frase de Ribeiro Couto,[26] e “mais eloquente intérprete da Brasilidade”, na expressão de Hipólito Raposo,[27] Plínio Salgado nos deixou, com efeito, um legado de valor inestimável, que deve ser estudado e meditado por nós e por todos aqueles que desejem realmente conhecer a essência da nossa Pátria. É isto, aliás, que será percebido por todos os homens e mulheres de boa vontade que procederem à leitura de “Existe um pensamento político brasileiro?”, Existe, sim, Raymundo Faoro: o Integralismo!, assim como  de Plínio Salgado, hoje, duas obras fundamentais que, pelo Bem do Brasil, rogo a Deus que sejam as primeiras de muitas produzidas pelas novas gerações de soldados do Sigma.

 

Victor Emanuel Vilela Barbuy,

São Paulo, 14 de março de 2020.

[1] Tendo mencionado o Professor Acacio Vaz de Lima Filho, reputo ser mister transcrever aqui a bela mensagem que este nos enviou recentemente: “Companheiro Victor: Anauê pelo bem do Brasil! Impossibilitado de comparecer, auguro pleno êxito à nova Diretoria. E que a Frente Integralista Brasileira continue a sua nobre missão, de resgatar a nossa vocação histórica. Peço ler esta mensagem amanhã. Com Cristo e pelo Brasil, Acacio”.

[2] O recado do jornalista, editor e escritor Gumercindo Rocha Dorea, ex-Presidente da Confederação dos Centros Culturais da Juventude e atual Presidente de Honra da Frente Integralista Brasileira, ao ex-Presidente Fernando Henrique Cardoso se encontra transcrito no portal da Frente Integralista Brasileira, em https://www.integralismo.org.br/notas/recado/.

[3] Pseudônimo de D. José Freire Falcão, Arcebispo Emérito de Brasília, que, ao escrever as obras O Homem Integral e O Estado Integral, em 1957, era um jovem sacerdote nos seus pátrios sertões do Ceará.

[4] Prefácio, in Gumercindo Rocha DOREA (Organizador), “Existe um pensamento político brasileiro?” Existe, sim, Raymundo Faoro: o Integralismo!: uma nova geração analisa e interpreta o Manifesto de Outubro de 1932 de Plínio Salgado, São Paulo, Edições GRD, 2015, p. XVI.

[5] Idem, loc. cit.

[6] Idem, pp. XVI-XVII.

[7] Idem, p. XVII.

[8] Idem, loc. cit.

[9] Idem, loc. cit.

[10] Idem, loc. cit.

[11] Idem, pp. XVII-XVIII.

[12] “Orelhas”, in Gumercindo Rocha DOREA (Organizador), “Existe um pensamento político brasileiro?” Existe, sim, Raymundo Faoro: o Integralismo!: uma nova geração analisa e interpreta o Manifesto de Outubro de 1932 de Plínio Salgado, cit.

[13] Prefácio, in Ronan Pedro Silva MATOS (Organizador), Plínio Salgado, hoje: Uma nova geração passa a limpo o Chefe Integralista, Rio Branco, EAC Editor; São Paulo, ArteSam, 2019, p. 15.

[14] Cf. A MARCHA, Plínio Salgado falou aos estudantes da Universidade Católica de São Paulo, in A Marcha, ano I, n. 26, 14 de agosto de 1953, p. 1.

[15] Prefácio, in Ronan Pedro Silva MATOS (Organizador), Plínio Salgado, hoje: Uma nova geração passa a limpo o Chefe Integralista, cit., loc. cit.

[16] Plínio Salgado e a consciência da nacionalidade, in Ronan Pedro Silva MATOS (Organizador), Plínio Salgado, hoje: Uma nova geração passa a limpo o Chefe Integralista, cit., p. 21.

[17] Idem, p. 18.

[18] Carta a Plínio Salgado, in Plínio SALGADO, Vida de Jesus, 22ª edição, São Paulo, Voz do Oeste, 1985, pp. IX/XI.

[19] Cf. Victor Emanuel Vilela BARBUY, Prefácio, in Ronan Pedro Silva MATOS (Organizador), Plínio Salgado, hoje: Uma nova geração passa a limpo o Chefe Integralista, cit., p. 14.

[20] Companheiros de viagem, Rio de Janeiro, José Olympio Editora, 1971, p. 21.

[21] Cf. Victor Emanuel Vilela BARBUY, Prefácio, in Ronan Pedro Silva MATOS (Organizador), Plínio Salgado, hoje: Uma nova geração passa a limpo o Chefe Integralista, cit., pp. 14-15.

[22] Idem, p. 15.

[23] Plínio Salgado na tradição do Brasil, In VV.AA., Plínio Salgado: “in memoriam”, Volume II, São Paulo, Voz do Oeste/Casa de Plínio Salgado, 1986, p. 70.

[24] Idem., p. 53.

[25] Cf. Victor Emanuel Vilela BARBUY, Prefácio, in Ronan Pedro Silva MATOS (Organizador), Plínio Salgado, hoje: Uma nova geração passa a limpo o Chefe Integralista, cit., p. 15.

[26] O cavaleiro do Brasil Integral, in Sei que vou por aqui!, ano I, n. 2, São Paulo, setembro-dezembro de 2004, p. XVII. Artigo originalmente publicado no Jornal do Brasil a 20/07/1933.

[27] A notável oração do Dr. Hipólito Raposo, In VV.AA., Plínio Salgado: “in memoriam”, Volume II, cit., p. 189.

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