A guerra civil na Síria, iniciada em 2011, está lentamente chegando ao fim. O grupo terrorista do Estado Islâmico já foi praticamente derrotado no país, sobrando apenas casos isolados de insurgência para lembrar-nos de sua existência. A facção curda, ocupando a região nordeste, cessou o fogo contra as Forças Armadas da Síria e procura uma solução diplomática com Damasco para a questão de sua autodeterminação. A grande cidade de Aleppo foi retomada já em dezembro de 2016, e a comunidade cristã local pôde comemorar o Natal oficialmente pela primeira vez em quatro anos. A província de Idlib, controlada por grupos como a Frente Nacional de Libertação e Hayat Tahrir al-Sham, é o último bastião de resistência contra o governo, que continua a avançar pelo sul. Uma vez derrotadas estas facções, a Turquia não terá mais motivo para dar continuidade à sua ocupação do norte da Síria. Um a um, os obstáculos à paz são derrubados.

Vitória estratégica do governo Assad em Idlib

Este desenvolvimento do conflito representa uma frustração do planos para a região formulados por Israel e apoiados pelos EUA: segundo o relatório “A Clean Break” (“Uma Ruptura Clara”), produzido em 1996 para o então primeiro ministro Benjamin Netanyahu, a estratégia a ser seguida para solucionar os problemas de segurança de Israel deveria incluir o uso de força para efetuar mudanças de regime em países que se opõem à influência israelense no Oriente Médio. Por meio de “proxies”, forças apoiadas indiretamente e sem relação oficial com seu “patrocinador”, os líderes do Iraque e da Síria seriam removidos e seus países seriam enfraquecidos e contidos. Outra proposta mais antiga, publicada em 1982 por um assessor do primeiro ministro Ariel Sharon e conhecida como Plano Yinon, sugere o completo desmembramento da Síria e outros estados árabes. Como esperado, a primeira parte da estratégia exposta em ambos os planos se realizou com a queda de Saddam Hussein em 2003; no entanto, os israelitas não tiveram a mesma sorte contra a Síria de Bashar al-Assad.

Os sauditas, aliados não-tão-secretos de Israel, certamente não estão nada contentes. O iminente triunfo de Assad prova que o eixo Damasco-Teerã-Moscou continua firme e forte, e mostra que o Irã pode continuar sendo um rival regional da Arábia Saudita no longo prazo. O desespero para provocar uma intervenção americana resulta em bizarrices por parte do governo saudita: em junho de 2019, o Irã é acusado de atacar dois navios petroleiros pertencentes à Noruega e ao Japão. Tanto a tripulação do navio japonês quanto o primeiro ministro Shinzo Abe rejeitam essa versão dos fatos; a alternativa mais óbvia é um ataque de falsa bandeira dos sauditas. Em 14 de setembro, o Irã é novamente acusado de um ataque, desta vez realizado por meio de drones contra uma zona de extração de petróleo saudita. Tal acusação foi prematura, visto que os verdadeiros autores logo se identificaram.

Os responsáveis pelo atentado são a facção Houthi, grupo xiita do Iêmen que está lutando uma guerra civil pelo controle do país. Insatisfeitos com a corrupção do governo vigente e querendo proteger a minoria xiita, tomaram a capital e dissolveram o parlamento em 2015, com virtualmente nenhuma perda de vida. Desde então, seus principais inimigos são a coalizão militar liderada pela Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos, cuja desastrosa intervenção já causou milhares de mortes de civis. Os Houthis, que são aliados do Irã, representam tamanha ameaça para a Casa Real de Saud que eles estão dispostos a gastar bilhões de dólares por mês e cometer inúmeros crimes de guerra para evitar que os iranianos ganhem mais um governo amigo do outro lado do Golfo Persa. Esta guerra civil, muito menos noticiada na mídia internacional que a da Síria, tem potencial para ser ainda mais destrutiva. Uma retaliação contra o coração dos agressores, sua indústria petrolífera, se mostra justa e merecida.

Do outro lado do mundo, em Washington, o presidente Trump dá continuidade à retórica anti-Irã tão comum entre os neoconservadores, principalmente entre os mais belicosos conhecidos como “gaviões”; em compensação, há indícios de que a resposta ao último incidente vai se limitar somente a sanções e mais retórica: uma das vozes mais belicosas da Casa Branca, o assessor John Bolton, foi recentemente demitido por Trump devido a discordâncias entre os dois. Essa decisão, juntamente com a atuação relativamente moderada na Síria durante seu mandato (em comparação com a intervenção na Líbia durante o governo Obama), ainda nos dá  esperança de que o presidente vai honrar sua promessa de campanha e evitar novas guerras americanas no Oriente Médio. A grande dificuldade será superar o poderosíssimo lobby israelense, cujo maior representante é a AIPAC, o Comitê de Assuntos Públicos Americano-Israelense, originalmente parte do Conselho Sionista Americano. A única candidata na corrida presidencial de 2020 que ameaçou desviar da política “kosher” pró-Israel, a democrata Tulsi Gabbard, foi dada pouca atenção na primeira rodada de debates. Tulsi está processando a gigante Google por temporariamente suspender sua conta de propaganda eleitoral após o debate, ‘convenientemente’ suprimindo sua campanha. Essa influência sobre o governo e os grandes negócios dificilmente será vencida; seria necessário uma verdadeira revolução na política americana, que iria muito além do slogan vazio da campanha de Trump: “Drenar o Pântano”. Até lá, os EUA continuarão sendo, no âmbito do Oriente Médio, um fantoche israelense.

Os tentáculos do lobby israelense

A resolidificação do governo Assad e a impaciência da comunidade internacional perante a Arábia Saudita são desenvolvimentos que precisam afetar a política externa do Brasil se quisermos ter uma opinião digna de respeito no que tange esta região. A obsessão ideológica com Israel e os EUA é um dos grandes defeitos do governo Bolsonaro, que nos acorrenta a uma verdadeira gangue que é em grande parte responsável pela discórdia que aflige tantas nações. Infelizmente, em Brasília assim como Washington, seria loucura contar com uma inversão súbita da política atual; o máximo que podemos esperar do presidente incumbente é uma reconsideração do alinhamento incondicional aos EUA e uma abordagem mais branda nas relações com o Irã.

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O que podemos esperar para o futuro da região? Se algo é certo sobre este canto do planeta, é que lá nada é certo; uma ánalise das tendências nos permite, porém, fazer algumas previsões.

– A paz na Síria virá ao custo de uma concessão de autonomia para os curdos e anos (ou décadas) dedicadas à reconstrução. A retirada da presença turca e americana em solo sírio se torna uma mera questão de tempo;

– A posição do Irã se fortalecerá na comunidade internacional à medida que os demais poderes se cansam dos esquemas de Israel, Árabia Saudita e EUA para forjar um casus belli. A contínua adesão aos termos do acordo nuclear, a despeito da retirada americana, confere mais credibilidade ao governo de Hassan Rouhani;

– A estratégia infrutífera de demonização do Irã vai continuar a pesar na Casa Branca de Trump. A demissão de John Bolton pode ser um presságio de mais mudanças no gabinete presidencial, e talvez até uma remoção do “gavião” e atual Secretário de Estado Mike Pompeo;

– O fim da guerra no Iêmen ainda não está no horizonte. Dependendo da resiliência dos Houthis e da vontade da ONU de pressionar a coalizão para negociar a paz, o conflito ainda pode se esticar por muitos anos.

O momento que vivemos é especial: o equilíbrio geopolítico da região ameaça mudar pela primeira vez desde o fim da guerra fria. Os sauditas tomam decisões cada vez mais equivocadas para tentar conter a maré. A tensão entre Irã e EUA é contagiante, deixando o mundo todo em ar de suspense. Os israelenses, assim como os palestinos, têm um futuro incerto. Uma convergência de eventos nos leva a crer que algo grande está para acontecer, seja para o bem ou para o mal. Será que os povos do Oriente Médio estão a caminho de vencer a ganância, as ambições e a covardia que os imprisionou no círculo vicioso de caos e opressão do último século? Estaria finalmente no seu horizonte um futuro marcado pela paz, ordem e legítima soberania? Posso parecer otimista demais diante da história triste que essas nações viveram e continuam vivendo, mas ainda assim me permito o luxo do otimismo: a alternativa é dolorosa demais para considerar.

Peter Pluecker
Membro correspondente da FIB na Alemanha

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