Durante o mês de agosto deste ano, as queimadas na Amazônia se tornaram assunto em inúmeros veículos de mídia pelo mundo todo. Celebridades, políticos, líderes de Estado e até mesmo jogadores de futebol voltaram suas atenções para a floresta brasileira. As alegações eram de que “o pulmão do mundo estava em chamas”. Houve quem falasse em fim do oxigênio do mundo e mortes em massa.

Enquanto a esquerda brasileira acusava o presidente Jair Bolsonaro de incentivar as queimadas através de sua política de relaxamento de punições a desmatadores, sua autorização para criar novas áreas de pasto e sua resistência em demarcar terras indígenas, a direita acusava ONGs de promoverem queimadas criminosas para prejudicar a imagem do governo.

Foram publicadas matérias por grandes veículos de mídia que mostravam um “aumento de quase 500% no número de focos de incêndios na Amazônia”. Fica claro aqui as más intenções ao mostrar um número relativo ao aumento do mês de julho para agosto de 2019 sendo que este mesmo aumento de 500% ocorre em todos os anos entre os meses de julho e agosto devido a peculiaridades climáticas da região. Curiosamente, durante os anos em que o Brasil foi governado pelo partido pelo qual o site que publicou esta matéria é simpatizante, estes “aumentos” chegaram a 650% em 3 anos diferentes.

Organismos de esquerda no Brasil e no mundo voltaram a circular mentiras e desinformação, como a tradicional falácia de que “a Amazônia é o pulmão do mundo”. Incontáveis cientistas já desmentiram esta afirmação, pelo simples fato de que a Amazônia é uma floresta em clímax ecológico, o que significa que ela consome praticamente todo o oxigênio que produz. A Amazônia precisa sim ser preservada, mas pelos motivos certos. Este tipo de mentira é circulado com o único intuito de tornar a Amazônia um assunto “internacional”, para que outros países possam manifestar interesse em invadi-la com o objetivo falso de protege-la, quando na verdade pretendem fazer o mesmo que a França faz na Guiana Francesa: Desmatar a floresta e extrair minério, pedras e metais preciosos.

O assunto tomou proporções maiores quando o presidente socialista francês Emanuel Macron resolveu intervir no assunto. Macron cometeu uma série de graves erros diplomáticos ao criticar dados do governo brasileiro sobre o assunto, sugerir levar a questão à uma reunião do G7 sem a participação do Brasil e a mais grave de todas ao demonstrar a vontade de internacionalizar a Amazônia.

Esta clara ameaça à soberania nacional foi amplamente criticada não só por membros do governo brasileiro como até mesmo por importantes líderes da esquerda, como a ex-presidente Dilma Roussef, que considerou como “grave” a fala do líder francês. Diante deste cenário absurdo e sem precedentes, o presidente americano Donald Trump ofereceu-se para ser o porta-voz do Brasil em reuniões do G7 no que dissesse respeito a este assunto.

Dado este cenário caótico de troca de insultos, ameaças à soberania, acusações e hashtags nas redes sociais, algo parece ter passado despercebido: Os dados e os fatos. O compartilhamento de notícias falsas, dados manipulados e manchetes sensacionalistas são comuns no Brasil. O dever de qualquer cidadão minimamente bem intencionado é sempre procurar confirmar os dados antes de compartilhar qualquer informação. Sendo assim, vamos expor aqui dados fundamentais para a compreensão da questão através da resposta de perguntas levantadas durante a polêmica.

A quantidade de queimadas é a maior da história?

Não. Na série histórica do INPE, que se inicia em 1998, o índice do mês de agosto de 2019 foi apenas o oitavo maior, com 30.901 focos de incêndio registrados. Curiosamente, 6 dos 8 anos com maiores índices de queimadas foram durante o governo Lula, supostamente defensor da Amazônia. O maior índice registrado na série histórica para o mês de agosto foi de 63.674 focos, em 2005, representando 106% mais incêndios do que em 2019.

Figura 1 – Dados de área queimada por quilômetro na Amazônia desde 2003. Produzido pelo companheiro Peter Pluecker com dados do INPE

A quantidade de queimadas está acima do normal?

Sim. De acordo com o INPE, no mês de agosto de 2019 foram registrados 30.901 focos de incêndio no bioma Amazônia. Até então a média para o mês de agosto para a mesma região era de 25.853 focos, o que mostra que a quantidade em 2019 foi 19,5% acima da média. A quantidade de queimadas para o mês de agosto de 2019 é a maior desde 2010, quando foram registrados 45.018 focos de incêndios.

O que causa as queimadas?

Os incêndios na Amazônia têm basicamente 3 causas possíveis: Combustão espontânea, desmatamento ou queimas controladas para limpeza de área para plantio ou pasto. Não há uma forma precisa de indicar a origem dos focos de incêndio. As queimadas com origem espontânea tendem a ser aquelas em áreas mais interiores, com pouca ou nenhuma conexão com estradas ou propriedades privadas. Elas tendem a ocorrer com maior frequência em biomas como o cerrado e a caatinga, e muito raramente na floresta amazônica.

As queimadas criminosas tendem a ocorrer ao redor de estradas ou ao lado de áreas já desmatadas. Os municípios de São Félix do Xingu e Altamira, ambos no estado do Pará, concentram uma altíssima quantidade focos de incêndio ao longo dos anos. Nas imagens abaixo, disponibilizadas pelo INPE e obtidas através de satélite, nota-se uma grande incidência de focos em uma área de 400km2 no município de São Félix do Xingu-PA em Agosto de 2019:

Figura 2- Focos de incêndio em São Félix do Xingu em agosto de 2019. Fonte: INPE

Figura 3 – Focos de incêndio em uma área de aproximadamente 400km² em São Félix do Xingu em agosto de 2019. Fonte: INPE

Comparando com imagens de satélite extraídas do Google Maps abaixo, datadas do primeiro semestre de 2019, percebe-se que as áreas incendiadas nas imagens anteriores eram localizadas ao redor de estradas e anexas a outras áreas já desmatadas, porém com matas intactas. Este é um claro exemplo de focos de incêndio oriundos de desmatamento:

Figura 4 – Vista de satélite do município de São Félix do Xingu. Fonte: Google Maps

Figura 5 – Vista de satélite de uma área de aproximadamente 400km² do município de São Félix do Xingu. Fonte: Google Maps

Lula protegeu a Amazônia, conforme a mídia e a esquerda divulgaram incessantemente nas últimas semanas?

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Mentira. Muito tem sido comentado ultimamente o discurso do ex-presidente, atualmente preso e responsável pelos maiores índices de desmatamento da história do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva na COP-15 em 2009. Este traçava metas ambiciosas para redução de emissão de CO² e do desmatamento na Amazônia, e como sempre era largamente aplaudido em suas falas. Em entrevista recente ao site Brasil 247, o ex-presidente acusou “fazendeiros bolsonaristas” de promoverem os incêndios, e disse que basta “pegar fotografias de satélites, saber quem é o proprietário de terra que está queimando e ir atrás do proprietário da terra para saber quem botou fogo”. Lula está correto em dizer que é possível identificar as origens dos incêndios, pois os satélites Landsat-8/OLI, CBERS-4/MUX e Resourcesat/LISS possibilitam a identificação de focos com 30m de extensão. Mas estaria correto em relação à motivação dos incêndios?

De fato, Bolsonaro tem feito declarações típicas de um Ultra Liberal, como incentivo ao desmatamento como “progresso”, redução da demarcação de terras indígenas, extinção de multas por crimes ambientais e esvaziamento das funções de órgãos como Funai e Ibama. O recente caso do “dia do fogo”, onde donos de terra se reuniram para queimar áreas de floresta em “apoio ao presidente”, mesmo parecendo um tanto suspeito mostra que as políticas liberais incentivam práticas liberais. Mesmo sendo de amplo conhecimento que o liberalismo é autodestrutivo, esta narrativa de que Lula era um socialista anti-liberal defensor das florestas e Bolsonaro é um liberal desmatador de florestas está correta?

De acordo com FRANCA, R. R. (2016), entre 2003 e 2010 foram registrados anos com alta e baixa pluviosidade na Amazônia Meridional, área com alta concentração de focos de incêndio, que abrange a cidade de Porto Velho-RO e o norte do Mato Grosso. Nesta área, o ano mais chuvoso foi o de 2009 (2041,4mm), enquanto o menos chuvoso foi o de 2005 (1769,8 mm). Na região de Altamira-PA e S. F. do Xingu-PA os anos de 2009 e 2005 também tiveram, respectivamente, alta e baixa pluviosidade (5001,7mm e 3328,8mm).

Quando cruzamos estas informações de pluviosidade com as de incêndios, conseguimos ter um panorama preciso da situação nos “Anos Lula”. De acordo com o Inmet, os anos de 2009 e 2005 tiveram queimadas abaixo e acima da média respectivamente na região Amazônica, mas estes dados também precisam ser analisados detalhadamente.

Em 2009 foram registrados 81.682 focos de incêndio na Amazônia. Este valor foi 26,15% inferior à média histórica e corresponde ao menor valor dos anos Lula. Este valor baixo coincide com a alta pluviosidade da região naquele ano. As chuvas impactam diretamente na quantidade de incêndios, pois apagam grande parte dos focos ativos e ainda tornam os troncos das árvores e as folhas menos suscetíveis à combustão, inclusive dificultando a criação criminosa de novos focos. A título de comparação, o índice registrado no mês de agosto daquele ano foi menos de 1/3 do valor registrado neste ano de 2019.

O ano de 2005 foi marcado pelo menor índice de pluviosidade do período analisado. Porém, o ano com maior quantidade de focos de incêndio na série estudada foi o de 2004, com 218.637 focos (97,67% acima da média). De acordo com FRANCA, R. R. (2016) e com o Inmet, 2004 foi um ano com pluviosidade levemente acima da média nas regiões mais afetadas pelos incêndios. Estes dados mostram claramente que as altas quantidades de focos de incêndio detectadas em 2004 não sofreram influência significativa do clima. Nesta mesma linha, o ano de 2007 registrou a terceira maior quantidade de focos de incêndio, sendo também um ano com pluviosidade levemente acima da média na região. Também a título de comparação, a quantidade de focos de incêndio registrada em agosto de 2004 foi 40% maior do que a quantidade registrada em agosto de 2019.

Através dos dados aqui expostos, podemos concluir que:

  1. A quantidade de focos de incêndio e de área queimada na Amazônia está acima da média para o mês de agosto no ano de 2019, mas muito longe da máxima registrada.
  2. A Amazônia não é o pulmão do mundo. Isto é uma falácia sem base científica inventada por órgãos interessados em internacionalizar a Amazônia.
  3. Macron cometeu um grave atentado à soberania brasileira ao propor unilateralmente a internacionalização da Amazônia.
  4. A altíssima quantidade de focos de incêndio registrados na Amazônia entre 2003 e 2010, os anos do governo Lula, não foi impactada por fatores climáticos. O ano com mais queimadas foi o de 2004, que registrou pluviosidade acima da média na região.

Rodrigo Pittigliani
Membro da FIB – RJ

Fontes:

  • Rafael Rodrigues da Franca e Francisco de Assis Mendonça, « A pluviosidade na Amazônia meridional: variabilidade e teleconexões extra-regionais », Confins [Online], 29 | 2016, posto online no dia 15 dezembro 2016, consultado em 30 setembro 2019. URL : http://journals.openedition.org/confins/11580 ; DOI : 10.4000/confins.11580
  • INPE – Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, 2018. Portal do Monitoramento de Queimadas e Incêndios. Disponível em http://www.inpe.br/queimadas. Acesso em: 29/09/2019
  • Google Maps. Disponível em http://maps.google.com. Acesso em:
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