Cheguem todos para uma história de Natal! Vou lhes poupar neste ano de 2020 de grandes construções teóricas, teológicas, sociais, políticas e moralistas sobre a data. Vou lhes poupar porque acho que essa é a data suprema da familiaridade e da proximidade. Quero escrever algo para ser lido com algum interesse do coração além da mente.

Quem aprecia o Natal? Cada vez menos pessoas compreendem o seu sentido profundo (será que eu compreendo?), e vejo, por todos os lados, uma preferência clara, franca e nítida, principalmente entre os jovens, pela virada do ano — quando, ao invés de se reunirem numa espécie de “convenção familiar”, poderão encontrar aqueles com quem “se divertem”, mesmo. 

Sou obrigado a ceder. Realmente, o Natal é a enfadonha data onde é necessário dedicar um tempo (apenas um tempo, claro) fora das redes sociais, reunido ao redor de uma mesa, com aqueles parentes ausentes e os próximos, fazendo presença na custosa convenção antecedida pelo contragosto de se gastar dinheiro nas lojas de departamento. É preciso “presentear” todo mundo, afinal, todo mundo espera isso de você, não é mesmo? Pessoas queridas em casa e pessoas temidas no trabalho são igualmente presenteadas em abundância. Quem não recebe presente se constrange, sente-se diminuído e esquecido. Não lembrar de alguém pode lhe custar uma mágoa para o desenrolar de todo o próximo ano ou, nos piores casos, para toda vida. Afinal, aquela pessoa que “ganhou presente de Ciclano e Beltrano, até de Fulano, mas não de você?” Pode isso? Absurdo! 

É economizar espaço na barriga para ceias tão vastas! E as crianças, ah! pobres crianças… Aguardando o momento de treino para logo imitar os adultos como eles são, lá estão elas, eufóricas, rasgando as embalagens multicores; um show de super-heróis, é homem-aranha, batmans, pequenos carrinhos, ou seja, tudo que se pode fantasiar quando criança e se cobiçar depois de velho, tudo por onde se lembrar daquilo que o dinheiro poderá dar durante a vida linda pela frente… Ai de quem se desfaz do Papai Noel. Ai de quem deu o presente mais humilde. É quase um desgraçado. 

Em contrapartida, é a época do ano onde os homens de “conhecimento” teológico gostam de desdenhar o esforço simples de gente simples. Não, eu não gosto disso que se chama “Natal” hoje em dia na boca dos lojistas, dos mercadófilos, dos amantes de pisca-pisca, dos fazedores de “amigo secreto”, dos caçadores de boias fartas. Mas também não aprecio nada o “Natal” dos Doutores, que, do alto de suas cátedras, se desfazem da dona Maria e do seu Severino, porque teoricamente eles não sabem “apreciar o nascimento do Cristo”. Lá vão dona Maria e seu Severino: estão indo por o tal pisca-pisca e comprar seus presentinhos no Brás, dispostos que estão a sair por aglomerações imensas, arrastando sacolas pesadas, impondo-se mil e um desconfortos e, em época de pandemia, expondo a própria vida e a de outros, só para dar (vejam o paradoxo) a bugiganga chinesa com que esperam marejar os olhos daqueles que amam. 

O Integralismo deixa a gente realmente chato. Assim é desde 1932. Afinal, quem não viu a famosa gravura onde um Camisa-Verde expulsa Papai Noel do Brasil? Somos mesmo os “velhos rabugentos” da Nação Brasileira. Entretanto, um dia, quando jovem, eu dei muito valor para o Natal tal como ele se tornou hoje; amargurando-me na ausência da lembrança dessa ou daquela pessoa, até mesmo dos desafetos que deveriam ter “mostrado algum respeito”, oras, vejam só! Já passei, na infância e começo da adolescência, pelo vexame de me sentir desprestigiado nas “festas”, e de ocupar-me por um tempo com essas questões. Até que um dia, já na FIB, um Integralista mais velho disse-me que o integralista:

”Deve evitar a vida faustosa e ostensiva de prazeres materiais que contrasta com a miséria de milhões de brasileiros. Deve abster-se de tomar parte em banquetes e festejos de caráter burguês. As refeições em que tomarem parte coletivamente Integralistas devem ter cunho absolutamente popular e nelas não deverá ser permitido o consumo de champagne ou de outras bebidas similares ou que tenham alta porcentagem de teor alcoólico. Deve ainda o Integralista evitar qualquer ostentação de luxo ou de opulência, de prazeres materiais grosseiros e voluptuosos, ou a exibição dos costumes paganizados tão comuns nos salões, nas praias, nos hotéis, bailes,  e transatlânticos cosmopolitas”.

E mais:

”Que o integralista tenha sempre em mente que há milhares de companheiros que se desfazem de suas alianças, de suas últimas joias de família, do seu último tostão, e entram em dívidas, comprometem o conforto material da própria família, por amor a Deus, ao Brasil e ao movimento”.

Ou seja, como eram os festejos de Natal, melhor nem ir e arrumar alguma outra forma de passá-lo.

E tal orientação não era apenas a orientação de um colega de ideal “moralizando-me”. Ela está presente nas diretrizes de conduta do Integralista desde o começo. O próprio companheiro que me passava esse ensinamento era perfeito intérprete dela, e aquilo me comoveu. Comoveu-me porque me foi ensinado por alguém que não falava da boca para fora. Eu, então, pensei comigo: se a virtude se adquire imitando alguém virtuoso, quero ser como esse companheiro mais velho, cujo desprezo do mundo ensinou tanto. 

Coloquei meu plano em ação, e naquele ano, a contragosto, amargamente, recusei-me a participar dos festejos. Confesso que foi mais da boca para fora do que por resolução interior do coração. Salvo alguma insistência dos mais chegados, minha recusa não se tornou motivo para que qualquer um se desfizesse dos próprios planos e tudo seguiu seu curso. E, creiam, eu fiquei muito mal: “Como? Não fizeram questão de mim?”. E assim se arrastou durante o ano um certo desconforto que eu tinha que engolir a seco. Afinal, fui eu quem não participou, não foi? 

Chegou o fim de mais um ano. Repliquei meu plano: novamente resoluto, convicto, não participei. Dessa vez, menos gente protestou. Eu mesmo não senti tanto desconforto ao longo do ano. Por fim, veio mais um ano, e eu não participei. Ninguém protestou e meu desconforto foi zero…

Foi então que na solidão estranha de dias tão festivos, reluzentes de luxo, de risadas, de luzes cegantes, de presentes portentosos, eu comecei a ouvir o lamúrio que poucos escutam: comecei a ver o mundo daqueles que pela doença, pela pobreza, pela maneira como viciaram os filhos desde tenra idade na ilusão da “felicidade a todo custo e sempre devida”, ficavam abandonados e para trás, esquecidos e solitários. Pois bem, eu ali, gozando de saúde e resoluto em não participar dos excessos, desviei finalmente meus olhos para aqueles que queriam acompanhar a farândola dos convivas, mas por qualquer razão não podiam. Como era doloroso para essa gente, de faces enrugadas, de vozes roucas, gente “sem importância” que ficava depois que todos iam, ficava, infelizmente não por resolução, ficava morrendo, definhando no abandono!

***

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Foi assim que comecei a perceber que a coisa mais interessante daqueles dias era passar as festas com os que ficavam. Sem dizer nada às vezes, mas enfatizando que ficava ali, só e exclusivamente, por esta ou aquela pessoa. Assim, ao longo daquelas noites e dias, eu as conhecia como ninguém as conheceu durante anos, ou como já se tinham esquecido sobre quem eram. Foi assim que eu sempre estava com alguém em algum lugar sem importância e sem pompa alguma. Me sentia recompensado ao longo do ano, pela cumplicidade que desenvolvia aqui e ali com os “não-amados”. Pensava eu: “ficando com quem dá valor à data, eu, que não me importo com as aparências dela, faço por alguém algo especial”. Mantive-me assim… Ouvindo lamentações, choros, reclamos de todos os tipos, mas, no fundo, sabendo que era importante ser um bom ouvido. 

Foi então que num desses natais por aí, depois que todos viajaram para seu encontro festivo, me vi só, com quem eu não imaginava (devido a postura indiferente) que desse tanto valor a companhia nessas datas: enfim, me vi a sós com meu rabugento pai. 

Meu pai era o típico pai dos anos 40 e 50 preso e isolado pela percepção distorcida da pós-modernidade. Em razão disso, tinha vícios e virtudes de tempos passados — mas infelizmente, para a gente da pós-modernidade, nunca existiu virtude antes dela… Vai entender. Foi então que, em volta de uma mesa sem absolutamente nada, conheci meu pai verdadeiramente. E ouso dizer que fui o único filho que o conheceu. Ele ficava tão emocionado por não deixá-lo só durante aqueles dias, que eu simplesmente nunca mais o deixei passar a data sozinho. Mesmo que, tão logo passasse as festas, ele voltasse a ser o mesmo rabugento de sempre… Mas ao menos agora eu o entendia.. Eu o entendia bem.

Chegou o dia, infelizmente, em que meu pai adoeceu. Descobriu duas péssimas doenças juntas: Alzheimer e diabetes. Eu já não morava com ele há alguns anos. E, para piorar, seu afastamento da família era tal, que, descobrindo a diabetes, não havia comunicado a ninguém, e com um Alzheimer no começo, não pensou em tratá-lo. Viu-se só, e logo em maus lençóis. Não teve jeito, acabou vindo morar comigo. Eu o assisti decair da saúde e soberba à completa debilidade. Eu sofri muito, porque julgo que o conheci bem, e o conheci ao ponto de compreendê-lo. Foi infelizmente muito tarde, pouco antes da doença, uns anos antes, que consegui, graças ao tempo natalino com ele, conhecê-lo, entendê-lo e aprender a amá-lo verdadeiramente. 

A doença o acometeu de tal forma que não teve outro remédio. Logo estávamos sofrendo juntos no hospital. Meu pai batalhou como um leão que se nega a ceder… E foi depois da primeira das quatro amputações a que ainda precisaria se submeter — é difícil lembrar daqueles dias — que ocorreu um grande milagre: certa noite, em um breve momento de calma dos cansados de sofrer, ele ouviu a conversa dos colegas do quarto que comentavam que o Natal estava próximo. Ele se virou para mim (eu ficava lá a noite toda), me chamou pelo nome, e completou: “que bom que você está aqui”.

Ele passou por todo aquele período angustiante no hospital me confundindo e me chamando de “pai” (coisas de quem tem Alzheimer), mas se lembrou exatamente de mim quando pensou que talvez fosse Natal. Isso porque ele sabia que, não importava onde eu estivesse, eu sempre vinha passar o Natal com ele. Ele faleceu pouco depois da segunda amputação.

Quem diria! No fim, o maior de todos os presentes fui eu quem ganhei. Porque, quando meu pai se foi, eu o conhecia verdadeiramente. Não morrerei sem esse privilégio e esse conforto. Meu pai era rabugento — mas e daí? Eu também sou! Foi graças a ter feito como o Camisa-Verde da gravura e expulsado o falso Natal da minha vida que eu pude descobrir o verdadeiro Natal: Dar a quem necessita um pouco da Esperança que em Jesus Cristo nasce para todo homem, rico ou pobre, amado ou não. O melhor, o melhor de tudo e o maior de todos os presentes é poder em Cristo reencontrar a todos um dia.

Desejei partilhar com vocês uma história natalina pessoal, porque estou farto de escrever apenas conjecturas teóricas que, embora verdadeiras, ficam vagas na cabeça da maioria. Quem sabe não ajudamos mais falando daquilo que vivemos.

Muitos passarão o Natal do presente ano longe daqueles que amam devido à Pandemia. Outros aguardam para reencontrar seus amados em Cristo e na vida eterna. Alguns nem ao menos sabem quem amam, vão se dar conta depois de perder. Muitos vão negligenciar o isolamento e vão abraçar seus velhinhos e velhinhas porque é como “manda o figurino”. Algo está muito errado na forma como “amamos” e algo está muito errado nas razões que nos levam a cada ceia no Natal. Agradeço a Cristo a chance dos inúmeros presentes inesquecíveis que me deu, inclusive aquele primeiro dado por um nobre companheiro na forma das palavras virtuosas transcritas acima, e é o melhor que posso dar a cada um de vocês, irmãos brasileiros. No fundo, ser Integralista é fugir das aparências e amar as essências. Sempre me pergunto: não somos nós os verdadeiros felizardos, por gozar do desprezo de tantas coisas superficiais?

Lembrem-se: Primeiro, Cristo! Quem se abandona por Cristo recebe os mais significativos presentes, e recebe-os sem esperar. Talvez não seja nem correto falar de “presente”, e sim de milagre, mesmo. 

Desejo a todos um FELIZ NATAL CRISTÃO e um excelente ano de 2021, repleto de conhecimento das coisas que realmente são importantes.

Pelo bem do Brasil

Anauê!

Moisés Lima
Presidente Nacional da Frente Integralista Brasileira

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Daniel

Estava procurando um texto para ler na empresa, acabei chorando…

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