Por toda a Nação se realizaram as chamadas “convenções partidárias”. No presente ano foram menos abarrotadas devido a pandemia e, para sorte dos inúmeros candidatos sem eleitores, cujo carisma é igual ou inferior ao de uma pedra e o grande ideal é unicamente se sentar nas cadeiras tão sonhadas (por meio de uma bela boca-de-urna junto aos indecisos e de última hora) veio a calhar não precisar levar ninguém.

Os partidos, em constantes maquinações e efervescência, reúnem recursos e pagam seus marqueteiros. Já antes estiveram sentados os “cabeças” e analisaram os prós e contras de seus “peixões” e “peixinhos”; agora começam a periclitar por todas as redes sociais a poluição visual das frases motivacionais (o que será que desmotiva tanto os brasileiros?), dos apertos de mão e sorrisos amarelos, – um amigo disse de um candidato “cara de quem mama dinheiro público”.  Paralelo a tudo isso, no partido, as secretárias se descabelam com a burocracia de que os candidatos não conseguem dar conta e entre tais burocracias, uma delas se refere ao material de campanha, onde se afirma que os candidatos: “darão conta da cidade” porque eles “são capacitados”. 

Uns fazem lista de eleitores segundo zonas eleitorais; outros mais abastados já fizeram sua pesquisa qualitativa e já montam seu personagem segundo os anseios da população: dedinhos em forma de “V” (de vitória), slogans batidos e amassados, passados de eleição para eleição graças à memória de peixe de muitos, flashs fotográficos, passarela pronta para o desfile dos espécimes raros que desejam ocupar a cadeira, é o The Voice da democracia liberal, onde você é o jurado, e, meu caro amigo, escolherá a melhor performance!  

O povo nas periferias se prepara para receber abraços e promessas, os armários de lares humildes estão mais rechonchudos com cestas básicas que a filantropia andou caprichando nos últimos dias e, é claro, ninguém havia dito que é candidato até agora. Ninguém entende nada de política, mas nenhum candidato está preocupado com isso; aliás, todos eles contam com tal fato e, assim, “amizade” e “simpatia” farão as vezes da “capacidade” e dos “projetos”! Os candidatos discutem com os assessores, contando nos dedos os votos de que precisam, fazendo cálculos frios; mencionam dona Rita da ONG, a Sra Maria da Igreja, o Seu Garcia do bar, que “têm famílias numerosas” e “influência” e talvez simpatizam com eles porque outrora contavam piadas juntos, bebiam juntos ou jogavam bola juntos ou “podem cobrar um favor”. Amizade, matéria escassa na maior parte do ano, está agora brotando em abundância, estampada nos carros “amigo de fulano”  ou “amigo de beltrano”, – esses amigões estarão perdidos se no “dia do amigo” tiverem de comprar presentes! E assim estamos começando, mais uma vez, o “show da esperança” (de dar inveja ao Silvio Santos); ergam os aplausos dos democratas liberais (“aplausos”, escreve no luminoso voltado para a plateia), pois começamos agora mais um “Show da democracia liberal”. Um verdadeiro Espetáculo (palmas novamente, ovações estrondosas).

Ensaiadas as frases manjadas, coloquemos para operar as plataformas online que dividem a população em categorias para favorecer o recebimento de propaganda adequada: para o esportista o esporte, para o militante, uma casca de ideologia, para o pobre, uma esperança, para o rico, segurança, para o doente, saúde, para todos: um “graças a Deus”!

Comunistas, liberais, conservadores, tradicionalistas, sindicalistas, católicos, ateus, evangélicos, aristotélicos e maquiavélicos, e claro, oportunistas, muitos oportunistas, num único brado: vote em mim! E você o que é? Você é o eleitor, seu voto é sua arma mais poderosa, dizem, e disso não tenho dúvida. Mas ocorre que todos os alvos são preto e branco: é um jogo de futebol com uma única trave de pontos, alguns times (coligações) e uniformes iguais; é para iludir mesmo, não dá para saber em quem apostar com segurança; é tudo a mesma cara, mas, como quem vê cara não vê coração, depois é que virão as desavenças, quando cada um levantará sua verdadeira bandeira, e desfará a figurinha que mantinha atrás das costas quando apertava sua mão.

É como dizia o grandessíssimo, honorável e respeitável, o sábio Gene Simmons, sim, o baixista da banda estadunidense Kiss, e que, embora levante controvérsias sobre sua capacidade musical, não há dúvidas sobre sua capacidade de ganhar dinheiro e fazer shows. Ele dizia algo como: no palco, o show (a ilusão); nos bastidores é ser profissional e ganhar dinheiro. Pois bem, senhoras e senhores: no palco, Gene Simmons, nos bastidores, só o empresário Chaim Witz. E você? Você é a plateia que precisa ficar ensandecida quando o locutor bradar: “You wanted the best, you got the best. The hottest band in the world. Kiss”! Fora do palco é Witz contando seu dinheiro! Nada contra: é só “show”, acredita quem quer, vai quem quer, afinal o show é bom (ao menos o do Kiss)… e é exatamente nisso que o liberalismo transformou a relação política, eleições e eleitores. 

E ainda tem aqueles espertalhões que dizem que “o povo tem o governante que merece”; eu lhes digo: quem dera fosse assim! Nenhum dos candidatos promete o mau, nenhum deles diz que roubará, no entanto, poucos deles fazem conforme dizem e mesmo estes não prometeram nada concreto para os eleitores; prometeram “ajudar”, “investir”, disseram o que acham legal sobre “bem”, sobre como “estamos juntos e misturados”, como são “gente como a gente” 

Você já deve ter se perguntado como uma tropa tão grande de mediocridade pode se reunir para galgar a esfera política no Brasil. Simples: É contar com o “não saber geral” em detrimento do muito saber específico de cada eleitor. É contar com a incapacidade atual de grande parte da sociedade, a massa, que não sabe desvincular suas impressões pessoais e suas sensações favoritas de deleite (tal como sentimos em shows do nosso agrado) da política como uma ciência e arte; e cada político no pleito sabe disso, e os que não sabem disso têm seus marqueteiros que sabem muito bem. É… Parece que a coisa não é tão simples como eu coloquei…

E antes que me perguntem se sou “antidemocrático”, respondo que não. Sou, na verdade, antiliberal tanto quanto anticomunista. Reconheço, como Miguel Reale, que a democracia é o sistema mais condizente com a dignidade do homem, mas não a democracia liberal.

É claro que muitos candidatos são honestos (e merecem apoio para amenizar os danos sistêmicos); e, mais do que isso, são também bons entendedores dos problemas públicos, das questões relativas à cidade. Mas, infelizmente, não é quão bom você é ou quem você é que determinará quão bem você vai numa eleição: a verdade é sempre complexa e difícil de explicar, é tão complexa que se dita de forma muito simplista se torna já uma mentira.

Carente de um sistema de representação eficiente, cada eleitor, embora muito conhecedor dos problemas de sua área, por exemplo, de atuação profissional, é lançado para acompanhar o frenesi dos shows… Bem, aquele que fala de saúde, se você é médico, lhe parece um completo mentiroso, fala só frivolidades e generalidades. Mas aquele outro, que fala de infraestrutura, lhe parece bom; todavia, você não entende nada de infraestrutura, e o mesmo candidato da infraestrutura que você acha bom, não é bem visto pelos profissionais da infraestrutura, que acham bom é o candidato que falou de saúde, justamente o fulano que você, médico, repudiou… E assim vai… 

Todo candidato sabe que não precisa ser bom de projeto ou de plano. Se não agrada o público “A” ou “B”, agradará o “C” ou “D”; o que importa é agradar quantos sejam necessários para se eleger. Você já parou para pensar em quantas pessoas um vereador representa? Veja: Eu não disse quantos votos ele precisou para chegar lá. Falei da proporção entre vereadores (ou  deputados, ou o que mais seja) em relação à população da jurisdição da sua cadeira. Já parou para pensar nisso? Você acha possível dizer que o voto individual o representa de fato? 

Veja bem: uma cidade possui problemas bem específicos em zonas convergentes de interesses. Muitos eleitores não têm a menor noção do que é preciso fazer para resolvê-los, afinal, não estão ligados a essas zonas diretamente, e sim apenas indiretamente, como o padeiro que se sente inseguro, mas não entende nada de segurança pública… Pois bem, em vez de os candidatos se apresentarem para aqueles que estão todos os dias diretamente vinculados ao problema da segurança pública, dentro da cadeia de ligações que pertencem ao problema, e que, portanto, entendem bem da solução, ele (o candidato) se dirige à enorme massa que nada entende da solução do problema, embora se incomode com ele indiretamente. Assim, é para a massa que o candidato faz seu show, e não para quem poderia apontar ao mesmo candidato e dizer: o rei está nu!

O voto individual é um problema, a mentalidade outro problema, o sistema de representação mais um problema. A verdade é: cada candidato é representante de si próprio. Uns, ao serem tais como são, podem eventualmente agradar o suficiente coeficiente eleitoral para sentar-se na cadeira de ouro. Mas a maioria será honesta apenas com seus próprios interesses; e a tudo isso é forçado qualquer um que entra no sistema… Até o próprio Einstein teria que fazer umas micagens se quisesse agradar a massa. Ditos “cristãos” dirão que “aborto é questão de plebiscito”, enquanto liberais dirão: “somos contra o aborto”; tudo depende do jogo, e no futuro, depois da eleição, tudo será resolvido segundo lobbies de grupos e pessoas, muitas vezes treinadas e financiadas para isso, enquanto os tantos e tantos mil eleitores, que votaram ou que não votaram, mas são ali representados pela cadeirinha de ouro, se sentirão satisfeitos com seu certificado de eleitor “votante na última eleição”. Temos as esferas municipais, estaduais e todas mais dominadas por grupos de pressão muitas vezes alheios aos eleitores reais e aos reais interesses do povo brasileiro – e são eles que encaminham a política depois da eleição.  

Antes que pudéssemos dar a solução do problema, e mais rápido do que possamos dizer “democracia orgânica”, é preciso perguntar: existe algum brasileiro que não tenha, lá no fundo da sua alma, a certeza que toda essa porcaria precisa ser posta abaixo? E não se assustem os conservadores, que temem ver a ressurreição da tradição brasileira, a que consideram múmia de museu: como dizia Plínio Salgado, “a casa que mais se parece com a casa destruída é a que está sendo construída”.

Pelo bem do Brasil,

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Moises J. Lima
Presidente Nacional da Frente Integralista Brasileira

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