Faleceu na noite de 26 de setembro de 2021, na cidade de Brasília, aos noventa e cinco anos de idade, o Cardeal D. José Freire Falcão. Exemplo de homem e de sacerdote, D. Freire Falcão, que tinha setenta e três anos de sacerdócio e era Arcebispo Emérito de Brasília, foi e seguirá sendo um dos maiores príncipes da Igreja nesta Terra de Santa Cruz e também um dos maiores autores integralistas de todos os tempos. A propósito, quando, nos idos de 1956, Plínio Salgado percorria os sertões do Ceará, encontrou, na cidade de Limoeiro do Norte, o então Padre José Freire Falcão, que o saudou, e aqueles que ouviram nessa ocasião a resposta de Plínio Salgado guardaram na memória a seguinte frase: “Nunca ouvi, em tão poucas palavras, límpidas e seguras, um resumo tão exato da doutrina que ensino ao Povo Brasileiro”. [1] No ano seguinte, foram publicados, pela Livraria Clássica Brasileira, do Rio de Janeiro, dois estudos da lavra do então jovem sacerdote cearense, em que este, sob o pseudônimo de Sacerdos, sintetizou admiravelmente os conceitos d’O Homem Integral e d’O Estado Integral e, em última análise, toda a filosofia política de Plínio Salgado. Em 1987 esses dois ensaios, pequenas-grandes obras fundamentais para o conhecimento da autêntica Doutrina Integralista, foram enfeixados pela primeira vez em um único volume, dado à estampa pela Editora Voz do Oeste, de São Paulo. Desconhecemos um resumo tão exato da Doutrina essencialmente cristã e brasileira sustentada por Plínio Salgado quanto o que se contém nas límpidas e seguras páginas de O Homem Integral e O Estado Integral.

Como salientou D. José Freire Falcão em sua aludida obra, por vezes ele nela falou da Doutrina Integralista, enquanto outras falou do pensamento de Plínio Salgado, mas, em verdade, segundo ele, a obra de Plínio se constitui, em última análise, numa explicitação e num aperfeiçoamento dos diversos Manifestos Integralistas por ele lançados à Nação Brasileira e que norteiam toda a atividade política dos adeptos do Integralismo. [2] Ainda conforme ressaltou Sacerdos (D. José Freire Falcão), “o pensamento de Plínio Salgado é profundamente cristão” e “Cristo está subjacente em toda sua obra”, de modo que é absolutamente impossível lhe penetrar o “sentido interior, se não temos sempre em mente esta presença iluminante e vivificante do Divino Mestre”, posto que “só à luz do Evangelho se esclarece plenamente sua doutrina”. [3]

D. José Freire Falcão nasceu no dia 23 de outubro de 1925 na cidade Ereré, no Sertão Cearense. Tendo demonstrado bem cedo uma profunda vocação para o sacerdócio e havendo sido incentivado pela família a seguir esse nobre caminho, ingressou no Seminário da Prainha, em Fortaleza, aos catorze anos de idade. Ordenado sacerdote em 19 de junho de 1949, exerceu o sacerdócio desde então na Diocese de Limoeiro do Norte, em seu pátrio Ceará, sendo sagrado Bispo e nomeado pastor da mesma Diocese no ano de 1967.

No ano de 1971, tornou-se D. José Freire Falcão Arcebispo de Teresina, no Piauí, permanecendo à frente de tal Arquidiocese até 1984, quando se tornou Arcebispo de Brasília. Segundo Arcebispo da atual Capital Brasileira, Dom José Freire Falcão foi feito Cardeal em 28 de junho de 1988 e permaneceu à frente da Arquidiocese de Brasília até 2004, quando se tornou Arcebispo Emérito da Capital do País.

Durante os vinte anos em que permaneceu à frente da Arquidiocese de Brasília, Dom José Freire Falcão ordenou vários sacerdotes, criou diversas paróquias, criou a Casa do Clero, preparou a recepção ao Papa São João Paulo II em 1991 e estimulou os movimentos eclesiais e as obras de Caridade. Aos fiéis da Capital do País ele assim explicou, certa vez, a escolha de seu lema episcopal, In humilitate servire (Servir na humildade): “Tomei como lema Servir na Humildade, pois coloquei o meu pastoreio nas mãos do Senhor, porque Ele não falta jamais aos que fazem a vontade do Pai, ao seguir o Seu chamado, ao dar o seu sim”. [4]

Em 1996 foi lançada a obra Refletindo o Evangelho, que reúne diversos textos originalmente publicados no folheto O povo de Deus, em diferentes datas, pelo então Cardeal Arcebispo de Brasília, Dom José Freire Falcão. Tal obra contém belas e oportunas reflexões sobre o Evangelho e a Doutrina Cristã, agrupadas em torno de três grandes temas: Oração e Contemplação, Santos e Santidade e Virtudes Teologais.

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Havendo conhecido na juventude a rica e fecunda Doutrina Integralista, de que foi um dos mais notáveis e brilhantes expositores, D. José Freire Falcão até o final de sua jornada terrena permaneceu fiel aos princípios fundamentalmente cristãos e brasileiros de tal Doutrina, consubstanciados na tríade “Deus, Pátria e Família”, e não por acaso votou no companheiro Paulo Fernando Melo da Costa, membro do Conselho Diretivo Nacional da Frente Integralista, nas últimas eleições nacionais, em que este foi candidato a Deputado Federal.

Proclamando que “mesmo a promoção da justiça social, da fraternidade e da paz se manifestará a médio prazo inócua se não for alimentada por uma vida contemplativa, na prece silenciosa e recolhida”, [5] D. José Freire Falcão não apenas promoveu, como poucos, a Justiça Social, a Fraternidade e a Paz, como também teve uma modelar vida contemplativa. Proclamando, do mesmo modo, que “a santidade é sempre uma exigência do ser cristão”, de maneira que todos “devemos ser santos”, e que “a santidade é um dom de Deus, mas igualmente um bem a conquistar, cada dia e em todos os instantes”, [6] buscou D. Freire Falcão a santidade em todos os instantes de sua existência terrena e cremos que a tenha encontrado. Afirmando, ainda, que “crer é (…) viver de Cristo e em Cristo”, abraçando “existencialmente todos os seus ensinamentos”, [7] o autor de Refletindo o Evangelho sempre viveu por Cristo, de Cristo, com Cristo e em Cristo, abraçando em toda a sua vida e integralmente todos os ensinamentos do Divino Mestre, de quem se fez soldado e arauto. Sustentando, por fim, que “a revolução violenta poderá mudar a fisionomia da terra, o aspecto exterior da sociedade”, mas não transforma o coração do homem, pois, por mais que pareça radical, é, na verdade, apenas superficial, e que realmente “radical é a transformação do homem no mais íntimo de si mesmo, na raiz de seus desejos, na fonte de seus pensamentos e de suas decisões”, sendo esta “a revolução pregada por Jesus”, “revolução do amor que faz homens novos e uma nova sociedade”, [8] sintetizou ele muito bem essa radical Revolução Interior ou Revolução do Espírito nas imorredouras páginas de O Homem Integral [9] e, é claro, soube como poucos realizá-la em si mesmo.

Sacerdote e príncipe da Igreja dos mais virtuosos já nascidos em terras brasileiras, D. José Freire Falcão é e será sempre um exemplo para todos os homens e mulheres, religiosos e leigos, das novas gerações deste vasto Império da Terra de Santa Cruz.

Cremos que o modelar cristão que foi D. José Freire Falcão será recebido por Deus na Pátria Celeste e lá viverá a verdadeira e eterna vida, rogando por nosso Movimento e nossa Pátria, assim como esperamos que o Criador e Imperador do Universo suscite em nosso Brasil, nas gerações do Porvir, homens e mulheres da têmpera desse bravo e nobre guerreiro e apóstolo de Cristo Rei e da Imperial Nação Brasileira.

Victor Emanuel Vilela Barbuy
São Paulo Σ SP.

Notas:

[1] Nota dos editores (1957), in O Homem Integral e o Estado Integral, 2ªs edições, São Paulo, Editora Voz do Oeste, 1987, p. IX.

[2] O Homem Integral e o Estado Integral, 2ªs edições, cit., p. XIII.

[3] Idem, p. 3.

[4] Apud ARQUIDIOCESE DE BRASÍLIA, Nota de falecimento de D. José Freire Falcão. Disponível em: https://arqbrasilia.com.br/nota-de-falecimento-de/. Acesso em 17 de outubro de 2021.

[5] Refletindo o Evangelho, Prefácio de Servus Mariae, Brasília, Fundação Rainha da Paz, 1996, p. 37.

[6] Idem, p. 41.

[7] Idem, p. 76.

[8] Idem, p. 114.

[9] O Homem Integral e o Estado Integral, 2ªs edições, cit., pp. 37-40.